segunda-feira, dezembro 19, 2005

VENCER NÃO É TUDO (MAS É 100%)Slater é o cara! Além de ganhar uma belíssima grana pra viver de pegar onda, agora o cara tá pegando a brasileira mais desejada do planeta, Gisele Bündchen. Tudo bem que o Kelly Slater é 7X campeão mundial de surf. Mas, embora bastante justo, é ½ chato que a história seja escrita apenas pelos vencedores. Como eu também surfo, e sempre tive predileção pelos anti-heróis, decidi fazer uma lista de alguns dos surfistas mais desgraçados de todos os tempos, aqueles que, apesar de quebrarem as ondas, nunca conseguiram lidar muito bem com o sistema e quase sempre foram engolidos por ele. O Slater é o maior de todos os tempos e influenciou o jeito de surfar do mundo todo, mas esses são os meus heróis no surf:

Mickey Dora> o “rei de Malibu” dos anos 50 foi o personagem mais selvagem e anti-social do surf... aterrorizava os haoles que cometiam o enorme vacilo de entrar nas suas ondas (sua prancha era uma arma), saiu de cena voluntariamente à medida em que o surf atingia as multidões, e passou 3 décadas viajando o mundo sendo caçado pelo governo americano por sonegação de impostos. Morreu há alguns anos, recluso e underground, do mesmo jeito que sempre viveu.
Michael Peterson> enquanto quis, foi o principal nome do surf competitivo da Austrália nos anos 70 – venceu os maiores eventos da época, e acendeu o fogo por competições que instiga os aussies até hoje... tinha um estilo moderno e radical, mas o uso de heroína abriu umas portas obscuras dentro de sua cabeça, e ele parou de surfar pra sempre. Hoje, cinquentão e pesando 125kg, leva uma existência à la Syd Barrett, seqüelado e recluso na casa da mãe.

Buttons> negão black power dos anos 70, que aplicava manobras que só seriam usadas 20 anos depois... caiu nos ostracismo nos 80, se meteu numas tretas erradas, foi em cana uns anos, mas ainda pega onda (vários havaianos black trunk tiveram problemas c/ a lei, tipo o Marvin Foster, Johnny Boy e Kala Alexander, o local mais chato da atualidade).

Jim Banks> australiano dos anos 70, abandonou as competições ainda novo p/ ir atrás de ondas tubulares e perfeitas (na época, o circuito mundial era realizado em praias que pudessem lotar de gente na areia, ondas eram secundárias)... entre outras viagens, desenvolveu uma prancha feita c/ resina de cannabis.

Simon Anderson> competidor nos anos 70, época em que se surfava com pranchas de 2 quilhas, inventou a triquilha, usada por 100 entre 99 surfistas hoje em dia. Se esse cara tivesse patenteado sua invenção, estaria mais milionário que o Slater, mas vive até os dias atuais na sua sala de shape, tomando pó de poliuretano na cara e ganhando uns trocados.

Mark Occhilupo> conhecido como "Raging Bull" nos anos 80, apelido ganho ainda moleque por causa das suas patadas descomunais nas ondas e das merdas que aprontava consigo próprio, que nem o Jake La Motta... “Occy” é protagonista da maior história de redenção do surf: chegou a pesar 110kg e ser considerado acabado, mas voltou depois dos 30 e foi campeão mundial surfando muito... fora de série, é a exceção que confirma a regra.

Tom Curren> mestre do estilo – quem surfa bonito hoje deve muito a esse cara. Tricampeão do mundo, recordista de vitórias no circuito mundial, desistiu das competições desestimulado com a saída de Occy, no fim dos 80... perdeu patrocínios, fez um monte de filhos pelo mundo, tornou-se guitarrista de jazz, e voltou a competir depois dos 35, para pagar as contas...

Martin Potter> inglês, criado na África do Sul, precursor dos aéreos e do surf moderno, apareceu no cenário aos 15 anos (tipo o Occy e o Peterson Rosa) arrepiando tudo, mas seu surf anti-convencional p/ a época fez c/ que um dos mais respeitados jornalistas do surf (Derek Hynd, o caolho) sentenciasse numa resenha: “o Pottz nunca vai ser campeão mundial!”; bom, o cara ficou mordido c/ essa declaração e venceu o circuito do ano seguinte c/ 7 vitórias – uma marca similar às de Curren e Slater em seus melhores anos...

Matt Archbold> americano, outro cabeludo precursor dos aéreos, junto c/ Pottz e Christian Fletcher (outro louco, filho do inventor do Astrodeck); chegou a correr o mundial nos anos 80, mas era porra-louca demais e nunca arrumou nada... foi preso, não lembro porque, mas hoje é um ícone pros yankees. Aficionado por velocidade e carros tunados (estilo old school), tem o corpo quase fechado de tattoos.

Dadá Figueiredo> punk, dreadlock, junkie, Dadá foi o surfista brasileiro mais perigoso do seu tempo... Tinha um surf quebrado que estava pelo menos 10 anos à frente, foi top do Brasil por vários anos, além de campeão carioca em 89. Shapeava suas próprias pranchas, que tinham marcas como Anti-Fashion e Necrose Social. Ouvia hardcore e tocava baixo na Os Nor+. Tomou várias facadas em um bar carioca, em 1990, e nos anos seguintes foi sumindo aos poucos, chegando a parar de surfar no auge da loucura – ficou viciado em cocaína e beijou a sarjeta. Depois, mais velho, arrependeu-se dos pecados (eram muitos), converteu-se ao cristianismo, casou-se, e hoje é um respeitável shaper e professor de surf na Barra da Tijuca. Um cara de extremos.

Nicky Wood> é até hoje o surfista mais jovem a vencer uma etapa do circuito mundial – venceu em Bells aos 16 anos! Mas sempre foi fissurado em festas e drogas, e se perdeu nas nights apesar de ter vencido um punhado de eventos (inclusive no Havaí). Era magro e tinha o cabelo bem preto, totalmente diferente do estereótipo do surfista. E ainda fumava cigarro! Venceu 2 Hang Loose Pro no Brasil saindo direto da balada pras baterias. Bizarro!

Richie Collins> por falar em bizarro... esse tinha o estilo mais alien que eu já vi: magro, base abertíssima, cabelo moicano, shapeava as próprias pranchas, surfava c/ horríveis luvinhas (essa porra foi moda por um tempo) e, mais importante, nunca sorria.

Olimpinho> várias vezes campeão baiano nos anos 80, era o herói da praia onde aprendi a surfar, a Caracas – hoje em dia essa praia é considerada a mais perigosa em termos de localismo da Bahia, porque quem surfa lá é a rapaziada da gigantesca favela do Nordeste de Amaralina (imagina a Rocinha, é por aí), o mesmo lugar de onde o Olímpio saiu. O cara é um negão pesadão que manda muito bem – quebra as ondas, mas tem um estilo muito polido. Sempre sofreu c/ falta de grana e patrocínio, mudou-se p/ o Rio nos anos 90 e só emplacou mesmo quando começou a surfar de pranchão. Foi campeão brasileiro de longboard em 1999 (venceu 2 etapas, inclusive o internacional da Red Bull) e até hoje vive do mar. A última vez que surfei na Amaralina foi nesse mesmo ano, e deu pra sentir que o clima por lá tava pesado. Ano passado, meu irmão subiu a favela procurando os 2 irmãos mais novos de Olimpinho, Batata e Mimi, ambos amigos nossos; a resposta que ouviu da rapa local foi: “rei, Batata ta na detenção e Mimi, mataram”...
Essa foi minha escola de surf.
@dolfo s@´- também conhecido como "homem-brasa", mora na praia e não apaga na água

5 comentários:

vitor disse...

irado o revival, nao entendi seu nome mas mandou bem, ve meu blog www.react.blogspot.com

Anônimo disse...

Aí cabra, uma pequena colaboração o Matt Archbold, foi preso por dirigir em alta velocidade e embriagado e outra feita por porte de drogas, pelo menos é o que foi publicado na mídia (MIRDIA quase MÉRDIA)surf local.Muito bom teu blog, por indicação do Julio Adler ganhaste mais um leitor. Siga em frente

Adão disse...

muito legal
eu tive umas aulas de surfe no Rio, aos 37, e peguei gosto pela coisa.
pranchao, macumba, ondas geriatricas...

surfar é melhor que fazer sexo...
com ovelhas.

Hugo Ribeiro disse...

Porra bróther, tu ainda tá afiado. Mas senti falta do Tom Carrol, pré Currem...
Abraços,
Hugo

Anônimo disse...

Desculpe-me em deixá-lo triste mas hoje, 31/10/2006 Olimpinho também foi morto, só que no Rio.