terça-feira, janeiro 17, 2006

É ESSE AÍ QUE É O HOMEM
Em uma noite fria dos anos 1950, o mendigo José vagava pela praia de Ipanema quando encontrou um lugar p/ dormir ao lado de outros mendigos, num canto das pedras do Arpoador. De repente, uma onda grande bateu na pedra e molhou todo mundo. O chefe dos mendigos disse que dormia ali havia muito tempo e aquilo nunca tinha acontecido, devia ser alguém muito “carregado”. Zé entendeu que era c/ ele e foi embora, molhado, pela noite da Zona Sul carioca. Olhou p/ uma mulher que ia passando, que, ao vê-lo, disse: “Sai pra lá, Exu!”.
Esse foi o ponto mais baixo da vida de José, mais conhecido como BEZERRA DA SILVA. Partideiro de primeira, cronista da vida nas favelas e subúrbios, porta-voz de “uma gente humilde e marginalizada”, José Bezerra da Silva nasceu em Recife (PE), em 1928, e mudou-se p/ o Rio de Janeiro aos 15 anos, em busca do pai e fugindo da fome. Viajou clandestino num navio de carga apenas c/ a roupa do corpo. Passou uma semana na casa do pai, funcionário da Marinha Mercante. “Ele veio pra mim e disse que eu tinha vindo pra atrasar a vida dele. Fui embora e nunca mais quis saber daquele pai.”, disse Bezerra à antropóloga Letícia Vianna, autora do livro “Bezerra da Silva – Produto do Morro”. Começava aí uma história de vida marcada por muito sofrimento e uma incrível volta por cima.
PRODUTO DO MORRO

Sem conhecer ninguém no Rio, Zé começou a trabalhar como ajudante de pedreiro em obras na Zona Sul. Passou a ser chamado de Bezerra pelos colegas, uma maneira de diferenciá-lo de tantos outros Josés. Como não tinha pra onde ir, dormia nas construções em que trabalhava. Com o tempo, aprendeu o ofício de pintor, conheceu uma empregada doméstica em Copacabana, e se mudou c/ ela p/ um barraco alugado no morro do Cantagalo, onde morou por 20 anos e criou raízes. Tocava tamborim nos pagodes e, nessas, conheceu Alcides Fernandes, também morador do morro e autor do sucesso “Chegou o General da Banda”, que o convidou a trabalhar na Rádio Clube do Brasil como percussionista.
Trabalhava na construção civil de março a outubro e tocava na rádio de novembro a fevereiro. Apesar de ganhar pouco nas duas profissões, a música lhe dava enorme prazer. Mas a vida no morro não era fácil, e Bezerra tinha que ficar sempre esperto p/ não pagar pedágio pra bandidagem local. “Havia a mentalidade de que a pessoa que trabalhasse era otário. Aí tinha que trabalhar pra dar dinheiro pra vagabundo. Um dia chegou um sujeito e disse que tinha saído da cadeia e que eu tinha que dar $20 mil réis a ele pra continuar morando no morro. Eu falei: ‘tudo bem, mas você não é a prefeitura.’ Ele falou: ‘no sábado estou te esperando.’ Aí no sábado eu meti o cacete nele! E a rapaziada passou a me olhar c/ um certo respeito, né. (...) Chama-se direito de defesa.”
O conhecimento das leis veio do tempo que trabalhou de motorista p/ um advogado criminalista. “Ele queria que eu fosse estudar Direito, pois viu que eu tinha jeito pra isso e fazia tudo na prática (...). E assim, comecei a ler o Código Penal. Logo comecei a me instruir em alguma coisa.”, disse ele à revista Rap Brasil, em 2004.
“Fui campeão de averiguações, conheço todas as delegacias da zona sul, fui em cana nelas todas!” Levado p/ averiguação 21 vezes, nunca assinou um B.O. por ter uma ficha exemplar. “Tinha um negócio chamado estatística, o policial que prendesse mais tinha um prêmio. Eu tava na esquina e a polícia vinha: ´documento, não sei o quê...’, e eu falava: ´vai me levar, tudo bem.’ Porque filho de rico não vai preso, né?”
CUIDADO C/ ESSA MULHER
Dividiu seu barraco c/ uma série de mulheres diferentes, ao longo dos anos no Cantagalo. Uma vez encontrou uma delas no seu barraco c/ um homem vestindo o pijama novo que ele havia comprado “p/ vestir aos domingos e aparecer na porta p/ todo mundo ver”. Bezerra acendeu um cigarro e disse pro Ricardão: “A mulher você pode levar, que não vale nada, mas o pijama você tira, que é meu.” E foi uma delas a grande responsável pelo inesperado revés em sua vida.

No final de 1954 Bezerra parou de trabalhar – não achava trabalho na construção civil nem no rádio. “Poucos sabem da história. Não tinha mais música, tudo me fugiu da mente. (...) então eu fui pra sarjeta. Eu já fui mendigo na rua, andando pra baixo e pra cima em Copacabana, sujo, sem ter onde dormir, sem ter o que comer.” Foram sete anos de fome e abstinência sexual. Chegou a se fingir de maluco p/ a polícia, a fim de ganhar uma refeição na delegacia. Quanto ao sexo, dizia: “Quem domina Freud sabe que sexo é tão importante como um prato de comida. Mas as mulheres nem olhavam na minha cara. Se uma menininha bonitinha me via, saía correndo e gritando: ‘o que é isso!’.” Segundo a antropóloga Letícia, esse período serviu p/ Bezerra como um “apredizado sobre a essência humana – um período fundamental p/ a sua coompreensão de mundo e seu papel nele”. Bezerra achava graça: “Como dizem os filósofos, quando a miséria é demais ela se torna engraçada”.
SE NÃO FOSSE O SAMBA...

Sua sina acabou quando foi salvo, segundo ele, pelo Caboclo Rompe Mato, que o dissuadiu de tentar o suicídio e o encaminhou a uma mãe-de-santo que descobriu a origem de seu problema. “Ela falou:´Você tá lembrado de um dia que você discutiu c/ uma mulher e mandou o Tranca Ruas enfiar o bife naquele lugar? Então, ele foi e enfiou no seu...’”, revelou Bezerra à autora de sua biografia. Sua única salvação seria converter-se à umbanda, fazer caridade, e seguir a carreira musical.
Bezerra passou os quatro anos seguintes morando e trabalhando em um terreiro na Gávea, até que, em 1961, seu Ogum, o Caboclo Rompe Mato, disse que sua pena estava cumprida e ele poderia ir embora. Quando saiu do terreiro, ganhou de um estranho na rua a chave de um barraco no Parque Proletário. Voltou a trabalhar na construção como pintor e a tocar na rádio como freelancer. Voltou a namorar. Começou a ser convidado p/ gravar a percussão em discos de sambistas famosos, como Clementina de Jesus e Roberto Ribeiro. Ganhou um concurso de carnaval c/ uma música de sua autoria, “Nunca Mais Sambo”, interpretada pela cantora Marlene. Teve duas outras composições, “O Preguiçoso” e “Meu Veneno”, gravadas pelo ídolo Jackson do Pandeiro.
Apesar da crescente notoriedade no mundo do samba, ainda não ganhava o suficiente p/ deixar o ofício da pintura. Casou-se em 1965 e teve o 1º filho de uma série de seis. Em 1969 gravou seu 1º compacto, pela Copacabana Discos. Em 1970, o 1º LP, pela Tapecar: “Bezerra da Silva – o rei do coco vol.1”. Mas, c/ a crise mundial do petróleo que comprometeu a distribuição de matéria-prima p/ a indústria de discos, esse álbum só foi lançado em 1975. Em 76, gravou o 2º volume de “o rei do coco”. Em 1977, consegue seu 1º emprego c/ carteira assinada e garantias trabalhistas, na orquestra da TV Globo, onde ficou por 8 anos, e aprendeu a tocar violão clássico.
Em 1978 gravou seu 1º disco de samba, pela CID. A gravadora não acreditava em seu nome e colocou o do seu parceiro na frente do título: “Genaro e Bezerra da Silva – partido alto nota 10”. No segundo disco, “Partido Alto Nota 10 (vol.2)”, só o nome de Bezerra aparecia na capa. No entanto, foi fiel ao amigo Genaro até a morte deste, em 1998. Em 1980, sai o 3º da série. “Aí começou o nome do Bezerra”, dizia.

Cumprido o contrato de 3 discos c/ a CID, rompeu c/ a gravadora e foi p/ a RCA, onde ficou 14 anos. De 1981 a 93, gravou um disco por ano e, pelas suas contas, vendeu mais de 10 milhões de cópias, apesar dos números oficiais ficarem na casa dos 3 mi. A RCA nunca divulgou seus discos, e Bezerra teve que desenvolver suas próprias estratégias p/ lançar seus trabalhos – tocava as músicas em sistemas de som comunitários das favelas e subúrbios, e fazia shows nas quebradas e nos presídios bancado pelos bicheiros e traficantes. Como não gostava muito dos sambas que compunha, buscava nas comunidades compositores locais p/ gravar suas músicas. Nascia o estilo “sambandido”, que antecipou em 10 anos a temática do gangsta rap e do funk carioca.
PARTIDO MUITO ALTO
Foi uma série de lançamentos c/ títulos que deixavam claro a que vinham: “Produto do Morro” (1983), “É esse aí que é o homem” (84), “Malandro Rife” (85), “Alô malandragem, maloca o flagrante” (86), “Justiça Social” (87), “Violência gera violência” (88), “Se não fosse o samba quem sabe hoje eu seria do bicho” (89), “Eu Não Sou Santo” (90), “Partideiro da Pesada” (91), “Cocada Boa” (93)... Seus parceiros tinham alcunhas como Trambique, Pinga, Embratel do Pandeiro e Em Cima da Hora, todos (esses e muitos outros) creditados. As letras desses sambas expressavam os conflitos sociais e agruras cotidianas da parte menos favorecida da população - aquela que nunca teve voz -, quase sempre c/ um viés bem-humorado e letras irônicas.
Rompeu c/ a RCA em 1993, descontente c/ o sistema de exclusão da indústria fonográfica. “A gente fica condenado àquela escravidão do angu. Aquela quantia que só dá p/ o almoço e janta. Eles forçam o artista a pedir adiantamento, o vale. Aí é que está a manobra, você está sufocado, e eles viram financeira. Eu digo: como é que pode? Eu tava fazendo sucesso. Saía caminhão de noite, disco sem nota, entendeu?”

Lançou na seqüência “Os 3 Malandros In Concert”, em parceria c/ Moreira da Silva e Dicró, sacaneando os famosos tenores Pavarotti, Domingo e Carreras. Assinou c/ a RGE, por onde lançou “Contra o Verdadeiro Canalha” e “Meu Samba É Duro na Queda”, voltando a desentender-se c/ a gravadora pelos velhos motivos.
Mas aí já era, e ninguém podia mais segurar o velho malandro. Ao longo dos anos 90, Bezerra foi redescoberto, regravado e idolatrado pela nova geração, além de continuar gravando seus discos. “Eu não acredito na derrota.”, costumava dizer. Gravou ainda os álbuns “Eu Tô de Pé” e “Provando e Comprovando Sua Versatilidade”, em 1998, e lançou seu 1º “Ao Vivo” em 99.

O SENHOR É DEUS
Casado c/ dona Regina, “1ª Dama do Samba”, desde o início dos anos 80, tornou-se evangélico por inluência da esposa, em 2001. Antes, em 2000, havia lançado “Malandro É Malandro e Mané É Mané” – a frase emblemática de sua carreira -, e gravou seu último disco, “Meu Bom Juiz”, em 2003, c/ sambistas paulistas – “artista nasce em qualquer lugar”, dizia aos bairristas.
“Ainda vou gravar p/ Jesus”. Freqüentador da Igreja Universal do Reino de Deus, Bezerra já não fumava, bebia, nem caía na noite. “Quando a maré está boa, dou um passeio c/ a patroa”, dizia rimando. Mas, mesmo a malandragem dando um tempo, ninguém fica pr’a semente. E no dia 17 de janeiro de 2005, há exatamente 1 ano, José Bezerra da Silva morreu, aos 77 anos, após 4 meses no hospital tratando-se de enfisema e pneumonia.

Partideiro sem nó na garganta, Bezerra tinha as paredes de seu escritório – sempre em Copa – forradas de discos de ouro, platina e platina dupla. Nunca ficou rico. E nunca roubou, a despeito de sua fama de malandro. Mesmo convertido, continuou falando a língua dos morros até o fim: “É o meu trabalho. Tenho fama de mal-educado, criador de caso e cantor de bandido. Vivo num país em que é proibido falar a verdade.”

3 comentários:

Hugo disse...

Ô blog du caralho, outra aula, parabéns. Bezerra é demais. Muito bom. Hoje mesmo eu escutei "A semente".

Hemeterio disse...

Humoristas perceberam que a data de morte do Bezerra; 17/1 dá 171. vai ser malandro assim...

Muito bom teu blog.

Karl disse...

Sempre é bom saber mais sobre o malandro. Postagem excelente.