sexta-feira, dezembro 30, 2005

PRA NÃO PASSAR EM BRANCO Na manhã do dia 25 de outubro de 1975, Wladimir Herzog apresentou-se ao centro do DOI-Codi, na rua Tutóia, em São Paulo. “DOI-Codi” significava Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna, órgão repressivo do regime militar. Diretor de jornalismo da TV Cultura, Herzog fora convocado na noite anterior por agentes do serviço de inteligência da ditadura p/ prestar depoimento sobre suas ligações com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), proibido à época. Seu depoimento, no entanto, foi uma sessão de tortura.
Vladimir Herzog, vulgo “Vlado” p/ os amigos, foi preso, torturado e morto no mesmo dia em que se apresentou às forças armadas. 30 anos após o ocorrido, seu assassinato continua relevante. Em nota divulgada na ocasião, o Exército informou que Herzog admitira ser membro ativo do PCB, e que teria se enforcado com o cinto do uniforme de presidiário após denunciar seus companheiros de esquerda.
Em outubro de 2004, quase 20 anos após o fim da ditadura (1964-85), o caso Herzog voltou à tona c/ a divulgação de supostas fotos inéditas do jornalista, nu na prisão, antes de ser morto sob custódia. Os militares dessa vez divulgaram nova nota, que dizia que “as medidas tomadas pelas forças legais foram uma legítima resposta à violência dos que recusaram o diálogo”. Essa frase pegou tão mal pros milicos que até o presidente Lula veio a público exigir retratação pública do comandante do Exército, gal. Francisco Albuquerque. Em seguida, o secretário de Direitos Humanos, ministro Nilmário Miranda, divulgou nota negando que o retratado nas fotos fosse Vlado. A viúva do jornalista, entretanto, discordou: “Eu o reconheci na foto que ele está abaixado e de frente. Sei que é ele. Conheço meu marido.”
Pois bem, se Herzog estava preso sem roupas – o que por si só já é uma grave violação dos direitos humanos – como ele pode ter se enforcado c/ um cinto?... Seu corpo foi apresentado à imprensa da época pendurado em uma grade mais baixa que sua altura. Mesmo assim, o laudo do médico-legista Harry Shibata sustentava a tese de suicídio. Segundo o jornalista Elio Gaspari em “A Ditadura Encurralada”, aquele foi o 38º “suicídio” de presos do regime militar, e o 18º por enforcamento.
Baseado no conceito da “Doutrina da Seguraça Nacional”, disseminado a partir da National War College dos EUA, o regime militar brasileiro criou uma série de órgãos voltados p/ dar combate ao “inimigo interno”. Estabeleceu-se, então, uma estrutura verticalizada que ia desde instâncias de controle até o gerenciamento da atividade repressiva, que ocupava o topo da pirâmide hierárquica. Tudo isso começou com a criação do Serviço Nacional de Informações (SNI) e a implantação do Ato Institucional nº5 (AI-5), a partir de 1964.
Centenas de militantes de esquerda foram presos e torturados em São Paulo no ano de 1975. A onda de prisões foi a resposta da linha-dura do Exército à vitória do MDB nas eleições de novembro de 74. Mas, p/ o rabino Henry Sobel, da Congregação Israelita Paulista, o assassinato de Herzog foi um tiro pela culatra do regime militar: “Foi o catalisador da abertura política e da restauração da democracia. Esse fato será sempre a recordação dolorosa de um sombrio período de repressão, um eco eterno da voz de liberdade que não se cala jamais.”
A Sociedade Israelita não aceitou a versão oficial e decidiu não enterrar o jornalista na ala destinada aos suicidas. Segundo a tradição judaica, os suicidas são enterrados nos cantos dos cemitérios, uma maneira de recordar do pecado que é tirar a própria vida. “Vi o corpo de Herzog. Não havia dúvidas de que ele tinha sido torturado e assassinado”, disse o rabino Sobel. “Resolvi que Vlado deveria ser enterrado bem no centro do território sagrado, c/ todas as honras de judeu e brasileiro honrado que ele era.”
Em 1978, o legista do caso confessou ter assinado o laudo necroscópico da vítima sem examinar ou sequer ver o corpo, e a Justiça responsabilizou a União por prisão ilegal, tortura e morte de Vladimir Herzog. Em 1996, a Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos também reconheceu e admitiu o fato, e estabeleceu uma indenização p/ sua família. 30 anos após sua absurda morte, a memória de “Vlado” permanece como símbolo da liberdade e dos direitos humanos. Para o rabino Henry Sobel, contudo, a sociedade brasileira ainda não absorveu a lição: “Infelizmente, a redemocratização do país ainda não acabou c/ a tortura de presos. Não basta alguém defender
nossos direitos, é preciso que a solução parta da sociedade como um todo.”

saiba mais: www.resgatehistorico.com.br www.desaparecidospoliticos.org.br

Um comentário:

Jozinha disse...

Olá! Quero parabenizá-lo pelo texto. Eu, que nasci em 1981, não tenho muito conhecimento da época da ditadura. É importante que as pessoas de minha geração saibam os absurdos que ocorreram nesta época, e que possam tomar como exemplo para evitar que isto aconteça no futuro... talvez eu esteja sonhando alto, mas acredito que é possível aprender com os erros do passado... mas quem vai aprender somos nós, que não vivemos no passado, porque akeles q fizeram estes horrores, lamentavelmente não terão tempo para "recuperar" ou "mudar" o q já foi feito...