terça-feira, fevereiro 28, 2006

ZONAS AUTÔNOMAS TEMPORÁRIAS
& O Terrorismo Poético de Hakim Bey


Quem é HAKIM BEY? Um dos maiores fenômenos underground da internet, Bey é escritor e auto-intitula-se “anarquista ontológico”, ou “terrorista poético”. Tem dois livros lançados no Brasil, “TAZ – Zona Autônoma Temporária” e “CAOS – Terrorismo Poético e Outros Crimes Exemplares” (ambos lançados pela editora Conrad), e quatro mais recentes, ainda sem tradução. Mas o que faz um autor semi-desconhecido que escreve sobre temas não-comerciais se tornar um sucesso entre jovens de todo mundo?
A idéia de Bey é combater o poder instituído criando espaços de liberdade (virtuais ou não) que surjam e desapareçam o tempo todo. Festas clandestinas e intervenções urbanas, por exemplo. Em tempos de rebeldia plastificada e fundamentalismo radical, a idéia de um “terrorista” que age sem matar ninguém é, no mínimo, inspiradora, e talvez esteja aí a razão de seu êxito – são 749.000 referências sobre o cara no Google...

Especula-se na rede que a real identidade do autor do conceito de “zonas autônomas temporárias” seja PETER LAMBORN WILSON, um escritor e poeta americano nascido em Nova York em 1945, autor de “Utopias Piratas – Mouros, Hereges e Renegados” (lançado no Brasil tb. pela Conrad) e mais de 20 outros títulos. Wilson desenvolveu suas idéias após morar em diversos países do Oriente: Índia, Paquistão, Afeganistão e Irã, onde morou por 7 anos e foi membro da Academia Imperial de Filosofia. Deixou o país durante a Revolução Islâmica e, a partir dos anos 80, passou a lançar ensaios e poemas sintetizando idéias anarquistas e situacionistas, e publicou o projeto Autonomedia - algo como “mídia autônoma”.
Dizem que “Hakim Bey”, na verdade, significa “wise man” (cara esperto) em turco, o que reforça a tese de que o autor de “Caos” e “TAZ” seja mesmo o velhinho Wilson. Outras fontes afirmam que esse pseudônimo vem sendo usado desde os anos 70 por escritores radicais p/ manterem o anonimato. Se você ainda não entendeu o que é uma zona autônoma temporária e quer saber quem é o misterioso fita, leia a entrevista a seguir, concedida à revista
High Times:

- Hakim, de onde vc é?
Bem, a informação padrão (que é tudo o que falo) é que eu era um poeta da corte de um principado sem nome do norte da Índia, que eu fui preso na Inglaterra por um atentado anarquista à bomba e que eu vivo em um trailer em Nova Jersey.

- Você pode explicar o “terrorismo poético”?
Por terrorismo poético eu entendo ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista, c/ a diferença que o ato é uma mudança de consciência.

- O que é “zona autônoma temporária”?
É uma idéia que algumas pessoas acham que eu criei, mas eu não acho que tenha criado ela. Eu só acho que pus um nome esperto em algo que já estava acontecendo: a inevitável tendência dos indivíduos de se juntarem em grupos p/ buscarem a liberdade. E não terem que esperar que ela chegue em algum futuro utópico abstrato e pós-revolucionário. A questão é: como os indivíduos maximizam a liberdade sob as situações dos dias de hoje, do mundo real? Eu não estou perguntando como gostaríamos que o mundo fosse, mas o que podemos fazer aqui e agora. (...) Existem pontos na vida de todos que as hierarquias opressivas invadem uma regularidade diária: educação compulsória, trabalho... Você é forçado a ganhar a vida, e o trabalho por si só é organizado como uma hierarquia opressiva. Então a maioria das pessoas, todos os dias, tem que tolerar a hierarquia opressiva do trabalho alienado. Por essa razão, criar uma Zona Autônoma Temporária significa fazer algo real sobre essas hierarquias reais e opressivas – não somente declarar antipatia teórica a essas instituições. É como um vírus verbal. Ele diz o que significa. No aumento da popularidade do livro (“TAZ”), muitas pessoas se confundiram e usaram o termo como um rótulo p/ todo tipo de coisa que ele realmente não é. Isso é inevitável, uma vez que o próprio vírus está solto na rede.

- A internet é uma Zona Autônoma Temporária?
Não. A revista Time fez uma matéria sobre ciberespaço que me citou erroneamente, o que me deixou particularmente feliz. Se a Time entendesse o que eu estava falando, eu seria forçado a reestruturar toda minha filosofia, ou talvez desaparecer p/ sempre em desgraça. Eles diziam que o ciberespaço é uma Zona Autônoma, e eu não concordo. Eu acho que a liberdade inclui o corpo. O ciberespaço é um espaço sem corpo, abstrato e conceitual. Não existe cheiro nele, nem sentimento nem sexo. Se qualquer uma dessas coisas existe lá, são apenas simulacros, não elas mesmas. A única coisa que a internet pode ter c/ relação às TAZ é que ambos são instrumentos p/ alcançar a liberdade. Então é importante trabalhar p/ proteger as liberdades de expressão e comunicação que estão abertas neste exato momento pela internet.

- Como criar uma TAZ?
Na China, há os “tongs”, que em cantonês significa “assembléia de todos”. Um grupo de amigos c/ afinidades que se junta p/ intensificar seu prazer e liberdade por meios que não sejam reconhecidos como legais pela sociedade. O que nós precisamos é de uma estética e uma tradição de sociedades clandestinas não-hierárquicas. (...) Eu vejo a TAZ como o florescimento temporário do sucesso dessas redes. Uma das formas desse florescimento são os festivais:
Rainbow Gathering, Zippy, Burning Man – eventos espontâneos, não-regulados, não-mercantilizados.

- Uma Zona Autônoma necessariamente se abstém do uso de dinheiro?
É difícil, mas pode acontecer. O Rainbow Gathering, por exemplo, se abstém. Isso é quase uma garantia de um grau muito maior de autonomia temporária p/ as pessoas que estão participando.

- Onde as pessoas podem achar Zonas Autônomas Temporárias?
Não posso dizer, porque elas não existem precisamente em mapas c/ coordenadas cartesianas. A qualquer momento uma TAZ pode ocorrer. Em um nível mínimo, um jantar na casa de alguém pode repentinamente evoluir numa TAZ. O potencial está lá, porque é organizado de uma maneira não-hierárquica, p/ convivência. Em um nível máximo, houve TAZ que duraram alguns anos.

- Criar uma TAZ é quase criar o seu próprio espaço autônomo livre em si mesmo...
Você não pode declarar uma TAZ. É algo que acontece espontaneamente. Quando de repente vc diz, uau, tem N pessoas aqui, mas tem N + N energia, excitação, prazer, liberdade, consciência. Esse momento de sinergia de corrente cruzada acontece quando um grupo de pessoas está tendo algo mais de uma situação que a soma do que os indivíduos estão colocando nisto. Não há como prever. Tudo o que vc pode fazer é maximizar o potencial p/ o aparecimento.

ilustração (topo): "Dub Revolution", de Dúnia Quiroga
trilha sonora: "Futura", Nação Zumbi

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

TEMPO QUENTE (parte 2)
Se Maomé não vai à montanha, a montanha vai à Maomé. Não bastasse todas as tretas e diferenças entre Ocidente e Islã que já vinham rolando, essa história das charges agora... No final do ano passado o jornal dinamarquês Jyllands-Posten publicou uma série de charges caricaturando o profeta Maomé, algo como um Jesus Cristo p/ os muçulmanos, só que numa versão mais radical. “Olho por olho, dente por dente”, ao invés de dar a outra face. Segundo a crença islâmica, qualquer representação humana do profeta é terminantemente proibida. Desenhá-lo c/ uma bomba na cabeça no lugar do turbante, então, é uma ofensa pior que xingar as mães de todos eles. Outros jornais entraram de gaiatos na onda (literalmente): o francês Le Monde, o espanhol El País e o alemão Die Welt, por exemplo.

O mundo muçulmano vem protestando c/ muito gás há uma semana, contra a “afronta” e o “desrespeito” dos ocidentais. Cerca de 20 nações árabes exigiram retratação do governo dinamarquês. Protestos no Iraque, Palestina, Síria, Sudão, Líbano, Indonésia e outros países islâmicos já deixaram dezenas de mortos e centenas de feridos. Embaixadas dinamarquesas foram queimadas nesses países. Radicais já pedem a “destruição da Dinamarca”. A Al Qaeda disse que, por eles, tudo bem.

Essa história reacende a velha discussão da “liberdade de expressão”. A sociedade ocidental tem graves defeitos, mas há valores na nossa cultura que eu não trocaria por nada: a filosofia desvinculada da religião, a busca pela evolução tecnológica, surf e garotas de biquini... Definitivamente, eu não gostaria de viver num mundo onde as mulheres sejam obrigadas a se cobrir da cabeça aos pés, e o álcool, proibido. Respeito o Islamismo e tenho grande simpatia pela cultura árabe. Também acho que esses europeus são muito folgados – é só ver o legado que eles deixaram nos países que foram colônias, seja na África, na América ou na Ásia. Mas tudo tem limite.

Charges não têm tanto poder assim. Mais humor e menos radicalismo poderia ser a solução, como no caso do maior jornal iraniano, Hamshahri, que abriu um concurso de charges sacaneando o extermínio de judeus na 2ª Guerra. O editor do jornal francês France Soir foi demitido por também ter publicado uma charge c/ o profeta. “Temos o direito de caricaturar Deus”, dizia a charge. Lembram quando o aiatolá Khomeini, do Irã, condenou o escritor inglês Salman Rushdie, em 1989, por causa do livro “Versos Satânicos”? Não mataram o cara, mas até hoje ele vive escondido, sempre se mudando, sob a proteção do serviço secreto inglês. Em 2004, o cineasta holandês Theo Van Gogh foi assassinado por um fanático muçulmano depois de ter dirigido o filme “Submissão”, que critica o tratamento que as mulheres recebem sob as normas do Islã.

Vendo as imagens dos protestos pela TV, lembrei de um filme vagabundo sobre as previsões de Nostradamus, que eu vi na época em que trabalhava numa locadora e podia pegar fitas de graça. Eu via qualquer lixo. Esse tinha o Orson Welles, velho e barbudo, como narrador. No final da vida o Orson vivia quebrado, e topava qualquer parada p/ descolar um troco. Voltando ao filme, a previsão final do Nostra era de que a 3ª Guerra Mundial seria deflagrada por um líder muçulmano de turbante na cabeça. Não foi o Saddan. Tem aquele presidente do Irã, que disse que não vai abrir o programa nuclear do seu país pros fiscais da ONU. Será que desta vez vai? Eu não acredito nessas coisas, mas se o Nostradamus estiver certo, espero que o Apocalipse seja televisionado.

quinta-feira, fevereiro 02, 2006

TEMPO QUENTE

O ano do Cachorro de Fogo. Nós, ocidentais, estamos em 2006. Os chineses já passaram do ano 4700... E dos 2 bilhões de habitantes. O mundo anda muito cheio. E quente. Muito quente. Quer dizer, no Oriente e na Europa o inverno está sendo o mais rigoroso das últimas décadas. Um mundo cada vez mais bipolar.
Há 1 mês falei sobre Israel e Palestina. O Hamas ganhou as eleições p/ o parlamento palestino. Sua plataforma política é a completa destruição do Estado de Israel. A chapa esquentou. Militantes do Fatah, o partido majoritário há 40 anos, não aceitaram a derrota, invadiram prédios públicos e entraram em conflito c/ várias facções do Hamas. Os colonos judeus dos assentamentos declarados clandestinos (por estarem em solo palestino) estão resistindo à retirada de suas famílias da região porque o Hamas vem dizendo que foi a abordagem terrorista do partido a razão pela saída dos judeus. Pela 1ª vez, eu vi colonos judeus em conflito direto c/ tropas israelenses. Vejam bem. Há 1 mês o problema era Israel x Palestina. Agora também há palestinos contra palestinos e israelenses contra israelenses.
Ontem – só ontem – morreram 8 pessoas, e 60 ficaram feridas, em um atentado de homem-bomba no Iraque. Ah, o Iraque. Um dos berços da civilização. Um lugar onde homens-bomba fazem parte do cotidiano. Nada muito distante das nossas grandes cidades.
Foi divulgado esta semana: em 2005, pela primeira vez na história, a dívida pública da União ultrapassou 1 TRILHÃO de reais. Ou seriam dólares? Não importa. 1 trilhão é uma puta dívida em qualquer moeda. Esse não é um problema exclusivo do Brasil, nem do 3º mundo; os EUA, maior economia mundial, está afundada em dívidas internas. O problema, no caso do Brasil, é a política de juros, que atingiu níveis recordes, de $157 bilhões no ano, equivalente a 8% do PIB. Há uma ou duas semanas vi o Presidente Lula declarar na TV que saldamos nossa dívida c/ o FMI e agora “são eles que têm de nos prestar contas”. Preciso checar essa informação...
Por aqui as coisas também têm oscilado entre o bom e o horrível. Pra não entrar em detalhes, basta dizer que passei umas 3 semanas sem postar nada novo porque o acesso à internet que eu tinha no trabalho, que já era restrito, ficou ridículo. O VxLxBx está prestes a completar 1 ano em atividade e eu ainda não tenho um computador em casa. As coisas não são nada fáceis.
Comecei a ler a biografia do Bukowski, “um pobre diabo superando adversidades”, como definiu o jornalista Howard Sounes, autor do livro, lançado no Brasil pela editora Conrad. Essa editora é dos caras que faziam a Animal e a General, duas das revistas mais legais dos anos 90. Atualmente, é ela que vem lançando os livros mais interessantes (p/ mim): quadrinhos de Robert Crumb, Gilbert Shelton, a série “Buda”, os livros do Hunter S.Thompson (tá faltando o “Fear and Loathing”), e esse do Bukoswki, meu escritor favorito e o único poeta que eu respeito:
“Se você me vir sorrindo (...)/
caçando uma luz amarela/
guiando direto pro sol/
estarei preso nas garras/
de uma vida louca”.
2006, ano do Cachorro. Os chineses dizem que será um ano bom. Afinal, é um mundo cão.

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fotos: 1) partidários do Fatah protestam contra o resultado nas eleições da Palestina 2) "Girls Gone Wild", um dos filmes da produtora x-rated do rapper Snoop Dogg.