quarta-feira, janeiro 31, 2007

UM NOME FEIO (FLASHBACKIN')

Ganhei um doce de aniversário e tive um puta flashback: Lembrei que há exatamente 10 anos eu assassinei meu zine Cabrunco. Mea culpa. Era um projeto em conjunto c/ Rafael Jr., da banda Snooze, e Márcio André, que hoje está c/ a Naurea. Durou 2 anos, de 1995 ao início de 97. Foi uma época boa da minha vida – fui a uns 1000 shows, conheci vários lugares & fiz alguns amigos pra vida toda. Fizemos algumas reportagens que se tornaram clássicas, como a matéria de capa sobre filmes trash nacionais no nº 7 e o especial sobre masturbação no nº 2, graças a pérolas como essa: “(...) Estima-se que o primeiro ‘boom’ masturbatório surgiu com a difusão do movimento punk, com seu grito de ordem, DO IT YOURSELF(...)”.
Hahaha!... Às vezes eu acho que era tudo uma grande piada p/ mim, a começar pelo nome do zine: “Cabrunco” é uma expressão tipicamente sergipana, que pode ser usava como interjeição ou substantivo, no lugar de qualquer palavrão que você conheça... Quando as coisas começaram a ficar muito sérias, c/ edições mais caras, elaboradas e aguardadas, eu desencanei e mandei tudo à merda: dinheiro, drogas, festas, mulheres... Quer dizer, dinheiro não rolava mas o resto era arregado. A seguir, trechos de algumas das melhores entrevistas publicadas:


PITTY – Nº 9 / janeiro 97
C – Como vc se sente sente a “menina dos olhos” do rock baiano?
P –
Sei lá, não sabia disso. É massa ter gente que gosta. Sei lá... Porra, Adolfo... “Menina dos olhos do rock baiano”?
C – Vc concorda que ter uma menina na frente da banda pode impulsionar a carreira da
Inkoma?
P –
Pô, eu não queria isso não. Eu ia me sentir mal pra caramba. Eu acho que não é por eu ser mulher que eu tenho que ficar me expondo. Eu tento ser normal, vestir as roupas que eu visto todo dia.
C – Como rolou de vc entrar na banda?
P – Eu trabalhava num estúdio de gravação e conheci um cara que conhecia a Inkoma e sabia que eles tavam a fim de ter um vocal... (....) Neguinho tocava Deep Purple, Led Zeppelin, Black Sabbath... Galera anos 70 pra caralho. Aí, de um ano pra cá, a gente começou a fazer as músicas e a parada foi tomando outra tendência, porque minhas influências são mais atuais, eu acho. Gosto mais de hardcore rapidinho, mesmo.
C – E as tretas c/ os punks de Salvador por causa da letra de “Naquela da Social”, que diz que hardcore é diversão?
P – Pô, troquei várias idéias c/ Grito, sacou? Ele é do Movimento Anarco-Punk, lá. Não tem essa não, brother. Ninguém pode intimar o outro porque tá pensando de outra forma. Cada um pensa o que quer. Isso é que é liberdade de expressão, sacou? Aquela música é do tempo que eu trampava c/ aquele calor na cabeça, velho, e quando parava pra ouvir uma música me sentia bem, saca? Por isso que é diversão. Você pára e escuta hardcore, é massa.

B.NEGÃO – Nº 9 / janeiro 97
C – E aí, saiu mesmo do Planet?
BN –
Saí mesmo. Tava difícil ficar nas duas bandas ao mesmo tempo. Aí, eu dei prioridade pro Funk Fuckers, que é minha banda mesmo, né.
C – Dê uma geral...
BN – Vou te contar a breve história... Todo mundo da banda se conhece desde que nasceu, todo mundo morava no mesmo lugar, era um condomínio velho que tem lá, afastadão, assim, tipo no meio do morro, que era esconderijo dos maluco, assim, sabe? Tipo político (?), seqüestrador... Aí, ia ter um festival no Circo Voador, e nessa época a parada era tocar no Circo. Isso em 92. Aí, saí agregando neguinho. Eu falava: “sabe gritar?”, “sei”, aí eu: “então tá dentro”. (risos) E a gente fez o show, tinham 2.500 pessoas nesse dia, tava lotadaço, e a gente deu a cagada de que tudo o que acontecia de errado nos ensaios, aconteceu certo no show. Foi considerado o melhor show da parada. Tenho até hoje em vídeo lá, nego gritando “mais um, mais um”...
C – Mas ainda demorou um pouco pra banda ficar conhecida mesmo...
BN – Desse show começaram a rolar convites, mas aí eu falava: “pô, mas nós só sabemos tocar 5 músicas”, que era uma nossa e quatro covers. (risos) A gente só ficava assim: “funk, funk, funk, funk...”, e como só tinha mongol na parada, ficou assim mesmo. Nos primeiros anos o Funk Fuckers tinha muito mais público que o Planet. Só que a gente nunca teve espaço na mídia. A 1ª demo só rolou depois de anos, tanto que no começo até rola aquele “aleluia”.

LACERTAE – Nº 7 / julho 96
C – Como é que uma banda tão estranha foi surgir em Lagarto?
L – Poderíamos ter nascido na Patagônia, lá onde o vento faz a curva, seríamos os mesmos.
C – Como vcs descobriram sua identidade musical?
L – Esse processo surgiu naturalmente (...) e até os dias atuais não possuímos identidade musical. Estamos à procura, (...) ainda tem muita coisa que nós queremos fazer. Muitos sons.
C – E essas idéias de inventar instrumentos? A percussão de cano de descarga, o “cabaçofone”...
L – Não são idéias, são apenas necessidades.
C – Lacertae significa lagarto em latim, mas vcs dizem que não é uma homenagem à sua cidade...

L – Nunca foi uma homenagem. O nome é uma apologia ao primitivo, ao réptil, ao cérebro.

MARCELO D2 – Nº 6 / abril 96
C – Como foi gravar o disco (“Usuário”) pela Sony?
MD2 – A gente produziu o disco, fez a capa, fez tudo, eles só botaram o dinheiro. (...) Acho que eles têm um trabalho, de repente, melhor do que uma porrada de gravadoras independentes que tem por aí.
C – E essa história de “Cypress Hill brasileiro”?
MD2 –
(...) O Planet Hemp tem 3 anos, quando começou eu nem conhecia o Cypress Hill, tá ligado? A coisa aconteceu naturalmente, né cara?
C – Como a maconha influi no dia-a-dia de vcs?
MD2 –
É uma coisa muito natural assim, cara, maconha. Acaba influenciando muito na vida porque a gente é uma banda que fala de maconha, a gente fuma o dia todo, e o trabalho da gente é meio que em volta disso, né cara? Daí que ela influi um pouco na vida. Mas pra mim não é “o principal problema do mundo”, ta ligado? Acho que tem coisas piores pra serem resolvidas. Só que é uma coisa que me incomoda pra caralho. Eu acho que tava no direito de poder falar.
C – Já provou a de Sergipe?
MD2 – Lógico, lógico. A primeira coisa que eu fiz, quando cheguei, foi fumar.
C – E aí?
MD2 – Do caralho! (risos)

MUNDO LIVRE S/A – Nº 4 / novembro 95
C – Vc acha que a atenção da mídia p/ as bandas de Recife se deve ao rótulo “Mangue Beat”?
F04 –
A gente teve a idéia de vender a cena contendo todo um conceito, c/ manifesto, vocabulário, visual próprio... Temas definidos, tentando vender um outro lado do Recife que não aparece na mídia, o lado da pobreza, da miséria, da quarta pior cidade do mundo, tudo fechado em torno de uma cena nova que a gente quis mostrar. A gente sabia que, como Recife não estava no circuito tradicional do pop, fora do eixo de produção, de difusão de informação, então pra se chegar num esquema de cavar espaço na mídia nacional tinha de ser uma coisa muito mais trabalhada, um movimento mesmo. Aí eu tirei essa onda de Mangue Bit.
C – E a influência do Jorge Ben no seu som?
F04 – Jorge Ben é meu ídolo de adolescente, e pá. Meu disco de cabeceira até os 18 anos era “Tábua de Esmeraldas”. Não dá nem pra dizer se o que Jorge Bem faz, na verdade, é samba, é um novo pop brasileiro, que ele vem costurando já há um tempão. Teve altos e baixos, fases boas e más, mas as fases boas, pra mim, são geniais, e foi minha referência principal.


ZENILTON – Nº 3 / agosto 95
C – Fale sobre seu trabalho c/ os Raimundos.
Z – Rapaz, eu acho que vou largar essa merda de forró. A gente trabalha a vida toda e não tem retorno. Eu vou ficar é c/ os Raimundos mesmo. Depois que eu fiz o disco c/ eles, toda a juventude me cumprimenta na rua.
C – E como é que os caras são?
Z – Os meninos é tudo gente boa. Vou ficar é c/ eles. Depois que eu comecei a tocar c/ eles todo mundo me reconhece. Eu quero é comer essas meninas tudo aí. (risos) Eu quero mais é morrer de AIDS e emaconhado, comendo essas menininhas novas. (risos gerais)

O mais legal dessas entrevistas era a informalidade c/ que eram feitas. A do Zenilton surgiu de um encontro casual no centro de Aracaju. Fred 04 foi entrevistado por mim e por Márcio numa mesa de bar, tomando várias. A da Pitty, na minha casa. Não é à toa que é minha preferida...
Hoje, todo mundo sabe, alguns desses nomes se tornaram ícones pop, como a própria Pitty e o D2 (foto), a quem eu só entrevistaria hoje em dia marcando hora c/ antecedência... Os outros não tiveram tanta sorte, mas continuam na ativa, lançando CDs independentes, como o Lacertae, Mundo Livre S/A e o B.Negão em sua estréia solo. Zenilton, que reencontrei um outro dia, não morreu de AIDS, mas parou de gravar discos por causa da pirataria.
Depois desse flashback, andei pesquisando sobre o Cabrunco na internet e encontrei coisas realmente bizarras, como um perfil meu na Enciclozines e um texto sobre meus amigos do Lacertae p/ o lançamento da coletânea Brasil Compacto, em 1996. E eu nem falei aqui dos quadrinhos, c/ feras brabas como Alberto Monteiro, Allan Sieber, Lauro Roberto, Luiz Eduardo e Joacy Jamys colaborando em quase todas as edições, além de algumas histórias minhas... Foi bom enquanto durou, mas a vida segue em frente. Afinal, o Cabrunco era só um zine. E um nome feio.

@dolfo s@´ - zineiro, blogueiro & jornalista gonzo

quarta-feira, janeiro 17, 2007

P/ BAIXO E AVANTE
2007 começou c/ tudo, e não se esqueçam – nada é tão ruim que não possa piorar:

04/01 – O advogado do playboy Renato Malzoni Filho divulgou à mídia a retirada do ar do site de vídeos YouTube no Brasil,
como punição pela veiculação do vídeo em que seu cliente aparece fazendo sexo c/ a famosa Daniela Cicarelli em uma praia na Espanha. O Tribunal de Justiça de São Paulo negou a informação, mas confirmou o uso de uma “filtragem restrita” ao vídeo da Cica, “de forma a inviabilizar por completo, o acesso pelos brasileiros ao filme do casal”. “Filtragem restrita”, uma forma sutil p/ a palavra CENSURA:O processo corre em segredo na Justiça (...) Mas não há dúvidas, entre aqueles que tiveram acesso ao documento completo, que todo o site será bloqueado”, diz o advogado de Malzoni. Sites dos jornais mais importantes do mundo publicaram a decisão do TJSP, que chamou a atenção por seu caráter anti-democrático. A história foi parar até na rede de TV CNN e no verbete dedicado ao YouTube na Wikipedia.

09/01 – Os bispos e líderes da Igreja Renascer em Cristo, Estevam e Sônia Hernandes, foram presos no Aeroporto de Miami (EUA) c/ 56 mil dólares cash, não-declarado.
Levavam dinheiro escondido em uma mochila, um porta-CDs, em parte da bagagem despachada e até dentro de uma bíblia. O casal de falsos profetas só foi liberado pelo FBI após pagar fiança de US$ 100 mil, mas o flagrante motivou os promotores a realizarem novo pedido de prisão preventiva. Os bispos já tinham sido alvo de outro pedido de prisão no Brasil em novembro do ano passado por promotores do Gaeco (Grupo de Atuação de repressão ao Crime Organizado), c/ base na ausência dos acusados em uma audiência do processo por crimes de estelionato contra fiéis da Renascer e lavagem de dinheiro arrecadado em cultos.

10/01 – Um vazamento de 400 mil metros cúbicos de rejeito de bauxita
da Rio Pomba Empresa de Mineração Ltda., em Cataguases (MG), contaminou os rios Fubá e Muriaé e causou a suspensão da captação e distribuição de água da Laje do Muriaé (RJ), que abastece 6 cidades. Uma mancha de 70 km de extensão tomou os rios, segundo a Defesa Civil do Rio. Segundo a Rio Pomba, foram “apenas” 7 km, e a empresa afirma que não há produtos químicos nem metais pesados e o material derramado é “inerte”, “não-tóxico”: “O gado bebe a água e não tem problema nenhum”, declarou à imprensa o diretor industrial da empresa, Carlos Ferlini.

12/01 – Na tarde de sexta-feira, um acidente nas obras da Linha 4 do Metrô,
na zona oeste de São Paulo, provocou desabamento de terra e criou uma gigantesca cratera de 30 metros de profundidade ao lado de uma das principais vias da cidade, a Marginal do Rio Pinheiros. O acidente dobrou o diâmetro do buraco que havia sido aberto p/ as obras, comprometendo diversas casas nas proximidades, que tiveram que ser evacuadas e demolidas. Pelo menos sete pessoas morreram. O Governo de São Paulo atribui culpa total ao consórcio de empreiteiras responsável pela obra.

16/01 – O Governo Federal designou a presença da Força Nacional de Segurança
e de homens do exército nas ruas do Rio de Janeiro. Não foi p/ proteger a população da crescente violência – é que nesta quinta-feira começa a reunião de cúpula do Mercosul na cidade. Na madrugada desta quarta, a comunidade criminosa carioca deu as boas-vindas às tropas do governo queimando mais dois veículos, nas proximidades das favelas de Cidade Alta e Brás de Pina. O tanque de gasolina de um dos carros explodiu, e a população continua assustada.

17/01 - Mototaxistas reuniram-se em protesto em Aracaju (SE) contra a medida judicial que os proíbe de atuar na cidade.
O serviço é essencial p/ a população e nós só queremos continuar trabalhando. Nós seguimos todas as normas de segurança”, disse o presidente do sindicato da classe. C/ gritos de “queremos trabalhar!”, os mototaxis circularam pelo centro até o destino final, em frente à Prefeitura, onde a coisa pegou fogo. Manifestantes entraram em confronto c/ a polícia. Desde ontem, a SMTT está multando os profissionais que são flagrados nas ruas, que podem ser punidos em R$ 1.000 por dia e até ter suas motos apreendidas. “A gente tava rodando c/ medo. Hoje mesmo eu fui parado no Santos Dumont (bairro da zona norte) e tive que dar grana pro policial me liberar”, falou Airton Jr., que vive disso.

quarta-feira, janeiro 10, 2007

SÓ MIOJO SALVA
...E o homem criou o macarrão instantâneo... (ilustração: Niklas Jansson)

Uns amam, outros odeiam, mas quem nunca foi salvo na larica por um miojo? Prático & barato, o macarrão-instantâneo foi inventado em 1958 no Japão por Momofuku Ando, fundador e presidente da Nissin Food Products Co. Criada em 1948, nas cinzas da 2ª Guerra Mundial, a empresa de Ando permaneceu como um pequeno negócio familiar por dez anos, até que Momofuku conseguiu chegar ao ponto certo da sua “fritura-relâmpago” da massa, que levou à invenção do popular “lamen”.
Popular mesmo. Segundo uma pesquisa realizada no Japão em 2000, o macarrão instantâneo foi considerado a invenção japonesa mais importante do Séc. XX, superando o CD e o karaokê, por exemplo. Estima-se que 65 bilhões de unidades de miojo sejam consumidas anualmente em todo o mundo. “Miojo”, aliás, é um nome brasileiro. A Nissin adotou essa expressão na época de lançamento do produto, e o termo virou sinônimo de macarrão instantâneo por aqui.
Momofuku Ando nasceu em Taiwan em 1910, quando o país vivia sob ocupação japonesa. Mudou-se p/ o Japão ainda jovem, e trabalhou em várias empresas antes de fundar a Nissin. A idéia p/ o macarrão instantâneo surgiu quando ele notou o tempo que as pessoas perdiam na fila p/ comprar alimentos no mercado negro, durante o racionamento que se seguiu à derrota do Japão na Grande Guerra.
Seu invento consistia em um macarrão pré-cozido em óleo que requeria apenas alguns minutos na água fervente e um pouco de tempero, p/ ser consumido. O sucesso foi igualmente instantâneo, e em 1971, já um gigante do ramo, Momofuku inventou o “
cup noodle, um rango ainda mais prático: um macarrão dentro de um copo, no qual é só jogar água e comer.
Graças a seu baixo custo e fácil preparo, os macarrões instantâneos tornaram-se sucesso mundial e fizeram do seu criador um homem rico. Além de empresário e inventor, Ando sempre foi um excelente garoto-propaganda de seu produto – em suas aparições públicas, gostava de degustar os pratos que ele mesmo criou. Permaneceu ativo na velhice. Em 2005, divulgou a versão do “cup noodles” p/ os astronautas do ônibus espacial americano Discovery.
Momofuku Ando morreu na última sexta-feira, 05/01, de ataque cardíaco, aos 96 anos, no Japão. “Ando morreu, mas deixou milhões de seguidores da sua fabulosa invenção”, declarou um
no site Orkut, que contabiliza 883 comunidades dedicadas ao miojão e mais duas exclusivas p/ o japonês. “Você deve muito a este gênio da gastronomia. Se não fosse ele, o mundo não seria o mesmo”, escreveu o criador da comunidade “Seguidores do Sr.Momofuku”. "Só haverá paz na Terra quando o povo tiver comida suficiente", dizia o finado Ando.
Alimento favorito de estudantes, desempregados e gente que não sabe cozinhar, o macarrão do Momofuku já virou até filme: “O Miojo do Mal”, um curta-metragem “infame e amador”, segundo seu próprio diretor, o gaúcho Jadir Nunes. Filmado em uma única tarde de 1997 c/ um orçamento de R$ 10,00 – gastos em pacotes de macarrão – , “O Miojo do Mal” conta a história de “uma tola família brutalmente atacada por um Miojo com sede de sangue e malignas intenções de vingança”, diz o release. Segundo o diretor, um filme “improvisado, expresso e instantâneo como o macarrão Nissin Lamen”.

quinta-feira, janeiro 04, 2007

DEPOIS DE MORTO TODO MUNDO É SANTO
Saddam Hussein: o novo mártir do anti-americanismo

"Mais um ano. Na verdade, MENOS um ano, mas isso vai ser difícil de ler em algum jornal... Isso aí, 2006 foi escabroso, com a humanidade mais uma vez batendo o recorde de Pior Espécie a Dominar um Planeta e 2007 com toda certeza vai ser pior ainda, mais carros, mais gente, mais filmes ruins, mais novelas, mais idiotas, mais celulares, mais bandas, a mesma merda de sempre só que MAIS." Allan Sieber, em seu blog "Talk to Himself Show".
2007 começou c/ a política dominando a cena (o que por si só já é uma merda): no Brasil, presidente, governadores, deputados e senadores tomaram posse p/ 4 anos de festa c/ nossa grana - se não fossem esses seriam outros, o pior é isso - ; lá fora, a grande notícia foi a execução de Saddam Hussein, o superstar ditador iraquiano, condenado à morte pelo massacre de 148 civis xiitas em 1982, na cidade de Dujail.
O enforcamento foi em Bagdá no sábado, 30/12/06. O mundo todo já viu a cena, através de imagens feitas num celular: Saddam cercado por seus carrascos, evocando Alá enquanto testemunhas dizem "Moqtada, Moqtada, Moqtada", em referência a Moqtada Sadr, líder de milícias xiitas. "É essa a nobreza humana?", pergunta Hussein. Ouvem-se gritos de "abaixo a ditadura" e "viva Mohammed Baqer al Sadr", tio de Moqtada, fundador do partido Dawa, morto no governo de Saddam. Antes de morrer, o ex-ditador recitou o Alcorão: "Eu testemunho que não existe outro Deus que não Alah e que Maomé é seu profeta". Finalmente, escuta-se alguém dizer "caiu o tirano", no momento em que o ditador cai na forca.
Por causa desse filme, Saddam Hussein está se tornando um novo mártir do mundo muçulmano.
Protestos vêm sendo feitos por todo o Oriente Médio, da Palestina à Jordânia. O governo iraquiano está na cola do guarda que discutiu c/ Hussein e da testemunha que filmou toda a cena - um modo de aplacar os ânimos exaltados da opinião pública saudita. A violência recrudesceu no Iraque desde o episódio. Esta já é a guerra c/ maior número de baixas entre soldados norte-americanos desde o Vietnã. O que o presidente Bush tem conseguido c/ sua estratégia de "guerra contra o terrorismo" é unir todos os chefes de Estado que têm alguma antipatia pelos EUA. Ele já conseguiu fazer grandes inimigos na Ásia, no Oriente Médio e na América Latina.
O presidente eleito da Nicarágua, o sandinista Daniel Ortega, afirmou que a execução foi um "crime brutal", e exigiu em comunicado a "retirada imediata" das tropas americanas. "O direito internacional foi violentado mais uma vez no Iraque ocupado, bombardeado e submetido às maiores humilhações, torturas, atropelos e a um genocídio cruel, que pretenderam justificar com pretextos e mentiras - descobertas e provadas - no mundo inteiro", declarou. Por que tanto interesse do general Ortega na situação iraquiana? O líder da Frente Sandinista de Libertação Nacional já governou a Nicarágua de 1985 a 1990, e sempre foi um antagonista da política norte-americana.
Nos EUA, uma empresa especializada em bonecos inspirados nos personagens do momento está vendendo uma réplica do ex-ditador do Iraque na forca por US$ 24,95. O dono da fábrica, Emil Vicale, afirmou que desde o último sábado sua empresa não pára de receber pedidos. O boneco, de cerca de 30 centímetros, pode ser comprado pela internet no site da Herobuilders. Saddam veste uma camiseta branca com a frase "Dope on a rope", algo como "idiota na corda".
E o Brasil? Continuamos sendo uma nota de rodapé bizarra na política internacional, e o terrorismo já começa a se fortalecer por aqui.
Desde a semana passada, 13 ônibus foram queimados no RJ, mais cinco no Espírito Santo, 5 ônibus c/ turistas estrangeiros já foram assaltados desde outubro, suplentes de parlamentares assumiram ontem em Brasília p/ NÃO trabalhar em janeiro e receberem mais de R$ 40.000 de dividendos - um custo total de R$ 2 MILHÕES p/ os cofres públicos só este mês. Sem falar no casamento do Marcola. 2007 tá na área, e isso é só o começo.
trilha sonora: "Rock the Casbah", The Clash