segunda-feira, julho 21, 2008

MACACO LOUCO
Schiavon, gênio do mal

"São Paulo está um caos, é época eleitoral, Morta e Nosferatu estão no páreo, os EUA dominam o mundo e os clones de George Bush são a polícia. Os clones estão por todo lado e a você cabe a missão de salvar a indústria das pegadinhas." Este é o roteiro de “GTA_SP”, uma das versões brasileiras de “Grand Theft Auto”, da inglesa Rockstar Games, o joguinho mais popular do momento, onde o mote é ser ladrão de carro & apavorar geral. O mapa do jogo original era uma cidade virtual, “Vice City”, que traduzindo quer dizer “Cidade do Vício” e é igualzinha a Miami. Assim como “San Andreas” é Los Angeles (GTA_II), e “Liberty City” é Nova Iorque (GTA_III). No Brasil, o pirata “GTA_RJ”, c/ cenas em favelas e funk na trilha sonora, já circula no mercado negro, e vários programadores estão desenvolvendo uma versão p/ São Paulo, entre eles Luís Schiavon, autor da história que abre este parágrafo. Seu MOD do “GTA” tem como personagens Sérgio Mallandro, João Kleber e Netinho, entre outros, e fez sucesso numa exposição do Santander Cultural em Porto Alegre (RS).
Schiavon é roteirista de videogame, professor de animação digital e criador da ADM - Sociedade Secreta, trinca de ases do cartum: MZK, Allan Sieber e ele mesmo. Seu 1º personagem publicado foi Zuper Zâmbala, uma tira estilo noir que fazia parte do encarte MAU da revista Animal, no início dos anos 90. Depois vieram o Mãos Trocadas e o Drogado Matador, nas revistas Dundum e Glória, Glória, Aleluia!. Passou um tempo sumido – 2ª metade dos anos 90 – mas nunca parou de produzir quadrinhos. Das “500 ou 600” páginas desenhadas no período, “não tenho um único original comigo, eu sempre descolei p/ quem parecia gostar daquilo mais do que eu”, diz. “Os quadrinhos que não foram publicados têm letras toscas e o desenho é corrido porque eu estava preocupado em viver, não em ficar trancado, fazendo ‘bunitu’ p/ marmanjo babar.
Voltou à cena c/ o gibi Mulher Preta Mágica, da coleção de bolso da editora Tonto, do cartunista Fábio Zimbres. "Schiavon é o nome de um cara que tocava no RPM e todo mundo vive confundindo os dois (...). Mas não tem nada a ver. Um é cuzão e o nosso é legal. Escandalizando leitores desde os tempos da Animal, o rapaz continua espalhando o medo pelo assoalho encerado dos quadrinhos brasileiros", escreveu Zimbres no perfil do amigo nas Tiras Tonto. Em seguida, veio a Liga da Vesga, publicada em capítulos na revista Tarja Preta, zoação c/ os super-heróis: o Governo Brasileiro assinou um contrato c/ Satanás, e a Vesga é a salvação no dia do Juízo Final. A heroína que dá nome à série é zarolha, assombrada pelo fantasma da mãe, gosta de andar nua, e protagoniza tórridas cenas de lutas lésbicas c/ suas inimigas. Seus aliados são o Mãos Trocadas, o Mãos de Morsa, o Saci Firmeza, o Gorila Sábio, a tartaruga Cubanito, e o skatista Lázaro, aquele da Bíblia, reencarnado num deficiente físico c/ super-poderes. Outro personagem bíblico repaginado é Jesus, de volta à Terra como Jizzla, um ciborgue rasta inspirado no cantor jamaicano Sizzla, que não permite brancos em seus shows e é a favor do assassinato de homossexuais.

Viva La Brasa – Como é ter o mesmo nome do tecladista do RPM?
Schiavon - O maluco ficou sumido mais tempo do que eu, ainda domino a 1ª página de busca do google no Brasil, agora só me perguntam que fone qu’eu uso no Faustão. Na época do RPM, eu tinha uma banda punk e recebi uma carta de uma fã, eu era tão Jeca que achei que era p/ mim...

VLB - Você é paulista ou gaúcho? Lembro de seus quadrinhos na Animal, que era de SP, mas tb. na Dundum, do RS...
Sch - Eu sou paulista mas morei um tempo em Porto Alegre, fiz uma oficina de tiras c/ os editores da Animal, Fábio, Priscila e Newton, e eles resolveram publicar as tiras de alguns alunos. A DumDum veio depois, eu entrei pra Banda, conheci o modo bagaceiro de viver, fui professor de violão e conheci um estúdio de desenho animado, a Otto Filmes.

VLB - C/ certeza vc nunca ganhou dinheiro c/ quadrinhos...
Sch - No começo, os quadrinhos até me deram uma grana, eu fiz uns gibis pornôs, 60 pgs cada, desenhava roteiro dos outros e tinha uma editora lavando dinheiro de contrabando que comprava tudo que eu fazia. Um dia o Fábio Zimbres me disse: ‘por quê o roteiros das HQs XXX são tão mixurucas?’, eu pensei nisso e bolei o Mãos Trocadas, 64 páginas, uma editora comprou, mas não lançou. Acho que c/ esse gibi eu consegui ofender toda criatura viva, quando eu acabei, a lâmpada explodiu em cima da minha cabeça. O nome ‘mãos trocadas’ eu tinha ouvido uns anos antes no estúdio do Otto, eu roubei do Rodrigo sem querer. Este ano vendi um roteiro p/ um curta animado, estou agora desenvolvendo os personagens e os cenários: http://www.schiavox.blogspot.com...

VLB - A ADM foi idéia sua?
Sch - Na época (90 e poucos) eu disse pro Allan que nós deveríamos montar uma organização, grupo ou coisa assim, o MZK entrou depois, virou presidente e a ADM se tornou sociedade secreta.

VLB - Vc ficou só nos quadrinhos pornô nos anos 90?
Sch - Fiz o Clube da Vesga, mas não vendeu. Depois fiz outro tipo de HQ p/ o Cybercomix, tive tendinite e comecei a fazer 3D c/ a mão esquerda, voltei a desenhar fazendo arte final p/ animação publicitária, trabalhei numa produtora de vídeo, fiz cenários e comecei uma série onde eu faço tudo: o Tomate Ladrão. Joguei fora a papelada e as tintas p/ fazer a arte final só no computador, essa transição e as 200 páginas que eu não publiquei foram adversidades enfrentadas nesse meio tempo.

VLB - Seus personagens são os mais loucos... De onde surgiu a idéia do Zuper Zâmbala e do Drogado Matador, por exemplo?
Sch - Sobre o Zâmbala, o desenho dele saiu do meu reflexo no café no fundo de uma xícara de camping, o estilo antigo tipo Nick Holmes (Alex Raymond) tinha algo que era incômodo p/ mim, os personagens não se olham e falam com a boca fechada, eu queria isso na minha tira. O cachorro eu não sei explicar, não havia nada parecido em lugar nenhum que eu poderia conhecer. O Drogado Matador veio do preconceito (maior há alguns anos) que todo maconheiro é bandido, eu só ampliei a idéia.

VLB - A Liga da Vesga vai continuar na Tarja...?
Sch - Sim! A Liga é a continuação da Turma do Morsamania e do Clube da Vesga. Já entreguei as páginas p/ o nº 6, finalizadas no Toon Boom, e acaba no nº 7 c/ o ‘Sermão da Montanha de Entulho’.

VLB - E o Jizzla?
Sch - Eu hoje sou evangélico, mas antes eu tinha preconceito e até mesmo ódio das pessoas religiosas, mas conheci gente séria que vive além da teoria. Por conta dos adoradores da grana, de ídolos, dos que esperam um tesouro na cova, eu fiz um Jesus que devia ser o Vilão, mas veja bem. Eu comecei a Liga depois que o EUA invadiram o Iraque, as tramóias dos governos seriam o pano de fundo para a questão: a humanidade merece ser salva? P/ todos os personagens a questão foi simples, eles são brasileiros, esperam que todos morram menos eles próprios, certo; mas e Jesus? Ele ama todas pessoas e esse estranho conceito é a linha invisível do que eu quis discutir.

VLB - Fale dos videogames que vc anda desenvolvendo...
Sch - Eu fiz um MOD p/ GTA3 onde troquei as texturas das cidades, insertei personagens novos, recriei a estória e gravei novas missões, não há nada parecido no mundo. Nesse blog explico como fiz tudo:
http://www.gtasp-skiii.blogspot.com.

VLB - O que vc acha dessas proibições a games aqui no Brasil?
Sch - Quando um grande grupo é penalizado p/ poupar um pequeno grupo, se vê que a coisa vai mal, quem tem que ver o que os guris estão jogando é o pai, a mãe etc. Nos EUA, daonde a gente gosta de copiar proibições, não rola, porque quando eles resolveram poupar grana dos exercícios militares, tentaram 1º o paintball, depois chegaram a conclusão que os games seriam a boa. Então o governo americano disponibiliza um jogo que é uma escolinha p/ assassinos, as armas são reais e o jogo te ensina a lidar com elas e como acontece nos massacres nas escolas de lá, você pode aprender a atirar no 2º alvo antes que o 1º caia. Por aqui o ignorante que proibiu os games devia proibir o futebol, que tem um efeito muito pior p/ a população.

SCHIAVON GAMES LTD.Ralli Z: “Depois da Microsoft criar sua engine p/ jogos, o XNA, a Sony e Nintendo também vão lançar suas próprias plataformas p/ criação de games. As produtoras se especializaram demais em fazer porcarias como jogos de samurai, oferecendo somente um visual mais elaborado p/ cada console mais novo, por isso essa onda de ‘power to the people’. O mais importante p/ um novo game é ter 1º o roteiro, os modelos 3D e suas caixas de colisão. O roteiro eu já tenho e já projetei 3 cidades, 50 carros e 60 personagens.”
GTA_SP: “O Vice City é um jogo bonito mas chatão, tem a parada capitalista que é estilo Sim´s, ‘meu boneco é o dono da cidade’, pusta porcaria. O Santo André [GTA - San Andreas] vai muito bem até o lance de arrumar a namorada e combater os alemão, é um emprego! Mas as texturas são tão boas que fica muito difícil trocar por uma melhor, e o mapa que é 3X maior que o VC, que é 5X maior que o III. Estou passando os posts do GTA_SP p/ um blog próprio, c/ a tarefa de provar que eu sou o único roteirista de games do Brasil, mas não vou sonegar informação não! Comece mudando o filme da abertura, tem 2 no formato MPEG, na pasta movies. Minha opinião é que jogo não tem que ser realista, na sequência eu posto o esquema das gangs e das novas missões. Até a vitória final!”

GALERIA SCHIAVONBLOGS: Schiavon tem 2 blogs, o Schiavox e o Schiavoz. No 1º divulga seus trabalhos de animação, videogame etc. No 2º publica seus quadrinhos e observações sagazes acerca da realidade brasileira: “A 1ª vez que eu vi um ‘doutor’ numa propaganda foi numa revista velha vendendo cigarros, dizia que fumar era uma linda jogada, ‘limpava os dentes e refrescava o hálito’, nessas palavras. Os comercias de cigarro fizeram outras migrações, os do Free, agora são de pinga e vodca, e como antigamente nos reclames do Hollywood, as pessoas pegam os jet-skis e dão o maior rolê p/ escovar os dentes na casa do chapéu.”
CURSO DE ROTEIRO: “Não tem uma semana que eu fico sem ver alguém dizer que faltam bons roteiros por essas bandas, mas o método dos nossos roteiristas é muito bom, vejam esse exemplo: 1) 1º vc assiste os canais gringos p/ ‘referência’ e p/ enxergar tendências, tipo: todo ano rola um seriado de vampiro, agora até de empregos os sangue-sugas estão atrás, mas o quê os gringos nunca fizeram? 2- Idéia meio original: O Vampiro Índio! 3- Vamos transpor essa idéia p/ nossa realidade, explorando a pobreza feliz e os índios que tem por aqui. Mande comprar as câmeras!”OLLDOG: É o nome da sua produtora de desenhos. Entre seus trabalhos, está a animação anarquista “Tomate Ladrão”.ARTE: Schiavon tb traça umas linhas mais clássicas, ainda que suas técnicas não tenham nada de convencionais: “1º trampo no tablet. Eu passei no scanner o lápis e pintei em cima.”

2 comentários:

Emerson Wiskow disse...

Schiavon é o cara.
abração

Matias Maxx disse...

Ae Brasa!~!! tá ligado nessas 200 páginas perdidas do Schiavon???

tão comigo!! ehehehehehee
lá tem uma de suas histórias mais clássicas... o que o Mãos é policia no Rio de Janeiro... incrivel! muito melhor que Tropa de Elite!!!!

Tem o delegado Jesus que controla tudo...

as putas, as armas, o pó, e o jogo do animal....

heheheheh bom demais!