terça-feira, junho 10, 2008

O ZECA SECA
Você compraria um disco de ROCK deste cara?
Eu não. Aliás, faz tempo que não compro um disco. De rock, de jazz, de samba, de nada. Desde a invenção do MP3, passei a ouvir mais música no computador do que em qualquer outro lugar. Sinal dos tempos. "A música muda, as drogas mudam"... Não era do Trainspotting essa fala? A tecnologia também muda, e a internet vem sistematicamente quebrando as pernas da indústria de entretenimento - cinema e música. 90% dos CDs em países emergentes do naipe de México e China (campeã mundial de pirataria digital) são ilegais. PIRATAS, mesmo. Nos EUA, as vendas de CD desabaram de 712 milhões em 2001 p/ 89 milhões em 2007.
Em lugares como Sergipe, no entanto, esse tipo de prejuízo não é muito percebido (a não ser pelo massivo fechamento de lojas de discos desde o ano 2000), porque não temos um astro em voga na mídia nacional, tipo Roberto Carlos ou Ivete Sangalo - os mais pirateados, invariavelmente. Apenas Clemilda, cantora de forró desde os anos 60 que estourou na década de 80 c/ os hits "Prenda o Tadeu" ( "seu delegado, prenda o Tadeu/ ele pegou a minha irmã e... ãhn!" ) e "Forró Cheiroso" (c/ o singelo refrão "talco no salão/ talco no salão/ pro forró ficar cheiroso/ e ter mais animação"), chegou ao patamar do disco de ouro, honraria p/ quem vendia mais de 150 mil cópias de um LP - hoje são 500.000... P/ quem não sabe, Clemilda é viúva de Gerson Filho, clássico sanfoneiro do 8 baixos, e ainda está viva e na ativa, apresentando um programa de rádio e um de TV, "Forró no Asfalto", do qual tive a honra de ser editor por quase 2 anos. O programa já existe há mais de 2 décadas, e dona Clemilda promete voltar c/ disco novo ainda este ano! Mas essa é outra história...
Comecei a divagar sobre a indústria fonográfica e a carreira da Clemilda porque queria falar do ROCK SERTÃO, festival de bandas locais realizado na cidade de Nossa Senhora da Glória (SE) desde 2003. Este ano o evento teve o apoio do Governo do Estado e trouxe uma "atração nacional": Zeca Baleiro. Veja bem, estamos falando de um festival de rock, certo? Pelo menos, tem ROCK no nome. Que eu saiba, esse Zeca é MPB. Pelos $40.000 reais que pagaram pro cara, podiam ter trazido umas 2 ou 3 bandas de ROCK do naipe de Jason, Mukeka di Rato ou Autoramas. Bom, EU já organizei um festival, há 10 anos: ROCK-SE. Eu + uma trupe: Bruno Montalvão, que hoje mora em SP e agencia uma banda, a Vanguart; Clínio Jr., que tocou guitarra na Snooze e da última vez que eu soube tava tocando na Pelv's(RJ); Vagner "Só", atualmente diretor de filmes publicitários; Jade Moraes, que ganhou uma edição do Doc.TV c/ um filme sobre a prostituta Candelária; e Eloísa Galdino, atual Secretária de Estado da Comunicação Social. Nossa produtora chamava-se Marginal e os principais nomes do 1º Rock-SE (1998) foram Marcelo D2 e O Rappa. A idéia seria trazer o Planet Hemp, mas tava embaçado, os caras foram presos no ano anterior, e o D2 tava lançando o 1º disco solo p/ desembaçar. Outras bandas que tocaram nesta edição: Pin Ups, Eddie, Mechanics, 2 Sapos & Meio...
Agora é 2XX8, e o Rock Sertão #6 aconteceu há 2 semanas, 23 e 24 de maio. "É um evento que promove um encontro da juventude de todos os cantos do nosso Sergipe, celebrando a música e a cultura. Quando recebemos o projeto, logo percebemos sua força aglutinadora, sobretudo por envolver várias bandas sergipanas e a possibilidade do intercâmbio", disse Eloísa, que mostrou que ainda é do rock. Eu não fui, pra variar. Nos últimos anos, é mais fácil você NÃO ME VER nos lugares do que o contrário. O último show que fui p/ curtir foi Nação Zumbi em fevereiro; e trabalhando, Mensagenegra em abril (1º trampo de cinegrafista), ambos na Rua da Cultura.
Não fui pro sertão este ano, nem nos outros. Imagino que um festival de rock por essas bandas deve ser muito bem-vindo p/ quem curte um som que não toca nas rádios, independente da idade. No interior o que mais se ouve é brega, pagode e sertanejo. Mas em qualquer lugar tem emo, punk e metaleiro. Então, público há. Ainda mais no esquema do Rock Sertão: 0800 na praça - a alegria da molecada é o inferno da vizinhança.
Eu não fui, mas meus amigos foram. Alguns tocaram, como os irmãos Snooze [foto], e Tacer, batera do Lacertae em nova fase - projeto solo e Unicampestre. Outros, só pela balada. Adelvan Barbosa, o blogueiro mais roqueiro de Itabaiana, foi um deles: "Fui só por ir mesmo, uma galera pagou a gasolina... mas mesmo assim me arrependi, estrada ruim do caralho, acabei furando pneu, empenando roda, uma merda. E pra ver Zeca Baleiro, putz. Fala sério, que merda." Maíra Ezequiel, esposa de Fabinho “snoozer”, trabalha comigo na TV e conferiu o evento. Ela escreveu uma resenha em seu blog, reproduzida no site Ladonorte, e agora, no Viva La Brasa:
"A uma semana da abertura oficial dos famigerados festejos juninos de Sergipe, só mesmo uma Glória, bem no meio do sertão, pra me dar esse já raro privilégio de participar de um festival de rock. E ainda mais de graça.
Pra quem quase não ia, o resultado pra mim acabou sendo bem mais que proveitoso. Me rebolei, mas consegui articular pra que a TV (Aperipê, onde trabalho) estivesse presente nos dois dias do evento. Na sexta, mandei cinegrafista e consegui quem fizesse as sonoras pra mim. No sábado consegui uma carona de ida com o brother Adelvan, encontrei a equipe por lá, e voltei na van da Snooze/Maria Scombona [foto acima]. 4 horas de viagem ida e volta, com metade só de buraqueira, chegando em casa às 6 da matina e com a filhota acordando às 8... (jornalista, mãe e roqueira é uma combinação complicaaaada!) O esforço rendeu uma matéria bacana que foi ao ar em nosso telejornal. Espero com isso ter dado minha parcela de contribuição tanto para o evento quanto para as bandas, já que fomos o único veículo de imprensa presente por lá.
O que presenciei valeu a pena a jornada. Um festival super democrático, praça cheia, de metaleiros, dondocas, quarentões, famílias completas, doidões e caretas... todo mundo igualmente empolgado com os shows de um jeito que faz tempo não vejo aqui em Aracaju. Aliás, como bem disse Rafael Jr, Aracaju não tem mais um festival como esse. Ponto pra eles. O povo de Glória dança e aplaude as bandas, mesmo as que não conhece. Mais um ponto. Aqui em Aracaju a galera nem entra no evento. Prefere ficar na porta.
Essa foi a sexta edição do Rock Sertão. Só isso já é um grande mérito, com certeza. Foi a primeira que contou com o patrocínio do governo do Estado que deu estrutura bacana (de som, palco e luz profissa - o que é sempre muito bom) e bancou uma atração 'de renome', como a galera gosta de dizer.
Pois num é que foi aí que o negócio melou? O tal do Zé Cabelereiro parece que só veio pra atrapalhar. Aquela coisa: produção no palco estressada com o horário, apressando as bandas porque a estrela tinha que tocar na hora x. Aí, adivinha. Alguém ia sair pra Cristo. Nêgo tira a Maria Scombona (parceira do evento, há três anos tocando de graça, e esse ano tocando por migalha) porque o Cabaleiro precisava do palco livre uma hora antes de tocar. Só que a buraqueira não perdoou e furou dois pneus da comitiva oficial que trazia a estrela, e o evento que ia num ritmo bom, com uma banda atrás da outra e público empolgado, ficou lá com um buraco de quase duas horas sem nada acontecendo, público mofando, banda com cara de tacho, e o efeito cascata que inevitavelmente aconteceria mais tarde com todas as outras bandas que ainda esperavam pra tocar 'na brodagem'. Uma lástima.
Resultado: o cara vem de fora, arranca o cachê de 40 mil paus do governo, não faz nenhuma diferença pro festival – pois quem esteve presente nos outros anos afirma que o publico foi exatamente o mesmo – e ainda envenena a relação da organização com as bandas que foram as que ergueram o nome do festival, topando tocar de graça, acreditando no conceito, e que numa hora dessas são preteridas sem dó nem piedade porque todos tem que dizer amém à estrela que amanhã não vai nem lembrar o nome da cidade que tocou.
Mas, antes de eu terminar esse texto preciso dizer que os meninos que produzem o Rock Sertão são muito legais, tem todo o mérito do mundo por encarar essa parada e se esforçaram o tempo inteiro para manter o respeito no relacionamento com as bandas mesmo na hora que o clima esquentou. Os caras jogam limpo. E isso aqui não é um texto de acusação, ok?
Agora, francamente: até quando vai se manter essa cultura do tratamento bizarramente diferenciado entre os 'locais' e as estrelas (porra, até nos camarins a diferença é brutal!)? E até onde realmente vale a pena acreditar que um evento só se eleva quando se agrega um nome de fora a ele?
Deixo aberto o questionamento.
Vida longa ao Rock Sertão!"NOTA DO EDITOR:
Eu falei p/ não chamar o Zeca. O Zeca seca!
23 de maio - sexta-feira
Rotten Horror / The Baggios (São Cristóvão) / The End (Poço Redondo) / Justiça Cega /Naurêa / Alapada / Tchandala / Unicampestre (Lagarto) / Anjos Inocentes (Propriá)
24 de maio - sábado
Dark Visions (Tobias Barreto) / Bago de Bruxa (Estância) / Snooze / Fator RH (Nsa. Sra. da Glória) / Zeca Baleiro / Maria Scombona / Scarlet Peace [foto] / Forte Paradoxo

5 comentários:

Anderson Ribeiro disse...

Um apelo pop prum evento rock. O rock definitivamente não preci9sa desse jogo pra ter público.

Álvaro Müller disse...

O problema é o interesse em quantificar o público, e não em qualificá-lo. Daí, mistura-se Nação Zumbi e Aviões do Forró sob a égide da "diversidade cultural". Ô termozinho perigoso....

Adelvan k disse...

pow, quarenta pila traria essas três banda que tu citou e mais umas duas ou três de lambuja, eu imagino. Mas entendo a ideia da tal "Atração de peso" (embora ache que não precise isso tudo de até os camarins serem diferentes), infelismente o povão gosta sempre de mais do mesmo e é isso mesmo. Só acho que foi mal escolhido. Uma Pitty, por exemplo, acho que sairia por um preço parecido (será? Nem sei na verdade), é rock (pode não ser bom, mas que é rock é) e atrairia muito mais publico (disso eu tenho certeza). Não vi essa multidão toda pra ver Zéca Baleiro não - até porque ele tocou de graça faz pouco tempo em Aracaju. Me disseram que no dia anterior, só com atrações locais, tinha dado mais gente.

No mais, ressalto que o arrependimento foi só pela estrada horrivel mesmo, não pelo festival em si, mesmo com tantos pesares. Valeu ter visto Snooze. Queria ter visto Scarlet peace, que soube que só toxcou 3 musicas, pois o ônibus que os levaria de volta já tava de saida.

E valeu a lembrança de Cremilda, heheehe

Boogie Boy disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Boogie Boy disse...

Eu toquei com a Karranca na primeira edição do festival, foi massa, poucas pessoas na praça, a coisa toda era bem amadora e a fuleiragem rolou solta.
Bons tempos... ah, sem falar no rango oferecido p/ as bandas. o rango da mãe do Binho é duca!!!

Sobre o R S 6ªEd., compartilho da idéia que foi uma escolha infeliz o de trazer Zeca B. Com a grana daria mesmo pra fazer um melhor proveito, trazendo boas bandas e se fosse necessário, até de "renome", mas que fosse ROCK.