sábado, fevereiro 23, 2008

CONEXÃO MANGUEIRA
Tuchinha (ao centro): "Mandou me chamar, eu vou!"
O carioca Francisco Paulo Testas Monteiro, mais conhecido como Tuchinha, foi preso hoje de manhã em Aracaju. Chefe do Morro da Mangueira (RJ) nas décadas de 1980/90, cumpriu 17 anos de detenção no presídio de segurança máxima Bangu 1, um terço da pena de 43 anos a qual foi condenado por tráfico e formação de quadrilha. Em liberdade condicional desde julho de 2006, voltou à mira da justiça desde outubro do ano passado, quando investigações comprovaram que ele continuava dominando o movimento na Mangueira. Tuchinha estava foragido desde então. Há um mês morando numa mansão no bairro da Aruana, litoral sergipano, foi capturado numa operação conjunta da Polícia Federal do Rio e de Sergipe. Estava dormindo e não ofereceu resistência.
Na casa de 1500 metros quadrados (c/ piscina) em que estava instalado, foram encontrados 2 carros no valor de R$ 150.000 - um Polo Sedã e uma Nissan Xterra - , equipamentos eletrônicos de última geração, tipo TV de plasma, e artigos finos como chocolates importados, charutos cubanos e garrafas de uísque. Nenhuma droga, no entanto. Será que ele pretendia abrir uma importadora aqui na cidade? Segundo o superintendente da PF/SE, Carlos Rogério Ferreira, Tuchinha vinha se organizando p/ se estabelecer na área por ser desconhecido na região, mas pagar imposto pro governo não estava nos seus planos. "A sua presença em Aracaju funcionaria como um braço direito do Comando Vermelho em solo sergipano", afirmou Fernando Morais, diretor da Divisão Anti-Seqüestro da PF/RJ. "Além da ligação c/ o C.V., o Tuchinha ainda mantém relações c/ o PCC de São Paulo".
O FILHO PRÓDIGO À CASA TORNA
Mesmo depois de quase duas décadas na cadeia, e há meses foragido, ele continuava dando as cartas na Mangueira, tanto no morro quanto na escola de samba: "A escola ficou sob o jugo dele. Ele roubou muito dinheiro da Mangueira, cobrando participação na renda de bailes realizados na quadra, entre outras coisas", disse Morais. C/ o nome artístico de "Francisco do Pagode", Tuchinha foi um dos autores do samba-enredo da Estação Primeira este ano. De acordo c/ escutas telefônicas realizadas pela PF e a Civil, ele usaria uma passagem secreta da quadra p/ chegar ao camarote que funcionava como seu escritório. O mesmo grampo flagrou uma ligação que confirmaria sua influência na escolha do samba da "verde-e-rosa".
Estima-se que a quadrilha chefiada por ele e seu primo, Leandro "Pitbull", movimente semanalmente R$1 milhão c/ as bocas-de-fumo e os bailes funk e ensaios na quadra da Mangueira. Foi por causa de desentendimentos c/ seu primo que Tuchinha fugiu da favela e passou a ser perseguido pelos "hômi". Ele buscou abrigo nos morros Dona Marta e Tabajara. Depois continuou fugindo c/ a mulher, Ana Cláudia, e a filha do casal, de 3 anos. Passou por Búzios (RJ), Vitória (ES), Brasília (DF), Salvador (BA) - onde passou o reveillón - e finalmente fixou residência na Aruana (SE), desde 11 de fevereiro. Tuchinha foi tranferido hoje à noite p/ Bangu 1, onde ficará isolado dos outros presos (o famoso "seguro") pela possibilidade de ser assassinado por ordem da cúpula do CV. Em seu depoimento, ele disse que pretendia largar a vida do crime. Se depender do 10º lugar na classificação geral, entre as 12 do grupo Especial, que a Mangueira obteve no último carnaval, eu não apostaria numa carreira de compositor. C/vocês, o samba (antepenúltimo colocado) de Tuchinha e seus amigos:
100 ANOS DE FREVO, É DE PERDER O SAPATO. RECIFE MANDOU ME CHAMAR
(Lequinho- Jr. Fionda- Francisco do Pagode – Silvão - Aníbal)
Ao som de clarins/ Descendo a ladeira/ Sou mangueira/Tem frevo no samba/ Deu nó na madeira/Orgulho da cultura brasileira/
A majestade é o povo/ Sem o povo história não há/Estende o brasão, reflete o leão/ Símbolo de garra e união/
Capoeira invade os salões/ Mascarados, despertam dragões/E pelas ruas, vem zé pereira/ Arrastando a multidão(2x)
Nascia o frevo contagiando toda a massa/E até hoje tem colombina e seus amores/Passo no bloco das flores/ O profano é sagrado no maracatu/
Nos cem anos de história, desperto a alvorada/Brincando no galo da madrugada/Invade a cabeça, o corpo, embala os pés/Delírio da massa, um frevo!/
É a mangueira no passo do frevo/Voltei de sombrinha na mão/ Sonhando em gritar é campeã/
Mandou me chamar, eu vou/ Pra recife festejar/ Alegria no olhar eu vejo/ É frevo, é frevo, é frevo!(2x)

terça-feira, fevereiro 12, 2008

PERIFERIA
Não é a Regina Casé, é o Ganso "Hot Black"

Estréia hoje pela TV Brasil o episódio piloto de PERIFERIA, projeto do Marcão & Hot Black sobre a produção cultural dos bairros pobres das cidades - mais especificamente, de Aracaju. Hot Black (vulgo "Ganso") e Marcão são rappers e têm uma banda, a Mensagenegra, e um programa de rádio, o Império Periférico (104,9 Mhz). Fechando a trinca, Júlio "Detefon", skatista/ videomaker que colabora c/ imagens e reportagens.
Ganso apresenta o programa, e como não poderia deixar de ser, os temas que envolvem o hip-hop dão a tônica: neste nº 1 tem matérias c/ a banda Mente Armada e o skatista Fabrízio "Cara de Sapo", e entrevista c/ uma psicóloga especializada em menores delinqüentes (tema: redução da maioridade penal). O cenário é um muro grafitado nos fundos do prédio da Aperipê TV, e os convidados ficam sentados num banco de carro apoiado em calotas e pneus velhos. Bem favela mesmo. Mas a TV fornece toda a infra, e a liberdade de criação é total. O projeto começou sob a batuta de Raphael Borges, o "Mingau", moleque de atitude que mês passado ganhou um festival nacional de curtas valendo um curso de cinema de 2 anos em São Paulo. Antes de sair fora, Mingau passou a bola pra mim, que agora dirijo e edito o programa.
Não sei se o Periferia vai ser veiculado definitivamente em rede nacional, mas já estou trabalhando nas próximas edições, que trarão, entre outras coisas, entrevista c/ o skatista Adelmo "Juninho", matéria sobre o projeto social que os Guerreiros Revolucionários desenvolvem na comunidade do Bugio, e um rolê do Ganso pelo evento de graffiti "Just Write My Name", em SP, registrado pelo Toni C., autor do documentário "É Tudo Nosso".
Periferia, hoje, 19:00 H, TV Brasil.
É "nóis" na fita.
CENAS DOS PRIMEIROS EPISÓDIOS:
Abertura do programa...O que esses caras estão tramando?..Hot Black na quebrada do Mente Armada...Alex (Mente Armada) mostra seu "Instinto Cabuloso"...Fabrízio Santos "Cara de Sapo"...Aula de skate..."Just Write My Name"... DJ Buiú...

por Adolfo Sá

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

CARANGUEJO COM CÉREBRO "Cronista de costumes, mal diagramado e macho." É assim que Xico Sá define a si próprio em "Volúpia Verbal". Já p/ a Wikipedia, "Xico Sá (Cariri, Ceará) é um jornalista e escritor brasileiro. Começou sua carreira no Recife e é atualmente colunista dos jornais Folha de São Paulo, Diário de Pernambuco e Diário do Nordeste." As duas definições são boas, mas não batem a real sobre o figura. Sua rotina de álcool, drogas e putas e seu estilo "gonzo" o faz ser comparado a Bukowski e Hunter S.Thompson constantemente. Mas ele queria mesmo era ser o Henry Miller. Um dos maiores repórteres investigativos do país, autor de furos jornalísticos como as entrevistas c/ o PC Farias, nos anos 90, e a cafetina que agenciava garotas p/ os deputados do Mensalão, em 2005, Xico odeia a sua profissão: "Você escreve o que o dono quer, em qualquer lugar." Prêmio Esso de Jornalismo, autor de vários livros, lançou no final de 2007 "Caballeros Solitários Rumo ao Sol Poente", sobre uma boliviana tão gostosa que deixa os paulistanos desnorteados: "Por causa da moça, aos poucos a cidade começa a falar em portunhol selvagem, a língua da tríplice fronteira - Brasil, Argentina, Paraguay". Detalhe: o livro é escrito em portuñol.
Cearense c/ fama de pernambucano, radicado em São Paulo há décadas, foi um dos artífices do movimento manguebeat meio que sem querer: "Eram amigos, eles chegavam lá em casa pra ficar lá. Minhas namoradas ficavam putas porque a gente não podia mais fuder direito." Esta frase faz parte da entrevista que Arnaldo Branco, Allan Sieber, Leonardo e Marsílea (foto abaixo) realizaram c/ o cara p/ a 5ª edição da F, mas a revista acabou antes que o material fosse publicado. O Arnaldo publicou a versão integral no seu blog, e eu reproduzo boa parte dela a seguir. O Xico solta várias dessas ao longo do entrevero c/ o staff da F, regado a cachaça e caranguejo no bar Mangue Seco, mas outras máximas do "Xicobrás" podem ser encontradas na internet: o cara tem seu próprio blog e é colunista da revista de literatura Germina, onde podem ser encontradas epifanias como "chupar manga desde a aurora dos anos educa p/ o ato de sorver uma buceta c/ gosto e delicadeza". Esse cara sabe das coisas.

Arnaldo - Você começou a trabalhar com jornalismo sendo consultor sentimental?
X - Comecei numa rádio de Juazeiro, chamada Rádio Vale do Cariri, que era um cara vizinho meu, um locutor, chamado Jevan Siqueira. O cara tinha um programa chamado "Temas de amor" às 22 horas. Eu tinha 14/15 anos. (...) Aí fui pro Recife porque nessa região do sul do Ceará, na minha geração, nego não tinha nenhuma relação com Fortaleza. Eles iam pro Recife. Era uma questão de afinidade e tinha uma coisa histórica, que em 1914 o padre Cícero brigou com o governo do Ceará e o sul do Ceará, o Cariri ficou meio uma Catalunha louca.

Arnaldo - E você começou num jornal de lá?
X- Não. Comecei a escrever essas porras de programa rádio.... Aí fiquei lá em pensão, depois fui pra casa de estudante. Melhor quando eu fui estatizado, tudo bancado pelo governo federal, virei um "Xicobrás". Era bandejão público, tinha bolsa na faculdade. Eu tinha uns 18 anos e era do caralho porque eu era um cidadão estatizado. A gente invadia a reitoria quando a comida piorava, era uma guerra fodida e do caralho, que nego hoje deixou isso muito barato. Quando o cara é preso não cobra uma regra de civilidade? Porque também na hora de educar, né? Hoje nego mata qualquer um e quando tem ficha na polícia já é desculpa pra matar. É uma escrotidão de Estado assassino filho da puta. Eu peguei, pelo menos, um Estado bancando meus peidos, meu pão com ovo de manhã, minha escola, minha existência. Só fui pra faculdade graças a essa porra, e era o mínimo que se cobrava na época. Hoje nêgo é cuzão, basta o cara roubar uma galinha que já justifica ser morto. Uma escrotidão sem limite. Então graças ao Estado eu tive esse "Xicobrás" e foi do caralho. Pude estudar e beber cachaça com os caras interessantes. Porque a faculdade era uma merda, mas o encontro foi do caralho.
Marsílea - E quem era essa galera?
X-
Bom, de quem está vivo... estudei com o Fred 04, que era da mesma turma, Renato L., que era do caralho, e um bocado de vagabundo assim... Meu grande ganho era na hora de beber cachaça, fumar maconha e andar com os caras e as meninas foda pra um cara que vinha matuto do interior. Em termos técnicos não aprendi porra nenhuma, mas tive uma história do caralho com pessoas foda. Bebia, fumava, mas pensava e lia coisa boa, e tirava onda. Fazia um jornal na época que se chamava "A Peta", que é mentira num português arcaico. E era foda. Era um jornal de quadrinhos e textos doidos, esse foi o grande ganho, essa história de convivência. Não é a porra de Iluminismo, de faculdade de ter aprendido com o cânone, com a academia.
Arnaldo - Mas aí você virou um jornalista investigativo...
X- De merda, inicialmente pra ganhar a vida. E ainda sou vez ou outra, ou quase sempre. Eu virei qualquer coisa do que tem que virar pra ganhar a vida.
Leo - Você foi direto pra redação?
X- Eu era um homem estatizado, eu era um "Xicobrás", então tive que pagar um pouco do cu público. Trabalhei um pouco na assessoria da universidade, na biblioteca... roubava livro pra caralho (risos)... E depois fui ser revisor numa gráfica. Foi quando eu adquiri esse pára-brisa aqui (aponta os óculos, risos), revisando coisa em corpo 6. Primeiro isso, depois fui para um jornal chamado "Tablóide Esportivo" que era uma puta de uma experiência legal, eu assinava a coluna chamada "Mamadu Bobó", que era um jogador africano. Era meio que tirando onda com jogador.
Arnaldo - E depois do jornalismo esportivo...
X - A polícia do "Jornal do Comércio".
Arnaldo - E naquela região é sinistro, né?
X -
É uma bosta... como eu já tinha a viadagem da literatura, procurava ver Nelson Rodrigues e tal. Eu já tinha lido os caras, então já ia com esse filtro escroto e vagabundo, do classe medismo de ver uma certa arte. Mas tomar no cu a minha arte! Também tinha as matérias de comer gente (...). Era melhor dizer pra menina "é, Nelson Rodrigues fez polícia...", mas era um agá do caralho, era um caô sem tamanho. Funcionava, mas era fraude pura. Eu devia ter unsvinte e poucos anos, acho que era pré-Miguel Arraes, antes dele voltar do exílio. Mas nada disso com precisão. Aí vocês vão ter que pesquisar no Google. Alias, foda-se o Google! Não me venham com essa senão eu não posso mentir, ô viado (risos)! Só dou essa entrevista com a permissão livre da mentira. Eu sou um homem flexível, minto pra caralho.
Arnaldo - Depois você virou um cara...
X - Virei um idiota (risos). Tive uns acertos de matéria por sorte e cachaça. Mas eu não tinha essa obsessão jornalística, eu queria ser um escritor, nunca quis ser um repórter.
Leo - Mas mesmo nessa época você continuava escrevendo, você tinha coluna em algum lugar, produzia alguma coisa?
X-
Mas nego vai roubando sua alma quando você vai entrando pro mundo..você vai vendendo sua alma, até com a própria desculpa da sobrevivência, não tem jeito, você vai sendo levado. É um idiota eburro, e tá numa redação. Porque jornalismo é a arte de enfeiar a mulher e emburrecer o homem. Então essas meninas lindas chegam na redação e com dois ou três pescocinhos elas estão horríveis, cara (risos). Mata qualquer possibilidade de existência mais ou menos inteligente e de gostosura (risos). E não é a coisa física de estar gordo, isso não tem a menor importância. É o olhão de emburrecimento de redação. Notícia, plantão... Isso é uma idiotice. Por isso eu não quero ter filho, se for pra virar jornalista eu mato ele antes. É sério! Os caras se acham os fodões, mas são os mais burros da humanidade. Eu falo porque gastei minha alma na redação.Marsílea - Mas você sentia isso no início?
X- É igual a cachaça, você sabe que derruba mas vai indo... É escrota a pretensão, o moralismo do jornalismo, a forma como acha que vai resolver o mundo. (...) Eu tenho um primo que conseguiu enriquecer com merda, aqueles limpa-fossa. Todo mundo tirava onda com ele. E o cara
enriqueceu com a bosta. Eu tô escrevendo uma coisa a partir dessa história do meu primo.Leo - Você lê jornal?
X-
Eu leio pra enganar os próprios jornais, mas eu não aconselho pra nenhuma família (risos)... afaste o seu filho da faculdade de jornalismo porque é emburrecedor. É melhor ser Marcola do PCC do que ser um jornalista. O jornalista não vai ter uma grande narrativa, não vai ser um escritor. Também não vai poder contar uma grande história, não vai poder porque o dono não vai deixar. Ele vai ser merda.Allan - O mais escroto dos jornais é a pretensa imparcialidade...
X- Nunca houve isso, cara. Você escreve o que o dono quer, em qualquer lugar. No Pharol de Petrolina, na Vanguarda de Caruaru, na Folha de S.Paulo, no Estadão, Veja, você escreve o que o cara quer. Quanto mais importante você é, mais você escreve o que o patrão
quer. Por isso eu resolvi ser mais merda, depois de duzentas demissões, eu tenho o caminho mais confortável hoje que é ser menos importante para os jornais. Ou como uma tira, é menos importante, mas acaba dizendo maisdo que quer. Ou faço uma crônica espremida no caderno dos esportes e acabo dizendo mais da minha vida e existência... porque você é mais livre. Quando você é mais importante, que é a ilusão de quem é editor, não sei o quê, você vai tomar no cu e escrever o que nego quer e diz. Carlos Heitor Cony escreve o que mandam, velho. Ou então levam pito e deixam de escrever.
Arnaldo - Não tem nenhum orgulho das coisas que você conseguiu?
X- Claro que não.. mas me fez ganhar dinheiro. A entrevista com
PC Farias... mas nada disso
serve pra nada. Sabe o que vale nessa porra de existência? É a narrativa de aventura, é o Gulliver que sobra, é quando você espreme tudo e tem uma narrativa de aventura da vida, aí é Caninos Brancos de Jack London, é você perdido numa selva qualquer, não é objeto de um jornalista. No tempo de PC Farias eu fui pra Maceió e cheguei a ficar quatro meses lá. Aí, tava ali no Othon... a minhamissão era para a Folha de S.Paulo...
Leo - Como você conheceu o cara?
X - Enquanto a imprensa ficava atrás de advogado, de fulano Oficial de Justiça, eu fui pra Maceió e me enturmei com o mordomo. Diziam que eu comia o mordomo, Joel. Porque ele tinha uma motocicleta e eu passeava com ele em Maceió, o cara me falando na brisa ao vento (risos)...Dizem que ele virou maître num hotel em Brasília... o que é a merda do repórter de hoje, é que eles desprezam esse oitavo escalão. Eu colei nesses caras lá, nos guardas, nos cachaceiros que moravam perto do PC, nas lavadeiras, faxineira que trabalhava com ele. Chegar no Joel foi um salto, o mordomo.... a Folha mandava não sei quantos mil caras pra Londres, eu poderia ter sido oportunista e pedir pra ir também, alegando que PC estava lá, ou pedir pra ir não sei pra onde... eu tive missão também pra Tailândia e Bangcoc, as terras da massagem de doze mulheres... tentei ir do aeroporto para o hotel e foi a coisa mais difícil da minha vida. Eu falando o inglês do Crato (risos), os caras sem falar inglês nenhum... aí eram dois irmãos taxistas e eu tentando ir pro hotel, e os caras me levando pra putaria. Até uma hora em que eu tive que dar uma olhadinha, né? Não tinha como não comer gente.. era o único lugar que não
tinha como não comer gente. Tudo que Crato não me deu, Bangcoc deu, velho (risos).Arnaldo - Mas e o PC?...
X-
Eu tava falando dessa coisa de não acreditar em fonte, hoje é só Google e banco de aspas. Ninguém gasta sapato, ninguém vai pra rua. E se você chega contando história da rua, nêgo não dá bola. Os editores idiotas perguntam o que isso tem a ver com a realidade, quando é a realidade que foi esquecida. De verdade, eu acho que o jornal vai acabar, eu torço por isso. Antes do papel higiênico eu limpei muito cu com jornal. Eu torço pra que o jornal acabe porque não tem mais sentido... Você pega os portais.. a não ser Allan, Adão, Laerte e o horóscopo, não tem mais nada... O jornal perdeu a vontade de contarhistória, de botar o repórter pra viajar. Hoje jornalismo é de agenda, o cara que vai ser ouvido na CPI às 16 hs, não tem nada que signifique a vida real de nenhum de nós, é agenda.Arnaldo - Aí você começou a se juntar com o pessoal do mangue beat e aí todo mundo começou a ter mais projeção pro resto do Brasil...
X- Não, não.. nem eu nem eles. Isso foi porque eu morava em São Paulo e os caras iam na minha casa. Eu ajudava no que podia, na assessoria de imprensa. Eram amigos, eles chegavam lá em casa pra ficar lá. Minhas namoradas ficavam putas porque a gente não podia mais fuder direito.
Leo - Mas você já os conhecia antes?
X-
Fred, o Chico eu conhecia um pouco e depois... era do mesmo conglomerado do crime.. na boa, eu caí no jornalismo porque não tinha outro jeito de ganhar dinheiro, mas eu queria ser um escritor louco. Eu queria ser um Henry Miller, pra dizer o mínimo. Jornalismo era o caminho, mas eu não tenho uma construção de carreira jornalística, eu não acredito nisso, caí nisso, e ganhei dignamente, comprei uma casa pra minha mãe lá em Juazeiro, me agradece até hoje, isso foi do caralho. Comprei muito ácido por conta de bons salários, mas nunca foi a minha... até hoje, voltando lá pra consultoria de rádio, eu escrevo conselho pra revista UMA, pra revista de mulher, pra ganhar dinheiro, mas não é jornalismo. Se eu pudesse ter um reencontro com o jornalismo eu mandava tomar no cu. Pobre tem duas profissões literárias no Brasil, jornalista ou advogado. Mas escolha, nunca. Eu queria ser Henry Miller e me fodi. Você acha que eu queria estar em plantão na casa do PC ou na porta da polícia federal esperando não sei o quê? Não.. eu queria escrever "Trópico de câncer". As biografias são editadas e limpas, mas a vida é só angústia e frustração, velho. Aí vem um filho da puta como o Ruy Castro e deixa todo mundo lindo e gênio. Mas é tudo escrotidão e cachaça. A vida é confusão, é merda, é Pimenta Neves. Aí depois vem as edições, o calendário e resolve qualquer bosta, as histórias ficam lindas. Isso serve pra todo mundo. Não há biografia boa, ela é salva.Leo - Onde você estava quando Chico Science morreu?
X-
Eu estava em Recife, eu tava com Lula no apartamento dele, perto do cara mais feio do mundo... bebendo... O Chico tinha virado um bosta porque é humano, o sucesso... vai pro estrangeiro e tal... mas ele tinha feito as pazes com a gente, porque a gente tava muito puto com ele, e tinha tocado uma noite linda de jungle... ele era viado e gostava de jungle, eu me amarro em jungle, velho... mas a gente tava muito puto com ele, porque em Recife ninguém tem bom humor com ninguém, a gente guarda ressentimento... a vida... todo mundo é Fausto Wolff em Pernambuco.Allan - Você teve um momento, começou aquela coluna Macho na Folha e aí...
X-
Essa coisa de eu no jornalismo é um engano duplo, de quem me contratou e de quem eu fui servir, porque eu nunca fui um jornalista de verdade. Eu caí nesse mundo e aceitei, mas eu nunca quis ser um repórter, um jornalista. Quando eu vim de Juazeiro eu queria ser apenas um filho da puta, escroto e bebedor e que exista de forma humana. Acho que no jornalismo os caras que adoram ser denuncistas... esses caras não têm moral pra porra nenhuma. Eles roubam uma nota e são tão escrotos quanto o Lula.Arnaldo - Aquele "Nova Geografia da Fome" é do caralho, mostrou pro jornal que você pode fazer uma matéria investigativa, barata...
X - Tem dias em que só me sinto bem quando acabo de trabalhar e vou tomar minha cerveja tranqüilo, olhar uma mulher... Eu não tenho orgulho da escrotidão. Tem hora que eu acerto uma frase, e é do caralho. Normalmente bêbado e de madrugada, de manhã eu já acho uma bosta. Todo homem é gênio de madrugada. (...) Eu acho que não tem engano mesmo, é tudo angústia e aflição, a vida vai ser sempre isso. Salvo o quê? Buceta, puteiro, cachaça.
Leo - É um esquema Bukowski, tudo para elas abaixarem as calcinhas?
X- Dizer isso ficou meio caricato, né? É apenas um cara que demorou a chegar nas mulheres e depois que chegou quer tirar o atraso. O sudeste em geral fala que o nordeste pega muito subsídio, eu quero o meu em bucetas.
Arnaldo - Inclusive, como foi aquela sua matéria no puteiro da Jeanne Marie Corner?
X- Eu tive sorte, porque a mulher é do Crato, ela podia ser minha tia, mas não é. Quando eu falei que era do Crato abriu-se a porta, o mundo. Contou muito eu ser do Crato.
Arnaldo - Você comeu as meninas?
X- Acho que todo jornalista, todo repórter é idiota, inclusive eu naquela matéria, mas o bom do jornalismo é você mostrar que por vias totalmente transversas pode narrar mais a história do que um "disse ontem o presidente"... Tomar no cu, porra! É burrice ter de narrar o mundo por isso. Não é bom pra vender jornal, não é bom pra nada. Nem o caretismo gosta. Outro dia vi uma matéria do Fernando Henrique encontrando com o Serra, e o Alckmin, aqueles escrotos da Opus Dei. Eles foram a um daqueles restaurantes fodidos em que você paga R$900 por um conhaque. Quem fez a matéria não disse o que eles comeram, só estavam ali para dizer a escrotidão que eles estavam provocando, que político escolhe aquele lugar pra jantar. Aí já se mata a existência, e pode ser pra Lula, pra qualquer um. Porque você colocar essa simbologia dos lugares que as pessoas freqüentam que é a bosta, é nisso que está a história. Nem que tenha o lado careta, mas que tivesse ao domingo uma matéria que contasse a crônica da semana de um lugar. Mas é só "disse ontem". Velho, nenhum entrevistado vai se confessar. Eu odeio essa matéria de Brasília pra (revista) Trip, eu não entrevisto ninguém, ou eu tô de lado ouvindo... entrevistar gente, você já gera a frase dele. Velho, cola na mesa vizinha e vai beber. Eu odeio entrevistar gente, eu prefiro mentir. Arnaldo - Eu achei que nego fosse te dar porrada porque...
X - Os caras mandaram uma porrada de coisa horrorosa, mas tem uma coisa muito clássica em São Paulo que é mandar uma carta com merda. Isso eu recebi nessa matéria. Isso é um clássico, existe em São Paulo há vinte anos no mínimo. (...)
Arnaldo - E quem são seus ídolos? Vale qualquer um...
X-
Marcola do PCC, Lampião. São caras que movimentam a história, seja pro bem ou pro mal. Eu amo esses caras que mostram que a história está viva, seja os estudantes lá da França, seja o Bruno Maranhão. Esse é um grande homem, fez uma quebradeira filha da puta. Esse é um doido da Casa Grande, da burguesia que vai lá e bota fogo no Congresso. Eu amo esses caras que mostram que a História está viva.Leo - Você não falou da suruba com o PC...
X-
O PC, velho, que era o inimigo nº 1 do Brasil, o cara tava lá fora, naquela coisa fudida. Mas quando eu ganhei o cara pra ter a entrevista dele, foi tomando whisky. Primeiro na cidade de São Paulo, eu cheguei e ficamos tomando whisky até às quatro da manhã, e depois disso, tanto faz ser PC, como Allan Sieber, Lou Reed, Nick Cave, virou bosta a humanidade, qualquer porra, nivela, vira a mesma coisa. A existência é isso! O que eu achei extremamente humano nele, e lindo é que numputeiro em Curitiba, eu tava atrás dele, e ele escolheu a mulher mais feia. Eu tava com duas mulheres no colo, duas galeguinhas lindas da porra, era uma morena e uma loira, pra ser meio projeto Benetton (risos). E PC, velho, pega a mulher mais feia do puteiro! Rouba o Brasil e é generoso na hora de colocar uma mulher no colo, velho. Genial! A mulher toda largada.. Ele me ganhou nesse dia. Há uma generosidade no fim da linha. Por isso que eu odeio jornalista, porque nunca julga a existência interna, são os caras filhos da puta com as mulheres, na rua, roubam onde puder... Mas achei de uma humanidade linda colocar uma mulher aparentemente baranga - porque não existe baranga - colocar no colo e ser feliz.
Arnaldo - Aí tem aquela frase, de que o poder é o maior afrodisíaco...
X- O poder do mundo é a buceta, velho.
Xico no blog Desmemórias: "Gente, vamos parar c/ essa discussão infrutífera e vamos até o Love Story pegar umas mulé!"