sábado, julho 22, 2017

A FELICIDADE É UMA BRASA QUENTE 
BARRACA DO BEIJO. FOTO: FÁBIO [INK MONSTERS]



Amar e mudar as coisas me interessa mais. Viva La Brasa é um blog, um livro, uma festa que celebram uma cena que nem sempre merece ser celebrada. 
ARTE: THIAGO NEUMANN "CACHORRÃO"
Faço eventos desde 1997, não me considero produtor e nunca passei a perna em ninguém. A pouca grana que ganhei vendendo livros reverti trazendo bandas pra Sergipe e quase quebrei por isso. Depois de levar um golpe em 2016, levantei, sacodi a poeira, cabelo e talo pra dar a volta por cima no esquema faça-você-mesmo com a ajuda dos amigos. Convoquei 3 das melhores bandas locais, um DJ rocker e um mestre de cerimônia pra festinha mais braseira e quase tudo deu certo desta vez: casa cheia, músicos pagos na hora, todo mundo de boa e um áudio que podia ser melhor. O Che, como disse Bigbross, é o lugar de rock perfeito – uma caixa preta com um palco, um bar e banheiro. Ainda tem sinuca. As presenças foram brindadas com doses de catuaba e quem tava com mais sorte ganhou prêmios
QUEM TEM AMIGO NÃO FICA À MÍNGUA
Ano passado eu morri mas esse ano eu não morro. Sim, já é outra viagem e meu coração selvagem tem essa pressa de viver. Eu curti tanto quanto no lançamento do livro em 2015, mas sou jornalista e não me contento só com meu ponto de vista. Então, pedi pra 3 amigos da imprensa darem suas opiniões sobre o que viram e ouviram na noite de sexta, 14 de julho de 2017. Gente honesta, boa e comovida, que tem no fim da festa aquela sensação da missão cumprida. Pega fogo, cabaré!
CIDADE DORMITÓRIO: "HÁ VERDADE ALI"
Adelvan Kenobi [Folha da Praia]:
SURF, GARAGE, ROCKABILLY
E BIGBANDS COM DJ BIGBROSS
“Admiro pessoas persistentes. Ano passado Adolfo Sá morreu numa grana ao entrar numa roubada mas ele não desistiu: optou por uma produção mais pé no chão, meteu as caras e deu tudo certo. O primeiro grande acerto foi apostar num bom time de bandas sergipanas e trazer de fora apenas um DJ. Só que não era um DJ qualquer, era o lendário Rogerio Bigbross, verdadeira entidade do rock soteropolitano, que há mais de 15 anos não dava o ar de sua graça em Terras Serigy. Só por isso já valeria a pena o preço módico da entrada mas tínhamos também, como acontecimento, o show de despedida do grande guitarrista Rick Maia da banda Mamutes*. Prometia... Big discotecava para quase ninguém quando eu cheguei, mas o salão logo ficou recheado para ver a primeira atração da noite, Cidade Dormitório. Não é muito a minha praia, mas concordo com Rogerio: há verdade ali. É honesto, tá valendo. 
MAICON, ADELVAN E CACHORRÃO
Na sequência Mamutes, que foi muito prejudicado pelo som mal equalizado e falhando. Parte culpa da má vontade do operador, parte das bandas mesmo, que não passaram o som. Ah, racaju! Em todo caso, foi um bom show. Energético, como sempre, embora anticlimático em alguns momentos, com algumas músicas novas longas e viajandonas demais. Fechando a noite, Tody’s Trouble Band, que nem chegou a completar seu set, já que a guitarra falhava o tempo inteiro. Uma pena, pareciam já estar melhor entrosados que da última vez que vi – a formação é relativamente nova. Em todo caso, aproveitaram a ocasião para lançar, finalmente, seu primeiro disco. Ou não... Explicando: os caras tiveram as manhas de materializar fisicamente, em gráfica, apenas o encarte. O álbum existe apenas de forma virtual, na ‘nuvem’. Pode ser acessado através de QR Code. Bom, pelo menos o encarte é ótimo, em formato de história em quadrinhos de Pablo Carranza. 
KASSEM FOI MC, CUSPIU FOGO
E SAIU CHAPADO DE QUEROSENE
Resumindo: Foi bom, poderia ter sido melhor, mas foda-se. Me diverti naquela noite e no final de semana, ouvindo as histórias maravilhosas do underground de Salvador diretamente da boca de uma testemunha ocular (e auricular) privilegiada. Tudo regado a carne de bode no bar de Zé Américo do Campo do Brito no mercado e geladinho na Freedom e Eisenbahn na Taberna ao som da Máquina Blues com deliciosos brownies e trufas de chocolate gentilmente servidos pela chef Gil La Brasa.”
MAMUTES NA DESPEDIDA DE RICK MAIA
Werden Tavares [Cinform]:
CURTIÇÃO DOS JOVENS
“E pra você, o que é um show de rock? Aracaju já teve várias noites de rock. Uma noite de rock não é apenas uma festa com bandas tocando rock'n'roll. É mais que isso. O quase setentão estilo musical mantém sua longevidade por noites como a Viva La Brasa. Noites regadas a cerveja, música alta, boa literatura e acima de tudo aquela vontade coletiva de que a noite dure pra sempre com um público que canta assoberbadamente. É como entrar no túnel pra um tempo que nunca passa e somos todos sempre jovens e dispostos para o rolê. Aracaju já teve várias noites assim e Viva La Brasa entra pro conjunto das mais pujantes e memoráveis do espírito do rock'n'roll que nunca vai terminar.”
TODY'S TROUBLE BAND LANÇOU DISCO
Rafa Aragão [Revista Rever]:
ENCARTE-GIBI DA TODY'S
“Viva La Brasa, a festa, é como o blog que lhe deu origem: resistência rocker. E como seu criador-anfitrião, não faz concessões aos modismos. Desde da primeira edição sempre alinhando música, literatura, gente bacana e otras cositas más. Por isso, fui ao Che Music Bar na última sexta-feira, dia 14, prestigiar a terceira edição desse rolê. É muito bom reencontrar velhos e novos amigos. O som não ajudou muito o trabalho das bandas, mas isso não quer dizer que não tenha valido a pena assistir a Cidade Dormitório, Mamutes e Tody’s Trouble Band. Três bandas bastante distintas do cenário alternativo aracajuano e que representaram bem o clima do evento, com um público bem diversificado. Ainda rolou o Rogerio Bigbross discotecando. E teve barraquinha com livro, zine e vinil. Em quantas festas na cidade a gente vê isso? No final todo mundo saiu bêbado e satisfeito. É o que importa. E eu ainda saí com livros e zines pra casa. Quer coisa mais rock que isso? Que 2018 possamos celebrar mais uma vez essa festa feita com o espirito livre e anárquico. 
Viva a Viva La Brasa.”

*AGRADECIMENTOS: Rick Maia, meu parceiro na produção a caminho de Portugal; Mamutes, Cidade Dormitório, Tody’s Trouble Band, Bigbross; Che Music Bar, Ink Monsters, Mr. Bong, Venice Skate Shop e Freedom pelo apoio; Thiago Neumann "Cachorrão" pelo poster matador; Jacqueline Silva Andrade, anfitriã do nosso amigo Big; Fúria, Cata Discos e Isabele Ribeiro, que colaboraram, cada um(a) a seu modo, com a feirinha de livros, zines e discos; todas as pessoas que compareceram e curtiram a festa; Belchior pelas boas frases

sexta-feira, julho 14, 2017

ARDIDA COMO PIMENTA
Viva La Brasa é uma festa que surgiu de um livro que surgiu de um blog. Este blog. Jornalismo gonzo dá nisso. A festinha itinerante vai rolar pelo 3º ano consecutivo, hoje no Che Music Bar. Uma noite de rock & curtição com Mamutes, Cidade Dormitório e Tody’s Trouble Band. I get high with a little help from my friends...
INÊS, PIN UP VIVA LA BRASA...
Mamutes tocaram na minha primeira festa e são meus amigos desde o período neolítico, estão preparando disco novo e será o show de despedida do guitarrista Rick, que vai morar em Portugal. Cidade Dormitório é a melhor nova banda da cena rock de Aracaju e já tocou num evento do Viva La Brasa promovido pela Ilma Fontes, editora do jornal O Capital. A banda tem uma pegada sentimental, mas o vocalista Yves tá mais pra Cobain do que pra Camelo. Tody’s Trouble Band é o primeiro e único power trio de psychobilly de Sergipe e seu álbum de estreia vai virar gibi desenhado pelo Pablo Carranza.

...E DJ NA FESTA DE 2016
Depois de trazer bandas de Olinda e Maceió nas edições anteriores, desta vez convidei pra discotecar Rogerio Bigbross – realizador do festival Bigband
s em Salvador e meu chapa há mais de 20 anos. O cartaz lindão foi criado por Thiago Neumann, o Cachorrão. A casadinha custará apenas $20 golpinhos até meia-noite. Pros 50 primeiros a entrar, shot de catuaba. Tattoo, camisas, discos e kits fumetas serão sorteados com o apoio da Ink Monsters, Venice , Mr. Bong, Freedom e Net Mobile. As fotos que ilustram este post são da Pritty reis, que registrou a gig ano passado. E o teaser é uma animação de Raphael Goettenauer sobre arte de André Chagas. Vai se instigando porque vai ser quente.
Faremos uma noitada excelente.
NECRO / AL
THE RENEGADES OF PUNK / SE
CATARINA DEE JAH & OS RADICAIS LIVRES / PE

FORA TEMER & Viva La Brasa! from Viva La Brasa on Vimeo.

segunda-feira, março 06, 2017

QUEM NÃO COLA NÃO SAI DA ESCOLA
MALANDRAMENTE. FOTO: D' RODRIGUES [CINFORM]
Eu nunca fui bom aluno. Sentava no fundo da sala, cabulava aula e estudava só o suficiente pra não reprovar. Mesmo assim passei em 3º no vestibular de jornalismo e fechei o curso com 10 unânime na monografia – sobre zines. 
Eu sempre gostei de ler, apesar da falta de disciplina nos estudos. Talvez tenha sido esse o segredo pra não jubilar, já que vivemos num país cujo analfabetismo funcional reina. Ocupamos os últimos lugares nos rankings mundiais escolares, quase metade da população nunca comprou um livro, a reforma do ensino médio aumentará ainda mais a diferença entre as classes sociais e até o Ministro da Educação do governo golpista fala “haverão”.
Segui meu caminho criando veículos independentes e migrando pro audiovisual pra garantir o pão. Ironia ou não, de 2 anos pra cá tem surgido certo interesse acadêmico pela minha produção (gonzo)jornalística. Começou em abril de 2015, quando me convidaram pra In-Comunicações, uma semana de debates promovida pela UFS. Apesar de detestar falar em público, eu fui. 
Em 2016 o Cabrunco Zine virou tema do projeto de conclusão de Rafa Aragão, DJ rastafari e jornalista recém-formado. Agora é a vez de Julia de Lacerda, fotógrafa talentosa cuja tese sobre rock sergipano a trouxe até o Viva La Brasa.
Ela me entrevistou durante o carnaval. Logo eu, que nunca tive banda e mal consigo tocar a guitarra que comprei. Acho que vou precisar dumas aulas.
JULIA DE LACERDA - Você criou o Viva La Brasa, em março de 2005, em meio a um momento muito particular da sua vida e você fala bastante sobre a sua vida particular nas primeiras postagens do blog. Mas como surgiu a ideia de escrever um blog?
AUTÓGRAFO DO ALLAN SIEBER
VIVA LA BRASA - Os blogs surgiram como um diário virtual (web + log = weblog) e eu vinha de um retrospecto de zines e atuação independente fazendo festas e até um festival. Dois anos antes de criar meu blog eu me formei em jornalismo, não consegui emprego em nenhum jornal mas arrumei estágio numa produtora audiovisual e em 2 meses me tornei editor de imagens. No início de 2004 rolou um passaralho e eu fui um dos muitos demitidos da empresa. Resolvi gastar meu seguro-desemprego no Rio de Janeiro e passei algumas semanas hospedado no quitinete do Allan Sieber, que por acaso é um cartunista famoso e cineasta premiado (levou o Kikito de melhor animação por Deus É Pai em 1999). A princípio eu iria colorir algumas cenas do curta Santa de Casa, mas o computador que usaria na Toscographics quebrou e acabei vagabundando o resto do tempo que passei lá. Aproveitei pra ler os gibis e livros que tinham no apê, passei mais tempo na produtora dele do que na praia até que os bancos entraram em greve e complicou porque na época era preciso sacar o seguro na boca do caixa. Voltei pra Aracaju, tava até desenhando bastante mas não tinha computador muito menos scanner e precisava arrumar um emprego. Viva La Brasa surgiu de uma necessidade atávica de produzir e expressar as ideias que pipocavam numa cabeça chapada. Um jornalista que não tinha onde escrever, como eu gosto de dizer. Aí lembrei do blog do meu amigo Allan (Talk to Himself Show) e decidi criar algo parecido. Ao contrário dos zines, que são físicos, um blog necessitava de investimento mínimo – no meu caso, poucas moedas pra postar em lan houses. 
JDL - Com o tempo você foi conseguindo atualizar o blog com mais frequência, abordando diversos temas, como os shows que aconteciam na cidade, filmes, política (nacional e internacional), entrevistas etc. Havia algum planejamento do que você iria escrever em cada mês?
VLB - Arrumei emprego numa TV e comprei um notebook, essa foi a chave pra evolução do blog. Plataformas são importantes, até hoje não tenho um scanner, por exemplo, e isso mais atrapalha do que ajuda. Tenho um planejamento geral pro que eu quero fazer com o blog, ou através dele, mas os temas e pautas surgem a partir de fatos, histórias ou epifanias após um pega. 
PIN UP: INÊS. FOTO: PRITTY
JDL - Nas primeiras duas postagens do blog você diz que não sabe se um dia ainda lançará um livro (e você lançou) e se perguntava se alguém lia o blog. De lá pra cá, o que mudou? Você consegue ver um retorno das pessoas?
VLB - Mais gente lê o blog, mas quem mudou mesmo fui eu. Quando criei o Viva La Brasa tinha acabado de chegar aos 30, hoje tenho 42. A vida é feita de fases e meu blog reflete minha vida, é uma extensão dela. Consigo ver o retorno das pessoas, principalmente quando compram meu livro – o que eu recomendo fortemente e pode ser feito fácil no vivalabrasa.com. 
JDL - Ainda sobre o livro. São 280 páginas de textos escritos pro Cabrunco Zine (1995 -1997) e para o Viva La Brasa (2005-2012), além de quadrinhos, ilustrações e o prefácio escrito pelo Xico Sá. Como foi o processo de escolha dos textos e de produção do próprio livro? 
VLB - Em março ou abril de 2013 contratei um casal jornalista/artista pra editar e diagramar meu livro. Em junho ou julho me acidentei e perguntei pro editor sobre a seleção dos textos do blog. O cara deu um xilique inbox e, resumindo, não tinha nem começado o trabalho naqueles 2 ou 3 meses. Aproveitei que tava em casa de molho e em apenas 1 dia fiz a seleção dos textos. A partir daí foi peneirar o que caberia em 280 páginas, o que combinaria com a diagramação e resistiria melhor ao tempo. Como eu abri o crivo pro tal editor, muita coisa que eu teria incluído ficou de fora mas é assim que deveria ser numa democracia né. O detalhe é que toda a grana tava saindo do meu bolso. A diagramadora do livro passou 2 anos metendo a mão na massa e o trampo dela ficou uma beleza. Mesmo assim o livro saiu com problemas de revisão, impressão e encadernação. 
JDL - Qual a principal diferença, pra você, em produzir um texto pra um fanzine e para um blog?
VLB - São processos similares, em ambos você tem total liberdade pra fazer, dizer ou inventar o que quiser. As diferenças são de meios (físico/virtual), amplitude (com internet tudo fica mais fácil) e proposta (um zine de arte tem uma textura tátil que o espaço digital não proporciona, um blog tem a velocidade que um zine não é capaz de alcançar etc.). Quando eu fazia o Cabrunco praticamente não tinha acesso a internet, era tudo por correio mesmo. Hoje ninguém fica sem internet, nem que seja no celular. 
JDL - Com o tempo, a periodicidade das publicações passou a ser mais espaçada, mas com textos bem maiores (se compararmos com as primeiras postagens). Qual o motivo disso?
RASCUNHO DO RICK MAIA
VLB - Viagem. Acho que me empolguei com a falta de limites físicos do blog e quis passar o máximo de informações sobre aquele assunto que eu abordava, enquanto desenvolvia meu próprio estilo. Alguns textos ficavam enormes, ao passo em que eu também me envolvia em trabalhos cada vez maiores – de editor de imagens me tornei diretor de cena até gerenciar uma TV. Muito trampo. Hoje também não dá pra postar muita coisa, na maior parte do tempo. No fim de 2012, percebi a necessidade de mudar mais uma vez meu estilo de escrever porque a internet pede uma abordagem mais curta e direta. Parei por um tempo enquanto me concentrava na edição e só voltei a postar depois que o livro foi lançado em 2015. 
JDL - Você costuma acompanhar os fanzines que são produzidos hoje em dia? Qual a diferença que você vê entre eles e os que eram feitos nos anos 80/90?
VLB - Sim, recentemente comprei A Boca Quente, zine tipo graphic novel do Shiko, e Bambu, projeto lindão em xilogravura do MZK. Tenho a coleção do Know Haole, do Gerlach, e até umas coisas mais emo/feministas como os zines de arte do Jajá Felix e da Beatriz Perini. Só coisa fina. Os zines nos anos 80/90 divulgavam muitas bandas do underground mas essa necessidade a internet já supre, então hoje a produção tá cada vez mais artística e bem elaborada. Muitos zines são impressos em gráfica, das antigas só rolava xerox e mimeógrafo. Outra coisa interessante é que ao longo dos 90 os zines foram diversificando seu foco, feito o Cabrunco, Papakapika e Panacéa (que virou revista), e atualmente os fanzines – zines de fã – estão de volta porque os nichos se tornaram relevantes pra encontrar seu público-alvo. Márcio Sno, zineiro veterano, fez o Odair Jozine e conseguiu despertar a atenção do próprio homenageado, Odair José, que tocou no lançamento do zine no Cine Joia em São Paulo. 
JDL - O Cabrunco Zine tinha a mesma temática que o Viva La Brasa?
VLB - Ambos são consequência do que eu sou, penso e sinto, então sem o Cabrunco Zine jamais haveria Viva La Brasa.
TIRA DO ALLAN SIEBER SOBRE O TEMPO QUE PASSEI NO RJ
JULIA REGISTRA A CENA ROCK DE ARACAJU EM SEU FLICKR
E TAMBÉM ARRISCA ENSAIOS COMO ESTE NU ARTÍSTICO:
https://www.flickr.com/photos/julia_lacerda/

quarta-feira, novembro 09, 2016

VÁ DE RETRO 
QUARTETO FANTÁSTICO: REX, FÁBIO, MOROTÓ E JULIO

2016. Trump é eleito presidente dos EUA enquanto um dos principais países da América do Sul está sob golpe de estado engendrado pela CIA. A localização dessa república de bananas é estratégica para a geopolítica mundial, então a Rússia prepara uma invasão. O Kremlin aciona seus agentes das Indústrias Karzov, que operam no Brasil: Rex & Morotó Slim, que agora contam com o reforço dos espiões Fábio e Julio. Três baianos e um argentino.
Quando a realidade é mais estranha do que a ficção e parece roteiro de filme B, nada melhor do que uma trilha sonora à altura. ENIGMASCOPE Volume 1 [Temas Compostos e Executados pelos Retrofoguetes] é o terceiro álbum da banda de surf music surgida das cinzas dos lendários Dead Billies. Temático e sofisticado, vai do bolero à bossa nova sem perder o punch, com muito wet, tremolo, vibrato e faixas como Agente Duplo, Miss Cuba, O Homem de Moscou, Conexão Istambul, Ultrassecreto e Tic Tac Bum! 
De soundtrack eles entendem, têm no currículo um Leão de Bronze e Urso de Prata em Cannes pela trilha publicitária de War - Smoke Kills More. Durante muito tempo formando um trio com CH Straatmann no baixo, os caras sabem fazer festa. Fizeram o primeiro show na praia e, anualmente, realizam a Retrofolia no carnaval e O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes – que ganhou gravação em vinil pela Monstro Discos. Do time da Retrofolia foi recrutado o guitarrista Julio Moreno. “É um grande músico, apesar de argentino”, zoa Morotó. Sério, já peguei van com eles e as piadas não perdoavam nem os recém-finados Lemmy, David Bowie e Muhammad Ali. O produtor apenas ria e comentava: "São muito filhos-da-puta!"
A nova missão é invadir o espaço aéreo e bombardear Sudeste e Sul com riffs atômicos durante todo o mês de novembro. 17 de dezembro é a vez de Aracaju, o ataque será no Che Music Bar. Já vestidos com os macacões, interceptei os cosmonautas Rex e Julio antes da decolagem. Conversamos sobre planos secretos, arquivos confidenciais e Enigmascope, considerado unanimemente o melhor disco dos Retrofoguetes. Ao infinito e além – do rock.

VIVA LA BRASA - Pra uma banda de surf music, vocês sempre exploraram muitos ritmos e ambiências. A eletrônica lo-fi no Protótipo de Demonstração 1; a música cigana, circense, latinoamericana em Ativar Retrofoguetes; a guitarra baiana, música caipira e italiana em Chachachá… 
REX LEAL - No início, a ideia era fazer surf music instrumental e esse ainda é o viés da banda. Mas muitos outros gêneros nos influenciaram como músicos, então resolvemos trazer todas essas referências pro nosso trabalho. Foi muito bom porque acabou sendo nosso diferencial.
VLB - O quanto a mudança de formação com a entrada dos novos integrantes influenciou na composição e gravação do Enigmascope?
RL - Cada músico traz sua contribuição pro trabalho, naturalmente é assim. O som da gente mudou bastante com a entrada de Fábio e Julio, eles são músicos incríveis, muito experientes e talentosos, foi um grande upgrade pra banda. Além disso, foi a primeira vez que compusemos um disco de forma verdadeiramente coletiva e isso contribuiu muito pro resultado, pro entrosamento e consolidação dessa formação. Mas a grande mudança aconteceu com a entrada de Julio. Até então, Morotó era responsável por todas as melodias e harmonias, e precisava fazer um malabarismo incrível pra isso tudo acontecer. Com Julio foi possível elaborar mais os arranjos, tornando o som da banda mais rico em harmonias. Às vezes, Morotó sola as melodias e Julio faz as bases, em outras acontece o contrário, isso é muito bacana. O som dos dois é bem diferente e isso também trouxe uma riqueza maior. Somos bastante criteriosos e cada vez que iniciamos o processo de composição de um novo disco nos impomos o desafio de trazer algo melhor do que nos trabalhos anteriores. Sem dúvida conseguimos mais uma vez, o Enigmascope é um disco muito mais maduro, mais consistente. 
VLB - Julio, vi você tocando no Goiânia Noise Festival e pelo seu estilo sua base é jazz, talvez violão clássico. Acertei ou meu tiro passou longe?
JULIO MORENO - Hehehehe. São 40 anos de guitarra! Já passei por tudo, man, de banda cover de Lynyrd Skynyrd quando tinha 18 anos até tocar com Sarajane! Hoje tenho o Julio Moreno Trio. Sempre mantive algum projeto paralelo instrumental ao mesmo tempo em que tocava em bandas de baile e participava de coisas experimentais também. Sou curioso e gosto de encarar coisas diferentes, saltar no escuro.
VLB - Pensam em lançar o Enigmascope em vinil?
RL - Já estamos organizando tudo pra lançarmos em vinil no primeiro semestre do ano que vem.
JM - Se tudo der certo, gravaremos também o Vol. 2… Já tem músicas gravadas que ficaram fora do CD.
VLB - Todos os discos da banda foram produzidos por André T. Ele é o 5º retrofoguete? 
RL - Todos os registros, desde a demo, foram produzidos por André T, criamos uma amizade e uma parceria indestrutível ao longo desses anos. Acho que o resultado desse disco se deve muito a essa relação criada com ele, aprendemos juntos com as experiências anteriores e isso criou uma sintonia muito grande entre a gente.
VLB - Enigmascope é uma trilha sonora criada por vocês pra um filme que não existe (ainda). Mas em Chachachá já dá pra sentir uma influência forte de Henry Mancini e Ennio Morricone… 
RL - Bicho, na verdade sempre fomos influenciados pelos compositores do cinema. Mancini, Morricone, John Barry, Jerry Goldsmith, Lalo Schifrin, Piero Piccioni, todos eles foram grandes influências pros nossos temas. Esses caras usaram o que era radiofônico nos anos 1960, quando aconteceu um boom de filmes de espionagem, principalmente na Europa, pra criar as trilhas desses filmes. Juntaram surf music, rock, bossa nova, muzak, jazz, música latina, isso tudo já havia sido incorporado antes ao nosso trabalho. A diferença em relação aos outros discos é que pela primeira vez resolvemos fazer um trabalho mais temático, seguindo um roteiro predefinido. O conceito era perfeito pra gente trabalhar, foi só pensar nas cenas e criar as músicas. Resolvemos fazer a trilha sonora de um filme de espionagem que obviamente só existe nas nossas cabeças.  
VLB - No filme de vocês quem é o herói, o vilão, a mocinha e a bandida que dorme com o espião e morre depois?
RL - Vi muitos filmes de espionagem e nosso roteiro seguiu os clichês do gênero. Rola sempre o espião armado de gadgets até os dentes, irresistível para as mulheres; o vilão, um espião da KGB, frio e inescrupuloso, nosso homem de Moscou; e não uma, mas várias mocinhas se rendendo ao charme do nosso agente. Aí foi só pensar nas cenas de perseguição, mistério, suspense, romance e criar os temas.
VLB - E as Indústrias Karzov? A parte gráfica da banda tem inspiração na arte de caras como Rodchenko… Como andam os planos pra invasão russa ao Brasil?
RL - Na real, sempre cuidei da identidade visual da banda, sou designer e ilustrador e isso aconteceu naturalmente. As referências estão nos quadrinhos, cinema, livros de bolso, cartazes da guerra fria, trouxe tudo pra dentro do trabalho. Gosto muito da estética da antiga União Soviética e sempre brincamos com isso. Ano que vem, vamos entrar em estúdio pra gravar um EP só de polcas que batizamos com nomes de camaradas líderes da URSS. Já lançamos o single Brezhnev, vamos gravar as outras e lançar nas plataformas digitais.
VLB - Chachachá foi lançado na sala principal do Teatro Castro Alves com todos os músicos que participaram das gravações, dos teclados ao naipe de metais. E o lançamento de Enigmascope?
RL - As coisas andam difíceis, fazer uma produção como o lançamento do Chachachá é muito dispendioso, mas queremos lançar o Enigmascope no mesmo nível, talvez no início de 2017.
VLB - Como surgiu a ideia de lançar um disco como O Maravilhoso Natal dos Retrofoguetes?
RL - A gente sempre tocava uns temas natalinos nos shows que se aproximavam da data, aí André T nos convenceu a gravar e lançar o disco numa festa. Saiu em vinil pela Monstro. Depois disso, passamos a festejar todos os anos. Como somos uma banda instrumental, normalmente convidamos vocalistas e pensamos juntos em músicas que podemos tocar, isso é bem divertido. Ano passado foram só mulheres.
VLB - Este ano a gente se reencontrou em Goiânia. Vocês lançaram 2 discos pela Monstro, que é de lá. Quando os Dead Billies tocaram no Noise Festival, em 2001, botaram no bolso a principal atração da noite. Desde então vocês são adorados na cidade. Como é essa parceria?
RL - Lançamos o Ativar Retrofoguetes e o EP de natal, o Chachachá já saiu pelo nosso selo, Indústrias Karzov. A primeira vez que tocamos lá foi com a Dead Billies e tinha uma banda gringa que ia encerrar a noite depois da gente. Nós, sem querer, acabamos com eles. Foi um show incrível, estávamos na nossa melhor forma. Depois disso, tocamos três vezes com a Retrofoguetes e sempre fomos muito bem recebidos pelo público de lá, mas sempre somos parados por um monte de gente que lembra desse show dos Billies, uns dizem que montaram até banda por causa disso. Adoramos a galera da Monstro, sempre tivemos uma relação muito carinhosa com eles. Admiramos muito a garra dos caras e temos total respeito pela história que continuam escrevendo. Além de tocar com os Billies e a Retrofoguetes, toquei também com Nancyta & Os Grazzers e fiz a identidade visual da nona e da última edição do Goiânia Noise. Somos fãs de todos eles, Leo Bigode, Razuk, e Márcio Júnior e Fabrício que já não fazem parte da produtora mas são caras incríveis e totalmente responsáveis pela história.
VLB - Falando nos Dead Billies, tô sabendo que existe um disco inédito e não lançado da banda. Onde tá esse material e o que falta pra ser lançado?
RL - Tá no HD do André T, só falta mixar e masterizar, mas lançar é um assunto muito complexo. Acho melhor passarmos pra próxima pergunta…
VLB - Como foram os anos de Dead Billies? Vocês apareceram até no Programa Legal tocando psychobilly em cima de um trio elétrico…
RL - A Dead Billies sempre será nossa banda do coração, foi com ela que aprendemos nosso ofício, que amadurecemos como músicos e tivemos nossa primeira experiência profissional. Montamos a banda sem nenhuma pretensão maior, só queríamos fazer o som que a gente gostava de ouvir. Fomos a primeira e única banda de psychobilly da Bahia. Gravamos dois discos, Don’t Mess with The Dead Billies e Heartfelt Sessions, reunimos um público imenso e viramos uma lenda no cenário do rock nacional. Isso é muito foda, nos deixa muito orgulhosos.
VLB - Por que a banda acabou?
RL - Tudo um dia acaba, é assim mesmo.
VLB - Vocês são virtuoses que vêm da cidade baixa em Salvador. Quando começaram na música? Como se conheceram e passaram a tocar juntos?
RL - A cidade baixa sempre foi um reduto de grandes músicos, isso passa de geração pra geração. Eu, Morotó, Fábio, nosso atual baixista, e Joe [& a Gerência; baixista dos Dead Billies e de Pitty; um dos criadores da Retrofoguetes] começamos a tocar juntos no início de nossa adolescência, no final dos anos 80. Queríamos montar bandas e imitar nossos ídolos.
VLB - Vocês tocam com outros músicos nos intervalos das atividades da Retrofoguetes? 
RL - Sim, fazemos outras gigs, projetos paralelos como a Les Royales… Fábio, Julio e Morotó vivem exclusivamente de música e eu sigo conciliando a música com o design.
VLB - O que falta pra Retrofoguetes fazer uma tour no exterior? 
RL - Esse é um desejo antigo, estamos sempre tentando viabilizar isso mas não é assim tão fácil. Quem sabe ano que vem? Por enquanto, temos nossas músicas sendo executadas em rádios gringas e continuamos mandando nosso som pra tudo quanto é canto.
VLB - Algum de vocês surfa, ou já surfou? 
RL - Jamais, na cidade baixa não rola onda.
OS RUSSOS VÃO INVADIR O BRASIL. FOTO: CAROL ARAÚJO
GOIÂNIA NOISE FESTIVAL 2016. FOTO: VICTOR SOUZA
FILME DE ESPIÃO E LITERATURA BARATA. FOTO: BRASA

terça-feira, novembro 01, 2016

SONECA 
Reunião da Snooze é motivo de comemoração.
Quando começaram a tocar juntos, os irmãos Fábio Oliveira e Rafael Júnior eram apenas moleques que curtiam Pixies, Sonic Youth e Hüsker Dü. Fabinho tinha 14 anos na gravação da primeira fita demo e Rafael divulgava a banda através de cartas. Mesmo vivendo numa cidade pequena e distante dos grandes centros como a Aracaju dos anos 90, quebraram barreiras: emplacaram clipe na MTV, participaram de coletâneas nacionais e foram trilha sonora em comercial de surf.
Mais de duas décadas, três álbuns e inúmeras formações depois, a Snooze tá saindo de um longo período de hibernação. O último show foi em 30 de dezembro de 2014, na Festa da Antevéspera. O motivo é que seus integrantes são músicos requisitadíssimos. Rafael é baterista do Ferraro Trio, Maria Scombona, Classex Brothers, toca em bares acompanhando Julico dos Baggios e ainda participa de algumas apresentações da Orquestra Sinfônica de Sergipe. Fábio já foi professor de contrabaixo no Conservatório, volta e meia acompanha nomes como Patricia Polayne, Nino Karvan, Deilson Pessoa e Paulinho Araújo. O guitarrista Luiz Oliva, caçula do grupo, é engenheiro de som, produz discos e faz mesa em shows e festivais.
Amanhã, esse trio de ases volta a se reunir pra uma rara apresentação no Clandestino, evento sem fins lucrativos organizado pelo casal Ivo e Daniela da Renegades of Punk – banda em que Luiz também tocou. Só dos caras estarem de volta, já é lucro. Comentários como "aí eu vi vantagem" e "amo vocês" não faltaram nas redes sociais. Comoção geral. Afinal, a Snooze nunca acabou. Só tava tirando um cochilo.
VIVA LA BRASA - A demo que vocês lançaram em 95 abriu muitas portas numa era em que a internet ainda não tava tão disseminada e as informações não eram tão disponíveis…
RAFAEL JÚNIOR - Sim, a gente utilizava correios e telefone, não tinha internet. Fizemos de forma despretensiosa, não sabíamos onde ia dar, mas eu acompanhava o movimento dos zines e sabia que a qualidade da demo era muito boa. Mesmo assim foi surpresa ver tantas resenhas positivas em jornais e revistas como Folha de SP, Estadão, Rock Brigade etc. 
VLB - Quando lançaram o primeiro álbum em 98 vocês fizeram uma turnê pelo sudeste. Como foi gravar o disco de estreia por um selo paulista e fazer esse rolê? 
RJ - Marcelo Viegas, do selo Short Records que hoje é editor de livros pela Ideal, desenvolveu uma empatia com a banda logo no início e ficamos bem amigos. Ele foi o canal pra coletâneas, matérias, além de ter lançado os dois primeiros discos. Articulou parte da tour no sudeste também, hospedou a gente e tal. Mas antes dessa viagem já tínhamos viajado o nordeste inteiro por 3 anos seguidos. Só não visitamos São Luís no Maranhão. Fomos pro Piauí de carro, fazíamos 4 cidades de quinta a domingo, show em Salvador direto… Então a gente já tinha uma estradinha. No lançamento do disco em 98 passamos por Niterói no Rio e tocamos em São Paulo, São Bernardo do Campo e Jundiaí. Anos depois também fizemos Sorocaba e fomos em Goiânia duas vezes, através do pessoal da Monstro Discos.
VLB - Lembranças especiais, já que Daniel, guitarrista da banda falecido em 2010, também tava com vocês?
RJ - Daniel cativava a todos com seu jeito tímido e na dele, mas soltava os cachorros com as guitarradas no palco… Era bem brincalhão nas viagens.
VLB - Fabinho, como foi crescer na Snooze?
FÁBIO OLIVEIRA - Dá uma sensação boa olhar pra trás e a história da banda se confundir com minha própria história pessoal. Isso também é refletido no decréscimo da produção, na medida em que fui envelhecendo, o que é a parte chata mas, enfim, faz parte quando a premissa foi sempre ser um hobby levado a sério, e não meio de vida.
VLB - Luiz, como você entrou na banda?
LUIZ OLIVA - Em 2004, eu tocava na Triste Fim de Rosilene e fizemos uma minitour por São Paulo. Fabinho tava morando lá e foi ver o show, fomos apresentados e no dia seguinte nos encontramos por acaso numa loja de discos. Eu tinha 18 anos e tava imerso no circuito hardcore. Fabinho era o cara da Snooze e foi massa conhecê-lo naquela situação, já que eu tinha o maior carinho e respeito pela banda que conheci por causa da minha irmã Kika, que me apresentou a demotape quando eu era guri. Tempos depois, de volta a Aracaju, Fabinho apresentava o Programa de Rock junto com Adelvan Kenobi, eu tava no quarteto instrumental Perdeu a Língua e fomos convidados pra uma entrevista. Durante a conversa, surgiu o convite pra tirar um som com a Snooze. Isso aconteceu em 2007 e entrei na banda logo no primeiro ensaio.
VLB - O EP "Empty Star" é a única gravação com você na banda?
LO - Gravamos tributos pro Second Come e Pastel de Miolos. Poucos registros em estúdio, mas temos novas ideias e composições. Nunca conseguimos nos organizar pra gravar um novo disco, mas o ímpeto existe e penso que isso pode acontecer a qualquer momento.
FO - Eu tenho um quarto disco na cabeça há uns bons anos, e parei de me preocupar. Quando chegar a hora a gente vai gravá-lo e vai ser bem diferente de tudo que a banda fez até hoje.
VLB - Como cada disco marcou vocês, já que foram gravados entre grandes intervalos de tempo e com diversas formações?
FO - À medida que convive com pessoas diferentes, que se tornam próximas, sua personalidade também vai mudando. Com certeza existe um Fabinho em cada um dos trabalhos…
RJ - Todos os músicos que passaram deram sua influência, isso é um processo bem natural. A única formação meio criticada pelos fãs mais antigos foi sem a presença de Fabinho, ele continuava na banda mas tava morando em SP e era importante manter a atividade naquele momento específico em que lançamos o terceiro álbum.
VLB - Rafael, voce sempre foi um cara muito ativo: é bombeiro, surfista fissurado, pai de 3 filhos e toca com meio mundo de gente. Como arruma tempo e disposição pra tanta coisa?
RJ - Sou músico full time e é o que sei fazer na vida. Encontrei remuneração fixa na área através de concursos públicos, em 1995 pra Orquestra e em 2002 pra Banda de Música do Corpo de Bombeiros. Sempre conciliei essas atividades com o surf e a criação dos filhos, tocando com artistas que me chamam e em casas noturnas e bares. Paralelamente, também dou aulas. Entre 2007 e 2013 ainda encontrei tempo pra fazer graduação em Música pela UFS.
VLB - Fabinho também tem formação musical, além de Psicologia, confere?
FO - Confere, mas ainda sou formando em licenciatura em Música. Também dei aulas de inglês e atualmente sou coordenador musical no Sesc.
VLB - E Luiz se especializou em engenharia de som…
LO - Eu já brincava com áudio desde moleque, quando comecei a tocar aos 13 e gravar minhas idéias em K7 num microsystem Aiwa que tinha uma entrada de microfone e num gravador de jornalista que me permitia gravar ambientes na rua. Logo depois chegou o computador e pude implementar a danação. Em 2009 me candidatei a uma vaga de estágio na Fundação Aperipê, logo após ter feito o curso de desenho de som e captação de som direto no Núcleo de Produção Digital Orlando Vieira, e foi aí que a parada ficou mais séria. Fui selecionado e depois de um ano de trampo meu ex-chefe saiu e fui convidado a assumir o lugar dele. Fiquei lá até 2012, tive a chance de aprofundar meus conhecimentos em diversos segmentos da produção de áudio e aproveitava todas as férias e folgas pra fazer cursos dentro e fora do estado. Entre o som ao vivo, estúdio e audiovisual, pude trabalhar com orquestra sinfônica, grupos folclóricos, bandas do pé-de-serra ao thrash metal, documentários e longas-metragens.
VLB - O clip de "704", cover do Second Come, foi gravado no seu estúdio em casa?
LO - Eu tinha acabado de me mudar pra um apartamento e o registro aconteceu nesse fluxo. Tudo muito simples, filmamos com uma condição: os takes que constam no vídeo deveriam ser os mesmos da faixa gravada. Sem dublagem. Elialdo Galdino, grande comparsa e editor deveras competente, foi o responsável por tornar a ideia possível. O Second Come é uma banda histórica e o tributo saiu pela Midsummer Madness, do Rodrigo Lariú.
VLB - A clássica pergunta: por que cantar em inglês? Sei que vocês não gostam dela e que a Snooze surgiu num período em que as guitar bands brasileiras procuravam mesmo se distanciar do "Rock Brasil" dos anos 80. Mas nunca surgiu a inspiração pra uma letra em português?
FO - O que posso dizer é que, apesar de não ser minha língua mãe e eu nem sequer ter morado na gringa, as letras em inglês soam pra mim naturais, descobri esse universo através dos discos. O rock brasileiro eu já havia esgotado na pré-adolescência, então tudo o que soava e eu internalizava era em inglês. Então é meio fazer algo que você já tem prática. Compor em português seria começar do zero e, não, não estou interessado.
VLB - As letras da Snooze são existenciais e sentimentais. Como é tocar num evento mais engajado e combativo como o Clandestino? Onde essas linhas se cruzam?
FO - Nossa linha de combate é o rock, quer mais? 20 anos de suicídio comercial e você quer mais? Brincadeiras à parte, nós fomos convidados pra tocar na última edição com o Wry, mas a data chocou com minhas atividades no Sesc. Ficamos felizes com a insistência e o convite pra esse agora.
LO - Toquei a primeira vez no Clandestino em 2014, numa edição especial da Triste Fim de Rosilene e Karne Krua. Aconteceu no half pipe do conjunto Inácio Barbosa e foi surreal! Chego junto com o projeto sempre que posso, realizei um minidocumentário da décima edição, gravei o áudio de outras tantas e só de comparecer e ocupar os espaços já sei da importância que isso confere. O hardcore exerceu uma influência brutal na minha vida. Aos 17, quando recebi o convite do Ivo pra entrar na TFR, eu era o típico moleque que não tinha família com condições pra me bancar e tocar guitarra era a melhor coisa que eu sabia fazer. De cara, me vi inserido num circuito articulado, que se nutria do faça-você-mesmo e que prezava por uma vida mais simples e autônoma. Conservo essas posturas até hoje e entendo a capacidade de articulação que só os coletivos podem exercer. É massa perceber que estamos na ativa e podemos contar uns com os outros até hoje.
RJ - Adorei o convite pro Clandestino, é um evento autêntico e honesto, feito por pessoas que confiamos e também admiramos. Acho que vai ser bem legal e é uma oportunidade pro pessoal mais novo que nunca viu a banda, já que a gente tem tocado tão pouco.
VLB - Vocês imaginavam que aquela banda de irmãos que ensaiavam no quarto se tornaria cult 20 anos depois?
FO - Era tão espontâneo que a gente nem pensava. Fazer planos era mais no nível do fantástico do que realidade. 
RJ - Às vezes acho até graça e penso que é supervalorizada, sei lá. Nossos fãs acabam se tornando amigos. Por outro lado, tem uma galera nova que não faz ideia de nada, o que já fizemos e por onde andamos. Pra mim o meio termo tá bom. Fizemos nossa parte e de alguma forma abrimos caminho pra uma galera que tá aí.
VLB - O que vem pela frente pra Snooze?
LO - A Rússia invadindo ou não o Brasil, vamos fazer um show irado no Clandestino!
RJ - Espero que venha mais material novo e não apenas shows saudosistas. Aviso que tá confirmada a Festa da Antevéspera dia 30/12, nos encontramos lá!
SNOOZE COM DANIEL EM 1996. FOTO: HOMEM-BRASA
FESTA DA ANTEVÉSPERA. FOTO: MICHAEL MENESES
DISCOGRAFIA
Snooze (demotape) - 1995
Waking Up… Waking Down (álbum) - 1998
Let My Head Blow Up (álbum) - 2002
Snooze (álbum) - 2006
Empty Star (EP) - 2012