terça-feira, junho 03, 2008

HEY BO DIDDLEY!
Morreu o pai do rock. Bo Diddley era um negão que tocava músicas de 1 acorde numa guitarra quadrada e influenciou de Elvis Presley a Jack White. Nascido no Mississipi em 1928, Ellas Otha Bates - seu nome de batismo - tocou violino na igreja durante a infância e trabalhou como carpinteiro, mecânico e pugilista na adolescência, antes de ganhar uma guitarra da irmã e se mudar p/ Chicago, na década de 1940. Começou a tocar blues nas ruas, influenciado por John Lee Hooker. Dizem que seu nome artístico significa “moleque danado” e foi ganho nos ringues. Procede. Seus riffs de guitarra eram como jabs de direita. Nos anos 50 emplacou seu 1º compacto, “Bo Diddley/ I´m a Man (Chess Records). Depois de quase uma década tocando nas sarjetas, Bo estreava direto no nº 1 das paradas de sucesso. “Na canção ‘Bo Diddley’, Bo utilizou tremolo, fuzz e efeitos c/ feedback, que nunca foram pensados antes. Somente Jimi Hendrix, 10 anos depois, iria voltar a experimentar c/ a proposta e evoluir a técnica”, relata o blog Blues Everyday num artigo de janeiro de 2007. “Em ‘I'm A Man’, Diddley criou um riff de blues devastador, c/ uma gaita que incita inesgotável combustão.”
A batida dessas músicas virou uma de suas marcas registradas – uma base rítmica poderosa semelhante à rumba, que começou a ser imitada pelas bandas da época. Os Blues Rockers a usaram em "Callin' All Cows", Johnny Otis em “Willie and the Hand Jive” e Buddy Holly em “Not fade Away”. Nascia o rock.
“O ritmo é tão importante na música de Bo Diddley que a harmonia é freqüentemente reduzida a uma inclusão mínima. Suas canções na maioria não apresentam mudanças de acorde; isto é, elas não foram compostas com claves musicais, e o músico tem de cantar e tocar no mesmo acorde durante todo o tempo”, explica a Wikipedia na página dedicada a ele. Bo não era bobo, e estava sempre em busca de elementos que o diferenciassem dos demais. “Em suas apresentações ao vivo, forjara uma imagem de selvagem e ameaçador, enquanto pulava e dançava, vestido todo em couro preto, cinto c/ fivela gigantesca e um chapéu de cowboy imenso na cabeça. Um visual que seria repetido em um momento ou outro na carreira de gente como Jim Morrison, Lou Reed e os rappers Run DMC.” (Blues Everyday)

Sua outra marca registrada era a guitarra retangular que tocou toda a vida, a “Big B”. Ela nasceu no dia em que Bo tirou o braço e todos os circuitos da sua guitarra Gretsch e colocou no corpo quadrado que ele mesmo construiu. O modelo original tinha 17,75” x 9,25” x 2”, corpo vermelho c/ duas pickups FilterTron, uma ponte Tune-O-Magic e captadores de ouro. Foi o 1º a usar distorção nos amplificadores e desenvolver a técnica de tremolos e reverbs p/ modular o som, ou como ele dizia, “fazer a guitarra falar”. Foi o 1º band-leader a ter uma mulher guitarrista na banda, e o primeiro a tocar guitarra pelas costas, entre as pernas e c/ os dentes. Nos anos 60 emplacou seus últimos grandes sucessos, “Before You Accuse Me” e “Who Do You Love”. Mas a essa altura várias bandas de rock calcadas no blues já lhe rendiam homenagens. The Animals gravaram “The Story of Bo Diddley” e The Yardbirds, banda que revelou Eric Clapton e Jimmy Page, fizeram sua versão p/ “I’m a Man”.
Nas décadas de 1970 e 80 Bo esteve fora do foco da mídia e do grande público, mas nunca saiu da ativa. Tocou c/ grupos como The Clash e Grateful Dead, e guitarristas como Keith Richards e Ron Woods, dos Rolling Stones, tiveram participações em alguns de seus discos. Em 1987 deixou suas digitais no Rock and Roll Hall of Fame, na Califórnia; em 98 recebeu um Grammy especial pelo conjunto da obra; e no ano seguinte a
Gretsch reeditou o modelo Big B em comemoração aos 70 anos do seu criador. Bo seguiu gravando discos e fazendo shows até o início de 2007, porque “precisava do dinheiro”, como ele mesmo dizia. Só parou quando sofreu um AVC durante uma apresentação em Iowa, maio do ano passado. Em agosto, sofreu um ataque cardíaco na Flórida, onde morava. Também havia perdido alguns dedos do pé devido à diabete, mas só entregou os pontos ontem, morrendo em casa rodeado de familiares e amigos. Tinha 79 anos e odiava o rumo que a música negra americana tomou nos últimos anos: “Detesto gangsta rap. Chamo isso de 'rap-crap' (rap de bosta). Faz meu sangue ferver de ódio”, disse em uma de suas últimas entrevistas, ao jornalista Jim Loney da agência Reuters. Em outra entrevista, ao jornal The Sydney Morning Herald (março de 2007), Diddley dispensou exame de DNA p/ assumir a paternidade do rock: "Little Richard veio 2 ou 3 anos mais tarde, ao lado de Elvis e Chuck Berry. Em outras palavras, eu fui o primeiro!"
"Bo Diddley done had a farm/ on that farm he had some women/ Women here, women there/ women, women, women everywhere/ But one little girl lived on a hill/ she rustled and tussled like Buffalo Bill/ One day she decided she'd go for a ride/ with a pistol and a sword by her side/ She rolled right up to my front door/ knocked an' knocked 'til her fist got sore/ When she turned and walked away/ all I could hear my baby say/ Hey Bo Diddley/ oh Bo Diddley/ Hey Bo Diddley/ oh Bo Diddley/ Saw my baby run across the field/ slippin' and slidin' like an automobile/ Hollerin', my baby got towed away/ slipped on from me like a Cadillac-8/ Hey Bo Diddley/ oh Bo Diddley/ Hey Bo Diddley/ oh Bo Diddley" [Hey Bo Diddley]

Um comentário:

Álvaro Müller disse...

'rap-crap'... e quem é doido de contestar um monstro como esse?
Excelentes texto e pesquisa. Isso é conteúdo e não os 'achismos' que a gente anda lendo por aí.