quinta-feira, setembro 22, 2005

EU TÔ DE PÉ *





Segundo a Associação Brasileira de Fabricantes de Motocicletas (Abraciclo), a indústria nacional de motos produziu mais de 1 milhão de unidades em 2004, um crescimento de 10,7% em relação ao ano anterior. Essa tendência deve se manter neste ano e nos próximos, impulsionada pela redução dos preços das motocicletas combinadas com o aumento das tarifas do transporte coletivo.
O aumento no número de motos em circulação é uma das características da nossa sociedade atual. Mas, segundo estudiosos como o engenheiro Allan Cannell, especialista em Segurança de Trânsito, essa mudança social traz também graves conseqüências, como o aumento de violência nas pistas: “Boa parte dos acidentes envolvendo motos resulta em óbito devido à fragilidade em que se encontra o motociclista, sem a proteção que existe nos carros.” Segundo as estatísticas, no mesmo período de um ano, os acidentes aumentaram 3X mais que a frota.
Bom, se você que está lendo este texto e é freqüentador do blog, já sabe do que eu ´tou falando – há 1 mês me acidentei feio de moto, ao bater num cavalo solto na estrada numa noite sinistra que lembrava Sin City. “Há 20 anos, a maioria dos acidentes envolvia pedestres; hoje são motocicletas”, diz Cannell. Eu podia ter me fodido legal: estava sem capacete, a 80 km/h, e nem vi em que bati. Se tivesse morrido, pelo menos teria sido rápido e sem dor.

BLACK SUNDAY - Naquele domingo eu tinha acabado de estrear um som novo e uns discos do Cypress Hill que eu tinha perdido uns anos atrás. A história era a seguinte: eu tinha emprestado 3 CDs p/ um amigo, o Cássio, que demorou uma cara p/ devolvê-los. O Cássio ´tava andando direto c/ o Matheus, que passava uma coisa e fazia tatuagens. Por causa de uma dessas tretas de drogas e dívidas, um combo do mal catou o Matheus, e o Cássio, que não tinha nada c/ a fita, foi junto. Mataram os dois. O Cássio tava c/ os meus discos, ia finalmente me devolver.
Durante muito tempo fiquei com raiva do Cássio, por ter morrido tão jovem e de um modo tão besta. Foi +ou- o tipo de sentimento que bateu na morte de outros amigos. Confesso que cheguei a desejar que ele tivesse me devolvido os discos e emprestado uns “Rarity” dos Wailers que ele tinha, produzidos pelo Lee Perry...
Os discos eram o “Black Sunday”, o “Grandes Exitos em Español” e o “IV”. Recuperei os 2 primeiros, que continuam entre os meus preferidos. O Cypress Hill ficou famoso nos anos 90 como uma banda de rap que cantava a maconha (antes do Planet Hemp, que fique bem claro), mas hoje eu saco o que eles dizem e vejo que não era só isso. Formada originalmente pela dupla de MCs, Be Real e Sen Dog, e pelo DJ Muggs, o C.H. é um dos ícones do estilo “bate-cabeça”, caracterizado por beats pesados e repetitivos, e tem como marcas registradas os samples fantasmagóricos, o vocal fanho de B Real e o vocabulário “spanglish” das letras, que não falam só de bagulho – o universo dos caras envolve assaltos, brigas de gangue, tiros e mortes.

HELL RAISERS - “A moto é totalmente vulnerável. Sua única defesa é a mobilidade e toda situação de acidente é potencialmente fatal, em especial numa autoestrada, onde não há nenhum espaço para cair sem ser atropelado quase imediatamente.” Hunter S. Thompson, Hell´s Angels.
O Hunter é uma referência forte p/ mim, no meu estilo jornalístico (gonzo). “Hell´s Angels” foi seu primeiro livro. Entre 1965 e 66, H.S.T. conviveu com os Angels, uma gangue californiana de motoqueiros fora-da-lei violentos, fascistas e estupradores; e dessa convivência escreveu o livro-reportagem que alavancou sua carreira. A lua-de-mel entre o jornalista bastardo e os motoqueiros do inferno terminou numa briga de bar onde Thompson foi esfolado vivo por meia dúzia de Angels furiosos.
O episódio foi tão traumático p/ o escritor que ele encerra seu livro citando Joseph Conrad, em "No Coração das Trevas”: “O horror! O horror! Exterminem todos os brutos...”. Quanto a mim, tenho sorte. Já me envolvi em brigas, tive amigos mortos, e escapei de mais uma. Alguém lá em cima gosta de mim.
Mal posso esperar p/ voltar a andar de moto.



@dolfo s@´ (dedicado a Cássio e todos os amigos que se foram)
* título de um álbum de Bezerra da Silva

sexta-feira, setembro 16, 2005


SÓ OS FORTES SOBREVIVEM

Vocês acreditam em milagres? Pois Adolfo hoje é um verdadeiro milagre! Sou a namorada dele e vou contar porque:

Domingo, 21/08/2005, 21:00 h. Estávamos a uma velocidade de aproximadamente 80 km/h, na chuva, à noite, numa estrada mal-iluminada, e sem capacete – irresponsáveis totalmente – quando, de repente, uma pancada bem forte: era Adolfo que, ao se bater c/ um cavalo, VOAVA – mesmo sem ter asas – para o outro lado da pista!

Fiquei desesperada, não sabia se chorava ou pedia socorro... Por um instante pensei que ele estivesse morto, desci da minha moto (Biz) pedindo ajuda aos carros que passavam mas ninguém parava. Um senhor que morava do lado saiu de casa ao ouvir o barulho do acidente; olhando p/ o corpo todo contorcido no chão pediu p/ que eu me acalmasse, dizendo que tudo ia dar certo. Falar é fácil!

Após uns 5 minutos, Adolfo começou a voltar. Quase choro de felicidade e alívio! Tentou levantar-se, algo parecia errado c/ sua perna, mas ele insistia em levantar sozinho – queria ver se não tinha ficado paraplégico ou algo assim... O tiozinho se ofereceu p/ levá-lo a um hospital, mas ele não aceitou, pediu p/ guardar a moto até o outro dia – eu preocupada e ele só falava no prejuízo da moto... é mole?! (que, falando nela, ficou toda destruída, só p/ dar uma idéia a bateria foi cair a uns 3 metros de distância)

Em seguida, ele subiu na minha moto me pedindo p/ levá-lo em casa, no caminho pedi p/ irmos a um hospital, mas ele dizia estar bem. BEM? Para meu desespero, de 5 em 5 segundos me perguntava: “-Gatinha, cadê a minha moto?... Onde tá a chave?... Tá com você?... O que aconteceu comigo?... Minha perna tá doendo!... Veja se ela tá igual a outra?... Você tem crédito no celular?...” Não parava de me fazer essas perguntas, achei que tivesse batido a cabeça. Mesmo assim, sem querer acreditar, perguntei se estava brincando comigo, mas eu via que não.

Chegamos à casa dele, Adolfo entrou no banho p/ tirar a lama, mas quando saiu não estava agüentando mais de dor – a perna esquerda ficava cada vez mais roxa e inchada, e ele não parava de vomitar. Meu namorado mora na praia, numa ilha, o que complica as coisas na hora de uma emergência. Por sorte, um enfermeiro que estava de folga numa casa vizinha apareceu e diagnosticou: “fratura interna”. Neste momento, o irmão mais novo chegou do surf c/ uns amigos e, mais importante, um carro.

Mais de 3 horas após o acidente, chegamos ao hospital. Após vomitar na recepção, ser encaminhado de cadeira de rodas ao setor de trauma, e tirar os raios X da cabeça e do fêmur, Adolfo foi diagnosticado: rompimento de tendão. O acidente foi PUNK, o pior podia ter acontecido, graças a Deus só vão rolar alguns meses de molho, e nem será preciso operar. Devem ser os poderes do “Homem-Brasa”... Agora, aguardem a versão dele, pois estou cansada de contar esta mesma história p/ todo mundo que me pergunta. Ai, queridos, haja saco!

Beijos!


GIL – namora o autor deste blog há 9 meses e pilota (muito bem) há 3 anos