quinta-feira, agosto 23, 2007

BOTECOSPÍCIO
Álvaro Müller é meu amigo e por acaso um dos melhores jornalistas da nova geração. Tem um estilo "old school" de escrever e não gosta de aparecer. Trabalhamos na mesma empresa de televisão, na qual sou editor de imagens e ele redator-chefe. Uma de suas funções é corrigir os textos dos repórteres de vídeo, a maioria recém-saída da faculdade & ainda não-saída da barra da saia da mamãe. Um trabalho ingrato, posso lhes garantir, amiguinhos.O cara tem um blog, o Botecospício, que além de um nome maneiro traz boas crônicas no cardápio, como o episódio em que uma repórter local perguntou pro filho do Henfil por que seu pai não veio p/ Aracaju prestigiar a exposição em sua homenagem. Deve ser porque é meio difícil viajar quando SE ESTÁ MORTO HÁ MAIS DE 20 ANOS: "(...) Uma falta de respeito mesmo do Henfil não conceder uma entrevistazinha à TV. (...) Mas quem disse que ela se satisfez. Ligou pra redação e relatou a desfeita: Quem ele pensa que é? O rei da França? (...) Nessa hora todos tiveram certeza que ela era a Graúna reencarnada."O boteco do Müller passou uns meses fechado mas reabriu semana passada, e está funcionando 24 hs. Em seu mais recente post, ele segue zoando o jornalismo-malhação que impregna a TV atual, tudo c/ muita classe, que nem jornalista das antigas. É c/ você, Alvão:
"Filhos da Pauta!(...) O repórter televisivo deixou de ser a víbora e encarnou lagartixa. Perante o entrevistado, balança insistente e positivamente a cabeça, sorri de forma cínica, como se estivesse a processar as informações que recebe, mas nada disseca. As absorve apenas e, boas ou ruins, verdades ou mentiras, as regurgita na redação. Filho da pauta, agarra-se a ela como um rebento primata preso às costas da mãe. E não a larga por nada. Já não tem mais fontes. Já não sugere pautas – nem mesmo aquelas que gostaria de cobrir. Já não se orgulha por trazer da rua a informação a mais que a pauta não lhe dava. Não. O universo do repórter engomadinho e maquiado resume-se ao espaço de uma folha A4. E só.Incompreendeu que é a alma do jornalismo. Pior, desaprendeu a ser repórter. Não fuça, não esmiúça, não escarafuncha nada. Deixou de ser o pugilista das palavras que, à primeira abertura de guarda do entrevistado, socava-lhe o estômago com uma pergunta ácida e fulminante, capaz de derrocar uma história inventada. Supervaloriza alguns segundos de passagem (momento em que aparece no vídeo) e os sobrepõem à sua capacidade textual e de discernimento, ao seu olhar crítico sobre as coisas.
Reúne a família para assistir às suas performances e sente-se um Deus. Crê em um reconhecimento tão ilusório quanto tem sido o seu papel de informador. Ego nas alturas (alguns sequer cumprimentam os colegas de profissão), sente a 'glória' do reconhecimento, quando, na verdade, é apenas um conhecido fadado ao esquecimento caso suma da tela por alguns meses ou até mesmo dias. (...)"
Álvaro Müller (http://www.botecospicio.blogspot.com/)

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