sexta-feira, dezembro 14, 2007

RxDxPx 13 ANOS DEPOIS
ou QUEM TÁ NO ROCK É PRA SE FUDER
Em 1994, Aracaju foi palco de um dos mais selvagens e turbulentos episódios envolvendo uma banda de rock, um produtor picareta & um público indignado de que se tem notícia. Seria o 1º show do Ratos de Porão na cidade, aconteceria num ginásio de esportes e foi promovido pelo dono de uma loja local, com direito a tarde de autógrafos em shopping – imagina o João Gordo no auge das drogas assinando discos e camisas da molecada... Mas rolou!
O que não rolou foi o show.
Gordo & cia., escaldados de tomar “toco” de produças gatunos, exigiram cachê integral antes de entrar em cena, e o produtor local deu o perdido, deixando a banda sem a grana e os pagantes a ver navios. Geral fez barulho e a Choque apareceu pra cumprir seu papel: dar porrada em cidadão. O que você faria se gastasse seu real pra ver um show que não aconteceu e ainda tomasse porrada dos hômi? Procuraria o Procom?
Acontece que aqui no Nordeste punk tb é cangaceiro, e não ia deixar esse prejú barato. “As ruas foram tomadas por uma turba ensandecida sedenta de vingança”, relembra Adelvan Kenobi em seu blog
Escarro Napalm:
“O tal ‘produtor’ já tinha aprontado algo parecido c/ a banda P.U.S., mas se deu bem, a banda acabou tocando de graça no dia seguinte em respeito a seu público e ficou tudo por isso mesmo. Só que nessa noite as coisas iriam ser diferentes. Ele tinha uma loja especializada em rock alternativo no centro da cidade, e foi pra lá que a turba se dirigiu. A loja foi completamente destruída e saqueada. O ‘produtor’ sumiu da cidade, reapareceu, p/ finalmente sumir de uma vez. Fugiu. Desapareceu. Escafedeu-se. E Ratos de Porão em Aracaju virou uma espécie de lenda urbana. Durante esses 13 anos a cidade ficou com o estigma de ser uma das únicas capitais brasileiras nas quais eles nunca se apresentaram.”
No último dia 08 esse estigma foi quebrado, e finalmente Buracacity viu um show do RxDxPx. Desta vez a produção foi mais pé-no-chão e promoveu o evento em um espaço menor e mais barato, a banda recebeu adiantado e a maior porrada que rolou foi a que saiu das caixas de som, c/ bandas como INRIsório, Sign of Hate e a lendária
Karne Krua engrossando o caldo. Quem conta essa história é o não menos lendário Adelvan:
INRIsório no palco tem uma grande qualidade e um grande defeito. A qualidade é a precisão e a potencia c/ as quais executam suas músicas – realmente impressionante, especialmente seus guitarristas, que trabalham numa sincronia perfeita em riffs matadores durante todo o tempo da apresentação, sem pausa para descanso. Death grind de primeira. Pecam, no entanto, na postura de palco, quase sempre muito estática e desleixada. O resultado é que, na maioria das vezes, o publico em seus shows é um tanto apático.
Na seqüência a já tradicional e sempre bem-vinda presença da Karne Krua, em mais uma formação, desta vez mais afeita às origens hardcore da banda, mas tendo sempre à frente a presença carismática de Sílvio, a esta altura já uma figura emblemática do rock sergipano, com sua longa cabeleira grisalha e suas gesticulações teatrais – basta dizer que numa dessas festas à fantasia da vida um indivíduo compareceu caracterizado de Sílvio, com uma peruca grisalha na cabeça e uma guitarra a tiracolo. A nova formação está cumprindo muito bem a tarefa de trazer de volta a Karne Krua às suas origens, produzindo um som urgente e pesado para os já tradicionais hinos de rebeldia entoados desde os confins dos anos 80. Grande show.
Mas a noite, evidentemente, era do Ratos de Porão. E eis que depois de uma longa espera, eles aparecem despejando uma barulheira ensurdecedora já na abertura do show: ‘Aê Aracaju, até que enfim!’, bradou João Gordo.
E tome “Pedofilia Santa”, uma das faixas mais potentes de seu ultimo álbum, “Homem Inimigo do Homem” – e também um tapa na cara dos que se deixam levar pela fé cega. Terminado o primeiro som, o Gordo explica o que realmente aconteceu naquela fatídica noite do meio dos anos 90. Ele disse que foi tirar um cochilo antes do show no hotel e só acordou no dia seguinte pensando: ‘puta que pariu, fudeu, não teve show’. O ‘produtor’ simplesmente largou eles lá e não deu mais noticias. Mas que agora a banda iria tirar o atraso. E a partir daí começa um massacre impiedoso de músicas de todas as fases, desde o inicio tosco e punk de antes do “Crucificados pelo Sistema”, passando por “Cérebros Atômicos”, “Morte ao Rei”, “Crocodila”, “Beber até Morrer” e muitas, muitas outras. Uma hora e meia de show, aproximadamente, s/ grandes contratempos, a não ser a já tradicional rusga entre indivíduos mais exaltados da platéia e seguranças nervosos, o que fez a banda parar, meio a contragosto do Gordo, que fala no microfone já estar cansado dessa mesma história, sempre.
O som estava muito bom, o publico animado e a banda instigada – inclusive o Gordo, notoriamente sempre mal-humorado, hoje em dia parece mais desencanado – já tinha notado isso no ultimo Abril Pro Rock e senti isso também nesse show – ele até reserva alguns momentos para brincar com a platéia, perguntando se estão cansados e coisas do tipo. Foi uma noite de celebração de energia rock pra ficar na memória dos (infelizmente) poucos (na verdade nem tão poucos, mas claramente abaixo da expectativa de público) que compareceram.
A noite foi fechada com mais porrada no pé do ouvido por conta do death metal brutal a la Cannibal Corpse promovido pela Sign of Hate. O saldo seria amplamente positivo, não fosse os organizadores, mais uma vez, tomarem prejuízo e anunciarem uma possível e precoce ‘aposentadoria’ na promoção de shows deste tipo, o que confirma a máxima proclamada pelos
Retrofoguetes num Punka passado, pois segundo eles, ‘como já dizia Irmã Dulce: Quem tá no rock é pra se fuder’. Especialmente quem tá no rock em Aracaju, que sempre teve um público muito volúvel e instável, às vezes comparecendo em massa, ás vezes sumindo sem nenhuma explicação aparente. É uma pena constatar que, no final das contas, as coisas realmente mudam para continuarem na mesma.”


por Adolfo Sá & Adelvan Kenobi