terça-feira, novembro 08, 2005

A VIDA IMITA O ÓDIO

Há 13 dias a França vem vivendo dias de caos e terror, com ruas em chamas, saques e confrontos. A onda de violência nos arredores de Paris começou c/ a morte de dois adolescentes de origem estrangeira, eletrocutados em uma instalação industrial ao fugir da polícia. Foi o estopim p/ as minorias étnicas insatisfeitas c/ o racismo, o desemprego e a repressão policial. Muitos dos saqueadores são cidadãos nascidos na França, mas de ascendência árabe ou africana. A periferia francesa é constituída por conjuntos habitacionais construídos nos anos 1960 e 70 p/ abrigar os imigrantes. O que é de admirar é que estamos falando de uma das nações mais fortes, civilizadas e estáveis do mundo.

Somente na última segunda-feira, 1400 carros foram queimados. No incidente mais sério, jovens de Grigny, subúrbio ao sul de Paris, fizeram uma emboscada c/ pedras, coquetéis molotov e armas de fogo contra a força policial. Dez tiras ficaram feridos, dois deles em estado grave, feridos no pescoço e nas pernas. Cerca de 200 jovens participaram do ataque. Na quarta-feira da semana passada, os manifestantes já haviam disparado contra policiais e bombeiros, mas sem feridos.

O sindicato policial da França pediu que o governo impusesse um toque de recolher nas áreas atingidas pelos distúrbios. Ignorando as ameaças, os jovens rebelados provocaram tumultos pela 12ª noite consecutiva ontem, terça-feira, incendiando mais de 800 veículos em todo o país e ferindo mais quatro policiais. "Nada parece conter a guerra civil que se alastra um pouco mais a cada dia por todo o país", disse uma nota do sindicato. "Os fatos que estamos vivendo agora não têm precedentes desde o final da 2ª Guerra Mundial."

Os protestos vêm diminuindo de intensidade na região da Grande Paris, mas têm aumentado em outras partes da França. As cidades de Marselha, Saint-Etienne, Toulouse, Metz e Lille foram as mais afetadas, até o momento. Em Sain-Etienne, um ônibus foi queimado, ferindo o motorista e um passageiro. Em Toulouse, um carro em chamas foi jogado contra a entrada de uma estação de metrô. Em Lens, uma bomba caseira explodiu em uma igreja. Em Lille, 50 carros foram queimados e um repórter da TV belga foi agredido.

E os conflitos começam a se espalhar por toda a Europa. Na Alemanha, cinco carros foram incendiados em Berlim no domingo, e seis em Bremen. Segundo Wolfgang Schaeuble, ministro do interior da Alemanha, "nós (alemães) não temos os conjuntos habitacionais gigantescos que se vêem nos subúrbios das cidades francesas, mas temos sim áreas em que os estrangeiros estão cada vez mais dissociados do resto da sociedade".

Todo 1º de maio Berlim enfrenta tumultos, e ocasionalmente carros de luxo são incendiados por extremistas de esquerda, mas até então não havia um elemento étnico nos ataques, como ocorre agora. A Alemanha possui a segunda maior comunidade muçulmana da Europa depois da França - 3,2 milhões de pessoas. Na Holanda, 20% da população tem ascenção estrangeira. Na Itália, o líder da oposição, Romano Prodi, afirmou: "Temos as piores periferias da Europa. Não acho que as coisas sejam tão diferentes de Paris. É apenas uma questão de tempo". "Todo mundo está preocupado c/ o que está acontecendo", disse o premiê britânico Tony Blair. O governo francês vem sendo duramente criticado pelos principais chefes de Estado pela falta de uma política efetiva de imigração e integração social.

Quem assistiu a "O Ódio", do francês Mathieu Kassovitz , tem a impressão de que já viu esse filme antes. A película, de 1995, contava a história de três adolescentes de origem estrangeira, residentes na periferia de Paris, após a morte de um de seus amigos na mão de policiais. O incidente gera um conflito entre forças policiais e jovens do subúrbio. Ou seja, essa bola já vinha sendo cantada há muito tempo, mas as autoridades francesas devem ter achado se tratar de mera obra de ficção. O filme termina com uma metáfora, a história de um homem otimista que, ao cair de um prédio, fica repetindo a si mesmo: "até aqui está tudo bem... até aqui está tudo bem...".

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