terça-feira, maio 29, 2007

LÁ VEM O CHÁVEZ
"Foi sem querer querendo! Isso, isso, isso..."
“Lá vem o Chaves, Chaves, Chaves/ Todos atentos olhando pra TV...” A trilha sonora do seriado Chaves (“El Chavo Del Ocho”, no original mexicano) bem que poderia ser a música tema da nova TV do presidente da Venezuela, Hugo Chávez. Só que, neste caso, não se trata de “uma historinha bem gostosa de se ver”...
Desde a 0h20 de ontem, segunda 28/05, começou a funcionar a TVes, Fundação Televisora Venezuelana Social, no lugar da Radio Caracas Television, a rede de televisão mais antiga e de maior audiência do país, por ordem do governo chavista, que não renovou a concessão de freqüência estatal da RCTV.
Chávez a acusa de “golpista”, alegando que durante o golpe civil que o depôs em 2002 a RCTV não noticiou as manifestações que pediam a volta do presidente. A decisão de fechar um órgão de comunicação por fazer oposição ao governo gerou protestos nas ruas da capital Caracas, e repercutiu em todo mundo – até o líder da União Européia, Durão Barroso, pronunciou-se a respeito: “trata-se de um passo atrás”.
A imprensa da América Latina se solidarizou c/ a RC e inúmeros jornais dedicaram editoriais condenando o episódio. O uruguaio El País chamou o ato de “neototalitarismo”, o panamenho La Prensa afirmou que Chávez está se tornando “um autocrata” e o paraguaio ABC Color estampou a manchete “Chávez mata a liberdade na Venezuela”. O Jornal do Brasil lamentou que “as democracias estáveis na região, o Brasil incluído, foram incapazes de impedir mais uma perigosa demonstração de desprezo à liberdade”. O presidente Lula tirou o dele da reta: “É um problema da Venezuela”, disse ele hoje durante um almoço c/ um representante do partido comunista do Vietnã. Traduzindo: “Eles que se fodam, eu é que não vou me indispor c/ meu amigo Hugo”. Nós já perdemos a Petrobras na Bolívia e agora abrimos este precedente. De que Lula tem medo?
“EL PODER QUE EL PUEBLO ME DIO”
O tenente-coronel Hugo Chávez surgiu na cena política ao protagonizar o golpe militar que tentou derrubar o presidente Carlos Pérez, em 1992. Após passar dois anos preso, foi libertado graças a uma anistia do presidente seguinte, Rafael Caldera.
Em 1998 é eleito presidente “num clima político marcado pela corrupção” (Wikipedia). Seu primeiro ato foi convocar uma Assembléia p/ elaborar uma nova Constituição, a “Quinta República”, que atribuiu mais poderes à Presidência, permitiu uma maior intervenção do Estado na economia, eliminou o Senado e reconheceu os direitos culturais e lingüísticos das comunidades indígenas. Foi reeleito em 2000 e criou a Ley Habilitante, que lhe permitia governar por decreto durante um ano, período em que promulgou 49 decretos, entre eles a Lei de Hidrocarbonetos, que fixou a participação do Estado no setor petrolífero em 51%. Em 2002, demitiu os gestores da companhia estatal Petróleos da Venezuela e os substituiu por testas-de-ferro, o que gerou uma greve geral no país que deixou 15 pessoas mortas e culminou c/ a sua deposição do cargo. Mas o novo governo não era muito melhor, dissolvendo a Assembléia e os poderes judiciais, o que abriu espaço p/ a volta de Chávez, que ainda se reelegeria p/ seu 3º mandato em 2006. Vale frisar que ele foi o único candidato a concorrer ao cargo - a oposição retirou sua candidatura em protesto ao regime.
No início deste ano, Hugo Chávez ganhou do Congresso plenos poderes p/ governar por 18 meses através de decretos-lei em 11 áreas da Venezuela. O fechamento da RCTV é conseqüência dessa decisão parlamentar e da sanha de vingança e sede de poder de “Huguito”. O diretor-geral da extinta emissora,
Marcel Granier, enviou uma carta pessoal ao presidente em que dizia que estava em suas mãos confirmar sua posição de “líder de uma nova esquerda latino-americana” ou tornar-se mais um ditador. A escolha foi feita.
Essa é uma decisão política de um governo extremamente intolerante”, afirmou Granier. “O governo da Venezuela tem conflitos c/ os sindicatos, c/ as empresas, c/ a imprensa, c/ os Estados Unidos, c/ a Igreja e até c/ a Rede Globo. O presidente não aceita nenhuma opinião diferente da dele. Não há diálogo c/ ninguém, essa é a sua maneira de governar.”
QUINTA REPÚBLICA, 3º MUNDO
Chávez gosta de chamar a atenção, talvez por isso queira uma emissora de TV só p/ ele. Apadrinhado pelo ditador morto-vivo
Fidel Castro, não é de estranhar que a única manifestação de apoio por parte da imprensa tenha vindo do jornal Granma, do Partido Comunista de Cuba: Milhares de venezuelanos lotaram as ruas de Caracas p/ saudar o nascimento da TVes e a saída do ar da RCTV, incitadora do golpe de Estado de abril de 2002 e da greve petrolífera que causou graves estragos à economia do país”, afirmou ontem em artigo.
O que o Granma não disse é que a Venezuela sofre c/ uma inflação altíssima que anula o crescimento do PIB e empobrece a população. Medidas de fixação de preço só pioraram as coisas, gerando escassez de produtos e o surgimento de um mercado negro. O presidente acusa os próprios produtores pelos prejuízos, a despeito do consenso de que medidas extremas como congelamento de preços só levam a desastres econômicos.
Karl Marx dizia que "a história se repete como farsa". Ao contrário do ator Roberto Gómez Bolaños, criador do
personagem infantil, o Chávez da Venezuela é um tremendo canastrão e não tem nada de inofensivo. Fã e confidente de Fidel, já chamou Bush de “diablo” em plena ONU, mas tem a sua maior fonte de renda no petróleo que vende aos EUA, maior importador da Venezuela (enquanto Cuba sofre c/ embargos econômicos). Esperto, o pendejo. No entanto, a pobreza crônica e o desemprego continuam marcando fortemente a economia venezuelana.
Os protestos em Caracas continuam, e mesmo c/ toda a comunidade internacional condenando sua última peripécia, ele ainda consegue fazer seguidores. Os presidentes Evo Morales, da Bolívia, e Rafael Correa, do Equador, já pensam em fechar canais de TV locais que fazem oposição aos seus governos. Sem querer querendo, Hugo Chávez vai fazendo estragos. Nem precisou fazer a opção levantada pelo jornalista Granier, da RCTV – ele É o líder da nova esquerda latino-americana, e também um ditador.

Adolfo Sá - trabalha em uma TV estatal e é fã do Chaves (o seriado) ilustrações: La Brasa & Sus Amigos

sexta-feira, maio 25, 2007

PARÊNTESES
"Morro da Favela", quadro de 1924 de Tarsila do Amaral: outros tempos
Mês passado falei sobre a violência no Rio e no Iraque, e tentei mostrar por A + B que tiros e bombas não são privilégio desses lugares. Como o mundo é cão e não me deixa mentir, a coisa só piorou de trinta dias pra cá. O Rio de Janeiro vive uma guerra civil declarada há vinte e tantos dias, concentrada no Complexo do Alemão. O Bope ocupou as favelas, os traficantes fizeram barricadas, e no meio das balas, gente inocente – moradores, trabalhadores, o povo enfim. A Palestina, que vive uma guerra de 40 anos contra o Estado de Israel, agora assiste um conflito armado entre as duas principais correntes ideológicas, o Fatah e o Hamas, que fazem as vezes de partidos políticos e lutam pelo controle no país ocupado. Se palestinos não conseguem se entender c/ palestinos, como reconstruir uma nação? Problema igual ao do Iraque, cujas tribos étnicas (sunitas, xiitas e curdos) se odeiam até o fim. A Anistia Internacional denunciou a existência de um esquadrão de morte em Sergipe. Aracaju e cidades do interior como Lagarto, Itabaiana e Barra dos Coqueiros nunca viram tantas mortes por assassinato, envolvendo disputas de tráfico e motivos mais obscuros. O Secretário de Segurança Pública contesta a Anistia: “Não tenho conhecimento disso. Não existe nada disso na atualidade. E os índices de homicídios diminuíram.” Bom saber. Faz a gente se sentir mais seguro.

quinta-feira, maio 17, 2007

SUSHI DI RATO
“A fome vergonhosamente apresenta: Mukeka di Rato – Nãããooo!!!”
Inspirados em uma reportagem sobre miseráveis nordestinos que comiam ratos no lixão, uns moleques bagaceiros de Vila Velha (ES) se juntaram a fim de fazer um som direto & violento, que só foi piorando c/ o passar do tempo. Entitularam a banda como Mukeka di Rato – c/ dois ‘k’ igual às bandas filandesas de crust – e lançaram a demo “Sobrevivência” em 1995, passando a ganhar destaque em zines e programas de rádio. Seguindo a linha dos "três notão"(sol-lá-ré), gravaram o disco de estréia no ano de 97, em Brasília: “Pasqualin na Terra do Xupa Kabra”. Na capa, um palhaço em frente ao Palácio do Planalto.
Conheci os caras em 1999, no Abril Pro Rock em Recife. Na época, estavam criando um selo próprio, Läjä Records, por onde lançariam os trabalhos seguintes: “Gaiola” (99) e “Acabar com Você” (2001), considerado o melhor disco da banda. Em 2004, sai “Máquina de Fazer” pelo selo carioca Urubuz Records, c/ a banda soando ainda mais pesada e agressiva que antes.
C/ a moral conquistada lá fora através de participações em diversas coletâneas de HC, e prestes a lançar “Carne”, seu quinto CD, os moleques foram convidados p/ uma série de 10 shows no Japão, que começaram no mês passado e só terminaram no início de maio. É lógico que os japas arregalaram os olhos c/ o HC tosco da Mukeka. Quem conta é o baixista Mozine:
“Todos os shows da turnê foram com casa cheia. Puta que pariu, sem comentários! Principalmente o último, em Tóquio, na Golden Week Punk, um bagulho totalmente inédito no Japão. Além de nós, do Brasil, teve o Pisschrist da Austrá-lia, que é uma banda bem crust, o World Burns to Death dos EUA, o Foward, que é famoso pra caralho aqui, a japonesa Vivisick, e o Gauze, tipo Ratos de Porão. Nunca vi tanta gente chorando num show de hardcore, chorando mesmo, em todos os shows da noite. Uma doideira.
O show no Nagoya Huck Finn foi ‘o bicho’, uma lendária casa do punk local. Devia ter pelo menos uns 60 ou 70 brasi-leiros, o resto era tudo japonês. E isso em pleno 2 de maio, feriadão por lá. Em Tóquio também tocamos num local chamado Earthdom. Velho, pelo amor de Deus, esse lugar, destinado ao undergrond hardcore, não tem igual no Brasil, toquei com uns amps maiores que eu. Quem passava o som eram duas japinhas, simpáticas pra caralho. Nunca imaginei ver duas minas cuidando de todo o som, e nunca vi tanta qualidade. Foi muito foda isso.
As bandas que tocaram com a gente durante esses dias foram muito boas também, posso destacar o Concre que é tipo um Atari Teenage Riot, só que melhor na minha opinião, e o The Napoleons, um psychobilly daqueles japoneses malucos, mas não é pscyho vestido de monstro, hardcore não, psycho mesmo, lembra um pouco umas partes rock’n’ roll do Teengenerate. É de chorar. Os caras aqui são extremos no palco, dão o sangue. Ficamos impressionados.
A gente não quis criar expectativa nesta viagem, viemos de bola baixa. Chegamos aqui e vimos os japas cantando o bagulho em português, com papelzinho na mão para não errar a pronúncia, muito doido. Tem uns que até fingem falar português (rs).
No primeiro dia rolou também o show com o Fuck on The Beach, no mesmo lugar do último dia, o tal do Earthdom. Eu nunca vi tanta insanidade na vida, foram 25 minutos de um barulho infernal, com tudo ligado no máximo. Mas entenda máximo como MÁXIMO mesmo! Um inferno na Terra, nunca vi aquilo antes.”
por MOZINE, Japão, 2007