sexta-feira, abril 07, 2006

RADICAL CHIC
Esta semana aconteceu um evento digno de nota em São Paulo. A Daslu, loja p/ ricos metidos a besta, recebeu o rapper MV Bill e o produtor Celso Athayde p/ o lançamento do livro “Falcão – Meninos do Tráfico”.
Com vcs, os melhores momentos do surreal release do encontro:
“(...) quarta-feira, 05 de abril, o Terraço Daslu abre seus salões para um dos mais importantes eventos de ação social dos últimos tempos (...) para um debate com os convidados sobre a obra e o documentário (...) exibido no Fantástico, da Rede Globo, e já considerado um marco no telejornalismo brasileiro. (...) Os autores também discutem temas polêmicos como racismo, segurança pública, repressão policial e a importância do hip-hop para a juventude que vive nas favelas. (...) O evento é fechado para convidados.”
MV Bill é um dos principais nomes do rap nacional, tem 2 discos lançados, e já havia escrito um livro antes deste, “Cabeça de Porco”, junto c/ seu parceiro Celso Athayde, produtor musical e criador do projeto Hutúz. Bill é morador da Cidade de Deus, e Athayde cresceu na Favela do Sapo, em Senador Câmara (RJ). Ambos são fundadores da ONG CUFA – Central Única das Favelas. Ou seja, os caras estão envolvidos c/ o problema social do Brasil desde o berço, e vêm trabalhando p/ mudar a situação há muito tempo, mas só depois de veicular um trecho de seu último documentário no Fantástico é que as classes mais abastadas se tocaram da realidade que existe fora de seus condomínios de luxo e carros blindados.A Daslu é conhecida por ser a loja mais grã-fina do Brasil. Ela vende artigos de luxo das griffes mais caras do mundo – Armani, Chanel, Prada etc. - , além de carros importados, lanchas e helicópteros. Tudo a preços modicamente extorsivos, porque p/ os ricos pagar mais caro é sinal de status. A sua sede é um prédio de quatro andares e 17 mil metros quadrados na Marginal Pinheiros, São Paulo. Mas, ironia do destino, ano passado a dona da loja, Eliana Tranchesi, seu irmão e mais dois executivos da empresa foram detidos pela Polícia Federal acusados de formação de quadrilha, sonegação fiscal, falsificação de documentos e contrabando. Segundo a polícia, a quadrilha dos abastados criava empresas no exterior p/ emissão de faturas comerciais p/ compra de outros produtos. Em seguida, essas faturas eram substituídas no Brasil por outras de menor valor. A Daslu deu um rombo na Receita Federal de pelo menos 10 milhões de dólares. Quer dizer, de crime eles também entendem.
Talvez venha daí a conexão. Eu só fico imaginando o debate dos “representantes da favela” c/ os convidados vip, entre as flores do terraço e o cafezinho tipo exportação:
- Mas não dá pra pôr essas crianças numa creche?!...
A última polêmica em que a Daslu se envolveu foi o processo em cima da marca “DASPU”, uma criação da ONG Beijo da Rua, que cuida de prostitutas e as orienta em sua vida de risco. A Daspu, como sugere o nome, produz roupas desenhadas e costuradas por putas, possibilitando a elas diversificar sua renda e abrindo a possibilidade de uma nova profissão. A “griffe” é inovadora, apresentando uma nova opção p/ as mulheres: as roupas de batalha, baseadas no figurino que as garotas da mais antiga profissão do mundo usam (ou tiram) quando estão pegando no pesado. A Daslu considera que o nome que as garotas escolheram p/ sua marca pode prejudicar sua imagem refinada. Mas não foi o pessoal da Daslu que foi acusado de formação de quadrilha, sonegação, falsificação e contrabando? Uma camiseta da Daspu (R$ 20,00) custa menos que entrar c/ o carro no estacionamento da Daslu (R$ 30,00 a 1ª hora!). Talvez as putas devessem processar a Daslu por denegrir a sua imagem.
Voltando ao evento da última quarta, MV Bill afirmou: “Não queremos, c/ este livro, apresentar soluções p/ a criminalidade infantil, induzir opiniões, ou fazer uma análise profunda baseada em teorias p/ explicar o motivo dessa tragédia. Pretendemos simplesmente narrar as dificuldades que fizeram parte do nosso dia-a-dia, durante as gravações do documentário Falcão”. Ah, bom.
Só p/ finalizar, o mediador do encontro foi o jornalista Paulo Lima, editor das revistas Trip, TPM e... Daslu!


Marketing social...
Vão tomar na CUFA!

Chora, favela...


3 comentários:

Vida Fuleira disse...

Aqui tem um post interessante sobre esse assunto:

http://www.gardenal.org/mauhumor/2006/04/theres_no_such_thing_as_a_rapp.html

Vida Fuleira disse...

Ah, o bairro é Senador Camará...

Viva La Brasa disse...

Só, o Arnaldo Branco tem um texto muito bom, além disso o cara inventou o Capitão Presença e é amigo dos meus amigos.