quarta-feira, novembro 09, 2016

VÁ DE RETRO 
QUARTETO FANTÁSTICO: REX, FÁBIO, MOROTÓ E JULIO

2016. Trump é eleito presidente dos EUA enquanto um dos principais países da América do Sul está sob golpe de estado engendrado pela CIA. A localização dessa república de bananas é estratégica para a geopolítica mundial, então a Rússia prepara uma invasão. O Kremlin aciona seus agentes das Indústrias Karzov, que operam no Brasil: Rex & Morotó Slim, que agora contam com o reforço dos espiões Fábio e Julio. Três baianos e um argentino.
Quando a realidade é mais estranha do que a ficção e parece roteiro de filme B, nada melhor do que uma trilha sonora à altura. ENIGMASCOPE Volume 1 [Temas Compostos e Executados pelos Retrofoguetes] é o terceiro álbum da banda de surf music surgida das cinzas dos lendários Dead Billies. Temático e sofisticado, vai do bolero à bossa nova sem perder o punch, com muito wet, tremolo, vibrato e faixas como Agente Duplo, Miss Cuba, O Homem de Moscou, Conexão Istambul, Ultrassecreto e Tic Tac Bum! 
De soundtrack eles entendem, têm no currículo um Leão de Bronze e Urso de Prata em Cannes pela trilha publicitária de War - Smoke Kills More. Durante muito tempo formando um trio com CH Straatmann no baixo, os caras sabem fazer festa. Fizeram o primeiro show na praia e, anualmente, realizam a Retrofolia no carnaval e O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes – que ganhou gravação em vinil pela Monstro Discos. Do time da Retrofolia foi recrutado o guitarrista Julio Moreno. “É um grande músico, apesar de argentino”, zoa Morotó. Sério, já peguei van com eles e as piadas não perdoavam nem os recém-finados Lemmy, David Bowie e Muhammad Ali. O produtor apenas ria e comentava: "São muito filhos-da-puta!"
A nova missão é invadir o espaço aéreo e bombardear Sudeste e Sul com riffs atômicos durante todo o mês de novembro. 17 de dezembro é a vez de Aracaju, o ataque será no Che Music Bar. Já vestidos com os macacões, interceptei os cosmonautas Rex e Julio antes da decolagem. Conversamos sobre planos secretos, arquivos confidenciais e Enigmascope, considerado unanimemente o melhor disco dos Retrofoguetes. Ao infinito e além – do rock.

VIVA LA BRASA - Pra uma banda de surf music, vocês sempre exploraram muitos ritmos e ambiências. A eletrônica lo-fi no Protótipo de Demonstração 1; a música cigana, circense, latinoamericana em Ativar Retrofoguetes; a guitarra baiana, música caipira e italiana em Chachachá… 
REX LEAL - No início, a ideia era fazer surf music instrumental e esse ainda é o viés da banda. Mas muitos outros gêneros nos influenciaram como músicos, então resolvemos trazer todas essas referências pro nosso trabalho. Foi muito bom porque acabou sendo nosso diferencial.
VLB - O quanto a mudança de formação com a entrada dos novos integrantes influenciou na composição e gravação do Enigmascope?
RL - Cada músico traz sua contribuição pro trabalho, naturalmente é assim. O som da gente mudou bastante com a entrada de Fábio e Julio, eles são músicos incríveis, muito experientes e talentosos, foi um grande upgrade pra banda. Além disso, foi a primeira vez que compusemos um disco de forma verdadeiramente coletiva e isso contribuiu muito pro resultado, pro entrosamento e consolidação dessa formação. Mas a grande mudança aconteceu com a entrada de Julio. Até então, Morotó era responsável por todas as melodias e harmonias, e precisava fazer um malabarismo incrível pra isso tudo acontecer. Com Julio foi possível elaborar mais os arranjos, tornando o som da banda mais rico em harmonias. Às vezes, Morotó sola as melodias e Julio faz as bases, em outras acontece o contrário, isso é muito bacana. O som dos dois é bem diferente e isso também trouxe uma riqueza maior. Somos bastante criteriosos e cada vez que iniciamos o processo de composição de um novo disco nos impomos o desafio de trazer algo melhor do que nos trabalhos anteriores. Sem dúvida conseguimos mais uma vez, o Enigmascope é um disco muito mais maduro, mais consistente. 
VLB - Julio, vi você tocando no Goiânia Noise Festival e pelo seu estilo sua base é jazz, talvez violão clássico. Acertei ou meu tiro passou longe?
JULIO MORENO - Hehehehe. São 40 anos de guitarra! Já passei por tudo, man, de banda cover de Lynyrd Skynyrd quando tinha 18 anos até tocar com Sarajane! Hoje tenho o Julio Moreno Trio. Sempre mantive algum projeto paralelo instrumental ao mesmo tempo em que tocava em bandas de baile e participava de coisas experimentais também. Sou curioso e gosto de encarar coisas diferentes, saltar no escuro.
VLB - Pensam em lançar o Enigmascope em vinil?
RL - Já estamos organizando tudo pra lançarmos em vinil no primeiro semestre do ano que vem.
JM - Se tudo der certo, gravaremos também o Vol. 2… Já tem músicas gravadas que ficaram fora do CD.
VLB - Todos os discos da banda foram produzidos por André T. Ele é o 5º retrofoguete? 
RL - Todos os registros, desde a demo, foram produzidos por André T, criamos uma amizade e uma parceria indestrutível ao longo desses anos. Acho que o resultado desse disco se deve muito a essa relação criada com ele, aprendemos juntos com as experiências anteriores e isso criou uma sintonia muito grande entre a gente.
VLB - Enigmascope é uma trilha sonora criada por vocês pra um filme que não existe (ainda). Mas em Chachachá já dá pra sentir uma influência forte de Henry Mancini e Ennio Morricone… 
RL - Bicho, na verdade sempre fomos influenciados pelos compositores do cinema. Mancini, Morricone, John Barry, Jerry Goldsmith, Lalo Schifrin, Piero Piccioni, todos eles foram grandes influências pros nossos temas. Esses caras usaram o que era radiofônico nos anos 1960, quando aconteceu um boom de filmes de espionagem, principalmente na Europa, pra criar as trilhas desses filmes. Juntaram surf music, rock, bossa nova, muzak, jazz, música latina, isso tudo já havia sido incorporado antes ao nosso trabalho. A diferença em relação aos outros discos é que pela primeira vez resolvemos fazer um trabalho mais temático, seguindo um roteiro predefinido. O conceito era perfeito pra gente trabalhar, foi só pensar nas cenas e criar as músicas. Resolvemos fazer a trilha sonora de um filme de espionagem que obviamente só existe nas nossas cabeças.  
VLB - No filme de vocês quem é o herói, o vilão, a mocinha e a bandida que dorme com o espião e morre depois?
RL - Vi muitos filmes de espionagem e nosso roteiro seguiu os clichês do gênero. Rola sempre o espião armado de gadgets até os dentes, irresistível para as mulheres; o vilão, um espião da KGB, frio e inescrupuloso, nosso homem de Moscou; e não uma, mas várias mocinhas se rendendo ao charme do nosso agente. Aí foi só pensar nas cenas de perseguição, mistério, suspense, romance e criar os temas.
VLB - E as Indústrias Karzov? A parte gráfica da banda tem inspiração na arte de caras como Rodchenko… Como andam os planos pra invasão russa ao Brasil?
RL - Na real, sempre cuidei da identidade visual da banda, sou designer e ilustrador e isso aconteceu naturalmente. As referências estão nos quadrinhos, cinema, livros de bolso, cartazes da guerra fria, trouxe tudo pra dentro do trabalho. Gosto muito da estética da antiga União Soviética e sempre brincamos com isso. Ano que vem, vamos entrar em estúdio pra gravar um EP só de polcas que batizamos com nomes de camaradas líderes da URSS. Já lançamos o single Brezhnev, vamos gravar as outras e lançar nas plataformas digitais.
VLB - Chachachá foi lançado na sala principal do Teatro Castro Alves com todos os músicos que participaram das gravações, dos teclados ao naipe de metais. E o lançamento de Enigmascope?
RL - As coisas andam difíceis, fazer uma produção como o lançamento do Chachachá é muito dispendioso, mas queremos lançar o Enigmascope no mesmo nível, talvez no início de 2017.
VLB - Como surgiu a ideia de lançar um disco como O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes?
RL - A gente sempre tocava uns temas natalinos nos shows que se aproximavam da data, aí André T nos convenceu a gravar e lançar o disco numa festa. Saiu em vinil pela Monstro. Depois disso, passamos a festejar todos os anos. Como somos uma banda instrumental, normalmente convidamos vocalistas e pensamos juntos em músicas que podemos tocar, isso é bem divertido. Ano passado foram só mulheres.
VLB - Este ano a gente se reencontrou em Goiânia. Vocês lançaram 2 discos pela Monstro, que é de lá. Quando os Dead Billies tocaram no Noise Festival, em 2001, botaram no bolso a principal atração da noite. Desde então vocês são adorados na cidade. Como é essa parceria?
RL - Lançamos o Ativar Retrofoguetes e o EP de natal, o Chachachá já saiu pelo nosso selo, Indústrias Karzov. A primeira vez que tocamos lá foi com a Dead Billies e tinha uma banda gringa que ia encerrar a noite depois da gente. Nós, sem querer, acabamos com eles. Foi um show incrível, estávamos na nossa melhor forma. Depois disso, tocamos três vezes com a Retrofoguetes e sempre fomos muito bem recebidos pelo público de lá, mas sempre somos parados por um monte de gente que lembra desse show dos Billies, uns dizem que montaram até banda por causa disso. Adoramos a galera da Monstro, sempre tivemos uma relação muito carinhosa com eles. Admiramos muito a garra dos caras e temos total respeito pela história que continuam escrevendo. Além de tocar com os Billies e a Retrofoguetes, toquei também com Nancyta & Os Grazzers e fiz a identidade visual da nona e da última edição do Goiânia Noise. Somos fãs de todos eles, Leo Bigode, Razuk, e Márcio Júnior e Fabrício que já não fazem parte da produtora mas são caras incríveis e totalmente responsáveis pela história.
VLB - Falando nos Dead Billies, tô sabendo que existe um disco inédito e não lançado da banda. Onde tá esse material e o que falta pra ser lançado?
RL - Tá no HD do André T, só falta mixar e masterizar, mas lançar é um assunto muito complexo. Acho melhor passarmos pra próxima pergunta…
VLB - Como foram os anos de Dead Billies? Vocês apareceram até no Programa Legal tocando psychobilly em cima de um trio elétrico…
RL - A Dead Billies sempre será nossa banda do coração, foi com ela que aprendemos nosso ofício, que amadurecemos como músicos e tivemos nossa primeira experiência profissional. Montamos a banda sem nenhuma pretensão maior, só queríamos fazer o som que a gente gostava de ouvir. Fomos a primeira e única banda de psychobilly da Bahia. Gravamos dois discos, Don’t Mess with The Dead Billies e Heartfelt Sessions, reunimos um público imenso e viramos uma lenda no cenário do rock nacional. Isso é muito foda, nos deixa muito orgulhosos.
VLB - Por que a banda acabou?
RL - Tudo um dia acaba, é assim mesmo.
VLB - Vocês são virtuoses que vêm da cidade baixa em Salvador. Quando começaram na música? Como se conheceram e passaram a tocar juntos?
RL - A cidade baixa sempre foi um reduto de grandes músicos, isso passa de geração pra geração. Eu, Morotó, Fábio, nosso atual baixista, e Joe [& a Gerência; baixista dos Dead Billies e de Pitty; um dos criadores da Retrofoguetes] começamos a tocar juntos no início de nossa adolescência, no final dos anos 80. Queríamos montar bandas e imitar nossos ídolos.
VLB - Vocês tocam com outros músicos nos intervalos das atividades da Retrofoguetes? 
RL - Sim, fazemos outras gigs, projetos paralelos como a Les Royales… Fábio, Julio e Morotó vivem exclusivamente de música e eu sigo conciliando a música com o design.
VLB - O que falta pra Retrofoguetes fazer uma tour no exterior? 
RL - Esse é um desejo antigo, estamos sempre tentando viabilizar isso mas não é assim tão fácil. Quem sabe ano que vem? Por enquanto, temos nossas músicas sendo executadas em rádios gringas e continuamos mandando nosso som pra tudo quanto é canto.
VLB - Algum de vocês surfa, ou já surfou? 
RL - Jamais, na cidade baixa não rola onda.
OS RUSSOS VÃO INVADIR O BRASIL. FOTO: CAROL ARAÚJO
GOIÂNIA NOISE FESTIVAL 2016. FOTO: VICTOR SOUZA
FILME DE ESPIÃO E LITERATURA BARATA. FOTO: BRASA

terça-feira, novembro 01, 2016

SONECA 
Reunião da Snooze é motivo de comemoração.
Quando começaram a tocar juntos, os irmãos Fábio Oliveira e Rafael Júnior eram apenas moleques que curtiam Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü. Fabinho tinha 14 anos na gravação da primeira fita demo e Rafael divulgava a banda através de cartas. Mesmo vivendo numa cidade pequena e distante dos grandes centros como a Aracaju dos anos 90, quebraram barreiras: emplacaram clipe na MTV, participaram de coletâneas nacionais e foram trilha sonora em comercial de surf.
Mais de duas décadas, três álbuns e inúmeras formações depois, a Snooze tá saindo de um longo período de hibernação. O último show foi em 30 de dezembro de 2014, na Festa da Antevéspera. O motivo é que seus integrantes são músicos requisitadíssimos. Rafael é baterista do Ferraro Trio, Maria Scombona, Classex Brothers, toca em bares acompanhando Julico dos Baggios e ainda participa de algumas apresentações da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Fábio já foi professor de contrabaixo no Conservatório, volta e meia acompanha nomes como Patricia Polayne, Nino Karvan, Deilson Pessoa e Paulinho Araújo. O guitarrista Luiz Oliva, caçula do grupo, é engenheiro de som, produz discos e faz mesa em shows e festivais.
Amanhã, esse trio de ases volta a se reunir pra uma rara apresentação no Clandestino, evento sem fins lucrativos organizado pelo casal Ivo e Daniela da Renegades of Punk – banda em que Luiz também tocou. Só dos caras estarem de volta, já é lucro. Comentários como "aí eu vi vantagem" e "amo vocês" não faltaram nas redes sociais. Comoção geral. Afinal, a Snooze nunca acabou. Só tava tirando um cochilo.
VIVA LA BRASA - A demo que vocês lançaram em 95 abriu muitas portas numa era em que a internet ainda não tava tão disseminada e as informações não eram tão disponíveis…
RAFAEL JÚNIOR - Sim, a gente utilizava correios e telefone, não tinha internet. Fizemos de forma despretensiosa, não sabíamos onde ia dar, mas eu acompanhava o movimento dos zines e sabia que a qualidade da demo era muito boa. Mesmo assim foi surpresa ver tantas resenhas positivas em jornais e revistas como Folha de SP, Estadão, Rock Brigade etc. 
VLB - Quando lançaram o primeiro álbum em 98 vocês fizeram uma turnê pelo sudeste. Como foi gravar o disco de estreia por um selo paulista e fazer esse rolê? 
RJ - Marcelo Viegas, do selo Short Records que hoje é editor de livros pela Ideal, desenvolveu uma empatia com a banda logo no início e ficamos bem amigos. Ele foi o canal pra coletâneas, matérias, além de ter lançado os dois primeiros discos. Articulou parte da tour no sudeste também, hospedou a gente e tal. Mas antes dessa viagem já tínhamos viajado o nordeste inteiro por 3 anos seguidos. Só não visitamos São Luís no Maranhão. Fomos pro Piauí de carro, fazíamos 4 cidades de quinta a domingo, show em Salvador direto… Então a gente já tinha uma estradinha. No lançamento do disco em 98 passamos por Niterói no Rio e tocamos em São Paulo, São Bernardo do Campo e Jundiaí. Anos depois também fizemos Sorocaba e fomos em Goiânia duas vezes, através do pessoal da Monstro Discos.
VLB - Lembranças especiais, já que Daniel, guitarrista da banda falecido em 2010, também tava com vocês?
RJ - Daniel cativava a todos com seu jeito tímido e na dele, mas soltava os cachorros com as guitarradas no palco… Era bem brincalhão nas viagens.
VLB - Fabinho, como foi crescer na Snooze?
FÁBIO OLIVEIRA - Dá uma sensação boa olhar pra trás e a história da banda se confundir com minha própria história pessoal. Isso também é refletido no decréscimo da produção, na medida em que fui envelhecendo, o que é a parte chata mas, enfim, faz parte quando a premissa foi sempre ser um hobby levado a sério, e não meio de vida.
VLB - Luiz, como você entrou na banda?
LUIZ OLIVA - Em 2004, eu tocava na Triste Fim de Rosilene e fizemos uma minitour por São Paulo. Fabinho tava morando lá e foi ver o show, fomos apresentados e no dia seguinte nos encontramos por acaso numa loja de discos. Eu tinha 18 anos e tava imerso no circuito hardcore. Fabinho era o cara da Snooze e foi massa conhecê-lo naquela situação, já que eu tinha o maior carinho e respeito pela banda que conheci por causa da minha irmã Kika, que me apresentou a demotape quando eu era guri. Tempos depois, de volta a Aracaju, Fabinho apresentava o Programa de Rock junto com Adelvan Kenobi, eu tava no quarteto instrumental Perdeu a Língua e fomos convidados pra uma entrevista. Durante a conversa, surgiu o convite pra tirar um som com a Snooze. Isso aconteceu em 2007 e entrei na banda logo no primeiro ensaio.
VLB - O EP "Empty Star" é a única gravação com você na banda?
LO - Gravamos tributos pro Second Come e Pastel de Miolos. Poucos registros em estúdio, mas temos novas ideias e composições. Nunca conseguimos nos organizar pra gravar um novo disco, mas o ímpeto existe e penso que isso pode acontecer a qualquer momento.
FO - Eu tenho um quarto disco na cabeça há uns bons anos, e parei de me preocupar. Quando chegar a hora a gente vai gravá-lo e vai ser bem diferente de tudo que a banda fez até hoje.
VLB - Como cada disco marcou vocês, já que foram gravados entre grandes intervalos de tempo e com diversas formações?
FO - À medida que convive com pessoas diferentes, que se tornam próximas, sua personalidade também vai mudando. Com certeza existe um Fabinho em cada um dos trabalhos…
RJ - Todos os músicos que passaram deram sua influência, isso é um processo bem natural. A única formação meio criticada pelos fãs mais antigos foi sem a presença de Fabinho, ele continuava na banda mas tava morando em SP e era importante manter a atividade naquele momento específico em que lançamos o terceiro álbum.
VLB - Rafael, voce sempre foi um cara muito ativo: é bombeiro, surfista fissurado, pai de 3 filhos e toca com meio mundo de gente. Como arruma tempo e disposição pra tanta coisa?
RJ - Sou músico full time e é o que sei fazer na vida. Encontrei remuneração fixa na área através de concursos públicos, em 1995 pra Orquestra e em 2002 pra Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Sempre conciliei essas atividades com o surf e a criação dos filhos, tocando com artistas que me chamam e em casas noturnas e bares. Paralelamente, também dou aulas. Entre 2007 e 2013 ainda encontrei tempo pra fazer graduação em Música pela UFS.
VLB - Fabinho também tem formação musical, além de Psicologia, confere?
FO - Confere, mas ainda sou formando em licenciatura em Música. Também dei aulas de inglês e atualmente sou coordenador musical no Sesc.
VLB - E Luiz se especializou em engenharia de som…
LO - Eu já brincava com áudio desde moleque, quando comecei a tocar aos 13 e gravar minhas idéias em K7 num microsystem Aiwa que tinha uma entrada de microfone e num gravador de jornalista que me permitia gravar ambientes na rua. Logo depois chegou o computador e pude implementar a danação. Em 2009 me candidatei a uma vaga de estágio na Fundação Aperipê, logo após ter feito o curso de desenho de som e captação de som direto no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, e foi aí que a parada ficou mais séria. Fui selecionado e depois de um ano de trampo meu ex-chefe saiu e fui convidado a assumir o lugar dele. Fiquei lá até 2012, tive a chance de aprofundar meus conhecimentos em diversos segmentos da produção de áudio e aproveitava todas as férias e folgas pra fazer cursos dentro e fora do estado. Entre o som ao vivo, estúdio e audiovisual, pude trabalhar com orquestra sinfônica, grupos folclóricos, bandas do pé-de-serra ao thrash metal, documentários e longas-metragens.
VLB - O clip de "704", cover do Second Come, foi gravado no seu estúdio em casa?
LO - Eu tinha acabado de me mudar pra um apartamento e o registro aconteceu nesse fluxo. Tudo muito simples, filmamos com uma condição: os takes que constam no vídeo deveriam ser os mesmos da faixa gravada. Sem dublagem. Elialdo Galdino, grande comparsa e editor deveras competente, foi o responsável por tornar a ideia possível. O Second Come é uma banda histórica e o tributo saiu pela Midsummer Madness, do Rodrigo Lariú.
VLB - A clássica pergunta: por que cantar em inglês? Sei que vocês não gostam dela e que a Snooze surgiu num período em que as guitar bands brasileiras procuravam mesmo se distanciar do "Rock Brasil" dos anos 80. Mas nunca surgiu a inspiração pra uma letra em português?
FO - O que posso dizer é que, apesar de não ser minha língua mãe e eu nem sequer ter morado na gringa, as letras em inglês soam pra mim naturais, descobri esse universo através dos discos. O rock brasileiro eu já havia esgotado na pré-adolescência, então tudo o que soava e eu internalizava era em inglês. Então é meio fazer algo que você já tem prática. Compor em português seria começar do zero e, não, não estou interessado.
VLB - As letras da Snooze são existenciais e sentimentais. Como é tocar num evento mais engajado e combativo como o Clandestino? Onde essas linhas se cruzam?
FO - Nossa linha de combate é o rock, quer mais? 20 anos de suicídio comercial e você quer mais? Brincadeiras à parte, nós fomos convidados pra tocar na última edição com o Wry, mas a data chocou com minhas atividades no Sesc. Ficamos felizes com a insistência e o convite pra esse agora.
LO - Toquei a primeira vez no Clandestino em 2014, numa edição especial da Triste Fim de Rosilene e Karne Krua. Aconteceu no half pipe do conjunto Inácio Barbosa e foi surreal! Chego junto com o projeto sempre que posso, realizei um minidocumentário da décima edição, gravei o áudio de outras tantas e só de comparecer e ocupar os espaços já sei da importância que isso confere. O hardcore exerceu uma influência brutal na minha vida. Aos 17, quando recebi o convite do Ivo pra entrar na TFR, eu era o típico moleque que não tinha família com condições pra me bancar e tocar guitarra era a melhor coisa que eu sabia fazer. De cara, me vi inserido num circuito articulado, que se nutria do faça-você-mesmo e que prezava por uma vida mais simples e autônoma. Conservo essas posturas até hoje e entendo a capacidade de articulação que só os coletivos podem exercer. É massa perceber que estamos na ativa e podemos contar uns com os outros até hoje.
RJ - Adorei o convite pro Clandestino, é um evento autêntico e honesto, feito por pessoas que confiamos e também admiramos. Acho que vai ser bem legal e é uma oportunidade pro pessoal mais novo que nunca viu a banda, já que a gente tem tocado tão pouco.
VLB - Vocês imaginavam que aquela banda de irmãos que ensaiavam no quarto se tornaria cult 20 anos depois?
FO - Era tão espontâneo que a gente nem pensava. Fazer planos era mais no nível do fantástico do que realidade. 
RJ - Às vezes acho até graça e penso que é supervalorizada, sei lá. Nossos fãs acabam se tornando amigos. Por outro lado, tem uma galera nova que não faz ideia de nada, o que já fizemos e por onde andamos. Pra mim o meio termo tá bom. Fizemos nossa parte e de alguma forma abrimos caminho pra uma galera que tá aí.
VLB - O que vem pela frente pra Snooze?
LO - A Rússia invadindo ou não o Brasil, vamos fazer um show irado no Clandestino!
RJ - Espero que venha mais material novo e não apenas shows saudosistas. Aviso que tá confirmada a Festa da Antevéspera dia 30/12, nos encontramos lá!
SNOOZE COM DANIEL EM 1996. FOTO: HOMEM-BRASA
FESTA DA ANTEVÉSPERA. FOTO: MICHAEL MENESES
DISCOGRAFIA
Snooze (demotape) - 1995
Waking Up… Waking Down (álbum) - 1998
Let My Head Blow Up (álbum) - 2002
Snooze (álbum) - 2006
Empty Star (EP) - 2012

sábado, outubro 15, 2016

TONHO 
“Nem sempre a lucidez é remédio.”  
Antonio Carlos Viana, escritor muito fino e sem excessos. Pai do meu amigo André, tradutor de Julio Verne, doutor em literatura comparada pela Universidade de Nice, publicado pela Companhia das Letras, duas vezes premiado pela APCA. 
Ele me ensinou a escrever, não que eu tenha aprendido. Ajudou a implementar a pós-graduação em Letras na UFS e dava aulas de redação no curso de Jornalismo. No dia do professor, fico sabendo que aquele que mais me influenciou morreu hoje. Seu corpo será velado na biblioteca pública Epiphanio Dória. Nada mais apropriado.
"Não entendo porque as pessoas associam arte à emoção. Pra mim, é um processo inteiramente racional."
Tonho, autor respeitado e piadista nas internas.
JEITO DE MATAR LAGARTAS [2015]
Considerado um dos melhores contistas brasileiros contemporâneos, chega ao auge do seu estilo seco e conciso que alia autobiografia e imaginação. Com referências a Beatles e à França, onde morou, traz um clima maior de velhice, solidão, morte e conclui que a humanidade divide-se entre “os de coração aflito e os de maldade extrema”.
CINE PRIVÊ [2009]
“Nos meus livros anteriores, e não só em Cine Privê, eu trabalho com os seres à margem: a família despejada do barraco, o filho cujo pai é assassinado na porta de um açougue, a alegria do enterro para os pobres, o menino que é levado a uma prostituta para a sua primeira vez pelo pai”, disse Tonho na ocasião do lançamento.
ABERTO ESTÁ O INFERNO [2004]
Perda da inocência, descoberta do sexo e brutalidade do mundo são as inspirações desse livro, o quarto lançado entre longos intervalos. “A universidade me deu muita coisa. Acontece que quando se entra na academia, dentro da gente o crítico começa a brigar com o escritor. Dessa luta, um dos dois vai sair machucado.”
O MEIO DO MUNDO E OUTROS CONTOS [1993]
“Escritor escreve sempre sobre as mesmas coisas e solidão é um tema muito caro a mim. Assim como o sexo, a morte, sempre estou recorrendo a esses assuntos. No doutorado estudei a obra de João Cabral de Melo Neto, mas acho que minha literatura tem muita influência do Nelson Rodrigues, que estudei no mestrado.”
EM PLENO CASTIGO [1981]
“Estudei em colégio de padre. A ideia de sexo em um ambiente religioso é sempre maldita. E durante muito tempo fiquei com isso na cabeça. Todas as referências que tenho transferi para as personagens. Onde não tem conflito é difícil haver um bom conto. Superei os traumas. Não tenho mais culpa nenhuma.”
BRINCAR DE MANJA [1974]
Primeira coletânea publicada. Para o autor, um livro “tosco e de péssima revisão”. Já trazia as histórias em primeira pessoa sobre temas banais e com cargas de erotismo. “Comecei a escrever por causa dos concursos literários. Aí comecei a ganhar uns desses prêmios e achei que eu era realmente contista.”
PRÊMIO ESSO DE LITERATURA [1971], PRÊMIO DA UNIÃO BRASILEIRA DOS ESCRITORES [1974], PRÊMIO TOBIAS BARRETO [1975], PRÊMIO NACIONAL DE CONTOS [1991], PRÊMIO DA ASSOCIAÇÃO PAULISTA DE CRÍTICOS DE ARTE [2009/2015]

domingo, outubro 09, 2016

DISCOTECA PRIMITIVA 
Berindrums é o novo projeto de Aldemir Tacer, baterista do Lacertae que acoplou o berimbau à bateria e criou uma maneira inédita de tocar esses instrumentos. Após 28 anos, 3 discos lançados com a banda e um ponto de cultura criado – Zabumbambus no Campo do Criolo – Tacer saiu sozinho de Lagarto, no agreste de Sergipe, e caiu no mundo. Foi parar em Pelotas, Rio Grande do Sul, onde chamou atenção no Festival Internacional de Jazz e ganhou o respeito da cena local.
27 de outubro é o lançamento de Eletricultura, disco gravado em 2009 com batida mangue e inspiração no livro Folclore Brasileiro, finalmente masterizado. Perguntado se vai se radicar por lá, responde: “Vim no intuito de aprimorar projetos culturais na parceria com o Outro Sul, mas se for pelas gaúchas aí sim viro gaudério.”
Prepara outro álbum com pegada no universo da música eletrônica e estética sonora inspirada em discos voadores, frequências de sintetizadores dos anos 70, efeitos especiais dando um clima místico e astral”. Tocando com os músicos Lê Dipa, Davi Batuca, Satolep Jazz e Serginho & A Vassoura, ele mesmo está produzindo num estúdio analógico, mirando em raves e festivais. "Mantra" 1 e 2, primeiras faixas prontas, são pura psicodelia calanga. “Quero criar uma massa sonora envolvente com essa mistura de rústico e informações tecnológicas”, diz Tacer, “formando uma junção entre o orgânico e o eletrônico, daí surgindo a discoteca primitiva do Berindrums”.
LACERTAE EM LAGARTO. FOTO: ANDERGROUNDI
ELETRICULTURA.BLOGSPOT.COM.BR

terça-feira, setembro 13, 2016

TREM DOIDO
The Dirty Coal Train é a minha nova banda favorita. Reverend Jesse & Conchita Consuela conduzem uma locomotiva movida a carvão e rock de garagem, levando em cada vagão blues, punk, bubblegum, surf music e até jazz. Acabam de voltar à sua estação em Lisboa após uma turnê selvagem por 16 cidades brasileiras, de Vitória a Porto Alegre. Em Goiânia assisti a apresentação insana do casal mais barulhento de Portugal, cuja vinda ao Brasil foi viabilizada pelo Marky da Wildstone Records, que além de produtor da tour acumulou a função de baterista.
A inspiração pro nome vem da música negra norteamericana, desde o trocadilho com John Coltrane às referências ferroviárias, e a caldeira é alimentada com som sujo. Distorção e saturação. 
Ficamos hospedados no mesmo hotel durante o Noise Festival e acabamos nos tornando amigos. Chamou minha atenção a atitude no palco e agressividade na música em contraste com a educação e simpatia desses lisboetas porretas que curtem Sonics, Stooges, Cramps, Link Wray, Dick Dale, Blind Willie Johnson e Fast Eddie Nelson. São “a nova coqueluche do garage-punk nacional”, definiu o blog lusitano Baixa Isso. 
Jesse e Conchita, batizados Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues, tocam juntos há 6 anos e a todo vapor. Já gravaram 3 LPs, 5 EPs e vários singles – tudo em vinil. O mais recente, Super Scum, foi lançado pelo selo Groovie e feito com “os meios que tivemos à mão e muito amor à estética lo-fi e ao do-it-yourself”. Sem sair dos trilhos e prestes a tocar no festival D’Bandada na região do Porto, os maquinistas do Dirty Coal Train concederam entrevista a este blog que também é chegado numa Maria Fumaça: 
Viva La Brasa - E aí, o que acharam do Brasil? 
Reverend Jesse Coltrane - Eu tinha sobretudo curiosidade para conhecer sítios mais pequenos, experimentar a comida e ver animais diferentes. Adorámos ver as capivaras, tucanos, tamanduás… só faltou ver tatu! Tinha algum receio da insegurança de algumas cidades maiores por não fazer ideia se isso se sentiria na rua, mas não foi o caso. Sempre tivemos bom ambiente com todo o mundo! 
Conchita Consuela Coltrane - Quando fiz a árvore genealógica da minha família fiquei a saber que os meus dois avós paternos viajaram para o Brasil no início do séc XX, um para trabalhar na construção e outro a fazer cofres de ferro. Um tio avô casou e teve filhos no Brasil e outro acabaria por falecer há muitos anos vítima de um acidente de trabalho. Falámos com tantas pessoas na tour que nos disseram que têm antecedentes portugueses e aperceber-me que por pouco eu era também brasileira! Hehe. Acabei por nascer em Paris quando os meus pais estavam emigrados por lá. A meio da tour enviámos uns postais a familiares e amigos, um deles ao meu avô justamente a falar da imensidão e beleza do Brasil, e como teria sido na altura em que o seu pai (o meu bisavô) tinha feito essa grande viagem de barco e tudo quanto teria experienciado... O Brasil é lindo, as pessoas calorosas e muito queridas! Espero sinceramente que as pessoas que dominam a política, a economia e a religião não dêem cabo de tudo!
VLB - Vocês estão ligados no momento político que a gente tá vivendo por aqui, com golpe branco e repressão crescente? No rolê deu pra sentir a tensão no ar ou foi tudo “tranquilo e favorável” como diria o MC Bin Laden?
CCC - Creio que fomos sentindo ao longo de todo o tempo que aí estivemos porque era assunto e preocupação que estava presente nas conversas que fomos tendo com as pessoas. Brasil atravessa um período negro e nós portugueses assistimos a tudo com muita ansiedade e preocupação! Um país com uma dimensão e riqueza tão grande como o Brasil deveria facilmente oferecer uma qualidade de vida e dignidade a todos os cidadãos... Acho triste a maneira como o mundo se encontra e enquanto os Estados servirem outros interesses que não os dos seus povos, o futuro não é nada promissor... Também durante os concertos, o Ricardo foi mostrando a nossa preocupação com a situação política presente, ao que ele repetidamente disse ‘espero que este período negro seja um período curto na história brasileira’. 
RJC - Sim, eu sou menos contido no comentário político. Política é sempre jogo sujo, mas é assustadora a maneira como nem se disfarçou um golpe de estado e se mascarou de um impeachment. Também confesso que a Igreja Universal do Reino de Deus me assusta bastante. Eu tive educação católica desde muito novo e durante anos. Sei bem os podres e também os apelos e coisas boas do Catolicismo mas IURD faz Satanismo parecer Cristianismo! Também tem em Portugal e também é o mesmo esquema de lavagem cerebral e extorsão do dízimo de idosos e pessoas emocionalmente frágeis. Um país com recursos sempre vai atrair abutres, mas também tenho de dizer que toda a gente com que falei me parece bastante consciente do que se está a passar. Mesmo quem não gosta da Dilma não me pareceu ter ilusões de que o país vai ser aberto ao saque. Espero muito sinceramente que esta pilhagem de direitos do povo brasileiro pare. Em Portugal toda a gente sente isso com proximidade e preocupação, quer por haver um sentimento de ‘povo irmão’ e uma grande comunidade brasileira aqui, quer por termos sentido essa pilhagem com a crise europeia.
VLB - Quais foram suas bandas e experiências anteriores?
CCC - Eu tenho bandas desde os 15. Comecei no punk, andei pelo indie/sónico e aterrei nesta coisa dos The Dirty Coal Train há 5 anos!... Ou seja, já lá vão mais de 20 anos desta brincadeira! Nós na realidade não tocamos grande coisa, e eu volta e meia dou umas notas ao lado, mas damos tudo quando o fazemos, por isso enganamos bem!  
RJC - É isso, a nossa escola é o DIY: a escola 3 acordes de Ramones, a simplicidade do garage, a despreocupação do punk. Eu tive numa banda indie/pós-punk antes chamada Puny, mas também comecei novo, com 15 anos em bandas punk locais.
VLB - Quantas canções costumam entrar no set list de vocês? 
CCC - O set varia entre 13 a 17 temas, creio. Eu não tenho músicas favoritas, mas gosto especialmente daquelas que permitem momentos de interacção mais directa com o público.
RJC - Os temas são curtos daí haverem tantos temas num set. Um tema de 5 minutos para nós é já rock progressivo, hahaha! Não tenho preferidos mas gosto de pelo menos em cada tour variar o set e levar temas novos ou então temas velhos que não tocamos faz algum tempo. 
VLB - Como é ter uma banda de rock em Portugal? Tenho amigos de bandas como Jason, Gangrena Gasosa e Renegades of Punk que fizeram turnês pela Europa tocando em squats. Já os Autoramas tocam num circuito mais parecido com o de vcs, rock garageiro e bubblegum, em lugares não tão punks mas ainda assim no esquema faça-você-mesmo. Como são as diferentes cenas que convivem aí? Vcs conhecem alguma das bandas que citei?
RJC - Conhecemos Autoramas, claro! Tocámos algumas vezes com eles aqui em Portugal. Banda rock ou garageira em Portugal passa mesmas dificuldades que a maioria das bandas de temas originais, julgo eu... O país é pequeno e o circuito underground mal existe porque os locais estão sempre a fechar e abrir novos. Haverão bandas que conseguem apoios para explodir mediaticamente e fazer dinheiro, eu ainda não sei fazer isso. Talvez porque não conheci as pessoas correctas, hehe… O que sei, partilho, e é o seguinte: banda começa e vai ter de andar a tocar a perder dinheiro! Com sorte no segundo ano não perde tanto. Algures no meio a banda tem de ficar boa e as pessoas vão valorizar. Aí talvez se comece a vender discos e shows por um preço melhor e finalmente faz-se algum dinheiro. Tem banda incrível em Portugal que não faz dinheiro, tem banda de merda que está de bolsos cheios. Mas isso é só em Portugal? Não creio. Será que as bandas boas não estão com dinheiro porque lhes escapa algo? Se sim ainda não descobri o quê, mas sei que a maioria mantêm uma boa onda, integridade e interesse musical singular.  
VLB - Desde que voltaram do Brasil vcs já tocaram em Bilbao na Espanha e no festival Reverence Valada. Os shows pela Europa são constantes? Vocês vivem do que ganham com a banda ou têm que se virar em outros trampos?
RJC - Nem pensar! Isto é banda de pobres mesmo! Eu não vivo da música, tenho emprego e só sei fazer as coisas assim. Eu trabalho de professor de vez em quando. Hoje conseguimos cachets melhores mas gosto de ter um emprego para poder ter liberdade de dizer ‘eu quero ir naquele sítio com cachet de merda porque gosto da ideia e espírito’ se percebo que não é só situação de exploração de banda. Vamos gerindo datas pela Europa entre trabalhos. Mas a verdade é que, no mínimo, a banda permite que eu não gaste tanto dinheiro em psiquiatras e drogas. Se não fosse a banda estava louco!
CCC - Tentamos sempre que seja possível fazer concertos em outros países! Nem sempre temos a disponibilidade desejada para fazer concertos longe, mas fazemos o melhor possível com aquilo que temos! Em termos profissionais eu de vez em quando também sou chamada a dar aulas de Educação Visual na escola pública, mas como vem acontecendo cada vez menos, ando mais ocupada a costurar peças para a minha marca Tupelo Shirts [facebook.com/tupeloshirts] e a tatuar [b-poketto.blogspot.pt].
VLB - Em quantos países já tocaram e quais serão os próximos?
RJC - Não planejamos isso, vai acontecendo naturalmente. Já tocámos em Espanha, França, Holanda... Mas confesso que gostava de tocar na Grécia (bem perto) e Japão! 
CCC - Espero que possamos tocar até bem velhinhos porque gostava que fôssemos a todo o lado! Haha!
VLB - Suas canções são todas em inglês. Já tentaram algo em português? Um rock tipo “Oh gajo, ora pois pois”…
RJC - Seria mais “Oh pá”… hehe. Já pensei nisso mas não aconteceu ainda naturalmente e como os nossos temas saem todos de forma natural não me parece boa política sentar e pensar ‘vamos lá fazer um tema interessante em português!’. Quando acontecer sairá naturalmente! Entretanto já tocámos uma versão de "Será assim..." e "I am a Chancho" dos Steamers, banda portuguesa de anos 60. Apesar do título os temas são ambos em português.
VLB - E os equipamentos? Quais guitarras e pedais usam, quais os amps preferidos pra tocar?
CCC - A minha guitarra foi-me oferecida pela minha querida mãe. É muito especial como podem imaginar! Tem um som brilhante e encorpado. Toco com ela faz já 15 anos! O meu amplificador é um Fender Blues Junior Texas Red, no qual tiro uma distorção que gosto muito! Pedais só uso mesmo quando não levo o meu amplificador, aí uso o Fat Cat. Gosto da banda ser assim ‘portátil’, poucos ou nenhuns pedais e muitas vezes a solução de alguns bateristas que também minimizam ao máximo as peças da bateria. Tudo muito RAW! Adoro!
RJC - Eu uso uma XP que apanhei em loja de usados. A partir do momento em que as guitarras voam nos concertos e até já simulei surf em cima de guitarra eu fico com medo de ter guitarra cara! Amplificadores, se puder escolher, um Vox ou Fender valvulado que dê para fazer saturação ao invés de ter canal para ganhos. Bem simples! 
VLB - Falando em surf, Portugal tem altas ondas. Já tentaram surfar? Tenho um amigo que em outubro lança aí um filme sobre o maior surfista português, o Tiago Pires. “Saca” é o apelido dele e também o nome do filme. 
CCC - Confesso que nunca tentei o surf, mas tenho curiosidade. Temos grandes surfistas e belas praias para a modalidade! Nós somos mais do skate! Andei bastante na minha adolescência. De qualquer forma vamos ficar atentos ao filme! 
RJC - Nunca surfei. Viseu não tem praia e as mais próximas são frias p'a caralho! Preferia ir tomar banho no rio mesmo na adolescência. 
VLB - Haha! Mudando de assunto de novo, The Dirty Coal Train não tem um baterista fixo e sempre toca com convidados como o Marky Wildstone. Por quê essa opção e quantos bateras já tocaram com a banda? 
RJC - A banda começou sem bateristas. Mesmo quando chegou ao formato trio a primeira vez nenhum de nós sabia tocar bateria então todos tocávamos bateria à vez! Hehe… Com a Lena (de Biônica, Lava...) na bateria e a entrada da Beatriz acabámos por estabilizar formação e a maioria do tempo fomos um trio de duas guitarras e bateria. Por vezes com baixo do Rodrigo (Old Rod) e da Shelley (Marie LaVeaux). Quando a Lena decidiu sair da banda nós ficámos meio sem saber o que fazer mas estávamos com datas marcadas e o Marky fez proposta para tour no Brasil. Por vezes é tenso para marcar datas pois nossos bateristas são ‘emprestados’ de outras bandas e podem estar ocupados. Mas aí foi natural essa opção, nesse contexto depois da saída da Lena. Até para evitar discussão de banda ficou mais fácil: nós matamo-nos os dois para decidir coisas e poupamos o baterista! Hahaha! Quantos já passaram? Se até eu já fui baterista nalguns temas... uns 7 ou mais!
VLB - Aliás, quantos integrantes a DCT já teve? 
RJC - Quando comecei gravei tudo a solo. Depois passou para duo, eu e Rodrigo que vinha dos Puny, banda pós-punk, indie… Depois a Shelley, depois Lena, depois Beatriz. Maior parte do tempo e datas ao vivo foram feitas em formato trio com Lena, depois disso com Carlos, que veio dos míticos Tedio Boys, Parkinsons, e hoje toca nos Twist Connection… Nick, que toca nos The Act-Ups, Nicotine's Orchestra... Jorge Trigo, que toca n’O Quarto Fantasma… Mário dos Conan Castro & the Moonshine Piñatas... Por vezes Ana Banana toca sax connosco. Por vezes Pedro Calhau toca sax connosco. Por vezes Bruno Cafageste, que toca com vários entre os quais o grande Fast Eddie Nelson, toca baixo connosco.
VLB - Vocês são bastante produtivos. Quais os projetos pela frente? Algum disco novo saindo do forno? 
RJC - Temos muita demo feita mas não fazemos bem ideia do que vai sair em 2017. Vamos propondo os discos às editoras ou por vezes temos convites. O estatuto de independentes dá essa liberdade. Por outro lado o Edgar da Groovie diz-nos logo se tem interesse ou não numa edição (a Groovie tem uma estética visual e sonora muito própria) e quando não tem deixa-nos livres para editar por outros meios. 
VLB - A Groovie Records lançou alguns títulos brasileiros recentemente: The Dead Rocks, Brazilian Nuggets e o raro Lindo Sonho Delirante, cuja singela sigla é LSD. Desde 2001 todas as drogas são descriminalizadas no país de vocês, e Portugal é referência no tratamento de dependentes e redução da violência. Já no Brasil nem a maconha é liberada. Quais seus alteradores de consciência preferidos e o que pensam da política anti-drogas?
RJC - Hoje acho que só bebemos mesmo. Dito assim até parece que é coisa boa só beber, hehe… Pessoalmente sou a favor de que deveria ser tudo descriminalizado. Prender quem consome não faz qualquer sentido para mim. Prender quem trafica? Confesso que não parei para pensar seriamente nessa questão, mas se as pessoas são maiores de idade e querem consumir então sempre encontrarão quem forneça. Quem é o Estado para dizer qual é a droga lícita e ilícita? Estado se pronuncia demais sobre questões morais como se possuísse autoridade nessa matéria! Bem... acho que acabei de formar minha opinião, haha!
CCC - Concordo com a opinião do Ricardo. E sim, apenas bebemos uns copos. Sempre gostei muito de vinho e agora aguardente velha desde que comecei a namorar com o Ricardo! Hehe. Deixei de fumar há 15 anos e foi a melhor coisa que fiz! Em Portugal existe apoio do Estado para quem queira largar as drogas. Há um instituto próprio onde funcionam consultas com psicólogos, psiquiatras, equipas de médicos e enfermagem, consultas de apoio à família e programas de reinserção social. Ajuda ainda mais se a sociedade não olhar os toxicodependentes como marginais, mas creio que nesse aspecto as coisas estão melhores.
VLB - Conchita, é a Frida Kahlo tatuada na sua mão? 
CCC - Na minha mão trago a minha falecida avó Rosa Maria. Fui eu própria que me tatuei, foi a minha sétima tatuagem. Ficou um pouco parecida à Frida e ao género de desenho japonês misturado um pouco com Arte Nova, coisas que gosto muito. As flores que ela tem na cabeça são as que trouxe de casa dela, tem as fitas/cortinas de plástico que ela tinha na porta da cozinha, um cântaro que era usado para ir buscar água à fonte e um pássaro que simboliza o amor que ela tinha pelos animais e pela natureza em geral. Quando ela passava os bichos iam ter com ela porque trazia sempre alguma coisa nos bolsos para lhes dar. E também rebuçados para as crianças! Ainda hoje me emociono quando falo nela... Ela será sempre uma referência máxima para mim! Uma pessoa incrível! Quando conheci o Ricardo ele falou-me da sua avó materna, a Carolina, e percebemos que ela e a minha avó Rosa eram muito parecidas e que tínhamos tido uma sorte imensa por ter mulheres assim na família, as quais nos fazem querer ser pessoas melhores. 
VLB - O empoderamento feminino é um tema urgente no Brasil. Como você exerce seu poder na Dirty Coal Train?
CCC - Como exerço o meu poder na banda? Faço aquilo que me é natural. Sinto que trago uma grande quantidade de energia dentro de mim, a qual o Ricardo ajudou a potenciar uma grande parte. Acredito que o maior obstáculo que uma mulher tem é aquele que ela coloca a si própria. Se acreditarmos nas nossas potencialidades, se estivermos num projecto em que acreditamos e que gostamos muito, tudo é possível! 
VLB - Reverendo, a Conchita canta e toca guitarra, já desenhou capa de disco e ainda costura as roupas da banda. Ela parece a PJ Harvey com pernas mais bonitas, tem um corte de cabelo ao estilo Bettie Page e a voz lembra a da Kim Gordon com mais potência. O que chamou sua atenção primeiro quando a conheceu, a beleza ou o talento? 
RJC - Haha! Mas olha que ela entrou como guitarrista convidada apenas. Eu estava meio reticente para convidar para Dirty e ela estava a tocar numa banda que entretanto acabou. Só depois dessa banda terminar convidei para entrar a sério. Em primeiro porque gostei da garra dela ao vivo e em segundo porque na relação deu para sentir que não haveria tensão ‘misturada’ de banda. Nós crescemos na mesma cidade, Viseu, e embora conhecêssemos as bandas um do outro quando éramos adolescentes não nos conhecíamos efectivamente, isso foi mais tarde já em Lisboa mas não é para escrever nossa história de amor, certo? Haha! Vamos deixar isso para o nosso biógrafo se alguma vez existir! Haha… Quanto a ela fazer muita coisa interessante, ser atraente, desenhar bem, confesso que não acho isso uma questão assim tão importante. Não acho que um homem se deva sentir intimidado por uma mulher forte multifacetada tal como não acho que uma mulher se deva intimidar com um animal do mato como eu! Hehe… Já percebi que no Brasil essa questão de mulher que faz coisa e é bonita é mais sensível, talvez em Portugal também haja um pouco essa questão e seja eu que vivi num plano à parte. Não sei ainda responder a isso. Mas posso dizer, não interessa se a pessoa (homem ou mulher) é bonita como o caralho... nada dá tanto tesão como uma pessoa interessante com a qual partilhas tudo e tens uma relação sincera.     
VLB - Ricardo, você é um adulto que se diverte como criança. Como foi sua infância e adolescência em Portugal? Curte o que além de música, tipo filmes B de ficção científica que eu tô ligado…
RJC - Haha, estou a ver que vai começar você a nossa biografia! Adoro série B, filmes trash, sobretudo anos 50. Cresci com séries originais de Twillight Zone e Outer Limits, adoro filmes do Ed Wood, John Michael McCarthy, o vosso Zé do Caixão... Banda desenhada, desde X-Men até ao Chiclete com Banana… Em música sou viciado mesmo, melhor nem começar a listar coisas... Eu acho que das coisas mais difíceis é mesmo lidar com as contas, desilusões da vida, dor de coração, perda e ganha de amizades e responsabilidades naturais do crescimento e continuar a ser criança. Eu sei disso mas é difícil p'a caralho! A Bea pode testemunhar que tanto estou em estado de graça infantil como estou fechado e introspectivo pior que o Batman na caverna, haha! Minha infância teve desde construção de casa na árvore e carrinhos de rolamentos até falta de apoio familiar por querer tocar punk rock e perda de amigos na adolescência. Muita coisa de tudo mas acho que com saldo positivo.
104,7 FM - VITÓRIA (ES)
GIG - SÃO CARLOS (SP)
VILLA BLUES - BOTUCATU (SP)
BAR DO ZÉ - CAMPINAS (SP)
CECAC - SERRANA (SP)
GARAGERA - SÃO PAULO (SP)
TVE - PORTO ALEGRE (RS)

AGRADECIMENTOS: TODOS OS FOTÓGRAFOS que ilustraram esta entrevista