sexta-feira, dezembro 30, 2005

PRA NÃO PASSAR EM BRANCO Na manhã do dia 25 de outubro de 1975, Wladimir Herzog apresentou-se ao centro do DOI-Codi, na rua Tutóia, em São Paulo. “DOI-Codi” significava Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão repressivo do regime militar. Diretor de jornalismo da TV Cultura, Herzog fora convocado na noite anterior por agentes do serviço de inteligência da ditadura p/ prestar depoimento sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), proibido à época. Seu depoimento, no entanto, foi uma sessão de tortura.
Vladimir Herzog, vulgo “Vlado” p/ os amigos, foi preso, torturado e morto no mesmo dia em que se apresentou às forças armadas. 30 anos após o ocorrido, seu assassinato continua relevante. Em nota divulgada na ocasião, o Exército informou que Herzog admitira ser membro ativo do PCB, e que teria se enforcado com o cinto do uniforme de presidiário após denunciar seus companheiros de esquerda.
Em outubro de 2004, quase 20 anos após o fim da ditadura (1964-85), o caso Herzog voltou à tona c/ a divulgação de supostas fotos inéditas do jornalista, nu na prisão, antes de ser morto sob custódia. Os militares dessa vez divulgaram nova nota, que dizia que “as medidas tomadas pelas forças legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo”. Essa frase pegou tão mal pros milicos que até o presidente Lula veio a público exigir retratação pública do comandante do Exército, gal. Francisco Albuquerque. Em seguida, o secretário de Direitos Humanos, ministro Nilmário Miranda, divulgou nota negando que o retratado nas fotos fosse Vlado. A viúva do jornalista, entretanto, discordou: “Eu o reconheci na foto que ele está abaixado e de frente. Sei que é ele. Conheço meu marido.”
Pois bem, se Herzog estava preso sem roupas – o que por si só já é uma grave violação dos direitos humanos – como ele pode ter se enforcado c/ um cinto?... Seu corpo foi apresentado à imprensa da época pendurado em uma grade mais baixa que sua altura. Mesmo assim, o laudo do médico-legista Harry Shibata sustentava a tese de suicídio. Segundo o jornalista Elio Gaspari em “A Ditadura Encurralada”, aquele foi o 38º “suicídio” de presos do regime militar, e o 18º por enforcamento.
Baseado no conceito da “Doutrina da Seguraça Nacional”, disseminado a partir da National War College dos EUA, o regime militar brasileiro criou uma série de órgãos voltados p/ dar combate ao “inimigo interno”. Estabeleceu-se, então, uma estrutura verticalizada que ia desde instâncias de controle até o gerenciamento da atividade repressiva, que ocupava o topo da pirâmide hierárquica. Tudo isso começou com a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) e a implantação do Ato Institucional nº5 (AI-5), a partir de 1964.
Centenas de militantes de esquerda foram presos e torturados em São Paulo no ano de 1975. A onda de prisões foi a resposta da linha-dura do Exército à vitória do MDB nas eleições de novembro de 74. Mas, p/ o rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita Paulista, o assassinato de Herzog foi um tiro pela culatra do regime militar: “Foi o catalisador da abertura política e da restauração da democracia. Esse fato será sempre a recordação dolorosa de um sombrio período de repressão, um eco eterno da voz de liberdade que não se cala jamais.”
A Sociedade Israelita não aceitou a versão oficial e decidiu não enterrar o jornalista na ala destinada aos suicidas. Segundo a tradição judaica, os suicidas são enterrados nos cantos dos cemitérios, uma maneira de recordar do pecado que é tirar a própria vida. “Vi o corpo de Herzog. Não havia dúvidas de que ele tinha sido torturado e assassinado”, disse o rabino Sobel. “Resolvi que Vlado deveria ser enterrado bem no centro do território sagrado, c/ todas as honras de judeu e brasileiro honrado que ele era.”
Em 1978, o legista do caso confessou ter assinado o laudo necroscópico da vítima sem examinar ou sequer ver o corpo, e a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Herzog. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos também reconheceu e admitiu o fato, e estabeleceu uma indenização p/ sua família. 30 anos após sua absurda morte, a memória de “Vlado” permanece como símbolo da liberdade e dos direitos humanos. Para o rabino Henry Sobel, contudo, a sociedade brasileira ainda não absorveu a lição: “Infelizmente, a redemocratização do país ainda não acabou c/ a tortura de presos. Não basta alguém defender
nossos direitos, é preciso que a solução parta da sociedade como um todo.”

saiba mais: www.resgatehistorico.com.br www.desaparecidospoliticos.org.br

segunda-feira, dezembro 19, 2005

VENCER NÃO É TUDO (MAS É 100%)Slater é o cara! Além de ganhar uma belíssima grana pra viver de pegar onda, agora o cara tá pegando a brasileira mais desejada do planeta, Gisele Bündchen. Tudo bem que o Kelly Slater é 7X campeão mundial de surf. Mas, embora bastante justo, é ½ chato que a história seja escrita apenas pelos vencedores. Como eu também surfo, e sempre tive predileção pelos anti-heróis, decidi fazer uma lista de alguns dos surfistas mais desgraçados de todos os tempos, aqueles que, apesar de quebrarem as ondas, nunca conseguiram lidar muito bem com o sistema e quase sempre foram engolidos por ele. O Slater é o maior de todos os tempos e influenciou o jeito de surfar do mundo todo, mas esses são os meus heróis no surf:

Mickey Dora> o “rei de Malibu” dos anos 50 foi o personagem mais selvagem e anti-social do surf... aterrorizava os haoles que cometiam o enorme vacilo de entrar nas suas ondas (sua prancha era uma arma), saiu de cena voluntariamente à medida em que o surf atingia as multidões, e passou 3 décadas viajando o mundo sendo caçado pelo governo americano por sonegação de impostos. Morreu há alguns anos, recluso e underground, do mesmo jeito que sempre viveu.
Michael Peterson> enquanto quis, foi o principal nome do surf competitivo da Austrália nos anos 70 – venceu os maiores eventos da época, e acendeu o fogo por competições que instiga os aussies até hoje... tinha um estilo moderno e radical, mas o uso de heroína abriu umas portas obscuras dentro de sua cabeça, e ele parou de surfar pra sempre. Hoje, cinquentão e pesando 125kg, leva uma existência à la Syd Barrett, seqüelado e recluso na casa da mãe.

Buttons> negão black power dos anos 70, que aplicava manobras que só seriam usadas 20 anos depois... caiu nos ostracismo nos 80, se meteu numas tretas erradas, foi em cana uns anos, mas ainda pega onda (vários havaianos black trunk tiveram problemas c/ a lei, tipo o Marvin Foster, Johnny Boy e Kala Alexander, o local mais chato da atualidade).

Jim Banks> australiano dos anos 70, abandonou as competições ainda novo p/ ir atrás de ondas tubulares e perfeitas (na época, o circuito mundial era realizado em praias que pudessem lotar de gente na areia, ondas eram secundárias)... entre outras viagens, desenvolveu uma prancha feita c/ resina de cannabis.

Simon Anderson> competidor nos anos 70, época em que se surfava com pranchas de 2 quilhas, inventou a triquilha, usada por 100 entre 99 surfistas hoje em dia. Se esse cara tivesse patenteado sua invenção, estaria mais milionário que o Slater, mas vive até os dias atuais na sua sala de shape, tomando pó de poliuretano na cara e ganhando uns trocados.

Mark Occhilupo> conhecido como "Raging Bull" nos anos 80, apelido ganho ainda moleque por causa das suas patadas descomunais nas ondas e das merdas que aprontava consigo próprio, que nem o Jake La Motta... “Occy” é protagonista da maior história de redenção do surf: chegou a pesar 110kg e ser considerado acabado, mas voltou depois dos 30 e foi campeão mundial surfando muito... fora de série, é a exceção que confirma a regra.

Tom Curren> mestre do estilo – quem surfa bonito hoje deve muito a esse cara. Tricampeão do mundo, recordista de vitórias no circuito mundial, desistiu das competições desestimulado com a saída de Occy, no fim dos 80... perdeu patrocínios, fez um monte de filhos pelo mundo, tornou-se guitarrista de jazz, e voltou a competir depois dos 35, para pagar as contas...

Martin Potter> inglês, criado na África do Sul, precursor dos aéreos e do surf moderno, apareceu no cenário aos 15 anos (tipo o Occy e o Peterson Rosa) arrepiando tudo, mas seu surf anti-convencional p/ a época fez c/ que um dos mais respeitados jornalistas do surf (Derek Hynd, o caolho) sentenciasse numa resenha: “o Pottz nunca vai ser campeão mundial!”; bom, o cara ficou mordido c/ essa declaração e venceu o circuito do ano seguinte c/ 7 vitórias – uma marca similar às de Curren e Slater em seus melhores anos...

Matt Archbold> americano, outro cabeludo precursor dos aéreos, junto c/ Pottz e Christian Fletcher (outro louco, filho do inventor do Astrodeck); chegou a correr o mundial nos anos 80, mas era porra-louca demais e nunca arrumou nada... foi preso, não lembro porque, mas hoje é um ícone pros yankees. Aficionado por velocidade e carros tunados (estilo old school), tem o corpo quase fechado de tattoos.

Dadá Figueiredo> punk, dreadlock, junkie, Dadá foi o surfista brasileiro mais perigoso do seu tempo... Tinha um surf quebrado que estava pelo menos 10 anos à frente, foi top do Brasil por vários anos, além de campeão carioca em 89. Shapeava suas próprias pranchas, que tinham marcas como Anti-Fashion e Necrose Social. Ouvia hardcore e tocava baixo na Os Nor+. Tomou várias facadas em um bar carioca, em 1990, e nos anos seguintes foi sumindo aos poucos, chegando a parar de surfar no auge da loucura – ficou viciado em cocaína e beijou a sarjeta. Depois, mais velho, arrependeu-se dos pecados (eram muitos), converteu-se ao cristianismo, casou-se, e hoje é um respeitável shaper e professor de surf na Barra da Tijuca. Um cara de extremos.

Nicky Wood> é até hoje o surfista mais jovem a vencer uma etapa do circuito mundial – venceu em Bells aos 16 anos! Mas sempre foi fissurado em festas e drogas, e se perdeu nas nights apesar de ter vencido um punhado de eventos (inclusive no Havaí). Era magro e tinha o cabelo bem preto, totalmente diferente do estereótipo do surfista. E ainda fumava cigarro! Venceu 2 Hang Loose Pro no Brasil saindo direto da balada pras baterias. Bizarro!

Richie Collins> por falar em bizarro... esse tinha o estilo mais alien que eu já vi: magro, base abertíssima, cabelo moicano, shapeava as próprias pranchas, surfava c/ horríveis luvinhas (essa porra foi moda por um tempo) e, mais importante, nunca sorria.

Olimpinho> várias vezes campeão baiano nos anos 80, era o herói da praia onde aprendi a surfar, a Caracas – hoje em dia essa praia é considerada a mais perigosa em termos de localismo da Bahia, porque quem surfa lá é a rapaziada da gigantesca favela do Nordeste de Amaralina (imagina a Rocinha, é por aí), o mesmo lugar de onde o Olímpio saiu. O cara é um negão pesadão que manda muito bem – quebra as ondas, mas tem um estilo muito polido. Sempre sofreu c/ falta de grana e patrocínio, mudou-se p/ o Rio nos anos 90 e só emplacou mesmo quando começou a surfar de pranchão. Foi campeão brasileiro de longboard em 1999 (venceu 2 etapas, inclusive o internacional da Red Bull) e até hoje vive do mar. A última vez que surfei na Amaralina foi nesse mesmo ano, e deu pra sentir que o clima por lá tava pesado. Ano passado, meu irmão subiu a favela procurando os 2 irmãos mais novos de Olimpinho, Batata e Mimi, ambos amigos nossos; a resposta que ouviu da rapa local foi: “rei, Batata ta na detenção e Mimi, mataram”...
Essa foi minha escola de surf.
@dolfo s@´- também conhecido como "homem-brasa", mora na praia e não apaga na água

quarta-feira, dezembro 14, 2005

HELLO MY NAME IS DUNIA
Conheci Dúnia Quiroga ano passado, no Rio de Janeiro. Na época, ela estava lançando o charmoso livrinho de bolso Terríveis Desenhinhos. Nascida em Manaus e radicada em São Paulo, mantém há alguns anos um dos blogs mais finos da internet. Artista gráfica, quadrinista, editora de vídeo, aficionada em dub, tattoo e graffiti, a Dúnia é uma garota cheia de predicados...
- Por que vc mudou do RJ p/ SP?
- Desde que fui em São Paulo pela primeira vez em 94, senti uma puta atração por essa cidade, ficava pensando que um dia eu iria ter que morar aqui. Ano passado surgiu um trampo de assistente na montagem de um longa duma produtora de Sampa, essa foi a chance. O trampo acabou e eu fui ficando... O Rio é fodão mas vive de um saudosismo... O Rio ainda vive aquela onda bossa nova, posto 9, hippies com um puta sobrenome, apê e carrão sabe? Parece que tudo tá entre “slow motion” e “reverse”, não tem cena, as pessoas não se encontram, não se divertem, o que rola é encher a cara e se jogar na praia... Sei lá, parece que em São Paulo informação circula melhor, não fica tão restrita aos boys da zona sul como é no Rio.
- Como vc começou a editar vídeo?
- Eu queria trampar com animação, ficava alugando um amigo pra descolar um estágio num estúdio de finalização, aí um dia ele falou: “estágio em animação não rola mas tem um em edição...”, aí eu caí dentro, me amarrei...
- Que tipos de trabalho costuma fazer?
- Trampo direto com cinema, mas agora, estando em Sampa, vou ter que cair pra publicidade, que é o que vira aqui.
- Já editou algum zine, antes ou depois do “Terríveis...”?
- Não, o “Terríveis...” foi a primeira experiência, tímida, preguiçosa, sabe como é que é...
- Você acredita mesmo que a “revolução” virá através da música, como disse numa HQ recente (Tarja Preta #4)?
- Sim, se vier . Essa hq é uma homenagem ao Black Alien e suas músicas.
- Quantas tattoos você tem?
- Por enquanto 6.
- Pretende fazer mais?
- Vontade sempre dá...
- Planos p/ 2006?
- Planos?...

terça-feira, dezembro 13, 2005

350 (parte 2) - BABILÔNIA AINDA QUEIMA

>De Hechando Xingazos/RJ:
>>A linha Passeio-Irajá é explorada por uma empresa que atende boa parte da Zona Norte; eles também têm a linha 629, que é um verdadeiro "transfavela". O 350 sai do decadente centro financeiro e político do Rio, no Passeio Público, o primeiro parque público da cidade, que buscava ares mais europeus no século XIX, e termina no bairro de Irajá, que também já conheceu dias melhores. Ele atravessa boa parte da Zona Norte e cruza várias favelas, cada uma pior que a outra. Essa é uma parte da cidade que tem o simpático apelido de Faixa de Gaza. São verdadeiros barris de pólvora onde a princípio qualquer fagulha poderia detonar uma explosão.

>>Só que as pessoas que habitam esses lugares são pacatos trabalhadores, mais preocupados com o sustento da familia sempre numerosa, mas submetidos ao poder das armas de guerra do tráfico, que comecou a crescer nos anos 80 com a chegada de traficantes da América Latina, e agora dá as ordens por lá. O perigo de um quebra-quebra generalizado parece distante, mas o medo do cidadão carioca, seja ele habitante do asfalto ou do morro, cresce a cada dia, amplificado pela imprensa...

>>O tráfico não estava inocente nessa história. O que aconteceu, segundo a mídia (que não é 100% confiável) é que um cara (um mero peixe pequeno) resolveu mandar incendiar um (ou uns, vai saber) ônibus. Mas morreram algumas pessoas e isso atraiu MUITA atenção. Quase todo mês incendeiam ônibus no subúrbio (periferia é coisa de paulista, por favor) e fica por isso mesmo. Como a opinião pública foi mobilizada, a polícia teria de dar uma resposta séria e isso iria prejudicar o faturamento deles por alguns dias. Não acredito que exista essa entidade, um “supercomando criminoso organizado”. O que temos são uns zegalinhas que a mídia adora promover.

quinta-feira, dezembro 08, 2005

350 - BABYLON IS BURNING
quantas famílias ainda irão chorar?

De Bruno Privatti/RJ:
>Lembra daquele festival na Lapa em 1997 que tu conseguiu a pulseirinha pra entrar? Engraçado. Você esteve aqui c/ o Digão e o Marcel e a gente viu no RJTV que o pessoal das favelas estava começando a queimar coisas. Até pra gente era surpresa...
>Aquele ônibus incendiado na semana passada, foi perto da casa da minha namorada. Eu mesmo já peguei essa linha várias vezes. Ele passa por umas favelas barra-pesada, uma parte do Rio conhecida como "Faixa de Gaza". Essa parte da cidade é muito fodida, abandonada mesmo.
>A irmã dela pegou esse onibus esse dia. Só que passou uma meia hora antes...

De Leonardo Panço/RJ:
>(...)procura uma matéria q tá no site nominimo. é muito mais complexo ainda do q o cara escreveu, mas o q ele fala já explica muito. o bus queimado foi a uns 4 quarteirões d casa. 500 metros mais ou menos.
>por aqui tá bem rock mesmo. não tem jeito. rio é foda,mas é foda. entende?

De Adolfo Sá/SE:
>...O Bruno e o Panço referiam-se ao incêndio no ônibus da linha 350 (Passeio-Irajá), na Penha, subúrbio do Rio de Janeiro, na noite de 29/11/2005. 11 pessoas ficaram feridas e 5 morreram. A guerra do morro X asfalto já dura décadas, e à medida em que as favelas cariocas estabeleciam-se como sociedades à parte, leis próprias foram impostas pelo tráfico, que ocupa um espaço que o poder oficial sempre desprezou.
>Quando eu estive no RJ ano passado, por duas vezes foram encontradas granadas em bairros da zona sul – Lagoa Rodrigo de Freitas e entrada do túnel que leva à Barra da Tijuca. O mais assustador nisso é que a guerra civil carioca não-declarada atinge cada vez mais gente inocente. Neste incidente mais recente, por exemplo, além das vítimas diretas, estavam envolvidas duas meninas de menos de 14 anos, usadas como chamariz p/ que o ônibus parasse naquele ponto onde foi incendiado.
>A inspetora-chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes do RJ, Marina Maggessi, não crê que a execução tenha sido ordenada pelos chefes do tráfico, e sim por uma pequena quadrilha que agia na região: “O bandido também se revolta porque ele sabe que quem anda de ônibus são os pobres, os miseráveis, os favelados. E eles são seus parentes. Os bandidos não concordam com esse tipo de ação, de partir pra cima de inocentes. Entretanto, ele não pode prender os culpados e entregá-los à polícia. Então, o bandido segue a lógica de cortar a própria carne e o tribunal da máfia só tem uma pena.”
>No dia seguinte ao ataque, quatro corpos foram encontrados no porta-malas de um carro abandonado próximo ao local onde ocorreu o incêndio, c/ um bilhete que os responsabilizava pelo atentado. Sobreviventes do ataque reconheceram, no IML, dois dos quatro homens mortos. É a lei do cão.

terça-feira, novembro 29, 2005

SEARCH & DESTROY
Show dos Stooges no Brasil! Essa foi p/ pagar meus pecados... A minha banda favorita de todos os tempos vem tocar no meu país e eu não consegui ir. Além de morar bem longe das cidades onde Iggy e sua banda se apresentaram (RJ e SP), os ingressos custavam entre R$ 100 e 120,00. O show dos Stooges no Brasil entra p/ minha longa lista dos que eu perdi: Beastie Boys, Sonic Youth, Pixies, Mudhoney, Manu Chao, MC5...
Não há nada mais a ser dito sobre Iggy Pop: o cara é uma lenda viva porque se recusou a morrer. Já foi chamado de “a mais exageradamente audestrutiva criatura do showbusiness”, por seu estilo selvagem de viver e se apresentar nos palcos: Iggy foi o primeiro roqueiro a pular de um palco em pleno show, em 1968 – estava inventado o stage diving; Usou tanta heroína que as paredes de sua casa eram manchadas de sangue; Comeu todas as hippies de Detroit nos anos 60 e todas as punks de Nova Iorque nos 70; Rolava em cima de cacos de vidro, abaixava as calças, chamava o público pro pau...
Junto c/ os irmãos Ron (guitarra) e Scott (bateria) Ashton, e do baixista Dave Alexander (morto em 1975), formou os Stooges (“patetas” em inglês) e inventou um jeito mais cru e selvagem de tocar música, praticamente criando o PUNK – as primeiras bandas do gênero, tipo Ramones, tinham os Stooges como modelo principal. Lançaram 3 álbuns que são clássicos da fudição: “The Stooges” em 1969, “Funhouse” em 70, e “Raw Power” em 73. A banda acabou, na época, como um fracasso de público e crítica. 30 anos depois, voltaram a se reunir. Nesse meio tempo, porém, Iggy manteve uma carreira solo bem estável, e é praticamente em cima da fama dele que a banda voltou. No baixo, Mike Watt, ex-Minutemen.
Aos 58 anos, Iggy explica o motivo da reunião após 3 décadas de separação: "Não posso responder pelos outros, mas p/ nós levou esse tempo porque eu não tinha confiança de que seria tão bom quanto está sendo. Foi um choque quando a banda se separou [em janeiro de 1974, após um show que acabou em confusão generalizada, com Iggy brigando com uma gangue de motoqueiros]. Minha música chegou a um ponto em que não sabia o que fazer. Aí chamei os caras novamente. Não foi nada planejado. Eles vieram para tocar em apenas uma música. Aí eu disse: ´Que tal mais uma?´. Depois: ´Que tal mais quatro?´. Foi assim."
Dizem que o rock morreu e esqueceram de enterrar. Iggy Pop & the Stooges são a prova viva de que vaso ruim não quebra fácil. No Brasil, tocaram “Dirt”, “1969”, “Fun House”, “Real Cool Time”, “Not Right”, “No Fun” e “I Wanna Be Your Dog”, uma lista que me dá vontade de chorar de tão foda. Quando eu ficar velho quero ser que nem o Iggy.

sexta-feira, novembro 25, 2005

S/ COMENTÁRIOS
“Seja bem-vindo à ADM: só má sorte e consciência pesada!”... A frase de Allan Sieber me lembrava aquela inscrição que se lê na porta do inferno em “A Divina Comédia”: “aquele que por aqui passar, deixai pra trás toda a esperança”. Na verdade, na porta do inferninho que a gente estava entrando tinha escrito apenas “Pantera´s”, um bar de strip-tease que já foi uma casa de show chamada “Little Hell”. O mundo dá voltas.
Ano passado, quando eu tava na merda – havia sido despedido e não passava por uma boa fase c/ as mulheres – me joguei pro RJ e quem me deu uma força foi o Allan, cineasta tosco e cartunista quase famoso, velho chapa dos tempos de zines. Na época, ele havia acabado de lançar o “Preto no Branco”, seu 1º livro, mas também não tava muito legal – inchado de tanto beber e fumando 2 maços de cigarro por dia. A princípio eu iria colorir parte do“Santa de Casa”, o novo projeto de animação da sua produtora de vídeo, a Toscographics. Mas a maldição ADM bateu forte, e durante minha estada só rolou merda: o computador que eu ia trampar quebrou, o apartamento foi arrombado por ladrões, e nós passávamos fome direto, apesar de nunca faltar cerveja na geladeira – que ficava na sala... Daí eu voltei p/ casa e o Allan foi despejado.
Este ano as coisas estão melhores, pra mim e pra ele. Eu tô c/ um novo emprego e uma namorada firme. Ele ganhou o prêmio HQ Mix de melhor álbum de humor nacional por “Preto no Branco” e lançou mais 2 livros: “Vida de Estagiário”, pela Conrad, e “Sem Comentários”, pela Casa 21; está c/ uma revista de humor nas bancas, a “F.”, feita em parceria c/ os cartunistas Leonardo e Arnaldo Branco; o “Santa de Casa” finalmente ficou pronto e deverá ser lançado em breve e o longa “Sou Feia Mas Tô na Moda”, de sua ex-esposa e sócia na Tosco, Denise Garcia, está bombando por onde passa. E ainda tem o documentário “Pereio Eu Te Odeio”, que está em andamento...
O Grande Bastardo esteve aqui na cidade no último final-de-semana p/ um workshop de animação patrocinado pela Casa Curta-SE, espaço de cinema da incansável Rosângela. Fez uma présa me descolando uma cópia do seu mais novo livro. “Sem Comentários” é a transposição p/ o papel do blog que o Allan mantém há 3 anos e é um sucesso de público na internet. Com formato de calendário e recheio colorido, mistura quadrinhos, charges, ilustrações e textos autobiográficos do autor, uma espécie de Bukowski e Sid Vicious juntos numa pessoa só.
C/ vcs, alguns dos melhores (ou piores, dependendo do ponto de vista) momentos de Allan “Sem Comentários” Sieber:

“Sempre tive medo de ser preso e me fuder porque não fiz faculdade e nãotenho direito a cela especial. Esse é o único motivo pelo qual me submeteria a anos de estudo.” (05/05/03)

“Hoje em dia parece que todo mundo já nasceu com um celular enfiado no raboe NÃO existe outra forma de se comunicar.” (25/05/03)

“Voltei da minha Misery Tour pela Europa. Fui com 10 reais e voltei com 20euros. Me dei bem, afinal isso quer dizer um lucro de mais ou menos 60reais.” (23/12/03)

“Tenho dificuldade em me concentrar. Converso com as pessoas mas não ouço oque elas dizem. Leio um livro e ao chegar na metade preciso voltar para ocomeço porque esqueci quem é quem na história.” (09/08/04)

“Estou tão na merda, mas tão na merda, que o João Moreira Salles estápensando em fazer um documentário sobre minha vida. (...) E esses diasestava comendo uma coxinha e vi que tinha um tiozinho tirando fotos de mim.Olhei pra trás e era o Sebastião Salgado.” (07/12/04)

trilha sonora indicada: “I don´t know what to do with myself” - the White Stripes

segunda-feira, novembro 14, 2005

TARJA PRETA

“Terrorismo editorial”, é como Matias Maxx define a sua revista de “quadrinhos & anti-proibicionismo”. Pegando no pé das autoridades e metendo o dedo na ferida, o cucaracha vem fazendo estragos desde 2003, ano em que lançou a 1ª edição da TARJA PRETA. Com uma equipe de colaboradores que vai de putas velhas do quadrinho underground nacional, como Allan Sieber, MZK, Leonardo & Schiavon, até novos nomes como Arnaldo Branco, Juca, Danilo & Goose, a Tarja Preta é uma mistura de High Times & Rip Off Press – ícones jornalísticos da contra-cultura. A seguir, a primeira parte de uma entrevista c/ o editor do bagulho – Matias Maxx, a.k.a. “Capitão Presença”:
É verdade que vc é argentino?
Meu pai era argentino e minha mãe é uruguaia, daí que eu sei espanhol desde o berço e sempre me interessei muito pela cultura latina. Se você vai numa loja de discos em Buenos Aires tu encontra sons da Espanha e todo canto da América Latina, inclusive o Brasil. Aqui, já é mais dificil ter acesso a essas coisas.
O que vc acha da rivalidade Brasil x Argentina?
Rivalidade é foda, aprendi na marra o que é racismo, a família de um amigo meu foi bem hostilizada quando a Argentina desclassificou o Brasil em 1990... Como eu nunca me liguei muito em futebol fui poupado, mas tenho uma camiseta da seleção Argentina, e toda vez que eu uso dá merda, uma vez eu tava filmando um festival de rap, do palco, e ficaram me jogando garrafa d'água. Me orgulho muito de ser brasileiro, mas também me orgulho muito de ter tido essa criação de imigrante, aprendi que é importante cuidar do bairro, mas o planeta é muito maior.
Vc é um jornalista bem gonzo. Como descobriu essa vocação?
As coisas aconteceram muito rápido e naturalmente. Eu sempre colei com o pessoal das bandas, escrevia sobre elas no Cucaracha, num estilo bem íntimo mesmo, quando eu fui ver, em 1998 eu tou escrevendo sobre as raves de Trancoso no Rio Fanzine do jornal O Globo. Daí, antes mesmo de entrar pra faculdade eu entrevisto o Manu Chao na Argentina e vendo a reportagem pra Bizz; o Emerson Gasperin, editor na época, foi com a minha cara e começamos a fazer as coisas juntos. Daí teve o Rock in Rio, e o Emerson lançou uma de suas máximas – “Não estamos aqui para fazer a melhor cobertura, deixa isso pros babacas de site e jornal, estamos aqui pra fazer a cobertura mais chapada!” - e não deu outra. O Rock in Rio foi punk, trabalho pra cacete, eu tava fotografando os palcos enormes, e tinha que ficar correndo de um lado pro outro da cidade do rock, várias vezes por dia, dai teve o dia “teenager”, que a gente decidiu não cobrir, ficamos só bebendo, fumando e nos divertindo. Nesse dia o Alexandre Matias me explicou quem era o Hunter Thompson, aí fudeu, peguei o filme na locadora e comprei o livro na Amazon, e como diz o MD2 "...depois disso sua vida nunca mais foi a mesma..." A identificação foi total, não só pela chapação, como por esse estilo de escrever como um participante, um cúmplice da parada, e não como um reles observador, eu vejo o Gonzo por aí.
A Tarja Preta é uma revista ou um zine?
Fiz fanzines toda minha vida, antes de jornalista eu sou fanzineiro. Em 1996 comecei a fazer o "Panfleto" e um tempinho depois o "Cucaracha", publicações de xérox que eu dava de mão em mão. De 96 também é o nome Tarja Preta, mas eu sempre pensei grande, numa revista de jornalismo mesmo, uma parada maneira, bem feita, tipo uma Caros Amigos underground e maconheira. Com o passar dos anos comecei a me interessar por quadrinhos, conhecer um monte de gente do meio e depois de lançar vários Cucaracha com quadrinhos resolvi arriscar e colocar o Tarja Preta na pista, e tem dado certo pra caralho. Eu acho que o que diferencia dos zines é o preço na capa. Se tem um valor, é uma revista, é um negócio sério... hehehehe.
O que tem feito, fora chapar o coco e editar a revista?
Eu voltei a publicar na Bizz, e também estou na Trip. Ano passado publiquei uma matéria muito maneira sobre o baile funk do Mr.Catra na Vila Mimosa pra Premium; tentei vender pra outras revistas mas ninguém quis porque tinha um monte de putas seminuas nas fotos, daí eu resolvi vender logo pra uma revista de sacanagem. Eu agora tou num processo de renovação, quero comprar uma máquina digital e lentes novas, e estou fazendo umas assistências pra Daniela Dacorso, de quem eu sempre fui fã. É legal que estou aprendendo umas manhas de iluminação e estúdio, coisa que eu nunca fiz, eu sempre fui do fotojornalismo mesmo.

_\/_ Tarja Preta é Remédio Forte _\/_

sábado, novembro 12, 2005


ALI x BUSH

Viram a onda que o Mohamed Ali tirou em cima do Bush?
Na última quarta-feira, o presidente dos EUA reuniu 14 personalidades norte-americanas p/ receberem a Medalha da Liberdade, honraria criada pelo presidente Truman em 1945 p/ recompensar os civis por serviços prestados durante a 2ª Guerra Mundial. Em 1963, a medalha passou a ser conferida a civis que se destacavam no serviço de seu país, mesmo em tempos de paz.
Entre os homenageados estavam o presidente da reserva federal (FED) Alan Greenspan, a cantora soul Aretha Franklin e o insuperável Mohamed Ali.
Nascido Cassius Clay em 1942, em Lousville, Kentucky, Ali foi o primeiro triplo campeão do mundo de pesos-pesados. Sua atuação, porém, sempre ultrapassou as cordas dos ringues. Foi um dos primeiros ativistas negros, recusou-se a ir p/ a Guerra do Vietnã por não se sentir representado pelo seu país – o que lhe custou o cinturão de campeão –, e sua forte presença de espírito o tornou conhecido como o “profeta dos ringues” – ele tinha o hábito de criar poemas desancando seus adversários antes das lutas, chegando mesmo a antecipar o round em que derrubaria seus oponentes. Seu estilo de lutar ficou conhecido como “voa como uma borboleta, ferroa como uma abelha”. Um gênio.
Recuperou o título em 1974, em um confronto épico contra George Foreman, no Zaire. Esta luta é considerada “o combate do século” (XX), e rendeu um dos melhores livros já escritos sobre o assunto: “A Luta”, de Norman Mailer. Hoje, Mohamed Ali sofre da doença de Parkinson.
Durante a cerimônia, após entregar a medalha a Ali, Bush postou-se à frente do campeão com os punhos em riste, como numa luta de boxe, obviamente posando pras câmeras. Ali fitou-o nos olhos, e girou o dedo indicador em volta da cabeça, como que perguntando pro Presidente: “é louco?”...
A Casa Branca inteira caiu na gargalhada, enquanto os adversários saíam, cada um para um canto do “ringue” – Bush sem graça, Ali c/ um sorriso no canto da boca. Nocaute.
Grande Cassius Clay!

terça-feira, novembro 08, 2005

A VIDA IMITA O ÓDIO

Há 13 dias a França vem vivendo dias de caos e terror, com ruas em chamas, saques e confrontos. A onda de violência nos arredores de Paris começou c/ a morte de dois adolescentes de origem estrangeira, eletrocutados em uma instalação industrial ao fugir da polícia. Foi o estopim p/ as minorias étnicas insatisfeitas c/ o racismo, o desemprego e a repressão policial. Muitos dos saqueadores são cidadãos nascidos na França, mas de ascendência árabe ou africana. A periferia francesa é constituída por conjuntos habitacionais construídos nos anos 1960 e 70 p/ abrigar os imigrantes. O que é de admirar é que estamos falando de uma das nações mais fortes, civilizadas e estáveis do mundo.

Somente na última segunda-feira, 1400 carros foram queimados. No incidente mais sério, jovens de Grigny, subúrbio ao sul de Paris, fizeram uma emboscada c/ pedras, coquetéis molotov e armas de fogo contra a força policial. Dez tiras ficaram feridos, dois deles em estado grave, feridos no pescoço e nas pernas. Cerca de 200 jovens participaram do ataque. Na quarta-feira da semana passada, os manifestantes já haviam disparado contra policiais e bombeiros, mas sem feridos.

O sindicato policial da França pediu que o governo impusesse um toque de recolher nas áreas atingidas pelos distúrbios. Ignorando as ameaças, os jovens rebelados provocaram tumultos pela 12ª noite consecutiva ontem, terça-feira, incendiando mais de 800 veículos em todo o país e ferindo mais quatro policiais. "Nada parece conter a guerra civil que se alastra um pouco mais a cada dia por todo o país", disse uma nota do sindicato. "Os fatos que estamos vivendo agora não têm precedentes desde o final da 2ª Guerra Mundial."

Os protestos vêm diminuindo de intensidade na região da Grande Paris, mas têm aumentado em outras partes da França. As cidades de Marselha, Saint-Etienne, Toulouse, Metz e Lille foram as mais afetadas, até o momento. Em Sain-Etienne, um ônibus foi queimado, ferindo o motorista e um passageiro. Em Toulouse, um carro em chamas foi jogado contra a entrada de uma estação de metrô. Em Lens, uma bomba caseira explodiu em uma igreja. Em Lille, 50 carros foram queimados e um repórter da TV belga foi agredido.

E os conflitos começam a se espalhar por toda a Europa. Na Alemanha, cinco carros foram incendiados em Berlim no domingo, e seis em Bremen. Segundo Wolfgang Schaeuble, ministro do interior da Alemanha, "nós (alemães) não temos os conjuntos habitacionais gigantescos que se vêem nos subúrbios das cidades francesas, mas temos sim áreas em que os estrangeiros estão cada vez mais dissociados do resto da sociedade".

Todo 1º de maio Berlim enfrenta tumultos, e ocasionalmente carros de luxo são incendiados por extremistas de esquerda, mas até então não havia um elemento étnico nos ataques, como ocorre agora. A Alemanha possui a segunda maior comunidade muçulmana da Europa depois da França - 3,2 milhões de pessoas. Na Holanda, 20% da população tem ascenção estrangeira. Na Itália, o líder da oposição, Romano Prodi, afirmou: "Temos as piores periferias da Europa. Não acho que as coisas sejam tão diferentes de Paris. É apenas uma questão de tempo". "Todo mundo está preocupado c/ o que está acontecendo", disse o premiê britânico Tony Blair. O governo francês vem sendo duramente criticado pelos principais chefes de Estado pela falta de uma política efetiva de imigração e integração social.

Quem assistiu a "O Ódio", do francês Mathieu Kassovitz , tem a impressão de que já viu esse filme antes. A película, de 1995, contava a história de três adolescentes de origem estrangeira, residentes na periferia de Paris, após a morte de um de seus amigos na mão de policiais. O incidente gera um conflito entre forças policiais e jovens do subúrbio. Ou seja, essa bola já vinha sendo cantada há muito tempo, mas as autoridades francesas devem ter achado se tratar de mera obra de ficção. O filme termina com uma metáfora, a história de um homem otimista que, ao cair de um prédio, fica repetindo a si mesmo: "até aqui está tudo bem... até aqui está tudo bem...".

sábado, novembro 05, 2005

VERY IMPORTANT PEOPLE

Quinta, 03/11. Show da Cachorro Grande, que faz sucesso entre a molecada roqueira que curte a Mtv – mas esses merecem se dar bem. Os caras são ROCK até o talo, levam a sério o life style, e não têm viadagem de estrelismo.
Colei no hotel onde a galera estava hospedada. Tava charlando de VIP por conta do meu mano Bola, guitarra da Sangria, banda baiana da nova geração formada por sobreviventes da Úteros em Fúria e Dinky-Dau. Os caras da Cachorro estavam bolados porque tinha acabado a cerveja no hotel. Falha grave. Vai ver a gerência teve alguma experiência ruim com bandas de rock embriagadas, e pelo naipe dos caras, resolveram sabotar só por garantia.
Mas não era por isso que a gente ia ficar de cara, e chegamos no local do show já de boa. O Tequila Café é uma das melhores casas do ramo na cidade, ambiente de boate & tal. O público é mais elitizado, mas em show de rock sempre colam uns malucos. A noite estava florida, Aracaju manda bem nesse quesito. Pedro Bó, baixista da Sangria, disse que já tinha se apaixonado pelo menos 3X em menos de 1 hora.
O show de abertura foi da Snooze, banda do Rafael Jr., meu ex-parceiro de zine da época do Cabrunco. Ele é o único membro remanescente da formação original, mas o som continua igual: rock-pop-cantado-em-inglês. Até a voz do vocalista novo lembra a do Fabinho. Tocaram uma nova, em português, e foi isso.
Em seguida, a Sangria. Mó metaleira, rifões pesados e altos berros de Mauro “Pithon”. Legal ver meus velhos amigos doidões fazendo som novamente. Aí minha namorada chegou, direto do trampo, e foi só alegria.
O show dos cachorros grandes foi classe, os caras zoando muito, tocando várias conhecidas. Suaram os terninhos. Beto Bruno não desentoa quando grita e o guitar Marcelo Gross toca muito. Sem falar no teclado Rhodes do Gordo. Se a Sangria tava mais pra Black Sabbath, a Cachorro Grande é tipo Rolling Stones c/ anfetaminas. Tocaram até “Helter Skelter”, p/ não me deixar mentir. Um dos shows mais legais que vi nos últimos anos.
Fim de festa, todo mundo de cabeça feita. E eu & minha gata nos jogamos numa pousada, “pro dia nascer feliz”, como dizia o viado do Cazuza. Uma noite de sexo, drogas & rock´n´roll, não necessariamente nessa ordem. Como nos velhos tempos.

segunda-feira, outubro 24, 2005

FALTA MUITO, PAPAI SMURF?
Bukowski dizia que “política é o mesmo que foder cu de gato”. Eu nunca tentei nenhuma das duas coisas. Na real, desde que começaram a estourar essas denúncias de corrupção, decidi ficar na minha e jamais me pronunciar sobre o assunto. Mas mudei de idéia.
O governo Lula tem se caracterizado como um dos mais demagógicos e corruptos da história do Brasil – se bem que a concorrência é dura – e, ao invés de TENTAR resolver os problemas endêmicos nacionais, como saúde, educação, emprego, moradia e até mesmo segurança, está sempre inventando campanhas: Fome Zero, Bom Exemplo, Desarmamento, etc.
No resto do mundo não é diferente. Diz-se por aí que estamos “na era da informática” e que “informação é poder”. Acontece que o acesso à informação ainda é controlado verticalmente por quem detém o poder. BUSH, por exemplo, mantém toda uma rede de mentiras para justificar suas ações, seja invadir o Iraque, ou ignorar o Protocolo de Kyoto.
Tomemos como exemplo o SUDÃO, o maior país da África, que há 46 anos sofre com uma guerra civil entre muçulmanos e cristãos. Em 2003, tribos locais não-árabes se rebelaram contra o governo – sua reinvidicação: estradas, hospitais, serviços públicos básicos. Em retaliação, as tropas do presidente Omar Hasan Ahmad al-Bashir bombardearam cidades, queimaram vilas e criaram centenas de valas comuns. A guerra, e prolongados períodos de seca, já fizeram 1,5 milhão de mortos.
A ONU enviou até agora apenas uma pequena missão de monitoramento, que pouca atuação efetiva teve sobre o quadro de terror. A mídia sequer cita o assunto nos telejornais – por falar nisso, no que deu todas aquelas CPIs?

ENQUANTO ISSO - O Fundo da ONU para a Infância (Unicef), lançou este mês na Europa uma campanha em que os SMURFS têm sua vila destruída em um ataque aéreo. A propaganda visa angariar fundos p/ cuidar de crianças que foram usadas como soldados nos conflitos na África. A estréia do comercial foi na Bélgica, país do cartunista Pierre “Peyo” Culliford, criador dos personagens.
Philippe Henon, porta-voz do Unicef, disse que a idéia de usar os Smurfs foi p/ chocar a audiência, que costuma se abster em tais questões. Segundo ele, a tática está funcionando.
O filme de 20 segundos começa c/ os Smurfs cantando e dançado em sua vila, rodeados de pássaros e borboletas. Então, surgem aviões lançando bombas sobre o vilarejo, incendiando as casas de cogumelos. A SMURFETE MORRE enquanto os outros azuis correm desesperados. Um bebê smurf é abandonado no local das explosões, chorando...
Henon concorda que não é fácil convencer as pessoas a ajudarem em causas humanitárias. Segundo a jornalista americana Samantha Power, vencedora do prêmio Pulitzer c/ o livro “Genocídio”, “(...) o problema é que todos os países são motivados pela mesma coisa, o AUTO-INTERESSE. Os cidadãos sempre querem ajudar a si próprios, não aos demais. E os políticos vêem o silêncio da sociedade e se perguntam por quê vão se meter (...)”.
Assim caminha a humanidade.

@

quinta-feira, outubro 13, 2005

PAGUEI O MICO

"Pra se topar uma encrenca basta andar distraído que ela um dia aparece." Moreira da Silva* nunca pilotou uma moto mas com certeza sabia das coisas. Voltei a andar de moto, digo, a pilotar, e já me meti em mais uma.
Sábado (08/10) eu tava em casa quando decidi descer na cidade pra abastecer a minha Biz. Na estradinha de acesso, a mesma em que me acidentei -na mesma encruzilhada! - tava rolando uma BLITZ.

Comecei a pilotar no início deste ano e ainda não tirei a habilitação. Por conta disso, dei meia-volta. Estava a uma distância de 1km da batida policial, mas a pista é um retão com pouco movimento de veículos, e um farol no meio da noite não passa despercebido. Toquei a 90 km/h de volta pra casa, e pelo retrovisor vi 2 faróis acesos vindo na minha direção.

ESTAVA SENDO PERSEGUIDO. Acelerei ao limite da motinha, e mesmo assim a viatura se aproximava mais e mais. Perseguição em alta velocidade, até eles me alcançarem e mandarem encostar, armas apontadas. Após o baculejo e uma série de perguntas, fui escoltado de volta até a blitz. Só não fui preso porque, ao ser abordado, identifiquei-me como morador da ilha e expliquei que estava apenas tentando evitar a blitz, por não ser habilitado.

- Por que fugiu da viatura, então? QUANDO VOCÊ FOGE, PRA GENTE É UM FUGITIVO.

Pelo rádio buscaram minha ficha, mas não havia nenhum registro meu na lista negra. SOU TRABALHADOR, PORRA. A blitz era da Choque, todos portando submetralhadoras e coletes à prova-de-bala cobrindo suas identificações. Provavelmente estavam atrás de alguém. O cabo trouxe o texto pronto:
- Você foi pego sem habilitação, e ainda tentou fugir. Vai ter que ser detido... A não ser que você possa fazer algo para que a gente possa te ajudar...
- Bom, eu posso desistir de pôr essa gasolina, o que o senhor acha?
- É o seguinte - ele disse - nós estamos em quatro aqui... - Achei que ele ia pedir umas 100 pratas pra me liberar, mas ele mandou essa:
- ME DÁ O QUE VOCÊ TEM AÍ QUE TÁ TUDO CERTO.

Tive que morrer no mico-leão-dourado para pagar o pedágio dos porcos. Não é nada agradável pra mim a idéia de ter me envolvido num esquema desonesto pra livrar minha cara desses FDP. Mas é aquela história:
SUBORNAR O GUARDA: R$ 20,00.
MINHA LIBERDADE: não tem preço.

@dolfo s@´ - continua andando de moto e pretende tirar a carteira de habilitação (só não sabe quando).
* Moreira da Silva - clássico malandro honesto, criador do samba-de-breque, aposentou-se como motorista de ambulância.

quinta-feira, setembro 22, 2005

EU TÔ DE PÉ *





Segundo a Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo), a indústria nacional de motos produziu mais de 1 milhão de unidades em 2004, um crescimento de 10,7% em relação ao ano anterior. Essa tendência deve se manter neste ano e nos próximos, impulsionada pela redução dos preços das motocicletas combinadas com o aumento das tarifas do transporte coletivo.
O aumento no número de motos em circulação é uma das características da nossa sociedade atual. Mas, segundo estudiosos como o engenheiro Allan Cannell, especialista em Segurança de Trânsito, essa mudança social traz também graves conseqüências, como o aumento de violência nas pistas: “Boa parte dos acidentes envolvendo motos resulta em óbito devido à fragilidade em que se encontra o motociclista, sem a proteção que existe nos carros.” Segundo as estatísticas, no mesmo período de um ano, os acidentes aumentaram 3X mais que a frota.
Bom, se você que está lendo este texto e é freqüentador do blog, já sabe do que eu ´tou falando – há 1 mês me acidentei feio de moto, ao bater num cavalo solto na estrada numa noite sinistra que lembrava Sin City. “Há 20 anos, a maioria dos acidentes envolvia pedestres; hoje são motocicletas”, diz Cannell. Eu podia ter me fodido legal: estava sem capacete, a 80 km/h, e nem vi em que bati. Se tivesse morrido, pelo menos teria sido rápido e sem dor.

BLACK SUNDAY - Naquele domingo eu tinha acabado de estrear um som novo e uns discos do Cypress Hill que eu tinha perdido uns anos atrás. A história era a seguinte: eu tinha emprestado 3 CDs p/ um amigo, o Cássio, que demorou uma cara p/ devolvê-los. O Cássio ´tava andando direto c/ o Matheus, que passava uma coisa e fazia tatuagens. Por causa de uma dessas tretas de drogas e dívidas, um combo do mal catou o Matheus, e o Cássio, que não tinha nada c/ a fita, foi junto. Mataram os dois. O Cássio tava c/ os meus discos, ia finalmente me devolver.
Durante muito tempo fiquei com raiva do Cássio, por ter morrido tão jovem e de um modo tão besta. Foi +ou- o tipo de sentimento que bateu na morte de outros amigos. Confesso que cheguei a desejar que ele tivesse me devolvido os discos e emprestado uns “Rarity” dos Wailers que ele tinha, produzidos pelo Lee Perry...
Os discos eram o “Black Sunday”, o “Grandes Exitos em Español” e o “IV”. Recuperei os 2 primeiros, que continuam entre os meus preferidos. O Cypress Hill ficou famoso nos anos 90 como uma banda de rap que cantava a maconha (antes do Planet Hemp, que fique bem claro), mas hoje eu saco o que eles dizem e vejo que não era só isso. Formada originalmente pela dupla de MCs, Be Real e Sen Dog, e pelo DJ Muggs, o C.H. é um dos ícones do estilo “bate-cabeça”, caracterizado por beats pesados e repetitivos, e tem como marcas registradas os samples fantasmagóricos, o vocal fanho de B Real e o vocabulário “spanglish” das letras, que não falam só de bagulho – o universo dos caras envolve assaltos, brigas de gangue, tiros e mortes.

HELL RAISERS - “A moto é totalmente vulnerável. Sua única defesa é a mobilidade e toda situação de acidente é potencialmente fatal, em especial numa autoestrada, onde não há nenhum espaço para cair sem ser atropelado quase imediatamente.” Hunter S. Thompson, Hell´s Angels.
O Hunter é uma referência forte p/ mim, no meu estilo jornalístico (gonzo). “Hell´s Angels” foi seu primeiro livro. Entre 1965 e 66, H.S.T. conviveu com os Angels, uma gangue californiana de motoqueiros fora-da-lei violentos, fascistas e estupradores; e dessa convivência escreveu o livro-reportagem que alavancou sua carreira. A lua-de-mel entre o jornalista bastardo e os motoqueiros do inferno terminou numa briga de bar onde Thompson foi esfolado vivo por meia dúzia de Angels furiosos.
O episódio foi tão traumático p/ o escritor que ele encerra seu livro citando Joseph Conrad, em "No Coração das Trevas”: “O horror! O horror! Exterminem todos os brutos...”. Quanto a mim, tenho sorte. Já me envolvi em brigas, tive amigos mortos, e escapei de mais uma. Alguém lá em cima gosta de mim.
Mal posso esperar p/ voltar a andar de moto.



@dolfo s@´ (dedicado a Cássio e todos os amigos que se foram)
* título de um álbum de Bezerra da Silva

sexta-feira, setembro 16, 2005


SÓ OS FORTES SOBREVIVEM

Vocês acreditam em milagres? Pois Adolfo hoje é um verdadeiro milagre! Sou a namorada dele e vou contar porque:

Domingo, 21/08/2005, 21:00 h. Estávamos a uma velocidade de aproximadamente 80 km/h, na chuva, à noite, numa estrada mal-iluminada, e sem capacete – irresponsáveis totalmente – quando, de repente, uma pancada bem forte: era Adolfo que, ao se bater c/ um cavalo, VOAVA – mesmo sem ter asas – para o outro lado da pista!

Fiquei desesperada, não sabia se chorava ou pedia socorro... Por um instante pensei que ele estivesse morto, desci da minha moto (Biz) pedindo ajuda aos carros que passavam mas ninguém parava. Um senhor que morava do lado saiu de casa ao ouvir o barulho do acidente; olhando p/ o corpo todo contorcido no chão pediu p/ que eu me acalmasse, dizendo que tudo ia dar certo. Falar é fácil!

Após uns 5 minutos, Adolfo começou a voltar. Quase choro de felicidade e alívio! Tentou levantar-se, algo parecia errado c/ sua perna, mas ele insistia em levantar sozinho – queria ver se não tinha ficado paraplégico ou algo assim... O tiozinho se ofereceu p/ levá-lo a um hospital, mas ele não aceitou, pediu p/ guardar a moto até o outro dia – eu preocupada e ele só falava no prejuízo da moto... é mole?! (que, falando nela, ficou toda destruída, só p/ dar uma idéia a bateria foi cair a uns 3 metros de distância)

Em seguida, ele subiu na minha moto me pedindo p/ levá-lo em casa, no caminho pedi p/ irmos a um hospital, mas ele dizia estar bem. BEM? Para meu desespero, de 5 em 5 segundos me perguntava: “-Gatinha, cadê a minha moto?... Onde tá a chave?... Tá com você?... O que aconteceu comigo?... Minha perna tá doendo!... Veja se ela tá igual a outra?... Você tem crédito no celular?...” Não parava de me fazer essas perguntas, achei que tivesse batido a cabeça. Mesmo assim, sem querer acreditar, perguntei se estava brincando comigo, mas eu via que não.

Chegamos à casa dele, Adolfo entrou no banho p/ tirar a lama, mas quando saiu não estava agüentando mais de dor – a perna esquerda ficava cada vez mais roxa e inchada, e ele não parava de vomitar. Meu namorado mora na praia, numa ilha, o que complica as coisas na hora de uma emergência. Por sorte, um enfermeiro que estava de folga numa casa vizinha apareceu e diagnosticou: “fratura interna”. Neste momento, o irmão mais novo chegou do surf c/ uns amigos e, mais importante, um carro.

Mais de 3 horas após o acidente, chegamos ao hospital. Após vomitar na recepção, ser encaminhado de cadeira de rodas ao setor de trauma, e tirar os raios X da cabeça e do fêmur, Adolfo foi diagnosticado: rompimento de tendão. O acidente foi PUNK, o pior podia ter acontecido, graças a Deus só vão rolar alguns meses de molho, e nem será preciso operar. Devem ser os poderes do “Homem-Brasa”... Agora, aguardem a versão dele, pois estou cansada de contar esta mesma história p/ todo mundo que me pergunta. Ai, queridos, haja saco!

Beijos!


GIL – namora o autor deste blog há 9 meses e pilota (muito bem) há 3 anos

quinta-feira, agosto 18, 2005





MEUS AMIGOS MAIOR FORÇA
#1 ALLAN SIEBER


Allan Sieber tem 33 anos e mais de 20 tatuagens. Não vota, não faz exercício, não acredita em deus, e até pouco tempo fumava 3 maços de cigarro por dia. É cartunista há mais de uma década, e mantém a duras penas a produtora de filmes independentes Toscographics.

Falei do cara há 3 meses aqui no blog, mas ele volta à cena p/ estrear a seção “Meus Amigos Maior Força”. O motivo da escolha poderia ter sido ordem alfabética, mas o escolhi pq ele salvou minha cara qdo estive no Rio ano passado, descolando a estada no seu apê no famoso Bairro Peixoto – do qual ele próprio seria despejado algum tempo depois.

Além disso, o cara é um campeão. Venceu na vida pelo próprio talento, “sem puxar o saco de ninguém”, como ele mesmo diz, e é reconhecido como um dos maiores do humor da nova geração de autores brasileiros. Se brincar, é o melhor. Prova disso é o 3o prêmio HQ Mix que o malaco recebeu esta semana em SP – já havia vencido em 96 e 98 – pelo álbum “Preto no Branco”, reunião de tiras autobiográficas publicada pela editora Conrad em 2004.

Pensei em fazer uma entrevista. Mas, como eu sou vagabundo demais p/ fazer as perguntas, e ele meu amigo o bastante p/ não responde-las, reproduzo a seguir os melhores momentos de um bate-papo no chat da UOL, em outubro do ano passado:

Rodrigo Castelo: Como foi que você pensou em ser cartunista?
Allan Sieber: Nunca pensei, foi azar mesmo.
China: De onde você tira as inspirações?
A.S.: Pornografia e religião são o q me inspiram. Amo muito tudo isso.
Laura: Ás vezes vc parece odiar o Sul...
A.S.: Laura, eu odeio várias coisas.
Diogo Luz: Como foi mudar do sul para o Rio?
A.S.: O Rio é muito legal, gosto de morar aqui. As meninas vão de biquini no super-mercado.
Daniel76: Vc poderia falar do mercado, como entrar nele de maneira adequada, é só criatividade ou é uma questão de contatos?
A.S.: É sorte e muito trampo. Sei lá. O "mercado" é uma entidade meio estranha.
olho: Nas tiras vc sempre tira sarro de tabus: pedofilia, bichice, religião.... vc já teve muito trabalho recusado por isso????
A.S.: Eu tenho trabalhos recusados até quando falo sobre coelhinhos bonitinhos.
Maanape: Seu trabalho é bem variado, tem coisa mais adulta, outras mais adolescentes. Vc tem preferência por algum?
A.S.: Gosto quando pessoas ricas o apreciam.
Lupe: Quando você começou a publicar as tirinhas do “Preto no Branco” no site da Tonto já havia a idéia de publicá-las em livro?
A.S.: Sim, a idéia era lançá-las em um álbum. Mas o lance é q é um album de tiras feitas sem censura nem nada, eu mandava para a Tonto e saía. Isso é do caralho.
SoberaNo: Como surgiu a ideia de criar a “Vida de Estagiário”?
A.S.: Fui office boy por uns dois anos, dos 15 aos 17. Então sei como é se fuder numa empresa.
Rodrigo Araújo: O que vc usa para fazer animação?
A.S.: Lápis, pincel, folhas, nanquim, photoshop e after effects
Maanape: Vc tem algum objetivo específico com seu trabalho?
A.S.: Ganhar muita grana. Mas com um pouco de dignidade. Hummm...Vai ser dificil.
+ AngrA +: O q vc gosta de ouvir qndo esta desenhando?
A.S.: Ouço muita coisa o tempo inteiro, de Chet Baker a Mr.Catra, de Ramones e Misfits a Public Enemy.
candlebox: Às vezes tu fica muito sinistro...você já tentou se matar?
A.S.: Já, mas até nisso fui incompetente.

quarta-feira, agosto 10, 2005


PEEP SHOW FROM HELL

Sim! Sin City!Um filme dirigido por Robert Rodriguez baseado nos quadrinhos do Frank Miller? Esse eu tinha que ver.

Robert Rodriguez surgiu nos anos 90 com “El Mariachi”, uma pequena obra-prima de ação filmada num esquema amador numa cidade do México, que contava a história de um violeiro (mariachi) que era confundido c/ um matador, o “Azul”. Reza a lenda que para levantar grana p/ o celulóide, Rodrigues vendeu seu sangue e submeteu-se como cobaia em experiências. Em seguida, fez “A Balada do Pistoleiro”, “Um Drink no Inferno” e a série "Pequenos Espiões" (onde revela seu lado família com muito talento), tornou-se amigo de Quentin Tarantino, p/ quem compôs a trilha sonora de “Kill Bill: vol.2” – Tarantino retribuiu o favor dirigindo um dos episódios de “Sin City”. Além disso, o cara edita os próprios filmes. Foda.

Frank Miller é um dos caras mais sinistros dos quadrinhos. Sozinho, ele reformulou a indústria americana dos gibis de super-heróis, primeiro levando um personagem de segunda, o Demolidor, p/ o topo das vendas no início dos anos 80. Em seguida, fez as séries “Cavaleiro das Trevas” e “Ronin”, que criaram o conceito de “graphic novel” e lhe renderam convites p/ o cinema. A revolução de Miller foi tornar adulto um gênero infantilóide e alienante, criando personagens feios e mal-intencionados, em cidades sujas e decadentes. Além disso, o cara desenha muito e tem um estilo inconfundível.

Em 1991, lançou a série “Sin City”, onde evidenciava seu estilo e ia além, estourando suas cenas c/ contrastes preto&branco. Após experiências fracassadas em Hollywood na década de 90, Miller se recusou a vender os direitos de adaptação para o cinema de quaisquer de seus trabalhos nos quadrinhos. Robert Rodriguez, que era um grande fã de "Sin City", rodou por conta própria um curta-metragem baseado em uma das histórias da série, como tentativa de convencê-lo a autorizar o projeto. Conseguiu.

Ao apresentar o curta a Frank, Rodriguez disse que caso ele gostasse do material esta seria a cena de abertura do longa-metragem. Caso não gostasse, Miller poderia usá-lo para mostrar aos amigos, como uma brincadeira com seus personagens. Miller aprovou o material e, desta forma, o filme foi autorizado.

Robert Rodriguez considerava o estilo visual de Frank Miller tão importante para Sin City que fez questão que Miller recebesse o crédito de "co-diretor" no longa-metragem. Como o Director's Guild of America não permite a existência desta função, Rodriguez decidiu por se desligar do sindicato. Por causa desta decisão o diretor foi obrigado a abdicar de outro longa-metragem, “John Carter of Mars”, que rodaria para a Paramount logo após a conclusão de Sin City.

Sin City é baseado nas histórias"The Hard Good-Bye", "The Big Fat Kill" e "That Yellow Bastard", todas publicadas em graphic novel. As próprias revistas serviram como story board. O filme conta algumas histórias underground de Basin City, cidade sem Deus e sem Lei, onde os heróis vivem à margem e as putas mantém a paz nas ruas de armas em punho. São duas horas de tiros, explosões, canibalismo, mutilações, caras feios e mulheres bonitas,tudo sob uma puta direção de arte, c/ destaque p/ a fotografia, que se empenhou ao máximo em captar o clima dos gibis.

Sim, mulheres bonitas, eu disse. Por causa delas as coisas acontecem o tempo todo. Já na parte dos caras feiosos o destaque vai para Mickey Rourke no papel de Marv, o cabuloso que segue numa vingança pessoal contra a máfia que matou sua puta favorita. Rosário Dawson também arrebenta como a justiceira Gail, mas quem quebra tudo mesmo é um anjinho chamado Jessica Alba, a stripper Nancy. Dizem que ela visitou alguns peep shows p/ pesquisar sua personagem, e que queria que fosse contratado um coreógrafo para ajudá-la em suas cenas de dança. Robert Rodriguez insistiu que não era necessário e que bastava que ela sentisse a música e dançasse da maneira que quisesse. Mais uma vez, ele estava certo.

Jessica ainda interpreta a Mulher-Invisível no filme do Quarteto Fantástico. De adaptação de quadrinhos pro cinema, por enquanto tá bom pra mim. Estou esperando pela versão de “Ranxerox”, parece que o Benicio Del Toro está cotado p/ fazer o papel do Ran. Legal. Tomara que o diretor seja algum italiano fã de Liberatore e Sérgio Leone. Mas, convenhamos, a Jéssica Alba Mulher-Invisível?! Sem chance!

terça-feira, julho 26, 2005

FAÇA SUA PRÓPRIA REVOLUÇÃO
“O cotidiano é algo muito complexo.” A frase não é minha, é do Harvey Pekar.

Se você nunca ouviu falar do cara, tudo bem. Ele não é muito conhecido mesmo, fora do circuito de quadrinhos underground. Para quem saca o cara, ele é um ícone. Autor do celebrado gibi American Splendor, na ativa desde os anos 70, Harvey Pekar era a personificação do “loser” americano quando começou a fazer suas histórias: já tinha passado dos 30, começava a ficar careca, tinha um emprego fudido de arquivista num hospital, e havia sido largado pela 2ª mulher por causa de seu estilo de vida “plebeu” e um problema nas cordas vocais que o impedia de falar normalmente.

Amigo de Robert Crumb – um dos maiores gênios dos quadrinhos de todos os tempos - , colecionador de gibis e discos antigos de jazz, Pekar tinha a vontade mas não a habilidade – até hoje o cara não consegue desenhar um O c/ 1 copo. Ao mostrar seus esboços de HQ p/ seu chapa, sua vida mudou. Crumb ilustrou as primeiras histórias de Pekar, dando início a um trabalho inovador e revolucionário.

Até os anos 60, os quadrinhos se dividiam em basicamente 2 gêneros: super-heróis e infantil. Crumb foi um dos primeiros autores a romper c/ isso, ao colocar personagens aparentemente “bonitinhos” em situações adultas e muitas vezes “subversivas”. A contribuição de Harvey Pekar foi colocar gente comum, sem grandes perspectivas ou expectativas na vida, dentro das histórias em quadrinhos. E ele fez mais: colocou ele mesmo como personagem principal das suas histórias, sem pegar leve ou dourar a pílula. As histórias de American Splendor retratavam a vida comum que ele levava, e das pessoas ao seu redor.

Semana passada assisti “American Splendor”, o filme. Um dos melhores dos últimos anos, fácil. A grande sacada dos diretores (não lembro o nome deles) foi utilizar a própria linguagem do Pekar p/ retratar sua vida, extraindo os episódios a partir das próprias revistas originais. O filme mistura ficção e realidade o tempo todo, e é narrado e comentado pelo próprio Harvey. Na época em que foi lançado ganhou o prêmio principal no festival de Sundance (EUA) e também teve destaque em Cannes (França). Recomendo.

Tudo bem, eu podia estar falando aqui sobre toda essa merda que tá rolando atualmente. Descobriram que tinham uns políticos roubando aí, hah!, e andam explodindo umas bombas na Inglaterra. Bom, fodam-se os ingleses. São séculos de imperialismo bélico sobre o mundo.
Como disse meu amigo designer desta página: “Tá rolando um massacre silencioso e sinistro no Sudão, em um lugar chamado Dafour e ninguém faz nada pelo povo que mora lá... leia mais nos informes dos Médicos sem Fronteiras: aqui, aqui e aqui.

´Outro lance que eu acho muito bacana, foi uma revolução que rolou lá na Oceania e ninguém ficou sabendo. Um povo de uma ilha perdida chamada Bougainville se viu oprimido pela Papua Nova Guiné , que agia como feitor de escravos a mando de uma empresa mineradora da Austrália. A ilha é riquíssima em cobre (a base de cabos de transmissão de dados, a economia do séc.XXI) e a exploração desse minério estava destruindo a natureza. Os nativos são ligadíssimos no seu meio ambiente, daí ficaram muito putos (com razão) e começaram uma guerrilha, uma ecoguerrilha. Só que, isolados do resto e do mundo e para piorar,como não tinham o apelo do marketing zapatista, não atraíram a atenção da mídia.

´O jeito foi partir pra luta com o que tinham em mãos. Construíram zarabatanas e estilingues enormes para combater mercenários armados com metralhadoras e helicópteros. Como não tinham combustível para movimentar os carros tomados da mineradora, passaram a fazer Biodiesel com coco. Aliás, eles tiravam tudo o que precisavam da floresta: comida, armas, combustível e remédios... Mesmo com tudo contra eles, os caras botaram os inimigos pra correr...

´Não é uma história muito doida? Veja mais
aqui..."

É sim. As melhores histórias são aquelas que não estão nos jornais. A revolução não será televisionada, mas estará disponível na internet.

Faça como o Harvey Pekar ou os caras de Bougainville. Comece sua própria revolução.

por @dolfo s@´

quinta-feira, junho 30, 2005


Cheston
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FI-LO PQ KG


Um amigo me sugeriu que eu atualizasse o blog semanalmente... Lá se vai junho, e eu quase o deixo branco. Se já está difícil atualizar mensalmente, que dirá toda semana. Mas eu tento...
Este mês fez 2 anos que eu estou sem computador. Mas junho é um mês de muitas comemorações mesmo. Minha namorada fez aniversário. Fizemos uma festa. Também comemoramos 7 meses juntos. Sem falar no dia dos namorados.
Meu pai comemorou 60 anos. Mas não sei se ele comemorou mesmo. Faz 4 anosque a gente não troca uma idéia saudável. Ele parou de falar comigo quando soube que eu fumava, e desde então nossa relação só fez se deteriorar.
É incrível o preconceito da sociedade com os fumantes. Na minha opinião,desde que a minha fumaça não te alcance, eu não estou te prejudicando. Mas enfim, essa é só minha opinião.
As notícias do último mês também não foram muito animadoras, apesar de nada muito novo. As denúncias de corrupção nos altos escalões do poder não me surpreenderam nem um pouco. Há um bom tempo que eu não voto, desde que adquiri alguma consciência política. Se esses caras roubassem 1/3 a menos do que fazem, haveria mais escolas, hospitais funcionando, casas, saneamento, etc. etc. etc.
O Greenpeace premiou o governador do Mato Grosso c/ o troféu Motoserra de Ouro, porque seu estado, em um ano, desmatou uma área de floresta equivalente à Bélgica. Só p/ mudar de assunto, no Iraque, desde que Bush mandou suas tropas, o número de mortos em ataques terroristas já chega à casa dos 1000, contando apenas os ataques de extremistas suicidas e carros-bomba. A troca de tiros não conta. Em Bagdá morre mais gente que no Rio de Janeiro, imagine só...
E o Planet Hemp? Estou torcendo p/ que tenha acabado mesmo. É muito mais digno quando uma banda acaba por consenso dos próprios integrantes do que por pressão do mercado – tem tanta banda aí que já acabou e não sabe...
O meu “Usuário”, safra 1995, já está c/ 1 furo no meio, cheio de arranhões.Embalou muitas sessões...
No final de 95 fiz uma entrevista c/ o Marcelo D2 p/ o meu zine à época, o Cabrunco. Alguns trechos: “(...) não foi nada premeditado, a gente nunca falou ´ah, vamos falar de maconha´. Quando eu começava a escrever quase sempre saía isso, não era uma pauta, era uma coisa normal. (...) É uma coisa muito natural, assim, cara, maconha. Acaba influenciando muito na vida porque a gente é uma banda que fala de maconha, a gente fuma o dia todo(...). Mas pra mim não é ´o principal problema do mundo´, tá ligado? Acho que tem coisas piores pra serem resolvidas. Só que (a questão da legalização) é uma coisa que me incomoda pra caralho. Eu acho que tava no direito de poder falar.”
Tudo bem que se fosse hoje eu teria que marcar hora com a assessoria de imprensa do cara, mas a questão aqui é outra. Eu acho difícil que hoje o D2 tivesse liberdade p/ expressar seu ponto de vista tão claramente. Os tempos mudaram, não necessariamente p/ melhor.
E enquanto o mês passava, eu ia me achando muito pouco produtivo. Quando voltei do Rio, no final do ano passado, achava que iria entrar num puta ritmo de produção – sabe, de vez em quando eu desenho, e tenho uns quadrinhos na minha cabeça pedindo p/ sair... Mas o problema é que eu divido meu tempo entre o trabalho, a namorada e o ócio recreativo (grazzi, Domenico de Masi!). Talvez eu devesse transformar esse “ócio” em algo positivo.
Vamos ver... Também estou devendo um texto sobre o Bezerra da Silva p/ uma revista que vai estrear, e uma entrevista c/ um amigo de uma grande banda –a minha preferida aqui no Brasil. Talvez eu deva fumar menos... Uma recente pesquisa da Universidade de Londres afirma que a troca de e-mails e telefonemas afeta mais a memória do que fumar maconha. Enquanto o fluxo pessoal de tecnologia diminui nosso Q.I. em 10 pontos em média, quem acabou de fumar um baseado perde 5... Hmmm, talvez eu deva passar menos tempo na internet. Aí sim!
@dolfo s@´(usuário gonzo, jornalista bissexto, namorado da Gil – um cara de sorte)

domingo, maio 29, 2005

A VIDA COMO ELA É



Posted by Hello


Essa aí é a capa do novo livro do meu amigo Allan Sieber, quadrinista gaúcho(e bagaceiro) radicado no Rio de Janeiro. O Allan é considerado “o maior autor de humor da nova geração” (opinião do site da editora Conrad), e não é exagero dizer isso.

“Vida de Estagiário” é a reunião de suas tiras publicadas semanalmente na Folha de S.Paulo, e é engraçado mesmo, como todos os outros trampos do cara.Conheço o Allan há uns 10 anos; ele editava uma revistinha muito foda, aGlória Glória Aleluia, e logo tornou-se também colaborador do zine que eu editava, o Cabrunco.

O Cabrunco foi um projeto que durou 2 anos, 95 a 97. Na época eu era um moleque cabeludo, e shows de rock eram rotina. Era uma vida boa. Conheci muitos lugares e pessoas, algumas das quais sou amigo até hoje (tipo oAllan). Fiz umas entrevistas c/ uma galera que hoje em dia é bombada na mídia, tipo o D2 e a Pitty, entre outros. E mais. Mas na real, eu nunca gostei muito de fazer o papel de entrevistador. E decidi acabar c/ o zine após o acidente que matou Chico Science. Eu estava em Recife, e o que aconteceu me deixou num bode tão grande que decidi encerrar o zine...

Esse flashback bateu domingo passado, na porta de um show do Mundo LivreS/A. Lá estávamos, eu & minha namorada: eu c/ o salário atrasado, ela desempregada. Não entramos. E me bateu um puta bode de novo, algo me dizendo que não adianta negar minha “veia rocker” - quando a parada tá no sangue, já era.

Trecho de entrevista c/ Fred Zero Quatro publicada no Cabrunco #4: “A gente sabia que Recife (...) estava fora do eixo de profusão, de difusão de informação (...) aí eu tirei essa onda de Mangue Bit (...) já sabendo que ia dar rolo, esse mal-entendido, Bit com Beat, e pá. (...) E acho que a genteconseguiu atingir esse objetivo. Banda de periferia, sem um puto no bolso,foi gravar um disco c/ cavaquinho e duas congas, saca?” Só... Os caras estão aí até hoje.

A Nação Zumbi continua, firme & forte. O D2, aPitty, tá todo mundo aí. E eu? Tô vivo ou apenas sobrevivo?...Nessa mesma edição c/ o Zero Quatro foi publicada a 1ª colaboração doAllan Sieber p/ o Cabrunco, a série de tiras “A Vida Como Ela É”; era um diálogo entre 2 moleques:

- Todo mundo sabe que a sua mãe é uma vadia e trabalha na zona!
- Pelo menos o meu pai não dá o cu! E tb. não chupa pau c/ merda e gosta!

...O Allan e seu humor requintado.

quinta-feira, maio 12, 2005

FERIADO?





burn baby burn
Posted by Hello


Maio já foi um mês diferente de qualquer outro. No primeiro dia desse mês as tropas e as polícias ficavam de prontidão, os patrões se preparavam para enfrentar problemas e os trabalhadores não sabiam se no dia 2 teriam emprego, liberdade ou até a vida.

Hoje, tudo isso foi esquecido. A memória histórica dos povos é pior do que a de um octogenário esclerosado, com raros momentos de lucidez, intercalados por longos períodos de amnésia. Poucos são os trabalhadores, ou até os sindicalistas, que conhecem a origem do 1° de maio.

Muitos pensam que é um feriado decretado pelo governo, outros imaginam que é um dia santo em homenagem a S. José; existem até aqueles que pensam que foi o seu patrão que inventou um dia especial para a empresa oferecer um churrasco aos "seus" trabalhadores. Também existem - ou existiam - aqueles, que nos países ditos socialistas, pensavam que o 1° de maio era o dia do exército, já que sempre viam as tropas desfilar nesse dia seus aparatos militares para provar o poder do Estado e das burocracias vermelhas.

As origens do 1° de maio prendem-se com a proposta dos trabalhadores organizados na Associação Internacional dos Trabalhadores (AIT) declarar um dia de luta pelas oito horas de trabalho. Mas foram os acontecimentos de Chicago, de 1886, que vieram a dar-lhe o seu definitivo significado de dia internacional de luta dos trabalhadores.

No século XIX era comum o trabalho de crianças, grávidas e trabalhadores ao longo de extenuantes jornadas de trabalho que reproduziam a tradicional jornada de sol-a-sol dos agricultores – situação que se manteve até aos começos do século XX. Vários reformadores sociais já tinham proposto em várias épocas a idéia de dividir o dia em três períodos: oito horas de trabalho, oito horas de sono e oito horas de lazer e estudo, proposta que, como sempre, era vista como utópica, pelos realistas no poder.

Com o desenvolvimento do associativismo operário, e particularmente do sindicalismo autônomo, a proposta das 8 horas de jornada máxima, tornou-se um dos objetivos centrais das lutas operárias, marcando o imaginário e a cultura operária durante décadas em que foi importante fator de mobilização, mas, ao mesmo tempo, causa da violenta repressão e das inúmeras prisões e mortes de trabalhadores.

Quando milhares de trabalhadores de Chicago, tal como de muitas outras cidades americanas, foram para as ruas no 1° de maio de 1886, seguindo os apelos dos sindicatos, não esperavam a tragédia que marcaria para sempre esta data. No dia 4 de maio, durante novas manifestações na Praça Haymarket, uma explosão no meio da manifestação serviu como justificativa para a repressão brutal que se seguiu, e provocou mais de 100 mortes e a prisão de dezenas de militantes operários e anarquistas.

A partir da década de 90, com a decisão do Congresso de 1888 da Federação do Trabalho Americana e do Congresso Socialista de Paris, de 1889, declararem o 1º de Maio como dia internacional de luta dos trabalhadores, o sindicalismo em todo o mundo adotou essa data simbólica, mesmo se mantendo até ao nosso século como um feriado ilegal, que sempre gerava conflitos e repressão.

("...o estado em que uma classe domina e vive às custas de outra classe e chama isto de ordem está condenado a morrer e dar lugar a uma sociedade livre, associação voluntária, fraternidade universal." August Spies - 1886 - Discurso no tribunal)

Texto extraído do blog da Pitty: www.pitty.com.br

sábado, abril 16, 2005


In Jah We trust
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TEIMOSIA

“Meu destino é agora”... Será que o Peixe ´tava prevendo a cena quando escreveu “Caldo de Cana”? Tem gente morrendo porque bebeu um gole. Pobre só se fode... Eu ´tava sem tempo de atualizar o blog, mas será que alguém lê oque eu escrevo aqui? Não importa, “eu sou brasileiro e não desisto nunca”...Há, há...

Março passou feito um raio. Aracaju completou 150 anos. Como parte dasfestividades, greve nos principais hospitais, racionamento no abastecimentode água, e protesto dos motoristas de ônibus pelos constantes assaltos.Parabéns, Caju City. Eu descolei um novo trampo. E comemorei bebendocaldo-de-cana.

Também descolei um canal p/ jogar meus posts no ar, enquanto passo as madrugas na ilha de edição. Grácias, Bruno Dias! `Tava preparando uma homenagem ao Bezerra da Silva, mas talvez esse texto saia na VOODOO, uma revista nova do pessoal da Monstro. Se não rolar, eu jogo aqui. Por enquanto, amiguinho(a)s, fiquem c/ o relato de Marcos “Curisco”, da bandaCouro & Osso e do Núcleo Anarco-Punk, sobre o: “FÓRUM SOCIAL MUNDIAL 2005"

No dia 22/01 consegui carona p/ Porto Alegre (RS), de onde retornei dia31/02. Destino: Fórum Social Mundial. Foram dias intensos e problemáticos.Estive em um acampamento c/ mais de 30 mil estudantes, o pessoal Anarco-Punk se centralizou em um local, cerca de 60 pessoas, sempre chegava e saía alguém. Tinha muitos outros punks de rolê pelo acampamento, uns colaram,outros nem chegavam perto devido às tretas com Punks OI, pessoal que cola.

Depois de rolar alguns conflitos, os malucos se agruparam e queriam invadir o acampamento, mas nós estávamos organizados e c/ mais gente, então eles ficaram rondando c/ pedaços de pau. Surgiu a informação de que havia 20 carecas de role no local, mas todo mundo ficou de olho e os caras sumiram.

Em Porto Alegre rolam muitos conflitos c/ Punks OI. Lá também está acontecendo um Squat (ocupação) chamado de SQUAT TEIMOSIA, um local enormeocupado há 7 meses por Anarco-Punks, muito bem dividido. Sofremos umainvasão da polícia (Narcóticos), graças aos porra-loucas que ligaram dizendoque havia tráfico no local.


Fomos detidos, 27 pessoas, porém liberados logomais. Não encontraram nada, porém tentaram nos incriminar como ´terroristas contra Fórum´, roubaram materiais (VHS e livros) e também dinheiro. Depois realizamos uma manifestação contra a polícia e alguns advogados foram acionados. Depois dos acontecimentos, resolvi iniciar um projeto chamado ´Frente de Apoio aos Squats Anarco-Punk´, que tem como objetivo catalogar os já existentes hoje, reunir material histórico, editar um zine sobre o assunto c/ experiências e informações que ajudem futuras ocupações. (...)

Ass.: CURISCO – Ação & Resistência
Contatos: nucleoanarcopunk@hotmail.com
Obs.: Estou colando c/ a Frente Estudantil daqui pelo passe livre.”

PARA SABER MAIS:Site: www.gritopunk.hpg.com.br site desenvolvido por Joacy Jamys, vocalistada banda Terror Terror e cartunista, autor das tiras Não-Sistema Sons: Couro & Osso, Karne Krua, Words Guerrilla, Sublevação, Misericore
Livro: “Contendo a Democracia”, Noam Chomsky
Fórum Social Mundial: vai no Google!"

quinta-feira, março 10, 2005

CADA UM C/ SEUS PROBLEMAS



  1. Hunter S. Thompson em pessoa... Posted by Hello




Março começou mal, com a notícia da morte de Hunter S. Thompson. Talvez este nome não signifique nada p/ vc, mas p/ mim o velho "Gonzo" sempre foi uma das principais influências. Um dos criadores do estilo "new journalism", que unia o texto jornalístico à narrativa literária, Thompson foi o jornalista mais chapado da história. O auge da sua produção foi durante os anos 60 e 70, época em que trabalhou como repórter da Rolling Stone e escreveu suas principais reportagens e lançou seus melhores livros: "Las Vegas na Cabeça", que virou filme do Terry Gillian c/ o Johnny Depp interpretando o Hunter (no Brasil esse filme é conhecido como "Medo e Delírio em Las Vegas", uma tradução mais literal do título original); e "Hells Angels", que foi lançado no Brasil no ano passado. Os dois livros são muito fudidos, o cara realmente entrava de cabeça nas suas reportagens, cometia excessos de todos os tipos, e escapou da morte algumas vezes. Até que, dia 20 de fevereiro, aos 67 anos, H.S.Thompson decidiu que já tinha dado p/ ele, e meteu uma bala no meio dos cornos, que nem o Hemingway. Talvez as drogas já não estivessem fazendo o mesmo efeito. Talvez ele tenha apenas se enchido desse mundinho de merda em que estamos vivendo.
Os anos 2000 começaram muito chatos. Não rola nada legal na música, no cinema, as únicas manifestações de arte que prestam estão nos corpos e muros, gente demais no mundo, a direita dominando o cenário político mundial, porra, tá foda. Talvez, se eu já tivesse lançado uns dois livros legais, metesse uma bala na cabeça também. Mas ainda não tá na hora. E eu nem sei se vou lançar mesmo um livro algum dia. No momento, tá difícil apenas SOBREVIVER. Quando voltei de uma temporada no RJ, final do ano passado, achei que ia arrumar um emprego assim que voltasse pra casa, mas já estamos no mês 3 e até agora nada. Estive em meia dúzia de empresas, os principais jornais, TVs e agências. Fui bem-recebido e até elogiado em todos esses lugares, mas não contratado. Veja bem, sou jornalista, tenho carteira assinada como editor de vídeo, e ainda tiro uma onda de "designer gráfico", e mesmo assim tudo o que arrumo são bicos. Talvez seja porque eu já passei dos 25. Talvez seja o piercing na cara. Ou as pontas queimadas dos meus dedos. Não sei. Ano passado o Brasil apresentou um crescimento de 8% nas estatísticas de emprego, o que certamente não me inclui.
O último freela que descolei foi p/ criar o logotipo de um canil. Eu e minha vida de cachorro. Tenho 30 anos e moro na casa dos meus pais. Fudido e mal-pago. Já saí de casa uma pá de vezes, mas sempre volto porque o dinheiro sempre acaba. Além disso, um dos meus irmãos está doente, tem que tomar uns tarja preta que causam um efeito colateral muito sinistro, às vezes o moleque apaga e cai. Meus pais estão velhos, e meu coroa se encontra atolado em dívidas. Não é fácil. Tenho me sentido como o Fritz, do Robert Crumb, naquela história "O Inútil". Não há muito que eu possa fazer por enquanto, e isso é foda.
As notícias do início do mês também não foram muito boas aqui na área. Os dois fatos mais relevantes das duas últimas semanas foram um incêndio cabuloso numa área de proteção ambiental, a Serra de Itabaiana, dia 01; e um assalto espetacular à agência central da Caixa Econômica, dia 03. Foi o assalto mais sofisticado que já aconteceu por aqui: um grupo de 15 assaltantes fez de reféns as famílias de três gerentes do banco, invadindo suas residências na meia-noite da véspera do assalto; no dia seguinte, fizeram os gerentes entrarem no banco com explosivos amarrados aos corpos e retirarem R$ 200.000 em dinheiro e mais as jóias que estavam no cofre de penhores. No fim, todos os reféns foram libertados e os ladrões ganharam o mundo. Sim, o mundo é dos ladrões.
No entanto, apesar da minha visão pessimista da realidade, ainda acho que podia ser pior. Se compararmos nosso século ao início do séc.XX, veremos que não estamos tão mal assim. A primeira metade do século passado foi extremamente conturbada: a Europa se arrasou c/ 2 Guerras Mundiais, os EUA quebraram c/ a queda da bolsa de N.Y. e só se ergueram c/ a vitória na 2ª Guerra; o nazismo e o comunismo exterminaram milhões de pessoas, no ocidente e no oriente, isso sem falar nas pequenas guerrilhas e revoltas que também fizeram suas vítimas. A diferença é que hoje ficamos sabendo de tudo mais rapidamente, quase ao mesmo tempo em que os fatos acontecem, e isso é que faz a coisa parecer tão fedida. A humanidade fede há muito tempo, só que agora temos mais consciência disso.
Por isso, não adianta esquentar muito c/ essas fitas. Neste início de mês voltou a dar onda no pico em frente à minha casa. Como eu estou desempregado, tenho tempo de sobra pra ficar na praia, queimando os dedos, esperando o mar pegar fogo pra comer peixe assado. Nem tudo está perdido.

@dolfo s@´ - jornalista-gonzo, homem-brasa, gosta de surf e dos livros do Hunter Thompson.