quinta-feira, maio 22, 2008

VINI VIDI VENCI "Neguinho nunca viu o Bruno Santos surfando e acha que ele é o melhor surfista do Brasil. Por que ele não consegue resultados no WQS e outros eventos? Por que ele é big rider e eu não sou? Ele pegou uns tubos em Pipe e Teahupoo, 8 a 10 pés. Eu sou de Saquarema, quase ganhei o campeonato em Sunset, em ondas de 20 pés." O autor do discurso raivoso é o carioca Léo Neves, bicampeão brasileiro e Top do WCT, em entrevista p/ a Fluir. Quando a revista chegou às bancas, começava a 3ª etapa do circuito mundial, o Billabong Pro Teahupoo, no Tahiti, um dos eventos mais esperados pelo universo do surf: competidores, público, mídia e patrocinadores.A onda de Teahupoo é uma esquerda oceânica que quebra sobre uma bancada muito rasa de coral, e seu nome, traduzido do dialeto local taitiano, significa "Crânios Quebrados". É o tubo mais quadrado e poderoso do planeta – a única onda que rivaliza c/ ela é Pipeline, no Havaí. A diferença é que "Tiôpo" mantém a mesma formação tubular e perfeita em condições sobre-humanas, como o swell gigante surfado pela nata do tow-in no ano passado, que rendeu os títulos do último XXL Big Wave Awards p/ Shane Dorian e Maya Gabeira. Foi lá que Laird Hamilton surfou a "onda do milênio", uma bomba assassina de mais de 40' no ano 2000.
O campeonato do WCT é realizado lá desde 1999, e a galeria de campeões nas 10 edições já realizadas é um "quem-é-quem" da história recente do surf: Mark Occhilupo (99), Andy Irons (2002), Cory Lopez (01), Bobby Martinez (06), os gêmeos Damien (07) & CJ Hobgood (04) e, é claro, Kelly Slater.
Aos 36 anos, Sl8r é o atual líder do circuito, c/ 2 vitórias nas 2 primeiras etapas do ano. O hômi é absurdo, dizem que é mutante: tem 8 títulos mundiais e ainda quer mais. Depois de atropelar a concorrência na Austrália, ele chegou no Tahiti como franco favorito, na condição de líder do ranking, fenômeno do esporte e o único tricampeão do evento (2000/03/05).
Os brasileiros, por sua vez, não têm um bom retrospecto em "Tiôpo", salvo raras exceções, tipo o Danilo Costa, 3º colocado em 2003. Infelizmente, um resultado isolado. O time canarinho no 'CT costuma ser esmagado nesta etapa, seja pelos adversários ou pelo próprio mar - Neco Padaratz quase morreu em 2000 e passou 2 anos dando W.O.. Costumávamos ser vítimas, não protagonistas, mas na última quinta-feira, 16/05, um moleque mudou essa escrita.
O niteroiense Bruno Santos entrou p/ a história ao vencer o WCT de Teahupoo, competindo como convidado.
Sim, o mesmo surfista criticado por Léo Neves na entrevista p/ a Fluir. Aquele que teve seu talento de big rider questionado, e sua capacidade de competir ainda mais. "Desde que vim pra cá, já tava confiante em conquistar um bom resultado", disse Bruno após receber seu cheque de $30.000 dólares. Motivos p/ tanta confiança ele tinha. Apesar de não se destacar na maior parte dos campeonatos e nunca ter se classificado p/ o WCT, o local de Niterói construiu ao longo da década uma justificada fama de tube rider e surfista de ondas grandes. Especialista em tubos, competiu durante 2 anos no Pipe Masters garantindo a vaga de convidado através das triagens, competição preliminar que classifica surfistas não-ranqueados. Nessas ocasiões, disputou baterias contra havaianos, e quem surfa sabe o quanto isso é problema - quando os locais não se impõem pelo surf, o fazem pela força. Santos nunca se intimidou e sempre fez bonito, dropando as ondas das séries e botando pra dentro c/ estilo. Suas performances valeram o convite p/ competir no Masters pelo 3º ano consecutivo em 2006, entrando direto no main event como wild card do patrocinador – a marca australiana Rip Curl, uma das gigantes do ramo.Bruno Santos participou de 2 etapas do WCT ano passado. Classificou-se nas triagens de Teahupoo e foi convidado p/ o Rip Curl Search no Chile. Nas pesadas ondas de El Gringo, conseguiu seu melhor resultado até então: 5º lugar. Também foi eleito por jornalistas e leitores da Fluir o melhor surfista do Brasil em 2006, ganhando um carro 0km, e este ano venceu outra votação, o Prêmio Greenish, pela maior onda surfada em território brasileiro em 2007, em Itacoatiara [foto], pico casca-grossa de Niterói onde aprendeu a surfar. "Itacoatiara é a minha onda favorita e na minha opinião é a mais forte do Brasil. É a melhor escola p/ quem quer surfar bem ondas pesadas e tubulares. Mesmo sendo um beach break, o jeito que a onda quebra e dobra na bancada é muito parecido c/ várias ondas famosas", declarou à Fluir, na mesma edição em que foi posto em xeque pelo Neves.Santos voltou ao Tahiti este ano e passou pelas triagens em 2º, atrás apenas do havaiano Jamie O´brien, considerado o melhor surfista em Pipeline e que também não corre o circuito. O trials rolou em condições maiores que o próprio evento principal, c/ paredes de 3 metrões exigindo surf de gente grande - coisa que "Bruninho", como é chamado pelos amigos, tem de sobra, apesar da pouca idade (25) e baixa estatura (1,65m). Foram 2 notas 10 p/ carimbar a vaga. Quando o Billabong Pro começou de verdade, o moleque saiu passando o rodo. Bateu o atual campeão mundial Mick Fanning na repescagem e o vice Taj Burrow na 3ª fase. Nas quartas, eliminou Adriano de Souza, o Mineirinho, maior esperança brasileira no WCT e atual nº 6 do ranking. Nas semis, tirou o ex-campeão mundial CJ Hobgood. Na final enfrentou o local Manoa Drollet, outro convidado, o cara que mais conhece Teahupoo. Manoa fora o responsável pela desclassificação do monstro Kelly na 3ª fase e entrou na final com tudo a seu favor. Tudo, menos o adversário. Numa hora de poucas séries e ondas médias, Santos soube aproveitar a chance e c/ um tubinho providencial [foto], carimbou a 1ª vitória do Brasil no WCT após um hiato de 6 anos.
"Os brasileiros realmente não costumam ter bons resultados nesse tipo de onda, mas essa vitória, do jeito que aconteceu, foi importante para melhorar a nossa imagem", disse Bruno na entrevista coletiva que concedeu ontem, no Rio de Janeiro. "Ganhei respeito e acho que os brasileiros ganham mais confiança. É bom para mostrar que treinando bastante, c/ dedicação, os resultados chegam." A conquista de Bruno Santos é histórica por vários motivos. Além de quebrar um longo jejum sem vitórias brasileiras no circuito, ele também fez isso em uma das melhores ondas do planeta, quebrando o estereótipo de que brasileiro não sabe surfar onda boa e arrega quando o bicho pega. O único título desse naipe obtido por um brazuca foi a
World Cup que o Fábio Gouveia conquistou em Sunset, Havaí, no longínquo ano de 1991 - o mesmo campeonato que o marrento Léo Neves QUASE venceu ano passado.
"Sempre gostei de ondas grandes. Na verdade, enormes", disse Santos. "Penso em comprar um jet ski e fazer tow-in em lugares como Teahupoo, p/ pegar uns tubos gigantes. É minha idéia caso pare de competir." Antes do Tahiti, ele cogitava abandonar os campeonatos, mas a vitória no WCT mudou seus planos. "Quero testar novos equipamentos c/ meu shaper e treinar como nunca fiz antes. Vou tentar a vaga por mais 2 anos. O formato do WQS é bem difícil, são 4 atletas na água e as ondas são menores. É guerra o ano inteiro."
Bruno foi recebido c/ festa no Aeroporto Internacional do Rio. De lá, seguiu p/ Niterói em carro aberto, do Corpo de Bombeiros, seguido por uma carreata. "Foi engraçado e estranho ao mesmo tempo, me senti como um jogador de futebol que ganha uma Copa do Mundo. Foi o dia que me senti mais famoso na minha vida", diverte-se o baixinho, que não é Romário, mas também é o cara.


Vitórias brasileiras no Circuito Mundial (WCT)
2008 - Bruno Santos - Teahupoo, Tahiti
2002 - Neco Padaratz - Hossegor, França

1999 - Neco Padaratz - California, EUA
1998 - Peterson Rosa - Rio de Janeiro, Brasil
1995 - Victor Ribas - Lacanau, França
1994 - Flávio Padaratz - Hossegor, França
1994 - Ricardo Tatuí - Biarritz, França
1992 - Fábio Gouveia - Chiba, Japão
1991 - Fábio Gouveia - Sunset, Hawaii*
1991 - Flávio Padaratz - Rio de Janeiro, Brasil*
1991 - Fábio Gouveia - Biarritz, França*
1990 - Fábio Gouveia - São Paulo, Brasil*
1977 - Daniel Friedman - Rio de Janeiro, Brasil*
1976 - Pepê Lopes - Rio de Janeiro, Brasil*
*Até 1991, o Circuito Mundial era unificado: não existia a divisão de acesso (WQS)

RANKING WCT 2008 – após 3 etapas**

01 - Kelly Slater (EUA) – 2.810 pontos
02 - Joel Parkinson (AUS) – 2.340
03 - Bede Durbidge (AUS) – 2.318
04 - Andy Irons (HAV) – 2.196
05 - Mick Fanning (AUS) – 1.989
06 - Adriano de Souza (BRA-SP) – 1.932

**A vitória de Bruno Santos não valeu pontos p/ o ranking

Um comentário:

klaus disse...

Beleza?

seguinte: Bruno Santos não é o melhor surfista brasileiro. No entanto, o cara é o segundo melhor tuberider (atrás do grilo), e um dos bons em grandes ondas (Burle, Rezende, etc).

Agora, o cara mandou muito bem. Aquela bateria contra o Fanning, ganha nos ultimos segundos foi linda! O Leo tá com dor de cotovelo. Coisa feia para surfista profissional...