terça-feira, setembro 13, 2016

TREM DOIDO
The Dirty Coal Train é a minha nova banda favorita. Reverend Jesse & Conchita Consuela conduzem uma locomotiva movida a carvão e rock de garagem, levando em cada vagão blues, punk, bubblegum, surf music e até jazz. Acabam de voltar à sua estação em Lisboa após uma turnê selvagem por 16 cidades brasileiras, de Vitória a Porto Alegre. Em Goiânia assisti a apresentação insana do casal mais barulhento de Portugal, cuja vinda ao Brasil foi viabilizada pelo Marky da Wildstone Records, que além de produtor da tour acumulou a função de baterista.
A inspiração pro nome vem da música negra norteamericana, desde o trocadilho com John Coltrane às referências ferroviárias, e a caldeira é alimentada com som sujo. Distorção e saturação. 
Ficamos hospedados no mesmo hotel durante o Noise Festival e acabamos nos tornando amigos. Chamou minha atenção a atitude no palco e agressividade na música em contraste com a educação e simpatia desses lisboetas porretas que curtem Sonics, Stooges, Cramps, Link Wray, Dick Dale, Blind Willie Johnson e Fast Eddie Nelson. São “a nova coqueluche do garage-punk nacional”, definiu o blog lusitano Baixa Isso. 
Jesse e Conchita, batizados Ricardo Ramos e Beatriz Rodrigues, tocam juntos há 6 anos e a todo vapor. Já gravaram 3 LPs, 5 EPs e vários singles – tudo em vinil. O mais recente, Super Scum, foi lançado pelo selo Groovie e feito com “os meios que tivemos à mão e muito amor à estética lo-fi e ao do-it-yourself”. Sem sair dos trilhos e prestes a tocar no festival D’Bandada na região do Porto, os maquinistas do Dirty Coal Train concederam entrevista a este blog que também é chegado numa Maria Fumaça: 
Viva La Brasa - E aí, o que acharam do Brasil? 
Reverend Jesse Coltrane - Eu tinha sobretudo curiosidade para conhecer sítios mais pequenos, experimentar a comida e ver animais diferentes. Adorámos ver as capivaras, tucanos, tamanduás… só faltou ver tatu! Tinha algum receio da insegurança de algumas cidades maiores por não fazer ideia se isso se sentiria na rua, mas não foi o caso. Sempre tivemos bom ambiente com todo o mundo! 
Conchita Consuela Coltrane - Quando fiz a árvore genealógica da minha família fiquei a saber que os meus dois avós paternos viajaram para o Brasil no início do séc XX, um para trabalhar na construção e outro a fazer cofres de ferro. Um tio avô casou e teve filhos no Brasil e outro acabaria por falecer há muitos anos vítima de um acidente de trabalho. Falámos com tantas pessoas na tour que nos disseram que têm antecedentes portugueses e aperceber-me que por pouco eu era também brasileira! Hehe. Acabei por nascer em Paris quando os meus pais estavam emigrados por lá. A meio da tour enviámos uns postais a familiares e amigos, um deles ao meu avô justamente a falar da imensidão e beleza do Brasil, e como teria sido na altura em que o seu pai (o meu bisavô) tinha feito essa grande viagem de barco e tudo quanto teria experienciado... O Brasil é lindo, as pessoas calorosas e muito queridas! Espero sinceramente que as pessoas que dominam a política, a economia e a religião não dêem cabo de tudo!
VLB - Vocês estão ligados no momento político que a gente tá vivendo por aqui, com golpe branco e repressão crescente? No rolê deu pra sentir a tensão no ar ou foi tudo “tranquilo e favorável” como diria o MC Bin Laden?
CCC - Creio que fomos sentindo ao longo de todo o tempo que aí estivemos porque era assunto e preocupação que estava presente nas conversas que fomos tendo com as pessoas. Brasil atravessa um período negro e nós portugueses assistimos a tudo com muita ansiedade e preocupação! Um país com uma dimensão e riqueza tão grande como o Brasil deveria facilmente oferecer uma qualidade de vida e dignidade a todos os cidadãos... Acho triste a maneira como o mundo se encontra e enquanto os Estados servirem outros interesses que não os dos seus povos, o futuro não é nada promissor... Também durante os concertos, o Ricardo foi mostrando a nossa preocupação com a situação política presente, ao que ele repetidamente disse ‘espero que este período negro seja um período curto na história brasileira’. 
RJC - Sim, eu sou menos contido no comentário político. Política é sempre jogo sujo, mas é assustadora a maneira como nem se disfarçou um golpe de estado e se mascarou de um impeachment. Também confesso que a Igreja Universal do Reino de Deus me assusta bastante. Eu tive educação católica desde muito novo e durante anos. Sei bem os podres e também os apelos e coisas boas do Catolicismo mas IURD faz Satanismo parecer Cristianismo! Também tem em Portugal e também é o mesmo esquema de lavagem cerebral e extorsão do dízimo de idosos e pessoas emocionalmente frágeis. Um país com recursos sempre vai atrair abutres, mas também tenho de dizer que toda a gente com que falei me parece bastante consciente do que se está a passar. Mesmo quem não gosta da Dilma não me pareceu ter ilusões de que o país vai ser aberto ao saque. Espero muito sinceramente que esta pilhagem de direitos do povo brasileiro pare. Em Portugal toda a gente sente isso com proximidade e preocupação, quer por haver um sentimento de ‘povo irmão’ e uma grande comunidade brasileira aqui, quer por termos sentido essa pilhagem com a crise europeia.
VLB - Quais foram suas bandas e experiências anteriores?
CCC - Eu tenho bandas desde os 15. Comecei no punk, andei pelo indie/sónico e aterrei nesta coisa dos The Dirty Coal Train há 5 anos!... Ou seja, já lá vão mais de 20 anos desta brincadeira! Nós na realidade não tocamos grande coisa, e eu volta e meia dou umas notas ao lado, mas damos tudo quando o fazemos, por isso enganamos bem!  
RJC - É isso, a nossa escola é o DIY: a escola 3 acordes de Ramones, a simplicidade do garage, a despreocupação do punk. Eu tive numa banda indie/pós-punk antes chamada Puny, mas também comecei novo, com 15 anos em bandas punk locais.
VLB - Quantas canções costumam entrar no set list de vocês? 
CCC - O set varia entre 13 a 17 temas, creio. Eu não tenho músicas favoritas, mas gosto especialmente daquelas que permitem momentos de interacção mais directa com o público.
RJC - Os temas são curtos daí haverem tantos temas num set. Um tema de 5 minutos para nós é já rock progressivo, hahaha! Não tenho preferidos mas gosto de pelo menos em cada tour variar o set e levar temas novos ou então temas velhos que não tocamos faz algum tempo. 
VLB - Como é ter uma banda de rock em Portugal? Tenho amigos de bandas como Jason, Gangrena Gasosa e Renegades of Punk que fizeram turnês pela Europa tocando em squats. Já os Autoramas tocam num circuito mais parecido com o de vcs, rock garageiro e bubblegum, em lugares não tão punks mas ainda assim no esquema faça-você-mesmo. Como são as diferentes cenas que convivem aí? Vcs conhecem alguma das bandas que citei?
RJC - Conhecemos Autoramas, claro! Tocámos algumas vezes com eles aqui em Portugal. Banda rock ou garageira em Portugal passa mesmas dificuldades que a maioria das bandas de temas originais, julgo eu... O país é pequeno e o circuito underground mal existe porque os locais estão sempre a fechar e abrir novos. Haverão bandas que conseguem apoios para explodir mediaticamente e fazer dinheiro, eu ainda não sei fazer isso. Talvez porque não conheci as pessoas correctas, hehe… O que sei, partilho, e é o seguinte: banda começa e vai ter de andar a tocar a perder dinheiro! Com sorte no segundo ano não perde tanto. Algures no meio a banda tem de ficar boa e as pessoas vão valorizar. Aí talvez se comece a vender discos e shows por um preço melhor e finalmente faz-se algum dinheiro. Tem banda incrível em Portugal que não faz dinheiro, tem banda de merda que está de bolsos cheios. Mas isso é só em Portugal? Não creio. Será que as bandas boas não estão com dinheiro porque lhes escapa algo? Se sim ainda não descobri o quê, mas sei que a maioria mantêm uma boa onda, integridade e interesse musical singular.  
VLB - Desde que voltaram do Brasil vcs já tocaram em Bilbao na Espanha e no festival Reverence Valada. Os shows pela Europa são constantes? Vocês vivem do que ganham com a banda ou têm que se virar em outros trampos?
RJC - Nem pensar! Isto é banda de pobres mesmo! Eu não vivo da música, tenho emprego e só sei fazer as coisas assim. Eu trabalho de professor de vez em quando. Hoje conseguimos cachets melhores mas gosto de ter um emprego para poder ter liberdade de dizer ‘eu quero ir naquele sítio com cachet de merda porque gosto da ideia e espírito’ se percebo que não é só situação de exploração de banda. Vamos gerindo datas pela Europa entre trabalhos. Mas a verdade é que, no mínimo, a banda permite que eu não gaste tanto dinheiro em psiquiatras e drogas. Se não fosse a banda estava louco!
CCC - Tentamos sempre que seja possível fazer concertos em outros países! Nem sempre temos a disponibilidade desejada para fazer concertos longe, mas fazemos o melhor possível com aquilo que temos! Em termos profissionais eu de vez em quando também sou chamada a dar aulas de Educação Visual na escola pública, mas como vem acontecendo cada vez menos, ando mais ocupada a costurar peças para a minha marca Tupelo Shirts [facebook.com/tupeloshirts] e a tatuar [b-poketto.blogspot.pt].
VLB - Em quantos países já tocaram e quais serão os próximos?
RJC - Não planejamos isso, vai acontecendo naturalmente. Já tocámos em Espanha, França, Holanda... Mas confesso que gostava de tocar na Grécia (bem perto) e Japão! 
CCC - Espero que possamos tocar até bem velhinhos porque gostava que fôssemos a todo o lado! Haha!
VLB - Suas canções são todas em inglês. Já tentaram algo em português? Um rock tipo “Oh gajo, ora pois pois”…
RJC - Seria mais “Oh pá”… hehe. Já pensei nisso mas não aconteceu ainda naturalmente e como os nossos temas saem todos de forma natural não me parece boa política sentar e pensar ‘vamos lá fazer um tema interessante em português!’. Quando acontecer sairá naturalmente! Entretanto já tocámos uma versão de "Será assim..." e "I am a Chancho" dos Steamers, banda portuguesa de anos 60. Apesar do título os temas são ambos em português.
VLB - E os equipamentos? Quais guitarras e pedais usam, quais os amps preferidos pra tocar?
CCC - A minha guitarra foi-me oferecida pela minha querida mãe. É muito especial como podem imaginar! Tem um som brilhante e encorpado. Toco com ela faz já 15 anos! O meu amplificador é um Fender Blues Junior Texas Red, no qual tiro uma distorção que gosto muito! Pedais só uso mesmo quando não levo o meu amplificador, aí uso o Fat Cat. Gosto da banda ser assim ‘portátil’, poucos ou nenhuns pedais e muitas vezes a solução de alguns bateristas que também minimizam ao máximo as peças da bateria. Tudo muito RAW! Adoro!
RJC - Eu uso uma XP que apanhei em loja de usados. A partir do momento em que as guitarras voam nos concertos e até já simulei surf em cima de guitarra eu fico com medo de ter guitarra cara! Amplificadores, se puder escolher, um Vox ou Fender valvulado que dê para fazer saturação ao invés de ter canal para ganhos. Bem simples! 
VLB - Falando em surf, Portugal tem altas ondas. Já tentaram surfar? Tenho um amigo que em outubro lança aí um filme sobre o maior surfista português, o Tiago Pires. “Saca” é o apelido dele e também o nome do filme. 
CCC - Confesso que nunca tentei o surf, mas tenho curiosidade. Temos grandes surfistas e belas praias para a modalidade! Nós somos mais do skate! Andei bastante na minha adolescência. De qualquer forma vamos ficar atentos ao filme! 
RJC - Nunca surfei. Viseu não tem praia e as mais próximas são frias p'a caralho! Preferia ir tomar banho no rio mesmo na adolescência. 
VLB - Haha! Mudando de assunto de novo, The Dirty Coal Train não tem um baterista fixo e sempre toca com convidados como o Marky Wildstone. Por quê essa opção e quantos bateras já tocaram com a banda? 
RJC - A banda começou sem bateristas. Mesmo quando chegou ao formato trio a primeira vez nenhum de nós sabia tocar bateria então todos tocávamos bateria à vez! Hehe… Com a Lena (de Biônica, Lava...) na bateria e a entrada da Beatriz acabámos por estabilizar formação e a maioria do tempo fomos um trio de duas guitarras e bateria. Por vezes com baixo do Rodrigo (Old Rod) e da Shelley (Marie LaVeaux). Quando a Lena decidiu sair da banda nós ficámos meio sem saber o que fazer mas estávamos com datas marcadas e o Marky fez proposta para tour no Brasil. Por vezes é tenso para marcar datas pois nossos bateristas são ‘emprestados’ de outras bandas e podem estar ocupados. Mas aí foi natural essa opção, nesse contexto depois da saída da Lena. Até para evitar discussão de banda ficou mais fácil: nós matamo-nos os dois para decidir coisas e poupamos o baterista! Hahaha! Quantos já passaram? Se até eu já fui baterista nalguns temas... uns 7 ou mais!
VLB - Aliás, quantos integrantes a DCT já teve? 
RJC - Quando comecei gravei tudo a solo. Depois passou para duo, eu e Rodrigo que vinha dos Puny, banda pós-punk, indie… Depois a Shelley, depois Lena, depois Beatriz. Maior parte do tempo e datas ao vivo foram feitas em formato trio com Lena, depois disso com Carlos, que veio dos míticos Tedio Boys, Parkinsons, e hoje toca nos Twist Connection… Nick, que toca nos The Act-Ups, Nicotine's Orchestra... Jorge Trigo, que toca n’O Quarto Fantasma… Mário dos Conan Castro & the Moonshine Piñatas... Por vezes Ana Banana toca sax connosco. Por vezes Pedro Calhau toca sax connosco. Por vezes Bruno Cafageste, que toca com vários entre os quais o grande Fast Eddie Nelson, toca baixo connosco.
VLB - Vocês são bastante produtivos. Quais os projetos pela frente? Algum disco novo saindo do forno? 
RJC - Temos muita demo feita mas não fazemos bem ideia do que vai sair em 2017. Vamos propondo os discos às editoras ou por vezes temos convites. O estatuto de independentes dá essa liberdade. Por outro lado o Edgar da Groovie diz-nos logo se tem interesse ou não numa edição (a Groovie tem uma estética visual e sonora muito própria) e quando não tem deixa-nos livres para editar por outros meios. 
VLB - A Groovie Records lançou alguns títulos brasileiros recentemente: The Dead Rocks, Brazilian Nuggets e o raro Lindo Sonho Delirante, cuja singela sigla é LSD. Desde 2001 todas as drogas são descriminalizadas no país de vocês, e Portugal é referência no tratamento de dependentes e redução da violência. Já no Brasil nem a maconha é liberada. Quais seus alteradores de consciência preferidos e o que pensam da política anti-drogas?
RJC - Hoje acho que só bebemos mesmo. Dito assim até parece que é coisa boa só beber, hehe… Pessoalmente sou a favor de que deveria ser tudo descriminalizado. Prender quem consome não faz qualquer sentido para mim. Prender quem trafica? Confesso que não parei para pensar seriamente nessa questão, mas se as pessoas são maiores de idade e querem consumir então sempre encontrarão quem forneça. Quem é o Estado para dizer qual é a droga lícita e ilícita? Estado se pronuncia demais sobre questões morais como se possuísse autoridade nessa matéria! Bem... acho que acabei de formar minha opinião, haha!
CCC - Concordo com a opinião do Ricardo. E sim, apenas bebemos uns copos. Sempre gostei muito de vinho e agora aguardente velha desde que comecei a namorar com o Ricardo! Hehe. Deixei de fumar há 15 anos e foi a melhor coisa que fiz! Em Portugal existe apoio do Estado para quem queira largar as drogas. Há um instituto próprio onde funcionam consultas com psicólogos, psiquiatras, equipas de médicos e enfermagem, consultas de apoio à família e programas de reinserção social. Ajuda ainda mais se a sociedade não olhar os toxicodependentes como marginais, mas creio que nesse aspecto as coisas estão melhores.
VLB - Conchita, é a Frida Kahlo tatuada na sua mão? 
CCC - Na minha mão trago a minha falecida avó Rosa Maria. Fui eu própria que me tatuei, foi a minha sétima tatuagem. Ficou um pouco parecida à Frida e ao género de desenho japonês misturado um pouco com Arte Nova, coisas que gosto muito. As flores que ela tem na cabeça são as que trouxe de casa dela, tem as fitas/cortinas de plástico que ela tinha na porta da cozinha, um cântaro que era usado para ir buscar água à fonte e um pássaro que simboliza o amor que ela tinha pelos animais e pela natureza em geral. Quando ela passava os bichos iam ter com ela porque trazia sempre alguma coisa nos bolsos para lhes dar. E também rebuçados para as crianças! Ainda hoje me emociono quando falo nela... Ela será sempre uma referência máxima para mim! Uma pessoa incrível! Quando conheci o Ricardo ele falou-me da sua avó materna, a Carolina, e percebemos que ela e a minha avó Rosa eram muito parecidas e que tínhamos tido uma sorte imensa por ter mulheres assim na família, as quais nos fazem querer ser pessoas melhores. 
VLB - O empoderamento feminino é um tema urgente no Brasil. Como você exerce seu poder na Dirty Coal Train?
CCC - Como exerço o meu poder na banda? Faço aquilo que me é natural. Sinto que trago uma grande quantidade de energia dentro de mim, a qual o Ricardo ajudou a potenciar uma grande parte. Acredito que o maior obstáculo que uma mulher tem é aquele que ela coloca a si própria. Se acreditarmos nas nossas potencialidades, se estivermos num projecto em que acreditamos e que gostamos muito, tudo é possível! 
VLB - Reverendo, a Conchita canta e toca guitarra, já desenhou capa de disco e ainda costura as roupas da banda. Ela parece a PJ Harvey com pernas mais bonitas, tem um corte de cabelo ao estilo Bettie Page e a voz lembra a da Kim Gordon com mais potência. O que chamou sua atenção primeiro quando a conheceu, a beleza ou o talento? 
RJC - Haha! Mas olha que ela entrou como guitarrista convidada apenas. Eu estava meio reticente para convidar para Dirty e ela estava a tocar numa banda que entretanto acabou. Só depois dessa banda terminar convidei para entrar a sério. Em primeiro porque gostei da garra dela ao vivo e em segundo porque na relação deu para sentir que não haveria tensão ‘misturada’ de banda. Nós crescemos na mesma cidade, Viseu, e embora conhecêssemos as bandas um do outro quando éramos adolescentes não nos conhecíamos efectivamente, isso foi mais tarde já em Lisboa mas não é para escrever nossa história de amor, certo? Haha! Vamos deixar isso para o nosso biógrafo se alguma vez existir! Haha… Quanto a ela fazer muita coisa interessante, ser atraente, desenhar bem, confesso que não acho isso uma questão assim tão importante. Não acho que um homem se deva sentir intimidado por uma mulher forte multifacetada tal como não acho que uma mulher se deva intimidar com um animal do mato como eu! Hehe… Já percebi que no Brasil essa questão de mulher que faz coisa e é bonita é mais sensível, talvez em Portugal também haja um pouco essa questão e seja eu que vivi num plano à parte. Não sei ainda responder a isso. Mas posso dizer, não interessa se a pessoa (homem ou mulher) é bonita como o caralho... nada dá tanto tesão como uma pessoa interessante com a qual partilhas tudo e tens uma relação sincera.     
VLB - Ricardo, você é um adulto que se diverte como criança. Como foi sua infância e adolescência em Portugal? Curte o que além de música, tipo filmes B de ficção científica que eu tô ligado…
RJC - Haha, estou a ver que vai começar você a nossa biografia! Adoro série B, filmes trash, sobretudo anos 50. Cresci com séries originais de Twillight Zone e Outer Limits, adoro filmes do Ed Wood, John Michael McCarthy, o vosso Zé do Caixão... Banda desenhada, desde X-Men até ao Chiclete com Banana… Em música sou viciado mesmo, melhor nem começar a listar coisas... Eu acho que das coisas mais difíceis é mesmo lidar com as contas, desilusões da vida, dor de coração, perda e ganha de amizades e responsabilidades naturais do crescimento e continuar a ser criança. Eu sei disso mas é difícil p'a caralho! A Bea pode testemunhar que tanto estou em estado de graça infantil como estou fechado e introspectivo pior que o Batman na caverna, haha! Minha infância teve desde construção de casa na árvore e carrinhos de rolamentos até falta de apoio familiar por querer tocar punk rock e perda de amigos na adolescência. Muita coisa de tudo mas acho que com saldo positivo.
104,7 FM - VITÓRIA (ES)
GIG - SÃO CARLOS (SP)
VILLA BLUES - BOTUCATU (SP)
BAR DO ZÉ - CAMPINAS (SP)
CECAC - SERRANA (SP)
GARAGERA - SÃO PAULO (SP)
TVE - PORTO ALEGRE (RS)

AGRADECIMENTOS: TODOS OS FOTÓGRAFOS que ilustraram esta entrevista

quinta-feira, agosto 11, 2016

TIRO, PORRADA & BOMBA
"A  gente tá há mais de 20 anos nesse negócio de rock. Moda vai, moda vem e continuamos aqui. Porque a gente não liga pra esse negócio de sucesso. Sucesso qualquer otário aguenta", falou Márcio Júnior, vocalista dos Mechanics e um dos fundadores do Goiânia Noise Festival. "Nosso sucesso é o Fracasso." E detonou uma sequência de hits explosivos: Fracasso, Sangue, Ódio... Em tempos sinistros de mesóclises e restrições de direitos, nada como ser direto e mandar na lata o que pensa.
LÉO BIGODE, MÁRCIO JÚNIOR E HOMEM-BRASA
A primeira vez que estive em Goiânia foi em 1996 pra cobrir a segunda edição do GNF, um festival que começou pequeno e underground. 20 anos depois, voltei à capital de Goiás com a mesma missão, desta vez em outro contexto. O Goiânia Noise tornou-se o mais longevo e representativo evento do estado e um dos maiores festivais de música do país. Sempre fazendo muito barulho.
22 anos sem tirar de dentro é pra poucos, ainda mais com a atual estrutura: 2 palcos no Centro Cultural Oscar Niemeyer, skatepark, food trucks, estúdio com gravação de clips, feirinha com opções de artigos de vestuário a cortes de cabelo, e algumas novidades como um álbum de figurinhas, espaço pro hip hop com batalha de MCs e a inédita Conferência Noise.
Fui convidado pra fechar as quatro noites de debates que se propuseram a pensar no que é independência em 2016, com a presença de Lucas Gehre, autor da revista Samba; LoveLove6, a Garota Siririca; o lendário Marcatti, único autor nacional – e um dos únicos do mundo – a imprimir suas próprias revistas numa gráfica caseira; e este humilde escriba, lançando o livro Viva La Brasa na Fora Temer Tour.
A conferência é mais uma iniciativa do Márcio Jr., que tocou na primeira noite do festival com os seus Mechanics, grupo que em Goiânia é maior do que o Iron Maiden. Vale dizer que eles foram os sétimos a se apresentar na sexta-feira, de um total de 55 bandas em três dias. Fui no ensaio deles na quinta, de lá fomos pra um bar frequentado por motoclubes e quando o Márcio chegou em casa ficou sabendo que havia rolado um tiroteio na sua rua. Nada mal pra começar minha aventura.
Fiquei hospedado no mesmo hotel que várias atrações, como a Devotos de NSA, banda do ex-VJ Thunderbird, e The Shrine, trio de skatistas cabeludos de Venice Beach, Califórnia, que tocou na sexta e vai levar sua psicodelia lo-fi pro Japão durante todo o mês de agosto. Também estavam lá os portugueses do The Dirty Coal Train, minha nova banda garageira favorita. O casal Reverendo Jesse & Conchita Coltrane faz rock sujo com duas guitarras, muita atitude e o auxílio do batera Mark Wildstone.
Power trios não faltaram no festival, desde o Overfuzz e Galo Power de Goiânia ao Cattarse do Rio Grande do Sul. É um formato muito honesto (guitarra, baixo e bateria) e, prum fã de Jimi Hendrix, Blue Cheer e The Impossibles feito eu, é sempre bom ver uma molecada que sabe onde a coruja dorme. E havia muitas corujas no céu, o que dava um toque ainda mais chapado às noites frias que se intercalavam aos dias quentes.
Sábado também teve a surf music instrumental dos Retrofoguetes, velhos amigos da Bahia que reformularam seu formato de trio pra quarteto e têm público cativo em Goiás, e o maracatu da Nação Zumbi, que pesa uma tonelada e fechou a noite tocando composições recentes como Cicatriz e clássicos insuperáveis da época do Chico Science: A Cidade, Praieira, Banditismo por Uma Questão de Classe, Um Satélite na Cabeça e Cidadão do Mundo. Falando em cidadania, Jorge Du Peixe comentou que "falta pouco pra gente estar vivendo numa ditadura".
"Dia desses me disseram que em terra de cego o melhor é se fingir de mudo", falou Jorge. "Fingir de mudo o caralho, é isso que eles querem." Como disse o Black Alien na sexta, "nunca deixe que ninguém diga o que você pode ou não pode fazer. Se alguém te disser pra não realizar algo, vai lá e faz."
Essa é a tônica da filosofia punk, muito bem representada no domingo pela Serial Killer do Rio de Janeiro e Os Cabeloduro de Brasília, bandas com 3 décadas de atuação no submundo. 30 anos é a data que o Sepultura tá comemorando, sempre arrastando um séquito de seguidores fiéis e fazendo apresentações brutais. Quando você passa tanto tempo existindo e resistindo, fica calejado e cria anticorpos contra qualquer crise, seja institucional ou geracional.
"O rock tá mal no Brasil todo", me falou Hélio Gazu d'Os Cabeloduro. Mesmo assim, bandas como o Matanza e CPM 22 ainda conseguem formar público graças ao seu apelo juvenil. São a porta de entrada pra muitos jovens que poderiam estar perdidos no sertanejo universitário, por exemplo. Diante do cenário atual, um festival como o GNF tem ainda mais valor porque incentiva a formação de novas bandas. E Goiânia tem centenas delas.
Resilientes também são os gaúchos do Tequila Baby e os paulistas do Burt Reynolds, na ativa desde os anos 90; os paranaenses do Hillbilly Rawhide, 13 anos na estrada; BNegão, desde 2001 com os Seletores de Frequência; e Eric Bobo, ex-Beastie Boys, que tocou no palco Casa de Música com seu novo projeto, Cypress Junkies, pra grande parcela do público que foi ao evento só pra ouvir rap.
"A coisa não está boa, mercado ruim e recesso", arremata Léo Bigode, CEO da Monstro Discos e organizador do Goiânia Noise. "Nossa história tem bases sólidas que foram construídas com muito suor e dedicação. O respeito na cena e a permanência no rock no momento em que todo mundo quer fazer outras coisas são patrimônios imateriais. Tem que gostar demais, se fosse fácil teria um monte de gente fazendo."
Ano que vem tem mais, se o seu cérebro estiver funcionando, apareça.
NÚMEROS:
22 anos de Goiânia Noise Festival
4000 pessoas em média por noite
20 anos de lançamento do álbum Afrociberdelia de Chico Science & Nação Zumbi
30 anos de Sepultura
SHOWS MAIS DESPRETENSIOSOS E DIVERTIDOS:
The Shrine, Dirty Coal Train, Hillbilly Rawhide e Os Cabeloduro
EMPODERAMENTO:
Girlie Hell, Dirty Coal Train, Vish Maria, Royal Dogs e Sixxen – bandas com mulheres à frente
ANDROGINIA:
Jonnata Doll & Os Garotos Solventes, do Ceará – performance, tanguinha e rock
ESTÉTICA:
Rex Croctus, da Retrofoguetes, foi o autor do projeto gráfico deste ano
MELHOR COVER:
"China Girl" de David Bowie, pela Nação Zumbi
FRASES:
"Eu sou meu pior inimigo e também meu melhor amigo." Black Alien
"Deus é brasileiro e o diabo é americano." Mestre de cerimônias do festival (mas com o Temer aí, sei não...)
MUITA GENTE FOI SÓ PRA VER O SEPULTURA
MECHANICS FAZ BARULHO & SUCESSO EM GOIÁS
GIRLIE HELL EMPODERANDO AS MULHERES
THE DIRTY COAL TRAIN ROUBOU O SHOW
CAIPIRAS FROM HELL DO HILLBILLY RAWHIDE
JONNATA DOLL & OS GAROTOS SOLVENTES
OS CABELODURO AINDA BEBEM PINGA COM LIMÃO
MECHANICS: FRACASSO
THE SHRINE: TRIPPING CORPSE
 DIRTY COAL TRAIN: VIOLET BLACK
AGRADECIMENTOS: MMarte, Monstro Discos, Serras de Goyaz e Dona Fiinha

terça-feira, julho 12, 2016

EXPERIMENTE 
Primeiramente, fora Temer.
2016 será lembrado pela inflação, recessão, politicagem e pilantragem. Mas, como diria Nietzsche, a arte tá aí pra impedir que a realidade não nos destrua.
Tô participando duma exposição coletiva, a EXPERIMENTE, com mais 5 chapas: Costaeira, Flávio Antonini, Marcelo Roque, Marcelo Uchoa e Marcos Souza.
Entre tantos artistas genuínos, eu sou o único impostor.
A culpa é do Fábio Sampaio, curador da série de mostras que começou em abril e vai até o fim do ano na Galeria Zé de Dome, espaço que (r)existe há 30 anos e possui o acervo mais completo da arte sergipana do século XX.
Com a hashtag #xprimnt, a ideia da expo é estabelecer um link entre o mercado e os novos nomes. “É um laboratório de como funciona a cadeia produtiva em artes visuais e a criação de um pensamento a respeito da produção contemporânea”, diz Fábio.
Santista radicado em Aracaju, o cara já expôs na Bienal de Florença, no Museu do Louvre e acaba de realizar o ‘Bazar Monalisa’ utilizando cimento, tijolo e carrinho de mão nas obras expostas. 
A primeira vez que ele me convidou pra uma coletiva foi em 2014. ‘Em Cartaz’ fez parte do festival Sercine e propunha a releitura de posters de filmes. Eu, que nunca pensei em ser artista, joguei um silk screen sobre acrílica e pus o Alex do Laranja Mecânica com um isqueiro no lugar do canivete. LaBrasa Mecânica.
Na nova empreitada reuni essa tela com quadrinhos e desenhos adaptados pra atual conjuntura. A vernissage foi sábado numa manhã de sol sem sombra do Temer, Cunha e outros canalhocratas que apavoram o país, mas com muita fruta, suco, cerveja e boa presença de público. Além dos trampos gráficos de diversos estilos, ainda rolou um som de guitarra com o Rony Bernardo.
Conversando com o dono do lugar, o marchand Marcelus ‘Tramela’ Fonseca, ouvi que “hoje o segmento de arte tá perdendo muito com a situação política e econômica, por isso os artistas têm que aproveitar o momento pra novas experiências, sem preocupação de venda, e sim com a finalidade de mostrar seu talento”.
Bukowski dizia que a diferença entre arte e vida é que a arte é mais suportável. E se política é uma arte como afirmava Otto Von Bismarck, Sun Tzu na Arte da Guerra ensina a aparentar inferioridade pra provocar a arrogância do inimigo.
Experimente.
#XPRIMNT
MEU CANTINHO NA EXPOSIÇÃO
- COMO VOCÊ DEFINE SEUS QUADRINHOS?
- HUMOR OFENSIVO!
NOVA GERAÇÃO PRESTIGIANDO A EXPO
PERFORMANCE DE RONY BERNARDO