quarta-feira, dezembro 24, 2008

BETTIE MORREU Nunca houve mulher como Bettie Page. Ícone sensual dos anos 50, precursora da revolução sexual, a mais fotogênica mistura de inocência e safadeza que já se viu.

Bettie abalou as estruturas da careta sociedade americana do pós-guerra c/ suas fotos eróticas. Nascida no Tennessee, cresceu numa família pobre durante a Grande Depressão americana [após a quebra da Bolsa de Nova Iorque em 1929], morou num orfanato após a separação dos pais, e foi estuprada pelo próprio pai aos 15 anos. Aos 21, já estava casada e formada em Artes no Peabody College. Uma sobrevivente.

Trabalhou como professora em Nashville e secretária em São Francisco. Em uma viagem c/ o marido p/ o Tahiti, pira no exotismo das praias e da cultura local. Inspirada nas tahitianas, passa a tomar banho de sol nua, igual a Luz del Fuego no Brasil na década de 40. De volta aos Estados Unidos, resolve se separar e troca a Califórnia por Nova Iorque, onde conhcece o policial e fotógrafo amador Jerry Tibbs, autor do seu 1º portfólio.
Por sugestão de Tibbs, Bettie passa a usar uma de suas marcas registradas: a franja convexa lisa [ele achava a testa dela grande demais p/ usar o cabelo repartido ao meio]. Seu ensaio, ainda que amador, catapultou a carreira de modelo de Page. Em apenas 3 anos, de 1953 a 1955, ela posou p/ as revistas Eyeful, Beauty Parade e Wink, atuou nos filmes Strip-O-Rama, Varietease e Teaserama, foi a garota do poster do natal de 1954 na Playboy, e recebeu do dono da revista, Hugh Hefner, o título de “Miss Pin Up Girl of the World”.

Através das lentes de Irving Klaw e Bunny Yeager ["a mais bela fotógrafa do mundo"], Page tornou-se a personificação do ideal de pin up: a garota jovem, bonita e sorridente em poses eróticas c/ pouca ou nenhuma roupa. Fez inúmeros ensaios sensuais, numa época em que até falar de sexo era tabu. Ela tinha a manha: posava sempre na ponta dos pés, fitando a lente c/ os olhos azuis, e muitas vezes produzia seu figurino – o clássico maiô de oncinha é invenção dela.

Assim como sua franja negra, outra de suas marcas também surgiu por acaso: quando posou p/ Klaw, foi obrigada por contrato a fazer algumas fotos explorando fetiches sexuais. Nascia Bettie Page, a rainha do bondage. Amarrada e amordaçada, batendo ou apanhando de outras garotas, c/ cinta-liga, luvas de couro e chicote na mão, Page incendiou o imaginário de homens e mulheres, e tornou-se um ícone do sadomasoquismo.

Claro que tanta vanguarda e erotismo não passariam em branco. Os valores familiares e cristãos estavam em voga nos EUA da década de 50, auge da Guerra Fria. Na caça às bruxas do comunismo, foi convocada a depor numa comissão de inquérito presidida pelo senador Carey Estes Kefauver. Isso a deixou tão abalada que, em 1958, retirou-se de cena definitivamente, casada pela 3ª vez e convertida à religião.
Na mesma medida em que se dedicava ao estudo da Bíblia, entrou em forte depressão e passou a sofrer distúrbios mentais. Foi presa na década de 70 após atacar sua caseira c/ uma faca. Sentenciada a cumprir 10 anos em uma instituição psiquiátrica da Califórnia, caiu no esquecimento, mesmo continuando a influenciar o sexo, a moda e até a música – muitas das inspirações visuais do movimento punk, por exemplo, vieram das fotos de Bettie.

Só voltou a conceder entrevistas nos anos 90, mas raramente aparecia em público ou deixou-se fotografar novamente. Fez isso p/ preservar o mito no imaginário popular. E conseguiu. Sua influência ainda é presente e forte nas mais diferentes e improváveis áreas, como os quadrinhos e a tatuagem, passando por cantoras doidonas tipo Juliette Lewis e Amy Winehouse. E suas fotos ainda despertam a libido de qualquer um(a) que a veja congelada no tempo, pele branca, olho azul, franja na testa, caras e bocas, peito empinado, cintura fina, bunda farta, coxas grossas. Tão gostosa quanto uma brasileira. Na praia ou num parque de diversões, nua ou de biquini, trancada em quartos de hotéis, sozinha ou acompanhada, brincando c/ chicotes e depois apanhando no colo de alguma amiga. Escrava & dominatrix. Miss Pin Up of the World. Rainha do bondage. Nunca houve mulher como Bettie Page.
Em 2005 foi lançado o filme The Notorious Bettie Page, dirigido por Mary Harron [Psicopata Americano] e estrelado pela ninfeta Gretchen Mol. O filme reproduz c/ fidelidade as mais insanas sessões de foto de Bettie.

Bettie Page faleceu no último dia 11, de parada cardíaca, após 9 dias em coma, aos 85 anos. “Com seu espírito independente e sua sensualidade sem vergonha, ela era a encarnação da beleza”, escreveu em comunicado seu agente e amigo, Mark Roesler.

Bettie Page encarnava a mulher independente do pós-guerra. Ela era a pin up subversiva enquanto Marilyn Monroe era a pin up mainstream.” Jornal do Brasil

sexta-feira, outubro 31, 2008

MERDA, LEPTOSPIROSE E OSSOS QUEBRADOS
Espalhando Doenças Brasileiras na Europa 2007. Fotos: Binho Man
24/10/2007, 100 km/h na autobahn alemã. As bandas brasileiras Merda e Leptospirose já haviam passado pelas cidades de Giessen, Berlim, Oberhausen, Nünchritz e Leipzig, na Alemanha; Utrecht, na Holanda; e Sosnowiec, na Polônia, em sua turnê Spreading Brazilian Diseases in Europe. Caíram mais uma vez na estrada c/ sua van a caminho do leste europeu, onde tocariam na República Checa, Hungria, Romênia, Croácia, Eslováquia, Eslovênia e de novo na Polônia.
O Conjunto de Música Rock Merda é o projeto paralelo de Mozine, baixista do Mukeka di Rato, desta vez nos vocais e guitarra: Começou eu, Japa e Paulista, 2 Mukeka invertendo ali seus instrumentos, Paulista passando da guitarra pra bateria, eu passando do baixo pra guitarra, e Japonês tocando baixo, os 3 cantando, sendo influenciados por hardcore japonês e hardcore tosco americano em geral, como DFL, FYP, Beastie Boys velho, etc... A gente tocou uns sambinhas hardcore podre no último disco, Eu Tenho Pena dos Insetos que Me Picam, é capaz de num novo disco a gente fazer funk, tocamos muito também nos shows. Na tour européia, Paulista não poderia ir, então colocamos Nego Léo na bateria, e quando voltamos, decidimos que ele não sairia mais, então a atual formação conta comigo e Paulista nas guitarras, Japonês no baixo e Nego Léo na bateria”, explica Moz, de quem me tornei amigo após a última passagem do Mukeka por Aracaju.
O Leptospirose é um power trio de Bragança Paulista formado por Quique Brown na guitarra e voz, Velhote no baixo e Serginho na batera: “Merda e Leptospirose têm tamanhas (des)semelhanças que parecem se auto-completar”, escreveu o jornalista Ricardo Tibiu na introdução de Guitarra e Ossos Quebrados, livro escrito por Quique após a famigerada tour européia. “Velho, nego ouve de tudo: The Who, Beatles, Dead Kennedys, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal, Iron Maiden, Motorhead, Can, King Krimson, Ratos de Porão, Motosierra, Thee Butchers Orchestra, The Stranglers, Miles Davis, 999, Joy Division, The Kinks, MC5, Ramones, Tim Maia, Jorge Ben etc... Já lançamos 2 discos e tamo pra lançar o 3º agora numa turnê pelo nordeste. Se chama Mula Poney e foi produzido pelo Rafael Ramos”, diz Quique no e-mail. “Ok, o Leptos tem quase um virtuosismo, já o Merda um quase analfabetismo musical, os paulistas têm uma veia jazz e rock and roll, os capixabas samba e funk, e por aí vai”, conclui Tibiu.
Em 2006 o Merda fez a tour Vila Velha [ES] x Uruguai, e na volta tocaram aqui em Bragança e foi tipo paixão à primeira vista”, diz Quique a respeito da parceria entre as 2 bandas: “Gravamos um CD que o Mozine lançou, fomos tocar em Vila Velha e os caras tocaram conosco, depois lançamos um split juntos, fomos pra Europa juntos e assim vai em frente a parada estilo banda irmã... Ricardo Tibiu tem uma matéria sobre isso.” Foi c/ o disco Lecker que as 2 bandas viajaram p/ a Europa, tocando e se hospedando em squats como o Zoro, Kombi, e o maior do mundo, o Kopi. Além de Alemanha, Holanda e leste da Europa, havia shows agendados também na Itália, França, Espanha e Portugal. Seria quase um mês na estrada, totalizando 26 shows, mas foi numa autobahn alemã que a tour do Merda e do Leptospirose acabou, no dia 24 de outubro.
Acordamos felizes e contentes pra irmos pra República Checa encararmos uma semana inteira de Leste Europeu”, conta Quique no capítulo “Morfina, Seringa e Cogumelos Fritos”. Até então a viagem era pura curtição punk: shows lotados, platéias empolgadas, e turismo chapado em Amsterdã, onde Quique chamou atenção nas ruas c/ seu visual “Cheech Marin Heavy Metal”, levando-o à conclusão de que “até na Holanda eu sou doidão”. Mas alegria de pobre [leia-se brasileiro] dura pouco, e apesar de não ser Beatles, o sonho acabou pra eles também: “(...) escutei gritos desesperados de Jaki [europeu manager da tour e motorista da van] – carro derrapando, gente acordando. Cheguei a pensar, ‘Caralho, não acredito que Jaki só foi ver esse congestionamneto agora!’ E antes de entender algo, PAU!!! Socamos a van na traseira de um caminhão que tinha acabado de bater num outro caminhão bem na nossa frente. Voei pra frente, dei uma olhada geral, perguntei se estavam todos bem; olhei pro lado e o Serginho estava pálido, com o nariz sangrando, e meu ombro fora do lugar. (...) saímos da caranga toda destruída sei lá por onde, com exceção do Binho [fotógrafo e videomaker da tour], que ficou preso nas ferragens. Era desesperador ver o cara ali, espantado, com o rosto todo ensangüentado, sem conseguir se mexer. (...) Enquanto isso, do lado de fora, Mozine gritava desesperadamente: - De novo, não! Isso não pode estar acontecendo de novo comigo!
Era a 3ª vez de Mozine na Europa, e o 2º acidente. Em 2006, ele viajou como baixista da banda Ataque Periférico p/ fazer 40 shows pelo continente: “Numa estrada da França um bunda lá da outra banda [o húngaro Tom, vocalista do Choose Your Path] resolveu pegar a van sem avisar a ninguém, todos estavam dormindo e ele estava muito rápido e acabou tombando a van na pista molhada num erro, por sorte ninguém ficou seriamente machucado”, conta Moz. Desta vez ele não teve a mesma sorte, e lesionou gravemente a coluna: “Ainda não existiam notícias exatas sobre o que estava acontecendo com Mozine. A idéia que se tinha, que era na verdade a exata, era a do risco de algum pedaço de osso quebrado deslocar até a medula óssea deixando o chefe paralítico, o caso era complicado”, escreveu Quique em seu livro. “Binho, que tinha ficado preso nas ferragens da van, teve suas roupas rasgadas pelos paramédicos que o resgataram à base de morfina.
Os caras voltaram pro Brasil cheios de hema- tomas e escoria- ções,parecendo putas de porto grávidas, Mini Terroristinhas da Estrela, mancando, com tipóias, com rostos rasgados”, descreve Quique no último capítulo [“Passaportes Please!”]. Mozine foi operado na Alemanha no dia 30, ficou no hospital até 05/11 e voou de volta pra casa no dia 06. Em dezembro foi lançado o livro mais punk rock desde Mate-me Por Favor, de Legs McNeil e Gillian McCain, e Coração Envenenado, de Dee Dee Ramone: Guitarra e Ossos Quebrados, escrito por Quique Brown, editado por Mozine, c/ capítulos como “Van Preta Podrássa Enfeite de Jardim” e “Power Violence Favela Cai na Noite em Grande Estilo Como Pede a Etiqueta do Partido Alto”, cheios de fotos e histórias da Spreading Brazilian Diseases in Europe Tour, que depois do acidente foi rebatizada p/ Breaking Brazilian Bones in Europe Tour 2007.
O livro é tão fodão que acaba de ganhar o prêmio Viva La Brasa de literatura 2008 [a premiação ainda não existe, só o título]. Entrevistei Mozine e Quique Brown por e-mail. Merda, Leptospirose, cena rock, tudo isso e muito mais c/ esses 2 especialistas em vans européias:
Viva La Brasa - Como tava sendo essa viagem até acontecer a batida?
Mozine - Tava sendo muito boa mesmo, o Merda e Leptos eram duas bandas bem desconhecidas na Europa, mas a gente tava conseguindo fazer milagres lá, teve shows muito bons e a expectativa pra Itália, Portugal era muito grande, recebíamos muitas mensagens e e-mails desses lugares, e na Alemanha a coisa tava se firmando já também, tinha gente até seguindo a banda, etc.
VLB - Você se fudeu muito no acidente, teve que ser operado e rolou até risco de um pedaço de osso se soltar e atingir a medula... Resume um pouco como foi passar esse terror...
MZ - Brother, se eu fosse escrever aqui o terror todo iam ser páginas de Word. A parada foi essa aí mesmo, apesar deu estar consciente e andando e me movimentado normalmente o tempo todo, existia uma fratura na medula número 7, e de acordo com uma junta médica eu não fiquei tetraplégico por uma questão de milímetros. Foi uma operação meio complicada que exigiu realmente uma junta médica, e foi um momento muito de terror os dias que antecederam a operação porque tinha um risco considerável de dar errado, apesar deu estar num dos melhores hospitais do mundo pra coluna... 7 dias depois de operado eu já tava encarando um vôo de volta pro Brasil apesar de ter assinado um termo no hospital dizendo que eu sabia dos riscos que era voar naquela condição de operado.
VLB - Quanto tempo pra se recuperar?
MZ - Depois da operação, uns 2 meses mais ou menos, mas ainda rola um processo todo, eu perdi uns 5 graus de movimento lateral do pescoço, mas tá valendo. :) Eu usei um colete no pescoço por mais 4 ou 5 semanas, só sei que em dezembro eu já tava tocando, ensaiando, dirigindo carro, a recuperação foi monstruosamente rápida em relação ao risco todo que envolvia a situação, mas graças a deus tamo aí bicho, vaso ruim do caralho, pra mim é bem complicado ainda encarar viagens de van, fizemos agora no Chile uma viagem de duas horas numa van e eu fiquei bastante agoniado, no nordeste fizemos também um viagem de 4 horas de van, aí haja cachaça, só vou no whiskinho pra ficar dopado e dormir, e fé em deus. O lance do trauma pós-acidente, parece que eu deveria ter procurado um psicólogo mas nem fui, cachaça tá sendo meu psicólogo, heheh...
VLB - A idéia de escrever o livro surgiu antes, durante ou depois da viagem?
Quique Brown - A idéia geral era a de fazer um filme, que sairá ainda este ano. Durante a viagem eu e Mozine mantínhamos um diário cada, que serviria posteriormente para nos guiar durante a montagem do filme, e que possivelmente cairia dentro do pacote junto com o DVD no formato de revista. Quando cheguei no Brasil senti a necessidade de reescrever o diário, já que eu tinha perdido o meu no acidente. Na frente do computador eu me sentia constrangido escrevendo coisas como: ‘hoje eu acordei em Berlim e comi um tomate’, pois já não era mais ‘hoje’ saca? Com isso o lance foi tomando o formato de história e lendo e relendo chegamos a conclusão que dava pra sair um livro ali, e foi mais ou menos isso o que aconteceu.
VLB - Você se inspirou em algum outro livro desse naipe?
QB - Não me inspirei diretamente em nada, apenas fui escrevendo ... O resultado ficou estilão beat yeah total.
VLB - O Leptos tem 2 discos lançados em esquemas independentes, e mesmo assim já tocaram no Uruguai, Argentina e Europa, no entanto, ainda não tocaram no Nordeste, por exemplo... Fala da diferença das cenas rock desses países em comparação c/ a brasileira...
QB - Cara, a cena da Argentina e do Uruguai é mais ou menos igual à cena brasileira em geral, já o lance europeu é bem diferente. Comentando tudo por partes a parada é mais ou menos a seguinte:
- Argentina: O lance lá é meio complicado, depois da crise e daquele lance de pegar fogo na discoteca a parada ficou doida por lá, organizar show em Buenos Aires é meio tenso, aluguel caro e outras complicações mais. Por outro lado a galera é firmeza, comparece, lança zine e faz corre, a parada tá melhorando legal, mas ainda é meio tenso ir pra lá.
- Uruguai: Monstruosidade, esquema muito forte de aparelhagem, fora do comum, passagem de som, barulho, amplificadores valvulados, cerveja etc.
- Europa: Esquema fodão, existe gente trabalhando diretamente no negócio, produzindo as tours, dirigindo van, lançando disco e tal. Rolam os squats, youth clubes e pubs que, atentos ao lance todo, organizam shows de segunda a segunda, e a partir do momento que rola isso, tudo fica mais fácil, pois o grande lance de uma tour de banda independente é tocar todo dia zerando ao máximo as despesas de uma viagem cara como essa.
- Brasil: O esquema aqui tá caminhando, temos um brother chamado Sergio Ugeda da gravadora Amplitude que tá tipo criando um banco de dados que tornará possível tour de 90 dias caminhando do Iapóque ao Chuí até 2010. Por hora o lance aqui ainda é meio osso, beira o impossível organizar shows de segunda, terça, quarta e quinta em muitos lugares e como você sabe uma banda em qualquer lugar do Brasil topando tocar por bilheteria pena em termos financeiros em dias sem show. Tamo indo agora em novembro pro nordestão, é uma vontade antiga que a gente tem, com certeza será muito bacana, todo mundo que já foi fala bem!!!
VLB - Moz, fala um pouco da sua gravadora/editora, a Läjä...
MZ - Tá uma merda brother, assim como 95% dos selos no Brasil, mas a gente vai se adaptando e tentando contornar a situação, mas já foi muito melhor, mas muito mesmo, o triste é saber que não vai voltar, não tem retorno ao que já foi, mas blz, todos os selos vão se adaptar, quem tinha selo pra ganhar grana, já fechou, quem tinha selo pra trabalhar, ganhar grana, mas fazia a parada por amor, vai continuar fazendo do seu jeito, seja com menos lançamentos, CDs a preço mais baixo, dentre outras mirabolantes artimanhas pra se manter vivo.
VLB - Além de manter um selo e tocar e escursionar c/ 2 bandas, você ainda tem tempo p/ uma 3ª banda, Os Pedrero?!..
MZ - Era um outro projetinho paralelo de bobeira que agora tá doido. Na verdade no começo nem projeto paralelo era, porque só eu tocava no Mukeka di Rato, mas chegou uma época em que Os Pedrero tinha 75% dos integrantes do Mukeka, agora tem 50%, a gente não considera projeto paralelo mas muita gente acha que é. Acabamos de finalizar um disco que estava gravado há muito tempo, pelo Rafael da Deck. Ele deve ficar pronto e sair somente em 2009 mesmo, eu acredito que será o melhor disco d’Os Pedrero, as músicas são muito legais e gravação impecável.
VLB - E aquele papo dos caras te chamarem de "ex-modelo" na intro do livro?
MZ - Hehe, nada, zoando, é que eu tava fazendo umas entrevistas pra uma TV capixaba aqui, com microfone personalizado e o caralho a quatro, e quando eu ficava bêbado, ficava dançando e falando que era dançarino e fazendo umas merdas, aí Japonês falou lá que eu era ex-apresentador, ex-dançarino, ex-modelo, sei lá que porra é essa, ou simplesmente pela minha grande beleza fácil né?
Kelly Key é fã do Merda

segunda-feira, outubro 13, 2008

ONLY A SURFER KNOWS THE FEELING
Enquanto o Capetali$mo regurgita o estouro da bolha financeira dos EUA [Estados Unidos do Apocalipse] e a queda nas bolsas de valores internacionais [Nasdaq, Paris, Londres, Frankfurt, Tóquio], Barack Obama surfa na onda de popularidade a 3 semanas das eleições. Num discurso em Ohio semana passada, o senador havaiano de Honolulu colocou seu adversário na corrida à Casa Branca em maus lençóis, condenando publicamente o plano de John McCain de adquirir os empréstimos imobiliários de Wall Street: "Os contribuintes não deviam pôr a mão no bolso p/ ajudar os que colaboraram c/ essa crise", disse ele p/ a platéia. "Na terça à noite, a campanha [de McCain] disse que o governo pediria aos bancos p/ assumir a maior parte do custo dessa medida, vendendo empréstimos podres ao Estado a um preço irrisório. Depois, na quarta de manhã, a campanha mudou de idéia e propôs salvar os bancos e os organismos de crédito imobiliário c/ o dinheiro do contribuinte. Não acho que possamos nos permitir esse tipo de comportamento nebuloso e essa maneira incerta de administrar, em uma época, ela mesma, incerta". Será que o negão conseguirá mesmo ser o 1º Presidente AFRO da AmériKKKa? Pessoalmente, não boto minha mão no fogo por político nenhum, mas depois de 8 anos de Bush, qualquer coisa é melhor que um candidato republicano.

segunda-feira, setembro 29, 2008

AS PERSEGUIDAS Essas 3 garotas israelenses foram presas por rejeitar o serviço militar. Em Israel, todo cidadão é obrigado a se alistar – os homens servem por 3 anos e as mulheres por 2. Omer Goldman, Miya Tamarin e Tamar Katz deviam ter se alistado na última terça, 23/09, mas as meninas chegaram na base militar de Tel Hashomer acompanhadas de uma centena de manifestantes contra a ocupação dos territórios palestinos.
Não pretendo ir p/ o exército em hipótese alguma”, disse Omer à BBC. “Eu me sinto obrigada, moralmente, a recusar. Viajei muitas vezes aos territórios ocupados e vi, c/ meus próprios olhos, o que o exército israelense faz lá, são coisas c/ as quais eu não posso colaborar.
Joe Sacco, cartunista americano que viveu em Jerusalém e na faixa de Gaza por alguns meses entre 1991 e 92, escreveu em sua premiada graphic novel PALESTINA – Uma Nação Ocupada: “Perto de 400 vilarejos palestinos foram destruídos pelos israelenses durante e depois da guerra de 1948... palestinos que fugiram foram declarados ‘ausentes’... suas casas e suas terras declaradas ‘abandonadas’ e ‘não-cultivadas’ e foram expropriadas para assentamento de judeus”. Assim começou a história da prisão de Omer, Miya e Tamar.

1948 foi o ano da criação do Estado de Israel, a partir do Plano de Partilha da ONU, que propunha a divisão daquela região do Oriente Médio em 2 Estados – um árabe e um judeu. A Palestina era domínio da Inglaterra, que coordenou uma ação mundial p/ aprovação do Plano em 1947. A proposta foi rejeitada pelos árabes e a violência eclodiu quase instantaneamente: houve guerras c/ Egito, Síria, Líbano e Jordânia, à medida em que Israel ocupava a península do Sinai [Egito], as colinas de Gola [Síria], o sul do Líbano, a Cisjordânia e a faixa de Gaza.
Israel surgiu a partir das idéias sionistas de Theodor Herzl, filósofo do séc.XIX, o primeiro a sonhar c/ a criação de um Estado judeu na região conhecida como Palestina Histórica: “Teremos que encaminhar a população pobre [sic] para o outro lado da fronteira, gerando empregos para ela nos países vizinhos e negando emprego no nosso próprio país”. Seu principal argumento era a Diáspora – se não estivesse fugindo da escravidão, o povo judeu jamais teria deixado suas terras há mais de 2000 anos. A idéia ganhou força e respaldo c/ o genocídio de 6 milhões de judeus em campos de concentração nazistas na 2ª Guerra Mundial.
Em 1979, Israel assinou um acordo de paz c/ o Egito e retirou-se do Sinai. Em 1994, resolveu suas disputas territoriais c/ a Jordânia por meio de um tratado. Em 2000, retirou a população judia do sul do Líbano, após 18 anos de ocupação. Mas a situação c/ a Palestina não foi resolvida até hoje.
Em 1991, após a 1ª Intifada, a Conferência de Madri tentou a paz através de negociações bilaterais entre representantes israelenses e palestinos – sem sucesso. Em 93, Israel e Palestina assinaram o Acordo de Oslo, que estabelecia um governo palestino autônomo, c/ controle sobre Gaza e Cisjordânia. Atentados a bomba por parte dos palestinos e a continuidade das ocupações israelenses fizeram Oslo dar em nada. Em 2005, depois de mais uma Intifada e 2 anos de trabalho conjunto entre EUA, ONU, União Européia e Rússia, um acordo de paz finalmente foi estabelecido entre os 2 países, c/ o 1º cessar-fogo efetivo: os palestinos pararam de explodir judeus, e Israel esvaziou assentamentos e saiu de Gaza.
A eleição do Hamas, grupo terrorista e partido político cuja carta de fundação prevê a destruição do Estado de Israel, em janeiro de 2006 p/ assumir o controle do Conselho Legislativo Palestino congelou as relações diplomáticas entre as 2 nações. Em março daquele ano, Ehud Olmert assume o posto de 1º Ministro de Israel e aciona operações militares em Gaza e no Líbano, que descambam p/ uma guerra de 34 dias c/ a milícia xiita Hezbollah. Em 2007, Olmert encerra definitivamente o diálogo c/ a Autoridade Nacional Palestina, após Mahmoud Abbas, presidente da ANP, formar um governo independente do Hamas, que assumira o controle da faixa de Gaza.
Território, história e religião são causa e efeito de todos os conflitos em que Israel se envolveu desde sua criação em 1948. “Por causa do ancestral belicismo com os vizinhos árabes, Israel se tornou ao mesmo um Estado laico, religioso e militar. Desde a segunda metade dos anos 70 também é potência nuclear, embora nunca tenha reconhecido isso de forma oficial. Em mais um paradoxo, o mesmo belicismo que assusta é também o mesmo que levou o país a ser uma das pontas de lança da tecnologia mundial”, descreveu o jornal Folha de S.Paulo em uma série de reportagens sobre os 60 anos de Israel, completados este ano.
Jerusalém é uma cidade com poder de fogo, o maior nível de rifle automático no ombro que eu já vi, mas pelo menos os israelenses colocam mulheres no exército, o que melhora a paisagem para uma pessoa com preocupação estética como eu”, ironiza Joe Sacco em PALESTINA, no capítulo “Olho do Observador”: “(...) eu colocaria as mulheres israelenses numa posição bem alta entre as mais bonitonas do mundo... e de uniforme – particularmente aqueles pulôveres verde-oliva – elas são inigualáveis... Sempre que posso, e não consigo evitar, subo a rua Jaffa para dar uma olhada nas oficiais adolescentes... basicamente só para lembrar de como estou envelhecendo.” Sacco não é uma exceção machista. A edição de julho da revista masculina Maxim estampou em sua capa - e no recheio - 5 beldades estonteantes, ex-soldados do Exército de Israel. A reportagem perguntava: "Será que as mulheres das Forças de Defesa de Israel são os soldados mais sexy do mundo?". Deputadas do Knesset [o Parlamento israelense] acusaram o governo de promover uma "campanha pornográfica" e incentivar o turismo sexual no país.
Segundo Gabriel Castellan, porta-voz do Exército israelense, o número de jovens que se recusam a prestar o serviço militar obrigatório por razões políticas é pequeno, mas tem aumentado nos últimos 2 anos – em 2005 foram 57 casos, ano passado, 72. E a quantidade de adolescentes liberados também vem aumentando – em 2003, a porcentagem dos homens que não prestaram serviço era de 22%, e entre as mulheres, 35,6%; em 2008, o percentual foi de 27,7% entre os homens e 43,7% entre as mulheres. O principal motivo p/ a liberação é quase sempre a religião. Homens que comprovam estudar em seminário rabínico são liberados, e mulheres que se declaram religiosas ortodoxas também são isentas. Outras razões são problemas de saúde, antecedentes criminais e residência no exterior. Quem se recusa voluntariamente a servir é acusado de “covardia” e “traição.
A população, em sua maioria, apóia as prisões de jovens que se negam a prestar o serviço militar, considerado quase “sagrado” em Israel. “Os israelenses estão cansados de pedir desculpas pelos territórios ocupados! Aconteceu uma guerra! Nós ganhamos a terra na guerra! É a nossa terra!”, diz Naomi, uma garota israelense que Joe Sacco conhece em Tel Aviv: “Sinto muito pelo que acontece com os palestinos, mas os soldados israelenses não atiram em ninguém sem advertir... Primeiro atiram para cima e depois nas pernas (...)”. Bem sutil. A Naomi conclui sua linha de raciocínio assim: “Talvez eu não saiba de tudo que acontece por lá, mas o meu irmão teve que fazer terapia depois que serviu o exército.

Os soldados fazem o que querem, diz ela, entram nas salas de cirurgia sem máscaras, interrogam visitantes, já gritaram com pessoas que estavam doando sangue, já bateram no diretor do hospital”, escreve J.S. no capítulo “Vamos Lá Doutor”, sobre o depoimento de uma médica palestina. E não é só isso. O Exército israelense usa várias técnicas de tortura contra prisioneiros palestinos, e colonos judeus formam milícias em territórios ocupados. Sacco reproduz um diálogo entre um soldado israelense e um palestino que denuncia um ataque à sua casa na noite anterior:
- Não temos poder para proteger judeus nem palestinos, diz o soldado. Olhe, do seu lado existem extremistas e do nosso lado existem extremistas.
- Bem, gostaríamos que seus extremistas fossem punidos como nossos extremistas são, responde o palestino.
As ações do exército só geram mais hostilidade e mais violência, e não quero participar de uma organização que aponta armas contra civis de maneira indiscriminada”, afirma Tamar Katz, a mais gatinha das 3 mártires da causa pacifista. Miya Tamarin tentou ser liberada do serviço militar por “razões de consciência”, como ela mesma definiu p/ a reportagem da BBC: “Há uma semana recebi a resposta negativa do exército e decidi que minhas convicções pacifistas não me permitem participar de uma instituição que é toda baseada na violência.
Essas acusações contra nós, de que queremos ‘tirar o corpo fora’ de nossas responsabilidades são absurdas”, afirma Omer Goldman. Acho que nosso ato de recusar é um ato de responsabilidade social, e espero levar mais pessoas a questionarem a ocupação. Desde pequena estive envolvida em ações voluntárias, e minhas colegas também. Durante o último ano todas nós participamos de projetos voluntários, eu trabalhei na cidade de Yavne em um projeto de educação de crianças etíopes.

O protesto liderado pelas meninas tinha como armas cartazes c/ os dizeres: “Basta de ocupação”, “Não queremos participar, e coisas do tipo. Os cento e poucos jovens rebeldes fazem parte de uma pequena parcela da população israelense descotente c/ a escalada de violência ao longo de décadas. Desde o início da 2ª Intifada, em 2000, mais de 500 soldados e oficiais da reserva abandonaram a carreira militar por razões políticas.
É irônico que a prisão das garotas tenha ocorrido às vésperas de uma mulher tomar posse do cargo de 1ª Ministra de Israel. A chefe da diplomacia israelita, Tzipi Livni, foi a vencedora das primárias do Kadima, partido do poder, e deverá ser a primeira mulher a assumir o posto desde Golda Meir, que governou o país de 1969 a 74. Livni foi tenente do Exército e agente do Mossad [o serviço secreto israelense] dos 22 aos 26; redigiu o programa político do Kadima; e ocupou 7 diferentes cargos durante o governo de Ariel Sharon, antecessor de Ehud Olmert, que deixa o cargo acusado de corrupção. Livni, por sua vez, tem fama de honesta – ao ponto de ser chamada de “Senhora Mãos Limpas” – e era admirada por Sharon por sua “capacidade analítica”. Além disso, sua imagem jovial, c/ cabelos loiros, jeans e tênis dá leveza ao ambiente carregado da política israelense. “Precisamos agir rapidamente. Não temos tempo a perder nos desentendendo sobre política”, disse ela na reunião c/ deputados do Kadima, após sua vitórias nas prévias. “Há difíceis desafios a nós como nação, e o Kadima é o partido que governa o país, e vamos continuar a fazê-lo por muitos anos.
O tom decidido de Tzipi Livni é o que os israelenses gostam de ver em seus governantes. Semana passada, Paul McCartney fez um show inédito em Tel Aviv. Na coletiva à imprensa, ele disse que foi a Israel p/ “dizer que precisamos de paz nesta região e de 2 Estados. Trago uma mensagem de paz e penso que a região precisa disso”. É aí que Paul se engana. Os israelenses não querem 2 Estados, os palestinos também não. A diferença é que Israel tem mais poder de fogo, e pune severamente quem pensa diferente.
Omer Goldman não sabe quanto tempo passará na cadeia: “Tenho medo, outros jovens que se recusaram já ficaram 2 anos na prisão, espero que não fiquemos tanto tempo. Por enquanto, todos os meus planos p/ o futuro foram congelados.” Resta esperar que Livni tenha bom-senso p/ buscar uma saída diplomática p/ as diferenças c/ os países vizinhos. Ela pode começar libertando Omer, Miya e Tamar, as 3 jovens israelenses presas por protestar. Aê, Tzipi, libera essa mixaria!
Yarden e Gal, ex-soldados israelenses: Faça amor, não faça guerra

domingo, setembro 21, 2008

ESTRÉIA ONTEM

O nome é "Periferia" mas poderia ser "Borracharia". Foto: Detefon
Estreou neste sábado o Periferia, às 15H30, pela Aperipê TV. Anunciei no início do mês que a estréia seria no dia 27, mas a data foi antecipada e o programa já está no ar. A seguir, os principais trechos de uma matéria veiculada nos sites da TV e da ABEPEC:

Novo programa da Aperipê TV dá voz à periferia [19/09]

(...) Apresentado pelo rapper Hot Black, o programa traz a música,
o esporte, a cultura e a realidade das comunidades periféricas. Com um formato moderno e cheio de estilo, o Periferia vai ao ar a partir das 15h30.
Toda semana um entrevistado diferente traz sua experiência com trabalhos sociais desenvolvidos nas comunidades e um DJ convidado fará a trilha sonora do programa com o som que embala as periferias de todo o Brasil. O conteúdo se completa com videoclipes de rap e matérias sobre esporte, arte e tudo o que envolve as comunidades.
Segundo o diretor do Periferia, Adolfo Sá, o programa dará oportunidade àqueles que nunca tiveram vez na TV. “A idéia é mostrar a produção do subúrbio, da periferia, dos bairros mais pobres, que geralmente não têm acesso a grandes investimentos culturais e nem o direito de mostrar essa produção para fora. O programa pretende mostrar o talento de quem é excluído da grande mídia, fomentando, assim, a cultura nos bairros mais carentes”, afirma o diretor.
Hot Black, que também apresenta o programa Império Periférico na Rádio Aperipê FM 104,9, aos domingos, das 16h às 18h, explica que um dos objetivos do programa da Aperipê TV é provocar nas pessoas que vivem nas comunidades periféricas o interesse por sua própria realidade. “A gente quer reforçar que a comunidade é responsável por sua formação e dar visibilidade ao sucesso de gente da própria comunidade.
O Periferia quer que a comunidade se perceba e tenha orgulho do lugar onde mora e das pessoas que vivem ali mostrando que elas são pessoas capazes como qualquer outra”, afirma ele.
ESTRÉIA
No programa de estréia do Periferia, a psicóloga Fátima Lopes conversa sobre a redução da maioridade penal e o DJ Léo Levi traz o ritmo da música negra. Hot Black também apresenta duas matérias com exemplos de sucesso e talento saídos da periferia. O skatista Cara de Sapo conta como venceu e o que já conquistou nesse esporte ainda estigmatizado, e o grupo Mente Armada mostra que é possível fazer música superando as adversidades.


Estou preparando um novo blog junto c/ meu parceiro Marcão, onde viabilizaremos vídeos c/ os principais trechos dos programas exibidos, como este clip do skatista Fabrízio Santos, o "Cara de Sapo", nascido em Riachuelo [interior de Sergipe] que hoje mora nos EUA e é um dos principais nomes do skate mundial. As imagens foram feitas por Júlio Detefon, Hot Black e Fábio Galinha, no Cara de Sapo Skate Park, um dos melhores do Brasil, localizado na praia de Atalaia. A montagem é minha e a trilha é do RZO:

sexta-feira, setembro 19, 2008

CONFESSO QUE BEBI
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Jaguar é um clássico. Não estou falando do carro esporte, e sim de Sérgio Jaguaribe, um dos maiores cartunistas do Brasil, sócio-fundador do jornal O Pasquim, autor dos livros Átila, Você É Bárbaro; Ipanema, Se Não Me Falha a Memória e Confesso Que Bebi.
Nascido em 1932 e ainda na ativa [faça as contas], Jaguar fundou O Pasquim em 1969, auge da ditadura, após reunir-se c/ os jornalistas Sérgio Cabral e Tarso de Castro. A idéia era substituir o tablóide humorístico A Carapuça, de outro Sérgio, o Porto, tb conhecido como Stanislaw Ponte Preta. O nome “pasquim” significa “jornal difamador, folheto injurioso”, segundo o Aurélio, o dicionário: Terão de inventar outros nomes p/ nos xingar, disse Jaguar ao final da reunião. O símbolo do jornal era o ratinho Sig, inspirado em Sigmund Freud, ou melhor, em uma anedota sobre o pai da psicanálise: “Se Deus criou o sexo, Freud criou a sacanagem”.
O Pasquim arregimentou as melhores cabeças da esquerda festiva dos anos de chumbo: Ziraldo, Henfil, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Ruy Castro, Paulo Francis e Fausto Wolff, entre outros [Claudius, Prósperi, Fortuna, Sérgio Augusto, Carlos Leonam etc.]... Nesse tempo, vigorava a lei da censura prévia aos órgãos de imprensa, e 1 ano após a criação do jornal a redação inteira foi presa por ter publicado uma sátira ao famoso quadro de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, de autoria do pintor Pedro Américo. A turma passou 3 meses encarcerada. A intenção dos militares era tirar o jornal de circulação, mas Millôr, que escapara da batida, tocou o projeto c/ colaborações de Antônio Callado, Chico Buarque, Glauber Rocha e Rubem Fonseca, entre outros.
As prisões continuaram ao longo da década de 70, até que no início dos 80 os milicos adotaram outra estratégia: bancas que vendiam O Pasquim passaram a ser alvo de atentados c/ bombas. Metade dos pontos de venda na cidade do Rio parou de repassar o tablóide, temendo represálias. O jornal resistiu até o início dos anos 90, mesmo após a saída da turma mais jovem, que injetara um novo humor na publicação – Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva fundaram O Planeta Diário, que viria a se tornar o humorístico televisivo Casseta & Planeta.
Jaguar foi o único membro do staff a permanecer do início ao fim: “Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. (...) Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas não, fiquei lá, morando numa redação, domindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco”, disse ele à jornalista Sylvia Colombo em uma entrevista p/ a Folha de S.Paulo, ano passado.
NINGUÉM É PERFEITO
Após passar a vida inteira na pindaíba, pendurando contas nos botecos da zona sul carioca, Jaguar finalmente passou a colher alguns bons frutos da sua boemia, seu humor fino e seu traço vagabundamente genial. Em 2006, a editora Desiderata lançou O Pasquim – Antologia 1969-1971, compilação feita por ele e Sérgio Augusto de matérias e entrevistas das 150 primeiras edições do semanário. O livro virou best-seller e motivou o lançamento de um 2º volume, no ano seguinte, cobrindo o período de 1972 a 73.
Também em 2006, a Elma Chips lançou a linha de salgadinhos Opa!, voltados p/ o público adulto, e contratou nosso herói p/ desenhar alguns cartuns na embalagem. Os salgados foram criados p/ serem consumidos como aperitivos p/ cerveja. Jaguar criou um garçom voador: “Escolhemos um dos mais famosos cartunistas brasileiros p/ criar um ícone da marca. Jaguar desenvolveu um garçom num formato muito criativo e simpático, que apresenta grande identificação c/ o conceito de roda de amigos”, comentou Eduardo Garofalo, VP de marketing da Pepsi Co., proprietária da Elma Chips.
Em 05 de abril deste ano, Jaguar e outros 20 jornalistas perseguidos durante a ditadura militar tiveram seus processos de anistia aprovados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Ele e Ziraldo receberam as maiores indenizações: 1 milhão de reais cada. E no início deste mês, foi lançado Ninguém É Perfeito pela Desiderata, livro originalmente publicado na Argentina há mais de 30 anos c/ o título Nadie Es Perfecto. A história é a seguinte: Jaguar estava bebendo no Lamas quando foi abordado por um editor argentino, interessado em lançar uma coleção de livros de cartunistas latino-americanos. O ano era 1972. Jaguar levou-o à redação d’O Pasquim, entregou-lhe “um monte de desenhos” e 2 meses depois embarcava p/ Buenos Aires, p/ a noite de lançamento, onde deu autógrafo até p/ o Quino, criador da Mafalda.
Após a surreal entrevista de Fausto Wolff p/ a F., tenho a honra de reproduzir aqui a entrevista de Jaguar p/ a Folha. C/ vocês, o homem, o mito, o bebum:
FOLHA - Como anda o cartum?
JAGUAR
- O cartum é uma espécie em extinção. Tem muita gente publicando história em quadrinhos, charges, caricaturas. Não é a mesma coisa. Sou cartunista, mas sobrevivo fingindo que sou chargista. Se não, não pago as minhas contas.
FOLHA - Qual é a diferença essencial entre cartum e charge?
JAGUAR
- Simples. Por exemplo. Hoje fiz uma charge sobre a visita do Bush. Desenhei o Lula chamando o Bush, que está indo embora do quadrinho. Só aparecem os pezinhos dele. Lula estica o dedo e chama: "Ei, ô companheiro, e a saideira?". Isso é uma charge. Uma piada que, daqui a cinco anos, ninguém vai entender, porque é
em cima de uma circunstância.
FOLHA - E o cartum?
JAGUAR
- É um troço que você faz sobre assuntos que daqui a 20 anos qualquer um entenderá. Um exemplo clássico, uma piada qualquer sobre o 'Ricardão dentro do armário'. Todo mundo sabe do que eu estou falando. Piadas sobre vida conjugal, sexual, todo mundo entende. Em qualquer época. Já piadas em cima de fatos políticos momentâneos vão ficando incompreensíveis.
FOLHA - E por que o cartum está em extinção?
JAGUAR
- Porque ninguém mais publica. Eu não tenho onde publicar. De vez em quando emplaco um cartum. Mas tem de ser disfarçado de charge. Se não for assim, não passa.
FOLHA - O mundo está se desinteressando do humor?
JAGUAR
- Pelo menos deste formato de humor, sim. Tanto que revistas no mundo todo estão desaparecendo. A única que ainda publica cartum de verdade é a The New Yorker.
FOLHA - Há uma nostalgia excessiva com relação a O Pasquim? As pessoas romantizam demais essa época?
JAGUAR
- Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o que vou fazer amanhã. Mas as pessoas ficam com esse papo: ‘Ah, no tempo do Pasquim’. É uma bobagem, coisa de velho gagá. Como se tivesse sentido existir O Pasquim até hoje.
FOLHA - Quando lê os jornais, vê a influência d'O Pasquim?
JAGUAR
- Os jornais mudaram muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não fosse por um lado, seria pelo outro. As coisas já estavam em transformação.
FOLHA - Mas você escreveu que, c/ O Pasquim, a imprensa tirou o paletó e a gravata.
JAGUAR
- É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O Pasquim deu certo porque as pessoas se identificaram. Por outro lado, posso dizer que quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.
FOLHA - Como assim?
JAGUAR
- A gente tinha feito uma entrevista com o Ibrahim Sued. Fomos eu, o Tarso de Castro e o Sérgio Cabral. Mas depois todo mundo sumiu.
FOLHA - Sumiu?
JAGUAR
- Sim, sumiu. Éramos um bando de porra-louca. Os dois foram para a farra e eu tive de tirar a entrevista sozinho. Só que eu não sou jornalista e não sabia fazer isso. E deixei o texto com o jeito coloquial mesmo. Virou nosso ‘estilo’.
FOLHA - E pegou na hora?
JAGUAR
- Não. Demorou. Os jornais resistiram a adotar o tom coloquial. Só depois que a publicidade começou a usá-lo é que a imprensa foi atrás. Mas hoje já acho que essa fórmula se esgotou.
FOLHA - Por quê?
JAGUAR
- Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de um entrevistado que não tinha chance de abrir a boca. Passava um aperto danado. Depois que a coisa pegou, a imprensa começou a usar essa fórmula, só que para levantar a bola do entrevistado. Aí perdeu a graça.
FOLHA - Até quando, então, você acha que o Pasquim justificou a sua existência?
JAGUAR
- O Pasquim foi uma experiência muito divertida, mas eu poderia tê-la diminuído em dez anos. Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal perdeu a influência, a tiragem era pífia. Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas, não, fiquei lá, morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco.
FOLHA - Dá para viver de cartum?
JAGUAR
- Não. Eu trabalhei 17 anos no Banco do Brasil. E nunca faltei nem um dia. O banco foi fundamental. Não só pela grana, mas porque me ensinou a ser profissional. Sou um porra-louca, bêbado, alcoólatra, um monte de coisa. Mas nunca faltei no trabalho. Também nunca deixei de entregar um desenho no horário, no dia certo. Isso eu devo ao banco.
FOLHA - Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?
JAGUAR
- Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez anos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia. Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gente passa um pouco, leva pito. Eu não levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: ‘Ah, é o Jaguar, deixa ele’.
Folha de S.Paulo, Caderno Ilustrada, 13 de março de 2007