terça-feira, julho 26, 2005

FAÇA SUA PRÓPRIA REVOLUÇÃO
“O cotidiano é algo muito complexo.” A frase não é minha, é do Harvey Pekar.

Se você nunca ouviu falar do cara, tudo bem. Ele não é muito conhecido mesmo, fora do circuito de quadrinhos underground. Para quem saca o cara, ele é um ícone. Autor do celebrado gibi American Splendor, na ativa desde os anos 70, Harvey Pekar era a personificação do “loser” americano quando começou a fazer suas histórias: já tinha passado dos 30, começava a ficar careca, tinha um emprego fudido de arquivista num hospital, e havia sido largado pela 2ª mulher por causa de seu estilo de vida “plebeu” e um problema nas cordas vocais que o impedia de falar normalmente.

Amigo de Robert Crumb – um dos maiores gênios dos quadrinhos de todos os tempos - , colecionador de gibis e discos antigos de jazz, Pekar tinha a vontade mas não a habilidade – até hoje o cara não consegue desenhar um O c/ 1 copo. Ao mostrar seus esboços de HQ p/ seu chapa, sua vida mudou. Crumb ilustrou as primeiras histórias de Pekar, dando início a um trabalho inovador e revolucionário.

Até os anos 60, os quadrinhos se dividiam em basicamente 2 gêneros: super-heróis e infantil. Crumb foi um dos primeiros autores a romper c/ isso, ao colocar personagens aparentemente “bonitinhos” em situações adultas e muitas vezes “subversivas”. A contribuição de Harvey Pekar foi colocar gente comum, sem grandes perspectivas ou expectativas na vida, dentro das histórias em quadrinhos. E ele fez mais: colocou ele mesmo como personagem principal das suas histórias, sem pegar leve ou dourar a pílula. As histórias de American Splendor retratavam a vida comum que ele levava, e das pessoas ao seu redor.

Semana passada assisti “American Splendor”, o filme. Um dos melhores dos últimos anos, fácil. A grande sacada dos diretores (não lembro o nome deles) foi utilizar a própria linguagem do Pekar p/ retratar sua vida, extraindo os episódios a partir das próprias revistas originais. O filme mistura ficção e realidade o tempo todo, e é narrado e comentado pelo próprio Harvey. Na época em que foi lançado ganhou o prêmio principal no festival de Sundance (EUA) e também teve destaque em Cannes (França). Recomendo.

Tudo bem, eu podia estar falando aqui sobre toda essa merda que tá rolando atualmente. Descobriram que tinham uns políticos roubando aí, hah!, e andam explodindo umas bombas na Inglaterra. Bom, fodam-se os ingleses. São séculos de imperialismo bélico sobre o mundo.
Como disse meu amigo designer desta página: “Tá rolando um massacre silencioso e sinistro no Sudão, em um lugar chamado Dafour e ninguém faz nada pelo povo que mora lá... leia mais nos informes dos Médicos sem Fronteiras: aqui, aqui e aqui.

´Outro lance que eu acho muito bacana, foi uma revolução que rolou lá na Oceania e ninguém ficou sabendo. Um povo de uma ilha perdida chamada Bougainville se viu oprimido pela Papua Nova Guiné , que agia como feitor de escravos a mando de uma empresa mineradora da Austrália. A ilha é riquíssima em cobre (a base de cabos de transmissão de dados, a economia do séc.XXI) e a exploração desse minério estava destruindo a natureza. Os nativos são ligadíssimos no seu meio ambiente, daí ficaram muito putos (com razão) e começaram uma guerrilha, uma ecoguerrilha. Só que, isolados do resto e do mundo e para piorar,como não tinham o apelo do marketing zapatista, não atraíram a atenção da mídia.

´O jeito foi partir pra luta com o que tinham em mãos. Construíram zarabatanas e estilingues enormes para combater mercenários armados com metralhadoras e helicópteros. Como não tinham combustível para movimentar os carros tomados da mineradora, passaram a fazer Biodiesel com coco. Aliás, eles tiravam tudo o que precisavam da floresta: comida, armas, combustível e remédios... Mesmo com tudo contra eles, os caras botaram os inimigos pra correr...

´Não é uma história muito doida? Veja mais
aqui..."

É sim. As melhores histórias são aquelas que não estão nos jornais. A revolução não será televisionada, mas estará disponível na internet.

Faça como o Harvey Pekar ou os caras de Bougainville. Comece sua própria revolução.

por @dolfo s@´

Um comentário:

... AEROTRIO ... disse...

Fala Adolfo, beleza?
Talvez não lembres de mim, mas eu acompanhava o Cabrunco (sou de campina grande, PB) ...
Muito legal continuar te lendo aqui no "viva la... brasa".
Abraço.

Edmar