quarta-feira, outubro 31, 2007

PEDALA, ROBINHO Na noite do último dia 17 a Seleção Brasileira de futebol venceu a do Equador por 5x0, no Maracanã. Enquanto o país comemorava os dribles geniais do Robinho e a goleada no fraco adversário, 4 elementos que se encontravam sob custódia da delegacia da Barra dos Coqueiros (SE) escaparam do cárcere ao melhor estilo "Fuga de Alcatraz": cavaram 2 buracos, um na parede da cela, outro na parede externa, usando colheres (foto). O único policial de plantão só deu pela ausência dos "hóspedes" às 6:00 da manhã do dia 18.
Isso aconteceu numa quarta-feira. Coincidência ou não, no sábado eu e minha namorada Gil estávamos entrando numa tradicional padaria da Barra quando tudo aconteceu: 2 sujeitos que estavam no balcão pediram 2 pães doces.
- Mais alguma coisa?, perguntou o português enquanto entregava os pães.
- Mais nada!, respondeu um deles.
Foi tudo muito rápido, como essas coisas costumam ser. Eu acabara de estacionar a moto que herdei do meu irmão (uma Honda Biz 2007) e minha mina já estava dentro da padaria. Vi o interlocutor do portuga pôr a mão na frente da barriga, levantando a camisa amarela folgada, e a adrenalina que percorreu meu corpo me deu certeza do que estava por vir.
- Isso é um assalto!, disse o de amarelo mostrando o três-oitão; Passa todo o dinheiro do caixa senão eu te papóco!
O outro ficou mais preocupado em render os funcionários, e eu aproveitei p/ puxar a Gil pra fora da padaria. Nada de movimentos bruscos. Segurei na mão dela e saímos andando. Tenho certeza que ela estava rezando nesse momento, enquanto eu apenas torcia pros caras continuarem seu trabalho sem dar atenção à gente. Deixei a moto lá e fui pegá-la depois. Perguntei pro português se ele precisava de alguma coisa, ele disse: "Chama o Capitão Nascimento!"

Pois é,
eu também fui um dos 10 milhões de espectadores da versão pirata de "Tropa de Elite". Tanto já foi falado sobre esse filme e o BOPE, que eu me abstenho de entrar em detalhes sobre toda a discussão social em torno dele. Um dos temas-chavão foi o suposto prejuízo financeiro que a pirataria trouxe p/ a produção, mas desde que estreou nos cinemas "Tropa..." já vendeu mais de 2 milhões de ingressos e é uma das 10 maiores bilheterias do ano, perdendo apenas p/ blockbusters americanos como "Homem-Aranha" e "Shrek". É um filme legal, não tão bom quanto "Cidade de Deus" e nem tão ruim quanto "Carandiru". É legal porque mostra um lado indigesto do sistema: uma polícia preparada p/ agir em situações limites envolvendo risco de vidas inocentes, mas que no final das contas funciona mais p/ matar bandido em favela do que qualquer outra coisa. A polícia militar é mostrada como uma força (?) literalmente fudida & mal-paga (pouco mais de R$ 600 por mês), e totalmente corrompida & prostituída - as prisões de 40 PMs por envolvimento c/ o tráfico no Rio e o popular apelido de "coxinha" por causa do hábito de comer sem pagar em lanchonetes atestam que não há exagero no retrato pintado no filme. É legal porque tira uma onda c/ essa molecada universitária cheia de "consciência social", que não passa de playboys que gostam de se chapar.O diretor do filme, José Padilha, tem conhecimento de causa. Antes de filmar seu primeiro longa de ficção, Padilha já era um documentarista respeitado no meio cinematográfico. O próprio "Tropa..." nasceu como um projeto de documentário. Padilha entrevistou e conviveu c/ policiais, psiquiatras da PM e ex-traficantes presos durante 2 anos. Em novembro de 2006, traficantes do morro Chapéu Mangueira, onde as filmagens foram feitas, seqüestraram parte da equipe que trabalhava no filme e roubaram as armas cenográficas. 59 delas eram réplicas e 31 verdadeiras, adaptadas para tiros de festim. As filmagens foram paralizadas por cerca de duas semanas. Tudo isso ajudou a dar ainda mais realismo às cenas, mas achei MUITO estranho o mítico CAVEIRÃO, o veículo blindado c/ o qual os "caveiras" sobem os morros, não aparecer em NENHUMA cena do filme. Será que na versão final rola?
No final das contas, "Tropa de Elite" parece mais um veículo de propaganda do Bope. "No último fim de semana tivemos 26.000 acessos. Ficamos contentes c/ isso.", afirmou o atual comandante do batalhão, coronel Pinheiro Neto, sobre o remodelado
site dos hômi. Se você também é um dos novos fãs do Batalhão de Operações Policiais Especiais e acha que os caras mandam bem pra caramba, sugiro que assista "Ônibus 174", documentário de 2002 do Padilha. Todos devem lembrar do seqüestro daquele ônibus no Rio em 2000, protagonizado pelo Sandro, um ex-garoto de rua. O filme intercala cenas do drama (que ocorreu no bairro do Jardim Botânico e foi transmitido em tempo real pela TV) c/ o retrospecto da vida do seqüestrador, que viu a mãe ser degolada dentro do próprio bar e sobreviveu à chacina da Candelária depois de ter virado menino de rua. Pois bem, a operação de resgate foi orquestrada pelo famoso BOPE, que meteu os pés pelas mãos e disparou o tiro que matou uma das reféns. Sandro não matou nenhum, e ainda morreu asfixiado dentro do camburão. Além disso, o Bope não é a única "tropa de elite" do país. Em São Paulo existe a ROTA, temida força-tarefa especializada em soluções de seqüestros e contenção de rebeliões em presídios. Recomendo o livro "Rota 66", do jornalista Caco Barcellos (aquele mesmo do Profissão Repórter da Globo), cujo subtítulo já dá a letra: "A história da polícia que mata".

P/
José Padilha, diretor de "Ônibus 174" e "Tropa de Elite", a tese de que a desigualdade social gera violência não se sustenta. P/ ele, a violência no Brasil é causada mesmo pela polícia e pelo Estado: "Estudos da ONU mostram que alguns países da África têm situação pior que o Rio e não têm os mesmos índices de violência.", declarou à Folha de S.Paulo. Ele cita seu documentário p/ exemplificar: "O personagem principal (o seqüestrador Sandro) se tornou violento em decorrência da violência produzida pelo Estado, na Febem, na prisão...".
O Estado produz muitas formas de violência. O trabalhador brasileiro, por exemplo, precisa trabalhar o equivalente a 5 meses do ano p/ pagar todos os seus impostos. Enquanto o salário mínimo ainda vai chegar a R$ 400 no ano que vem, os parlamentares duplicam seus próprios salários e passam a ganhar em 1 mês o que um assalariado ganha em 5 anos. Como se $24 mil reais por mês não fossem o bastante, os putos ainda gozam (literalmente) de regalias como ajudas de custo p/ manter seus gabinetes, assessores, viagens e apartamentos em Brasília.
Falando nisso, foi publicado edital de concorrência p/ a reforma dos apartamentos funcionais dos nobres deputados, que custará aos cofres públicos a bagatela de R$ 36 MILHÕES. Entre os itens da reforma, estão a instalação de banheiras de hidromassagem da marca Mondialle, c/ preço unitário estimado em R$ 2.869,15, o que significa que só c/ banheiras serão gastos R$ 274.438,40 do NOSSO DINHEIRO. O deputado sergipano José Carlos Machado, 4º secretário da Câmara, que cuida da administração de imóveis, é um dos defensores das hidro: "Os técnicos informaram que a diferença de preço entre uma banheira comum e uma c/ hidromassagem era pequena." Ah, então tudo bem. E não esqueçam dos trituradores de alimentos da marca In-Sink-Erator, R$ 1.788,88 cada.E por falar em cara-de-pau, onde anda o Renan? Depois de ser absolvido do processo de cassação no Senado, o Presidente da casa viu que era melhor tirar uns dias de férias e assim desanuviar um pouco de toda pressão e stress que sofreu nos últimos meses, quando foi indiciado em 3 outros processos, por crimes como uso de lobista p/ pagar contas pessoais, laranjas p/ lavar dinheiro e espionagem contra colegas parlamentares. Calheiros retirou-se em "licença médica" de 45 dias num momento desfavorável p/ ele dentro do Senado, após não ter abandonado a presidência como fora acordado à boca pequena, em troca de sua absolvição. A licença termina no dia 24 de novembro e deve ser renovada. Mas Renan continua afirmando sua inocência e, político brasileiro que é, não larga o osso. Brasília é igual às cadeias do Brasil: todo mundo é inocente. Tava na hora de ser criada uma tropa de elite pra essa elite que tá aí. Os parlamentares eleitos passariam por um treinamento semelhante ao dos aspirantes do Bope, e se o Presidente do Senado fosse acusado de corrupção, o Capitão Nascimento apareceria em cena dando uns tapas na cara do safado e gritando:
- Pede pra sair, Renan! Pede pra sair!!!!