terça-feira, abril 15, 2008

MAYA
"Meu big rider é uma moça" *
Bonita, jovem, loira, rica, filha de pai deputado e mãe estilista. MAYA GABEIRA tinha tudo pra ser uma patricinha, mas não. Aos 21 anos, essa ninfeta carioca é a maior surfista de ondas grandes do mundo! Bicampeã do XXL Global Big Awards na categoria "Women´s Best Overall Performance", ela mal atingiu a maioridade e já tem prestígio mundial em um ambiente onde poucos humanos têm coragem de se arriscar. O jornal Los Angeles Times chamou-a de "Super-Mulher do Surf". Os maiores nomes do big ridding, como o taitiano Manoa Drollet e o lendário havaiano Laird Hamilton, derreteram-se em elogios na temporada de Teahupoo ano passado que lhe rendeu o bicampeonato este ano. Carlos Burle, primeiro campeão mundial de ondas grandes da história (Todos Santos, 1998), a adotou como parceira de tow-in e vem preparando-a p/ os próximos desafios. "Vejo a cada ano como os havaianos me olham de forma diferente. Agora eles me vêem como alguém que mora lá, que está se dedicando. O ruim de estar lá é que fico longe da família", lamenta-se Maya, enquanto comemora ao mesmo tempo.
Coragem e disposição devem ser genéticos nessa família.
O pai, Fernando Gabeira, é um ex-guerrilheiro dos anos 60 que participou do seqüestro do embaixador dos EUA Charles Elbrick em 1969, em troca de prisioneiros políticos do Regime Militar. Viveu exilado fora do país de 1970 a 1979, retornando após a anistia p/ dar início a uma bem-sucedida carreira política de deputado federal. Principal nome do Partido Verde, Gabeira sempre levantou bandeiras polêmicas, como a profissionalização da prostituição e a legalização da maconha, e mais recentemente destacou-se por enfrentar abertamente grandes raposas envolvidas em denúncias de corrupção, como os ex-presidentes do Congresso, Severino Cavalcante, e do Senado, Renan Calheiros. É um dos poucos (senão o único) políticos íntegros do Brasil. "De uns tempos pra cá todo mundo gosta dele. Antes não era assim, quando eu era mais nova. Tinha uma grande parte que não aceitava todas as idéias dele e ia contra elas. Hoje em dia ele é mais uma unanimidade. No começo, talvez, um pouco as pessoas ligavam muito o meu nome ao dele, mas acho que foi natural. Graças a Deus eu estou conseguindo sair do 'filha do deputado' para ser o meu nome", diz Maya, que admite não se ligar em política.
Gabeira pai até hoje paga pelo seqüestro do embaixador e não pode pisar em solo norte-americano, mas sua filha nunca teve problemas c/ o visto de seu passaporte, e desde cedo caiu no mundo. "Deixei o Brasil pela primeira vez quando eu tinha 15 anos p/ fazer um intercâmbio na Austrália, fiquei fora por 7 meses e quando eu voltei ao Brasil estava decidida a terminar o colégio e sair pelo mundo surfando ondas perfeitas. Um ano e meio depois eu estava no Hawaii."
Maya passou os 2 anos seguintes no North Shore, trabalhando de garçonete e aprendendo a dropar as morras. Começou a se destacar no line-up por ser a única garota brasileira a encarar Pipeline, a matadora esquerda havaiana, só por diversão. Até o dia 05 de fevereiro de 2006, quando encarou as direitas gigantes de Waimea Bay em condições storm: maior mar dos últimos anos, surfistas sendo resgatados por salva-vidas... E a lolita carioca de maiô, apenas 19 aninhos, vara a arrebentação na remada e dropa uma bomba de mais 10 metros c/ sua gunzeira colorida. "Quero muito explicar por que eu surfei aquele mar, não foi loucura! Desde que cheguei ao Hawaii, todos os swells que rolaram eu surfei em Waimea com minha 10'4". Todo dia que vai quebrar sou uma das primeiras na praia e sempre faço session de cinco horas... quer dizer, eu realmente amo aquela onda mais que tudo! E estava esperando muito por esse swell.... Quatro dias antes, quando eu fiquei sabendo que a maior bomba da temporada estava por entrar, a internet virou minha melhor amiga! Eu não conseguia parar de checar swell e vento, na esperança de que entrasse perfeito! Treinei muito para surfar aquele dia, todas as minhas corridas, natação, treinos em Waimea e Sunset me fizeram acreditar que eu podia surfar aquele mar. Já passando por Sunset, começei a gritar sozinha no meu carro. Com certeza esse era o maior dia da temporada e o maior dia que eu já tinha visto na vida! Cheguei a Waimea já quase claro e os big riders de sempre estavam a postos com suas gunzeiras perto do canal. Eles iam entrar todos numa só leva, pro caso de a baía fechar. Nem esperei a série, saí que nem louca para pegar minha gunzeira. Em dez minutos eu estava a postos na praia para surfar! Dessa vez, sem querer, eu acabei vendo uma série daquelasssss! Gigante! Nunca senti tanta adrenalina na vida. Surfei por quatro horas, peguei três ondas sendo que uma delas foi a maior e melhor da minha vida! Só os big riders loucos descendo as séries, muitas delas insurfáveis passavam sozinhas e nós, no outside, remávamos pelas nossas vidas. Bombas fechando tudo e ventando terral meio ladal. Foi uma loucura. Eu saí do mar às 12h00 com séries constantes fechando a baía. Muitos resgates rolaram esse dia e o lifeguard de jet-ski se arriscou muitas vezes para salvar os surfistas. A correnteza era a mais forte que já vi! Quando saí da água, me sentei na areia e chorei!", relatou na época p/ o jornalista Fred D´orey.Foi o começo de uma carreira séria e precoce de big rider profissional, monitorando swells gigantes e indo atrás deles em diferentes partes do mundo. Sua primeira empreitada foi na sinistra onda de Mavericks, um pico de água gelada infestada de tubarões brancos na Califórnia, que quebra em frente a um despenhadeiro. Não há praia, só pedras gigantescas. "Nunca vou esquecer quando eu estava dropando já com um sorriso enorme. Satisfação pessoal... Muito bom!", diverte-se a insana Maya, relatando a sensação de surfar a onda que matou Mark Foo há uma década. Depois veio uma trip a outra onda pesada, gelada e inóspita, Todos Santos, no México. Em seguida, a consagração mundial c/ o 1º prêmio XXL, feito inédito p/ uma surfista brasileira. "Às vezes, paro para pensar: 'Nossa, está indo tudo tão rápido'. Mas é engraçado, porque só acho isso quando paro para pensar. Normalmente, só me cobro mais ainda, sempre acho que não é suficiente."
O título trouxe mais que reconhecimento p/ Maya. Valeu contratos c/ a Billabong e Red Bull, e apoio logístico e financeiro p/ suas novas aventuras. Mal recebeu o cheque da premiação e lá estava ela, encarando as bombas de Dungeons, na África do Sul, "p/ treinar e me acostumar cada vez mais c/ o frio e toda a roupa de borracha necessária p/ surfar naquelas
condições." Estabeleceu parceria c/ Carlos Burle e foi tentar o tow-in nas cracas de Teahupoo, em mais um swell gigante. "Foi ótimo. Acabei tomando duas vacas horríveis logo no começo e depois continuei surfando. Não é tão grande, só que é muito buraco e muito raro. Então em vez de você ficar embaixo d’água por tanto tempo, você fica menos, mas o impacto é muito forte e há o perigo de bater na bancada." Foram duas vacas tão indigestas que até o Laird Hamilton ficou assustado. Mas diante da insanidade e teimosia da menina, ele deu o braço a torcer: "Vamos lá, então. Pior do que está não pode ficar", teria dito ele antes de rebocá-la p/ o maior e mais abissal tubo já surfado por uma mulher até hoje, de proporções tão absurdas que muito marmanjo não teria coragem de encarar nem em pesadelo:Maya ainda encarou depois disso uma incursão em Ghost Trees, outro pico de ondas geladas na Califórnia, mas a experiência de ser puxada p/ as ondas por um jet ski acendeu uma nova fagulha. Ela agora está tomando um curso de pilotagem e pretende ser a 3ª brasileira a exercer essa função no tow-in (as precursoras foram as salva-vidas Maria Bela e Andréa, residentes nos EUA). "Meu objetivo é aprender a dirigir bem, resgatar, poder puxar o Burle numas ondas. Ele me levou num curso na Califórnia para fazer uns resgates. Teve um dia que a gente treinou até 1h da manhã. No escuro, água fria, um frio, nadando contra a corrente, fazendo resgate à noite."
Com performances assim, Maya venceu na semana passada o XXL Awards, levando pelo segundo ano consecutivo o cheque de US$ 5.000,00 pela melhor performance feminina na temporada. Valor, aliás, que é uma tremenda sacanagem, já que o campeão masculino leva $50.000 doletas. Ou seja, ela levou apenas 10% da quantia recebida por Shane Dorian, campeão deste ano, que surfou o mesmo swell que ela em Teahupoo. Machismo? O que quer que seja, Maya tá aí p/ quebrar tabus. "Além de você superar os seus limites, você supera limites dentro da sociedade. 'Como uma menina surfa ondas tão grandes?' O corpo, a cabeça, um ambiente tão masculino. E, por eu ser nova, por o esporte ser novo, é um bom momento. Acredito que possam abrir outras portas pra mim, mas sempre sendo uma surfista profissional de ondas grandes."
E ainda por cima é bonita.
MAYA POR ELA MESMA:
APRENDIZADO "Comecei a surfar porque meu ex-namorado e todos seus amigos são surfistas fissurados! E ficar na praia sentada na areia definitivamente não era tão divertido. Então decidi me matricular numa escolinha no Arpoador, no Rio de Janeiro. Comecei de funboard, mas eu não levava jeito nenhum. Demorou um mês para que eu conseguisse ficar em pé, tinha um hábito de apoiar o joelho antes de levantar que até hoje eu tenho a cicatriz. Mas eu fui muito persistente e dedicada então acabei aprendendo."MEDO "Eu lido c/ ele como parte da minha vida. Acho normal sentir medo, mas isso não me impede de fazer o que eu quero ou acredito! O medo quando é bem direcionado é um sentimento fortíssimo que pode desencadear reações para superação de nossos limites." VAIDADE "Acho fundamental cuidar do meu corpo, assim como alimentação, cabelos, unhas, roupas e estar sempre lendo bons livros."FAMÍLIA "Minha relação com eles não poderia ser melhor. Eles são o grande motivo de eu estar aqui. Sem o apoio deles seria impossível eu viver longe de casa."

Bicampeã do XXL Global Big Wave Awards, California/EUA
Dropando Pipeline, onda que matou o big rider Malik Joyeux
Waimea Bay, onda que lhe deu seu primeiro XXL
Maya (à direita) dropando no crítico em Dungeons, África do Sul

Teahupoo, tubo campeão do XXL 2008, visto de 2 ângulos (acima e abaixo)

3 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

A surfista, a bela que é fera! o texto, o belo da fera.
Mais uma vez, parabéns pelo escrito. É sempre bom lê-lo.

Tati disse...

Essa mina é muito louca!! :0
Mas isso de pegar ondas enormes é legal pq mostra +1 vez q. as mulheres mandam bem em qqer situação e ñ deixam nada a dever a vcs homens. ;)

Tati.

Anônimo disse...

Sou de BH e conheci o mar com 5 anos, já mergulhei como peixe em SC e de lá pra cá é meu habitat natural, amo surf e pratico todos os dias pela manhã já peguei mar grande em outros litorais fora do Brasil e queria saber como se atravessa a barreira pra conquitar patrocínio, não sendo filha de pessoa pública?
Aloha.