quinta-feira, novembro 30, 2006

OLIMPINHO
Juro que eu não queria mais home-nagear nenhum herói morto, pelo menos por esses dias. Queria uma trégua de notícias ruins. Por isso já tinha deixado de falar em política. Mas ontem recebi uma notícia que me deixou baqueado. Estava na fábrica de pranchas do Ricardo Gringo, meu shaper há quase 10 anos, quando me contaram: mataram Olimpinho!
Quando eu comecei a surfar nos anos 80, ele era o melhor surfista, não só da praia que eu freqüentava, como de todo estado. Nascido e criado na favela do Nordeste de Amaralina, Olímpio Batista aprendeu a surfar no Quebra-Coco, uma onda poderosa que quebra praticamente na areia e forjou seu surf forte e estiloso.
A febre do surf atingiu Olimpinho no início dos anos 70”, escreveu seu amigo Cly Lolie. “Fez a primeira prancha de tábua de compensado, as populares ‘taubinhas’. Pra conseguir a 1ª prancha de fibra, teve que trabalhar de ajudante de pedreiro, ‘virando’ cimento na obra em que seu pai trabalhava. Com o trampo deu pra juntar a grana do material.” Coincidência ou não, seu primeiro patrocínio foi das pranchas Quebra-Coco. “E o retorno foi grande”, continua Cly em seu texto. “Em pouco tempo o negão começou a desbancar os playboyzinhos que tinham as melhores pranchas, as gringas.”
Olimpinho venceu o circuito baiano profissional em 1986, aos 20 anos, venceu o campeonato nacional Bahia Pro Contest no ano seguinte, e tornou-se bicampeão estadual em 88. Nunca teve um patrocínio forte, como foi o caso de seu contemporâneo Jojó de Olivença (bicampeão brasileiro e ex-Top 16 WCT), e não deslanchou. Outro talento absurdo da Amaralina, Neidson de Jesus, dono de um surf aerialista e de vanguarda, também teve uma aposentadoria precoce no surf competição por falta de apoio e preconceito. No Brasil tudo é mais difícil se você é negro e pobre.
Mudou-se p/ o Rio de Janeiro no início dos anos 90, onde tentou estender por mais alguns anos a carreira de surfista pro. Mas sua sorte só começou a mudar quando passou a dar aulas na escolinha do lendário Rico de Souza. Um de seus alunos, o empresário Ari Svartsnaider, presenteou-o c/ um longboard e uma viagem p/ a Costa Rica. De shortboarder a surfista de pranchão, a adaptação foi rápida – quem aprendeu a surfar numa tábua surfa em cima de qualquer coisa.
Eu conhecia Olimpinho, ele freqüentava minha casa e sempre me deu uma força, descolando equipamentos como bermudas e cordinhas, que ganhava de brinde. Era um gigante gentil, mas nunca teve a real noção do seu potencial, e costumava duvidar das probabilidades. “Como um baiano, negro e sem um tostão no bolso vai conseguir um visto pros Estados Unidos?”, ele se perguntava. Mas não só conseguiu o visto p/ o Havaí como venceu o primeiro campeonato que participou na nova categoria – e em Haleiwa, um dos principais picos de surf do cenário internacional.Quando retornou ao Brasil, surpreendeu mais uma vez e venceu o Red Bull International na Barra da Tijuca, derrotando na final o tricampeão mundial Collin McPhillips. Não tinha pra mais ninguém naquele ano de 1999, e Olimpinho fez barba, cabelo e bigode, levando a última etapa do circuito, o Petrobrás Classic, e sagrando-se campeão brasileiro de longboard profissional. Com a grana das vitórias, construiu uma casa na praia da Macumba.
Olímpio nunca se meteu em tretas nem tinha inimigos, pelo contrário. Era um cara querido e admirado por todos. Mas no dia 30/10, meu amigo foi encontrado morto c/ cinco tiros nas costas, dentro de um canal na Estrada do Urubu, Zona Oeste do Rio. Seu carro, um Parati, foi achado na Cidade de Deus c/ marcas de tiros.
Só fiquei sabendo ontem e não acreditei quando vieram me dizer. Parece que uma mulher foi a causa da tragédia, mas a lei da favela é ouvir e não falar... A comunidade do surf compareceu em peso ao seu enterro, no Cemitério do Pechincha, rua Benevente 307, RJ. Amigos fizeram homenagens nos mares das praias da Macumba, no Rio, e Quebra-Coco, em Salvador, os dois locais em que Olimpinho mais se sentia em casa. É muito triste saber que um cara como ele foi embora”, disse o Top da ASP Victor Ribas ao canal Sportv. “Olimpinho era uma pessoa única, muito alto-astral e espontâneo. Estou chocado c/ o que aconteceu”, falou Teco Padarataz, bicampeão do WQS.Olimpinho foi um amigo mais velho e um professor pra mim. Apesar de termos perdido contato c/ ele nos últimos anos, eu e meu irmão Lú ainda voltamos algumas vezes ao Nordeste em visitas a Salvador, pra rever seus irmãos, Batata e Mimi, que também tiveram uma vida trágica. Aprendi c/ Olimpinho a mandar na lata sem perder a classe, e essa lição vale tanto pro surf quanto pra vida.


Homenagem dos amigos a Olimpinho (1966-2006)

4 comentários:

Anônimo disse...

Parece que o que aconteceu é que uns bandidos teriam confundido Olimpinho e a mulher que o acompanhava com moradores do Morro da Mineira.

J.André disse...

outro dia estava conversando com Padilha, colaborador do site surf Inject Brasil e do jornal Taking Surf, que lembrou uma: em Maracaipe rolava uma etapa do brasileiro de long (se não me falha a memoria) e o veterano atleta paraibano Linho Neto que esbarraando com Olimpinho perguntou inocentemente se ele surfava com todo aquele pêso. resultado: foi humilhante escovado pelo mesmo, que inspirado venceu a prova.
a vida é doce. a vida é cruel.
permanece as melhores lembranças...

Viva La Brasa disse...

Do mesmo texto do Cly Lolie:
"(...)Geralmente as atuações de Olimpinho nos campeonatos eram um verdadeiro espetáculo, com direito a fogos de artifício e vibração tão intensa como um gol de um time, após uma boa manobra completada. Depois, o sorriso largo e a alegria eram só conseqüência."

Julio disse...

Adolfo,
admito minha insensibilidade quanto ao Olimpinho.
Sofri calado.
Era tanta notícia nos saites que visito diariamente que não me senti necessário no coro.
Conhecia o crioulo de outros carnavais, da época que ele era fininho, sempre tivemos uma relação pra lá de cordial.
Na última vez que surfamos juntos pra valer, lá se vão uns 5 anos, pedi empresatada a Mc Tavish zero bala que ele tava surfando, só pelo prazer de exprimentar a prancha.
O negão emprestou como sempre fazia, com um sorriso cheio de dentes estampado no rosto.
Vai daqui aquele abrazzo
Julio