quinta-feira, julho 31, 2008

POLÍCIA MILÍCIA O Rio de Já-era é a cidade maravilhosa mais perigosa do mundo. Lá, o crime favelado é mais organizado que o Estado, a concorrência do tráfico é a polícia, e os reféns são a população. Mas o que esperar de um lugar onde ex-governadores são acusados de formação de quadrilha?
Segundo a
ONU, o Brasil é o país que mais mata c/ arma de fogo no mundo. São Paulo e Rio são as capitais campeãs, concentrando 42% dos homicídios cometidos em território nacional – de uma média de 43.000 assassinatos/ano, 18.000 acontecem lá. Só p/ dar uma idéia, 8 pessoas entre 15 e 24 anos perdem a vida todos os dias nessas cidades, vítimas de armas de fogo. Nesta faixa etária, a chance de uma pessoa ser morta por tiros é 4,5 vezes maior do que o restante da população. Há 30 milhões de jovens no país, o maior número de toda a história. No entanto, 75% dos municípios brasileiros não oferecem nenhuma alternativa de lazer e cultura, 96% não têm cinema, 86% não têm teatro, e 25% não têm bibliotecas.
Em fevereiro de 2007, os cariocas
André Dahmer e Vinícius Costa criaram o site Rio_Body_Count p/ contabilizar os mortos & feridos na guerra civil do Rio, inspirados no site Iraq_Body_Count. O slogan era: "Não acreditamos em paz vigiada, queremos inclusão social". Após alguma repercussão na mídia, a página foi retirada da internet. Em seu lugar, surgiu o Rio’s_Police_Body_Count, p/ “chamar atenção (e abrir discussão) p/ o número preocupante de profissionais de segurança pública que morrem vitimados pela violência no Rio de Janeiro. O policial, em quem muitas vezes é depositada a responsabilidade pelo quadro de insegurança que se instalou no estado, é, antes de tudo, também uma vítima do mau a que se destina combater”, escreveu o PM Alexandre de Sousa no editorial. O site PE_Body_Count registra os homicídios em Pernambuco, um dos estados mais violentos do país. Até o fechamento deste texto, o mês de julho registrava 313 corpos.
NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR*A chance de um brasileiro morrer por arma de fogo é 3 a 4 vezes maior do que a média mundial. Nos últimos 20 anos o número de brasileiros assassinados aumentou 237%. E nos últimos 2 meses, quem mais se destacou na contabilidade da carnificina foi a PM-RJ, mostrando total despreparo e medo na hora de atuar, atirando p/ matar em uma série de operações desastrosas, nas quais os principais alvos foram civis inocentes – incluindo mulheres e crianças.
Em um determinado momento, a minha geração de oficiais acreditou que a gente podia ganhar a guerra. Que operações noturnas, c/ alto grau de letalidade, c/ enfrentamento aos traficantes, poderiam inverter o jogo no Rio de Janeiro, mudar o que a gente vê. O que acontece é que depois de 2 anos, o oficial começa a perceber que essas operações são uma grande besteira. Que você subir na favela de madrugada, trocar tiro c/ traficante p/ apreender 100g de cocaína, 2 pistolas e 1 metralhadora, quando na verdade aquela favela tem 50 metralhadoras, 50 fuzis, 50 traficantes... Você começa a perceber que está enxugando um grande gelo...”, afirma o ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, autor do livro A Elite da Tropa e um dos roteiristas do filme Tropa de Elite. Rodrigo deixou a corporação em 1999, desiludido c/ o sistema.
Em entrevista ao
Jornal do Commercio, de Recife (14/10/2007), ao ser perguntado se há diferença entre “assassino” e “assassino de bandidos”, Pimentel declarou: “(...) Se existe um assassino do bem e um assassino do mal, eu diria que quem mata sem ódio, quem matou bandido acreditando que estava fazendo um benefício p/ a sociedade, na pura ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu não chamaria essa pessoa de assassino.” Acompanhe os últimos fatos e tire suas próprias conclusões:
15/06 – Corpos de 3 jovens são encontrados num aterro sanitário do Rio de Janeiro, c/ mutilações e várias outras evidências de tortura. Descobre-se que eles (Marcos Silva, 17, Wellington Gonzaga, 19, e David Florêncio, 24) eram moradores do Morro da Providência e foram entregues a traficantes da favela rival, a da Mineira. O detalhe: quem os entregou foram militares do Exército que estão ocupando a Providência por causa das obras do Cimento Social, projeto eleitoreiro do bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal, candidato a prefeito. O comandante da patrulha era o tenente Vinicius Ghidetti, 25, o cara que entregou os moleques aos leões. Marcos, Wellington e David foram presos por engano quando desciam o morro. Iam p/ uma festa.

16/06 – O carro da engenheira Patrícia Amieiro Franco, 24, é encontrado na beira de um rio, na Barra da Tijuca, c/ buracos na carroceria, fragmentos de bala em seu interior, e o vidro dianteiro destruído por uma pedra de 10kg. O corpo de Patrícia nunca foi encontrado. A perícia acredita que o crime foi cometido por policiais militares durante uma falsa blitz – Patrícia estava c/ a habilitação vencida e teria tentado furar o bloqueio. A pedra no carro seria uma tentativa tosca de maquiar a execução da garota. O caso continua sem solução.

05/07 – O carro da advogada Alessandra Soares é fuzilado por 2 PMs. 3 tiros acertam o garoto João Roberto, de 3 anos, que morre instantaneamente. Havia ainda uma criança de 9 meses no interior do veículo no momento da execução, que por sorte não foi atingida. Os policiais confundiram o carro da advogada (um Palio Weekend grafite) c/ o de bandidos que eles perseguiam (um Stilo preto). “Não consigo perdoar”, desabafou o pai de João, Paulo Roberto, após a missa de 7º dia do menino. “Queria ter ido às manifestações gritar o nome do meu filho, mas tenho uma ferida aberta, que ainda sangra. Eu preciso me tratar para seguir com meu outro filho, que está vivo por um milagre”, disse à imprensa ainda emocionado.

14/07 – O administrador de empresas Luiz Carlos Costa, 35, é assaltado enquanto dirigia seu carro de volta p/ casa. Vítima de seqüestro relâmpago num primeiro momento, acaba vitimado definitivamente por disparos desferidos de dentro da viatura da PM que perseguia o ladrão. Durante a remoção dos corpos p/ uma ambulância, uma equipe do SBT flagra a brutalidade c/ que os policiais retiram os mortos – entre eles o inocente Luiz Carlos – , puxando-os pelas pernas, jogando-os no chão e carregando-os sem uma maca sequer (Costa ainda respirava).
"A polícia agiu corretamente", disse o secretário de estado de Segurança, José Beltrame. Mesmo pressionado pela opinião pública, ele garante que não irá mudar os procedimentos de abordagem: "Qual a polícia do mundo que recebe tiros e não reage? E não peçam para a polícia não reagir. A sociedade não quer que a polícia leve tiros e ela não quer levar tiros. O que ocorre é que os criminosos estão habituados há décadas a darem tiros por muito menos que isso e sempre vão dar tiros na polícia. Se essas pessoas tivessem acatado a ordem da PM de parar e fazer c/ que a polícia fizesse a abordagem como está treinada para fazer, nada disso teria acontecido."
O major Fábio Souza, chefe de instrução do Bope, discorda: “A instrução é clara: o policial militar não deve atirar em um carro durante uma abordagem ou perseguição policial se ele não conseguir identificar quem está dentro do veículo. É protocolo. E se tiver uma pessoa seqüestrada dentro dele? Mesmo que a pessoa atire contra você, não deve haver revide. Ou você se abriga, ou pára a perseguição e pede reforço pelo rádio. Você atira quando está vendo efetivamente o alvo, ou seja, o marginal que está atirando em você. Aí você atira." A declaração do major causou constrangimento entre as autoridades. De novo, Beltrame: "Ninguém autoriza nem autorizará ninguém a matar. O que provocou esses episódios foram bandidos, foram criminosos, acostumados há décadas a usarem, a portarem armas a hora que quiserem e onde quiserem. Ninguém está dando carta branca p/ matar."

16/07 –
Um curso de reciclagem p/ 22 homens é improvisado no 3º BPM, Méier, zona norte. Ministrado pelo major Fábio Souza, o treinamento foi dividido entre uma palestra sobre o “uso seletivo da força” e prática de técnicas de abordagem de veículo. O curso durou 3 horas.
Ao longo do mês, mais gente morreu na mão da PM carioca: Ramon Fernandes, 6 anos, na favela do Muquifo durante perseguição a traficantes; William de Souza, 19, confundido c/ criminoso por policiais do 14º BPM - Bangu (William era cantor gospel); Daniel Duque, 18, baleado por um segurança de boate (PM fazendo hora extra) em Ipanema; Brian Alves, 8 anos, atingido na cabeça dentro de uma lan house durante operação de polícia na Cidade de Deus...
Nessa guerra não há vencedores. No dia 17, um sargento e um cabo da PM foram assassinados na Lagoa Rodrigo de Freitas, e um outro sargento, reformado, foi perseguido em sua moto por 6 homens e metralhado no subúrbio do Engenho da Rainha. Durante uma solenidade de entrega de novas viaturas, o governador Sérgio Cabral caiu na real: “Que cidade é essa? Inocentes morrem, e policiais são metralhados. Que cidade é essa? É a cidade que nós queremos?

21/07 – O deputado estadual Natalino Guimarães (DEM) é preso em casa após troca de tiros c/ a polícia em Campo Grande, zona oeste.
Outros 5 homens foram presos c/ ele. Natalino, ex-inspetor, fora expulso da Polícia Civil apenas 10 dias antes da operação que o levou sob custódia. Junto c/ o irmão Jerônimo, ele é acusado de chefiar a milícia conhecida como “Liga da Justiça”. Milícias são organizações paramilitares compostas por civis. No Rio, esses grupos disputam o controle das favelas e comunidades carentes c/ o tráfico. Funcionam como a máfia: expulsam os traficantes e passam a cobrar taxas por serviços como gás, luz e principalmente segurança.
As milícias têm utilizado candidatos próprios impostos à força aos moradores das comunidades dominadas por eles. Afinal, esses “currais eleitorais” significam nichos de até 500.000 eleitores em potencial. Estima-se que, somente na zona oeste do Rio de Janeiro, esses grupos tenham faturado R$ 17 milhões em 2007.

24/07 – Em outra operação, a Polícia Civil desmonta um esquema de apoio ao candidato a vereador Luiz Cláudio de Oliveira, o
Claudinho da Academia (PSDC), presidente da Associação dos Moradores da Rocinha. Documentos apreendidos na casa de uma das mulheres do chefe do tráfico no morro, Antônio Lopes, o "Nem", revelam diretrizes p/ a comunidade: “Todo empenho p/ o candidato da Rocinha. Não aceito derrota! Ninguém trabalhando p/ candidato de fora. (...) Convidar os amigos que ‘trabalha’ p/ outro político p/ a próxima reunião. Quem faltar vai mandar buscar. (...) Pedido do candidato da Rocinha não pode ser negado em nenhum segmento (vans, mototáxi, etc.).
Nas cobranças feitas por Nem a líderes comunitários, o traficante reclama do maior comerciante de gás da favela, Gonçalo Evangelista, que não estaria apoiando nenhum candidato, além de abandonar a Associação dos Moradores sem avisá-lo. Na ata de reunião, Nem decreta: “Romper c/ gás”.
Diante das evidências, a conclusão do governador Sérgio Cabral: “Esses episódios mostram que a criminalidade do Rio é algo absolutamente grave, que nós temos que enfrentar e nós vamos continuar enfrentando. Quem acha que pode enfrentar bandidos fortemente armados c/ fuzis, c/ granadas e c/ discurso, está equivocado.
UPDATE
"Diz aí Adolfo, onde a PM não é assassina?", perguntou-me um amigo por e-mail, quando eu contei que estava escrevendo uma matéria sobre a polícia carioca. No último domingo, 27/07, o brasileiro André Martins, 25, morreu assassinado pela polícia de Massachusetts (EUA) ao tentar furar uma blitz. André, que estava c/ a namorada no carro e trabalhava como jardineiro na região de Cape Cod, já tinha sido preso por dirigir sem licença. O autor dos disparos foi o policial Chistopher Van Ness, 34. Segundo Van Ness, o brasileiro tinha um "cigarro de maconha" na boca. “Eles estão tentando arrumar uma desculpa p/ o que fizeram, mas eles não tinham nenhum motivo p/ atirar nele”, diz Camila Campos, namorada de Martins. “Até americano corre da polícia quando está sem documento.

BLOG ALTAMENTE RECOMENDADO: Rasura Livre, do cartunista Leonardo - a série de charges "Arquivo Moribundo" resume tudo o que foi dito aqui.

*NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR (1999), João Moreira Salles e Kátia Lund:

http://br.youtube.com/watch?v=K9TS_N2YbZ4

2 comentários:

Matias Maxx disse...

Esta minha cidade é uma merda...

mas eu amo ela mesmo assiM!

espedito disse...

Leia isso, reafirma tudo que você disse:
http://noticias.br.msn.com/artigo.aspx?cp-documentid=10365861