quinta-feira, novembro 29, 2007

PROFISSÃO: SURFISTA
Valmir Neto passa mais tempo no ar do que na água

Ganhar dinheiro p/ ficar na praia e pegar onda parece uma vida de sonho. E é. VALMIR NETO é um dos poucos privilegiados na face da Terra a ter essa oportunidade. Aos 24 anos recém-completos, ele é pago p/ surfar e viajar. Mas não pensem que "Netinho" - como é conhecido pelos amigos - é um filho-da-mãe sortudo que recebe as coisas de mão beijada. Pra chegar onde está ele teve que engolir muita água salgada até se tornar o melhor da rua, depois do bairro, e assim por diante. Como em qualquer profissão, o surf competitivo é uma peneira por onde só passam os melhores.Pentacampeão sergipano nas categorias de base, Netinho já venceu em quase todos os estados do Nordeste, e no único ano em que teve grana p/ competir no circuito brasileiro amador, terminou entre os Top 4. Não levou o título, mas conquistou o coração da surfista Karine Góes, sua atual namorada. O cara é campeão. Há 2 anos como profissional, fechou seu primeiro contrato de patrocínio há menos de 6 meses, c/ a marca de surf wear paulista South to South. Pela primeira vez na vida passou a receber um salário - até então vivia c/ o dinheiro das premiações nos eventos. As passagens e hospedagens são bancadas por um pool de empresas: a loja Venice, o site Ondulação e os óculos Spy.
Conheço Valmir Neto há quase 10 anos, sou amigo do seu pai, o longboarder Valmir Filho, e seu irmão mais novo, Tiê Chagas. Somos quase vizinhos: eu moro na Praia da Costa e eles na praia ao lado, a Atalaia Nova. Netinho, por sua vez, tanto é local daqui quanto das praias da Pipa e Ponta Negra, no Rio Grande do Norte, onde sua mãe mora. Foi lá que ele moldou seu surf, na escola aerialista de
Joca Júnior, Danilo Costa e Marcelo Nunes, todos ex-membros do WCT, elite do surf competitivo mundial. Se eles chegaram lá, por que não Valmir Neto?
Ao ser perguntado se prefere free surf ou competição, ele não pensa duas vezes: "Competição!" Mas não se enganem, Netinho não é um cara só de aéreos e campeonatos. Meu irmão mais novo, , é seu parceiro de trips e testemunha ocular das façanhas do nosso amigo. Em uma viagem a um ex-pico secreto do nosso litoral, há alguns anos, Lú me contou dos tubos quadrados em que Netinho se metia de braços abertos: "O cara completava e ainda voava na junção... Sem cordinha!"
A última viagem que os dois fizeram juntos foi a Maracaípe, Porto de Galinhas (PE), p/ a última etapa do circuito pernambucano. Perguntei a Lú se o Valmir tinha se dado bem no campeonato e ele disse, arregalando os olhos: "Meu irmão, Netinho venceu!" O cara ainda foi o
campeão do circuito, c/ 2 vitórias em 3 etapas. Depois disso ele venceu os 2 únicos eventos profissionais que ocorreram em Sergipe este ano: o Travox Surf Challenge em outubro e a 1ª etapa do circuito TBC em novembro, derrotando na final a lenda local Romeu Cruz, ex-top do Super Surf.Ao som de Tupac e 50Cent, trilha sonora escolhida por ele, fizemos esta entrevista no meu barraco, onde Netinho tá sempre em casa:

Você é sergipano ou potiguar?
Nasci aqui, eu sou sergipano mesmo, radicado no Rio Grande do Norte. A família de minha mãe é toda de lá, a do meu pai é daqui. "Dupla nacionalidade", né? (risos)

Começou a surfar onde, e com que idade?
Comecei a surfar aqui, c/ 7 anos, cara, mas me aperfeiçoei no surf lá em Natal (RN). Meu pai que colocou todo mundo no surf: eu, meu irmão, meu tio, irmão da minha mãe, que hoje tem uma loja lá em Natal... A minha família toda é do surf, cara, até minha vó é do surf, saca?

Foi lá que vc começou a competir?
Foi, eu tava c/ 13 anos. Não lembro muitos detalhes desse campeonato, mas foi massa!

Venceu logo de prima?
Não, perdi. (risos) Fiquei nervoso pra caralho, né véio...

Você foi morar lá porque seus pais se separaram, é isso?
É... Aí eu passava um ano c/ minha mãe e um ano c/ meu pai...

Foi nessa época que vc se acidentou surfando, certo?
Quando eu tinha 11 anos eu tava morando c/ minha mãe em Natal, Ponta Negra, e fui surfar c/ um amigo meu que morava lá na rua, o Guedes. Nesse dia meu tio tinha dado uma pranha p/ ele... A gente foi surfar, tal, e eu tava entrando no mar quando ele veio numa onda, na minha direção... Eu fiquei sem ação, só fiz me virar, e o bico da prancha dele bateu na minha cabeça... E eu tive afundamento do crânio c/ fratura encefálica. Fiz duas cirurgias, uma p/ retirar os estilhaços do crânio que ficaram na minha cabeça, e outra pra colocar acrílico. Fiquei praticamente 2 anos sem pegar onda... Quando fiz minha 1ª cirurgia eu fiquei uns 9 meses c/ uma pelezinha no lugar do acidente, que dava mais ou menos 3 cm do meu cérebro. Tava tipo aberto ainda. E eu não podia fazer porra nenhuma, né velho, nem andar de
bicicleta, qualquer quina, qualquer parada eu podia morrer fácil. E comecei a pegar onda escondido da minha mãe, né. Deixava a prancha na barraca de praia, pegava o ônibus, passava o dia inteiro na praia, aí minha mãe descobriu e me convenceu a fazer outra cirurgia, que eu não aguentava mais hospital...
E aí fizeram um enxerto...
Foi, eu coloquei acrílico, é como se fosse uma resina óssea, que eu tenho até hoje na cabeça. Já era pra ter feito um check-up aí, só que tem uns 5 anos que eu não... É que eu sou meio relaxado mesmo... (risos)
Mas tô bem, e o médico hoje em dia não acredita que eu sou surfista profissional, né... Ele frequenta muito a Pipa, onde minha mãe mora...
E você, já encontrou c/ ele depois disso?
Não, até hoje não tive a oportunidade de encontrar c/ ele, Dr. Zagler, mas acho que quando a gente se ver vai ser uma alegria da porra!

Voce estudou até que série?
Estudei até o 1º ano do 2º grau.

Parou por quê?Quando eu tinha 14 anos de idade, cara, meu pai veio na praia comigo e meu irmão, e me perguntou o que eu queria pra minha vida, e eu falei pra ele que queria ser surfista profissional. Então ele disse: "A partir de hoje você vai ser um surfista!" Mesmo assim eu estudava ainda, mas levava mais a sério o surf do que os estudos. Mas isso hoje em dia não acontece mais, o profissional tem que ser...
Tem que ter uma base, nem que seja inglês, né...
Com certeza, claro. Eu ainda quero terminar meus estudos, fazer vestibular e tal... Eu agora
tenho 10 anos de surf pra poder fazer meu "pé de meia". E depois, não sei se vou usar meu nome p/ fazer uma marca, uma loja, uma escolinha... Viver do surf, independente do que seja.
Hoje a maior parte dos profissionais nordestinos mora no Sul e Sudeste. Você pensa em se mudar tb?
Eu tenho esse pensamento. Se eu entrar no Super Surf... "Se" eu entrar, não, eu VOU entrar, né, se Deus quiser... Então, no próximo ano minha gata vai transferir a faculdade dela p/ Florianópolis (SC) e a gente vai se mudar pra lá. Eu acho que vai facilitar meu relacionamento c/ meu patrocínio, que é de SP, vai ficar mais perto, e eu vou poder correr o circuito WQS, vou poder ir pro Peru, e vou correr o circuito Sul-Brasileiro, Paulista... E, quer queira quer não, a "nata" do surf tá ali, né.


O que vc acha do localismo?
Eu acho que é uma merda isso, localismo. Hoje em dia aqui em Aracaju tá começando a ter... Graças a Deus a gente tá tendo um pico aqui que tá tendo onda p/ treino como outros lugares aqui no Nordeste não têm. Durante o ano inteiro! Que é o Farolzinho... Então, em decorrência dessas ondas boas tá começando a ter um localismo. Recentemente teve uma briga muito feia, c/ armas brancas, tal, justamente por causa de onda. É uma coisa muito chata, que nunca teve aqui em Aracaju, não é possível que vai ter isso agora só porque tá começando a dar umas marolas.

É moda?
Acho que é ignorância mesmo, pessoal que não tem cultura, não conhece outros lugares, sabe. Porra, o mar é feito pra todo mundo, né. Se cada um respeitar o outro, todo mundo vai surfar tranquilo, pode ter 30.000 cabeças dentro d'água. Se todo mundo tiver a consciência de esperar a sua vez, vai poder surfar tranquilo todos os dias. Mas quem é nervos
o e quer pegar onda atrás de onda - que tem muitos aqui em Aracaju assim - vai acontecer várias brigas ainda.
Mas essa palhaçada rola em todo lugar, né?
Existem coisas até piores. Em Florianópolis mesmo tem lugares que você nem entra no mar. Mas tem que existir o respeito, né. Eu acho que aqui, se deixar, vai chegar nesse ponto.


Fale sobre seus títulos de amador.
É, eu fui 5X campeão sergipano, entre categorias mirim (até 16 anos), júnior (até 18) e open. Ganhei 4 motos, 3 aqui em Aracaju no circuito e uma moto no Nordestino Amador no meu último ano, cat. open. Eu fui campeão paraibano, potiguar, pernambucano e nordestino amador há 2 anos. Foi meu melhor ano de amador, 2005.

E dessas motos, vc ainda tem alguma?
Não. Todas as motos que ganhei, vendi. Eu reverti em dinheiro e investi em mim mesmo, p/ ir pros campeonatos, né.

Você já tinha sido o 4º melhor amador do país em 2004. Por que não se profissionalizou no final daquele ano?
Oxente! Justamente por falta de patrocínio e campeonato, que ainda não tinha muito campeonato profissional no Nordeste, né. No meu último ano de amador só tinha o circuito Ecológica, lá em Natal, que mesmo amador eu corri a PRO. Nesse ano (2005), além dos títulos que eu consegui como amador tb fui campeão paraibano profissional.


E nessas vc ganhou o quê, sendo um AM vencendo um circuito PRO?Ganhei uma passagem p/ Fernando de Noronha.
E a grana?
A grana era metade, porque amador só recebe a metade do dinheiro, isso é regra de todo circuito profissional.

Quantas vezes vc já foi à Noronha?
Pô, eu já fui 4X p/ Fernando de Noronha, 4 anos seguidos. A 1ª vez fui p/ correr o WQS (Hang Loose Pro Contest), em 2003, quando ganhei minha 2ª moto aqui em Aracaju. Passei uma bateria mas perdi na 2ª fase, era moleque ainda, os caras botando uma pressão da porra! (risos) 1ª vez em Noronha vc fica meio assustado c/ as ondas, mas depois vira meio estilo Disneylândia: 6, 7 horas de surf sem sair da água...

Quebrou muita prancha?
1ª vez eu levei 4 pranchas e quebrei todas! (risos) Voltei c/ todas as pranchas "toradas"... Mas depois vc vai a 2ª, a 3ª... Da última vez eu nem quebrei prancha, vc já surfa mais tranquilo, vai na onda certa, né.

Quais suas ondas preferidas?
Thermas, né velho, aqui do lado, uma esquerda alucinante... Lá em Natal tem a Lajinha, que é uma direita fundo de pedra que quebra uns tubos estilo The Box, na Austrália... E Cacimba do Padre mesmo, velho. Você vai pra Fernando de Noronha, só quer surfar Cacimba do Padre, que é onde tá os tubos mesmo, os caldos, pá... Boldró é irado tb, Abras já surfei, já surfei no Rurus, mas a onda mesmo em Fernando de Noronha é a Cacimba: onda power, fundo de areia, tubo dos 2 lados...

Sua manobra favorita é o tubo?Tubo e aéreo. Hoje em dia eu me amarro em ficar dando umas manobras meio loucas aí, saca...
Tipo o quê?
Tipo o "Sex Change". A tradução, dizem que é "troca de sexo"... (risos) Tipo, vc tem que acertar ela 2X pq se acertar uma só vc vira mulher (mais risos), saca. Você tem que acertar outra pra virar homem (gargalhadas)... Você dá um aéreo, segura a prancha, troca de base e cai c/ a base ao contrário, tipo um "varial" segurando a prancha. Essa eu tô mandando
direto, tenho várias filmadas.
O que determinou a hora de virar PRO?
Eu já tava precisando, tava correndo os profissionais, me dando bem e ganhando só a metade. Aí eu vi que tinha que ser um profissional mesmo, afiliado, p/ poder buscar meu objetivo, que é correr o Super Surf e estar ali, na "elite".

Mas vc ainda não tinha patrocínio qdo se profissionalizou, certo?
É, só tinha patrocínio de prancha (Beto Alves). Só tinha o apoio do meu pai, que sempre me apoiou, e do meu tio Robson, lá de Natal... Agora tá legal, fechei c/ a South to South, e tal... Eu nunca tive um patrocínio assim, como eu tô tendo hoje. Recebo um salário, faço um trabalho
de marketing pra marca...

Sua mina tb compete, né?
É, Karine. Tem 2 anos que a gente tá namorando. Eu acho que graças a Deus eu encontrei a pessoa certa na minha vida. Uma pessoa que eu gosto muito, amo, e atleta tb, vai comigo pros campeonatos, muito instigada. Ela corre o circuito Senhoritas, em Salvador (BA), corre o Petrobras, só não foi pro Rio pq é muito caro, ela tá sem patrocínio ainda, mas foi pra Fortaleza (CE) e foi pra essa etapa do pernambucano comigo e quebrou lá, deu na lata das meninas todas, as pernambucanas (risos)
... E foi o "casal nº 1", eu ganhei e ela ganhou tb.Então, podemos dizer que este é o melhor momento da sua vida?Meu irmão, se melhorar estraga! Eu não posso reclamar de nada, minha vida tá 10.
Netinho vence a segunda consecutiva em Pernambucano:o título "oficial" ficou c/ o local Alan Donato, mas é só olhar a cara dos dois p/ saber quem foi o verdadeiro campeão
agradecimentos: Genisson (pelo MP3), Alysson (pela pilha) e Lú (por todos os adiantos)
fotos surf: site
Ondulação

7 comentários:

alysson disse...

fala!!!
a firma tá em férias é? tempão que produz nada.

alysson disse...

vc ainda tem aquelas musicas do mc catra que te passei?

genisson disse...

O cara colocou meu nome nos agradecimentos, por ter cedido um mp3 que eu ainda nao tinha passado a grana para o dono verdadeiro do
mesmo kkkkk, mesmo assim valeu adolfo pelo agrado, vc e foda.

Anônimo disse...

É o Wild Garlet da nova geração!!!

Thiago Barbosa disse...

Fala Adolfo, sou Thiago Barbosa, estagiario da Aperipê, dei uma passada por aqui e estava conferindo a entrevista com Netinho, porra tava show, parabéns!

antonio borrelli disse...

oi adolfo,
aqui é o antonio, o italiano ex webmaster de tv aperipê e surfista amigo de riccardo gringo... perdi seu tel, entre em contato comigo, por favor, estamos fazendo um site para RG Surf Boards e precisamos da SUA ajuda.
www.rg.antborrelli.com/rg/
meu e-mail, que esta no site tb, é:
ant_borrelli@yahoo.de
abraço
antonio

Mariana disse...
Este comentário foi removido pelo autor.