sábado, setembro 29, 2007

BAD BOYS DON'T CRY
Nando, aos 12, arrepiando na mini-ramp (1989)
Eu e Nando sempre brigamos. Sabe como é, eu sempre fui um cara esquentado e ele, um garoto-problema. Segundo dos 3 filhos do casal Ana Sá & Carlos Regis, Fernando Augusto, ou Nando, como sempre foi chamado, sempre precisou de cuidados especiais, mas cresceu numa casa conturbada, em meio a crises financeiras e discussões diárias. Quando tinha 4 anos, a psicóloga da escolinha onde fazia o infantil recomendou que ele fizesse ludoterapia, uma espécie de tratamento psicológico p/ crianças. Meu pai achou que era frescura e tratou de orientá-lo ao seu estilo: estudo, esporte, trabalho, religião.
ESCOLA DE GOLPES DUROSNando repetiu de ano tantas vezes que abandonou os estudos antes de completar o 1º grau. Andou de skate durante alguns anos, mas desencanou na adolescência. Nunca parou num emprego - não era chegado ao trabalho. Começou a roubar, mas só dentro de casa. Nunca foi um mala de verdade, pelo contrário. Pegava uns trocados do meu coroa (às vezes meus, ou da minha mãe) e sumia de casa, passava uns dias charlando, fazendo várias prézas pros amigos, depois voltava, negando tudo. Geralmente minhas brigas c/ ele eram motivadas por isso. A primeira vez que acertei um soco nele foi quando capeou 2 discos do Stooges da minha coleção. Por sorte recuperei-os, e fechei o tempo. O tempo fechava direto. Nando saiu na mão comigo várias vezes, mas tb entrou na porrada c/ meu irmão mais novo e até meu pai. Teve uma, c/ Lú, o caçula, em que eu tive que levá-lo às pressas ao hospital c/ o nariz quebrado. Fratura exposta. O tempo fechava direto. Lú pediu desculpas, mas foi Nando que teve de ser operado e ficar uma semana no hospital c/ um ferro na cara. School of hard knocks.
Apesar do que pode parecer, todos nós sempre fizemos de tudo p/ ajudá-lo. Eu mesmo o intimava direto: "E aí, velho, que é que vc quer da vida? Que acha de terminar os estudos? Escolher uma profissão? Não dá pra ficar na barra dos nossos pais a vida toda né?" Mas ele nunca me deu uma resposta concreta, ou demonstrou interesse por qualquer coisa além de mulher & música. Foi "casado" c/ uma garota durante alguns anos, e fez uma tattoo c/ o nome dela no punho, que escondia c/ o relógio nos últimos anos. Tinha uma nova namorada, sabe como é. Durante os anos de skate ouvia muito Nirvana, teve toda a coleção em vinil, até o "Bleach". Depois, virou fã do King Diamond. Chegou a riscar o logo do Merciful Fate na perna. Tinha umas 30 tatuagens espalhadas pelo corpo: motivos "metal", inscrições em várias línguas, alguns tribais e um Taz - sua primeira tattoo. Eu gostava de 2 demônios estilo cartoon que ele fez nas costas, na altura dos ombros.
"Lembro de uma vez que Nando foi num show só pra arrumar confusão...", me contou Hugo, amigo meu das antigas e head banger até hoje. Com o passar do tempo Nando estava ficando sinistro, só aprontava. Teve uma vez que eu tentei contê-lo e quase morri c/ um mata-leão que ele me aplicou. Cheguei a apagar. Mas aí, começaram as crises. Nando passou a ouvir vozes. Às vezes ficava extremamente nervoso e gritava e batia as portas, a ponto de estremecer a casa. Outras, tinha crises de consciência em que batia a cabeça contra a parede, numa espécie de autoflagelo. A princípio, meu pai, espírita fervoroso, tentou curá-lo da "influência dos maus espíritos" através de métodos kardecistas, como fizera por toda a vida. Minha mãe, que sempre foi mais esperta, ouviu meus conselhos e finalmente encaminhou-o a um psiquiatra, no início de 2005. O diagnóstico: esquizofrenia. Por isso as vozes e as crises.
CONTRADIZENDO A FÉ, DERRUBANDO A RAZÃO
À base de Respidon e Melleril, meu irmão regenerou-se nos últimos 2 anos. Parou de fumar e se drogar, e o melhor da sua personalidade veio à tona. Nando nunca cresceu de verdade, tipo o Peter Pan: de riso fácil e sempre solícito, era dos 3 irmãos o que mais gostava de crianças. Adorava pegar um bebê no colo. De 2005 pra cá, era c/ ele que minha mãe contava p/ acompanhá-la no médico ou no supermercado, onde quer que ela precisasse ele estava lá. Sempre c/ um sorriso no rosto. Respeitava todo mundo e era incapaz de guardar rancor de alguém. Antes mesmo da crise, eu nunca ouvi ele falar mal de ninguém.
Na noite do dia 14 deste mês, Nando teve uma nova crise, aparentemente uma convulsão, como a que tivera há 2 anos, quando começou a se medicar. Eu não estava perto quando tudo começou, estava no quarto e ouvi uns gritos do meu pai. Ao ver a cena, imediatamente peguei a moto e me joguei pra cidade em busca de socorro. Pedi pra minha mãe ligar pro SAMU, mas de tão nervosa ela não conseguiu. Nando vomitou e não conseguia falar ou se mover. Urrava de dor. Em 15 minutos eu estava de volta c/ a ambulância, mas era tarde demais. Meu irmão, Fernando Augusto, falecera de infarto fulminante. Tinha 29 anos. Mais uma vez, não consegui ajudá-lo.
...
Nando, que nunca foi muito magrinho, passou a sofrer de obesidade mórbida nos últimos anos como efeito colateral da medicação controlada, aliada ao sedentarismo e à gula (o moleque se amarrava em comer). Segundo os médicos, foi isso que o matou. Chegou a pesar 131 quilos, mas vinha perdendo peso graças às caminhadas na praia c/ nosso pitbull, o Chacal. Estava c/ 115 kg e descendo na balança. Parou de ouvir metal, e ultimamente seu som favorito era Coldplay. Gostava de ficar sossegado na varanda lá de casa ouvindo aquelas baladinhas. Iria começar em breve um curso profissionalizante.
Dois dias após seu enterro, minha mãe encontrou esta poesia em sua carteira. Nando nunca foi do tipo que lê poesia, mas se ele guardou essa é porque gostou, e se há uma última homenagem que eu possa fazer a esse irmão c/ quem tanto briguei e pouco abracei, é esta:
"
Viajando entre os cosmos/ Entre horizontes desconhecidos/ Onde o mistério prevalece
Contradizendo a fé/ Derrubando a razão/ Rompendo com os paradigmas/ Impostos até então
(...) Incandescente/ Que refuga as nossas mentes/ Como uma droga ingerida/ Eliminando a dor da vida
"
Nando, saudade.
@dolfo s@'

TRILHA SONORA: Jay-Z, "it's a hard knock life (for us), it's a hard knock life..."

6 comentários:

alysson disse...

cara, tambem já senti a dor de uma grande perda.

mingau disse...

abraço meu velho...

Hugo Ribeiro disse...

Adolfo, mande um grande abraço para seus pais. Sei que eles sofreram muito. Depois que nos tornamos pais passamos a entender o que é o amor incondicional a um filho, mesmo quando estamos com raiva dele ou "com vontade de matá-lo". Meus pêssames. Nos vemos em breve.

espedito disse...

Cara fica aí minha força, Nando era sangue bom, vc tb

o alma da trovão azul disse...

Por, recebi a noticia com muita tristeza porque o Nando foi uma pessoa muito especial pra mim... ja que fui professor do cara de informatica.. passei um bom tempo na casa de Dona Ana, e conheci bem o Nando.. deixou muitas saudades.. q Deus o Tenha em um bom lugar..... Abraço

Mônica Flávia disse...

Lembro de uma vez, já quando haviamos nos separado, ele encontrou-me no centro da cidade, olhou pra mim com aqueles olhos puxadinhos, sorriu, mostrou-me o pulso tatuado com meu nome e perguntou: "Monquinha, alguém já fez isso por você"? Pois é, eu poderia ter feito muitas coisas que não fiz,evitado outras que fiz, enfim, Nando foi e será o meu único e grande amor.
PS: Vc, Adolfo era o ídolo de Nando, vc não imagina o quanto que ele te admirava e te amava.
Abraço
Mônica