segunda-feira, setembro 29, 2008

AS PERSEGUIDAS Essas 3 garotas israelenses foram presas por rejeitar o serviço militar. Em Israel, todo cidadão é obrigado a se alistar – os homens servem por 3 anos e as mulheres por 2. Omer Goldman, Miya Tamarin e Tamar Katz deviam ter se alistado na última terça, 23/09, mas as meninas chegaram na base militar de Tel Hashomer acompanhadas de uma centena de manifestantes contra a ocupação dos territórios palestinos.
Não pretendo ir p/ o exército em hipótese alguma”, disse Omer à BBC. “Eu me sinto obrigada, moralmente, a recusar. Viajei muitas vezes aos territórios ocupados e vi, c/ meus próprios olhos, o que o exército israelense faz lá, são coisas c/ as quais eu não posso colaborar.
Joe Sacco, cartunista americano que viveu em Jerusalém e na faixa de Gaza por alguns meses entre 1991 e 92, escreveu em sua premiada graphic novel PALESTINA – Uma Nação Ocupada: “Perto de 400 vilarejos palestinos foram destruídos pelos israelenses durante e depois da guerra de 1948... palestinos que fugiram foram declarados ‘ausentes’... suas casas e suas terras declaradas ‘abandonadas’ e ‘não-cultivadas’ e foram expropriadas para assentamento de judeus”. Assim começou a história da prisão de Omer, Miya e Tamar.

1948 foi o ano da criação do Estado de Israel, a partir do Plano de Partilha da ONU, que propunha a divisão daquela região do Oriente Médio em 2 Estados – um árabe e um judeu. A Palestina era domínio da Inglaterra, que coordenou uma ação mundial p/ aprovação do Plano em 1947. A proposta foi rejeitada pelos árabes e a violência eclodiu quase instantaneamente: houve guerras c/ Egito, Síria, Líbano e Jordânia, à medida em que Israel ocupava a península do Sinai [Egito], as colinas de Gola [Síria], o sul do Líbano, a Cisjordânia e a faixa de Gaza.
Israel surgiu a partir das idéias sionistas de Theodor Herzl, filósofo do séc.XIX, o primeiro a sonhar c/ a criação de um Estado judeu na região conhecida como Palestina Histórica: “Teremos que encaminhar a população pobre [sic] para o outro lado da fronteira, gerando empregos para ela nos países vizinhos e negando emprego no nosso próprio país”. Seu principal argumento era a Diáspora – se não estivesse fugindo da escravidão, o povo judeu jamais teria deixado suas terras há mais de 2000 anos. A idéia ganhou força e respaldo c/ o genocídio de 6 milhões de judeus em campos de concentração nazistas na 2ª Guerra Mundial.
Em 1979, Israel assinou um acordo de paz c/ o Egito e retirou-se do Sinai. Em 1994, resolveu suas disputas territoriais c/ a Jordânia por meio de um tratado. Em 2000, retirou a população judia do sul do Líbano, após 18 anos de ocupação. Mas a situação c/ a Palestina não foi resolvida até hoje.
Em 1991, após a 1ª Intifada, a Conferência de Madri tentou a paz através de negociações bilaterais entre representantes israelenses e palestinos – sem sucesso. Em 93, Israel e Palestina assinaram o Acordo de Oslo, que estabelecia um governo palestino autônomo, c/ controle sobre Gaza e Cisjordânia. Atentados a bomba por parte dos palestinos e a continuidade das ocupações israelenses fizeram Oslo dar em nada. Em 2005, depois de mais uma Intifada e 2 anos de trabalho conjunto entre EUA, ONU, União Européia e Rússia, um acordo de paz finalmente foi estabelecido entre os 2 países, c/ o 1º cessar-fogo efetivo: os palestinos pararam de explodir judeus, e Israel esvaziou assentamentos e saiu de Gaza.
A eleição do Hamas, grupo terrorista e partido político cuja carta de fundação prevê a destruição do Estado de Israel, em janeiro de 2006 p/ assumir o controle do Conselho Legislativo Palestino congelou as relações diplomáticas entre as 2 nações. Em março daquele ano, Ehud Olmert assume o posto de 1º Ministro de Israel e aciona operações militares em Gaza e no Líbano, que descambam p/ uma guerra de 34 dias c/ a milícia xiita Hezbollah. Em 2007, Olmert encerra definitivamente o diálogo c/ a Autoridade Nacional Palestina, após Mahmoud Abbas, presidente da ANP, formar um governo independente do Hamas, que assumira o controle da faixa de Gaza.
Território, história e religião são causa e efeito de todos os conflitos em que Israel se envolveu desde sua criação em 1948. “Por causa do ancestral belicismo com os vizinhos árabes, Israel se tornou ao mesmo um Estado laico, religioso e militar. Desde a segunda metade dos anos 70 também é potência nuclear, embora nunca tenha reconhecido isso de forma oficial. Em mais um paradoxo, o mesmo belicismo que assusta é também o mesmo que levou o país a ser uma das pontas de lança da tecnologia mundial”, descreveu o jornal Folha de S.Paulo em uma série de reportagens sobre os 60 anos de Israel, completados este ano.
Jerusalém é uma cidade com poder de fogo, o maior nível de rifle automático no ombro que eu já vi, mas pelo menos os israelenses colocam mulheres no exército, o que melhora a paisagem para uma pessoa com preocupação estética como eu”, ironiza Joe Sacco em PALESTINA, no capítulo “Olho do Observador”: “(...) eu colocaria as mulheres israelenses numa posição bem alta entre as mais bonitonas do mundo... e de uniforme – particularmente aqueles pulôveres verde-oliva – elas são inigualáveis... Sempre que posso, e não consigo evitar, subo a rua Jaffa para dar uma olhada nas oficiais adolescentes... basicamente só para lembrar de como estou envelhecendo.” Sacco não é uma exceção machista. A edição de julho da revista masculina Maxim estampou em sua capa - e no recheio - 5 beldades estonteantes, ex-soldados do Exército de Israel. A reportagem perguntava: "Será que as mulheres das Forças de Defesa de Israel são os soldados mais sexy do mundo?". Deputadas do Knesset [o Parlamento israelense] acusaram o governo de promover uma "campanha pornográfica" e incentivar o turismo sexual no país.
Segundo Gabriel Castellan, porta-voz do Exército israelense, o número de jovens que se recusam a prestar o serviço militar obrigatório por razões políticas é pequeno, mas tem aumentado nos últimos 2 anos – em 2005 foram 57 casos, ano passado, 72. E a quantidade de adolescentes liberados também vem aumentando – em 2003, a porcentagem dos homens que não prestaram serviço era de 22%, e entre as mulheres, 35,6%; em 2008, o percentual foi de 27,7% entre os homens e 43,7% entre as mulheres. O principal motivo p/ a liberação é quase sempre a religião. Homens que comprovam estudar em seminário rabínico são liberados, e mulheres que se declaram religiosas ortodoxas também são isentas. Outras razões são problemas de saúde, antecedentes criminais e residência no exterior. Quem se recusa voluntariamente a servir é acusado de “covardia” e “traição.
A população, em sua maioria, apóia as prisões de jovens que se negam a prestar o serviço militar, considerado quase “sagrado” em Israel. “Os israelenses estão cansados de pedir desculpas pelos territórios ocupados! Aconteceu uma guerra! Nós ganhamos a terra na guerra! É a nossa terra!”, diz Naomi, uma garota israelense que Joe Sacco conhece em Tel Aviv: “Sinto muito pelo que acontece com os palestinos, mas os soldados israelenses não atiram em ninguém sem advertir... Primeiro atiram para cima e depois nas pernas (...)”. Bem sutil. A Naomi conclui sua linha de raciocínio assim: “Talvez eu não saiba de tudo que acontece por lá, mas o meu irmão teve que fazer terapia depois que serviu o exército.

Os soldados fazem o que querem, diz ela, entram nas salas de cirurgia sem máscaras, interrogam visitantes, já gritaram com pessoas que estavam doando sangue, já bateram no diretor do hospital”, escreve J.S. no capítulo “Vamos Lá Doutor”, sobre o depoimento de uma médica palestina. E não é só isso. O Exército israelense usa várias técnicas de tortura contra prisioneiros palestinos, e colonos judeus formam milícias em territórios ocupados. Sacco reproduz um diálogo entre um soldado israelense e um palestino que denuncia um ataque à sua casa na noite anterior:
- Não temos poder para proteger judeus nem palestinos, diz o soldado. Olhe, do seu lado existem extremistas e do nosso lado existem extremistas.
- Bem, gostaríamos que seus extremistas fossem punidos como nossos extremistas são, responde o palestino.
As ações do exército só geram mais hostilidade e mais violência, e não quero participar de uma organização que aponta armas contra civis de maneira indiscriminada”, afirma Tamar Katz, a mais gatinha das 3 mártires da causa pacifista. Miya Tamarin tentou ser liberada do serviço militar por “razões de consciência”, como ela mesma definiu p/ a reportagem da BBC: “Há uma semana recebi a resposta negativa do exército e decidi que minhas convicções pacifistas não me permitem participar de uma instituição que é toda baseada na violência.
Essas acusações contra nós, de que queremos ‘tirar o corpo fora’ de nossas responsabilidades são absurdas”, afirma Omer Goldman. Acho que nosso ato de recusar é um ato de responsabilidade social, e espero levar mais pessoas a questionarem a ocupação. Desde pequena estive envolvida em ações voluntárias, e minhas colegas também. Durante o último ano todas nós participamos de projetos voluntários, eu trabalhei na cidade de Yavne em um projeto de educação de crianças etíopes.

O protesto liderado pelas meninas tinha como armas cartazes c/ os dizeres: “Basta de ocupação”, “Não queremos participar, e coisas do tipo. Os cento e poucos jovens rebeldes fazem parte de uma pequena parcela da população israelense descotente c/ a escalada de violência ao longo de décadas. Desde o início da 2ª Intifada, em 2000, mais de 500 soldados e oficiais da reserva abandonaram a carreira militar por razões políticas.
É irônico que a prisão das garotas tenha ocorrido às vésperas de uma mulher tomar posse do cargo de 1ª Ministra de Israel. A chefe da diplomacia israelita, Tzipi Livni, foi a vencedora das primárias do Kadima, partido do poder, e deverá ser a primeira mulher a assumir o posto desde Golda Meir, que governou o país de 1969 a 74. Livni foi tenente do Exército e agente do Mossad [o serviço secreto israelense] dos 22 aos 26; redigiu o programa político do Kadima; e ocupou 7 diferentes cargos durante o governo de Ariel Sharon, antecessor de Ehud Olmert, que deixa o cargo acusado de corrupção. Livni, por sua vez, tem fama de honesta – ao ponto de ser chamada de “Senhora Mãos Limpas” – e era admirada por Sharon por sua “capacidade analítica”. Além disso, sua imagem jovial, c/ cabelos loiros, jeans e tênis dá leveza ao ambiente carregado da política israelense. “Precisamos agir rapidamente. Não temos tempo a perder nos desentendendo sobre política”, disse ela na reunião c/ deputados do Kadima, após sua vitórias nas prévias. “Há difíceis desafios a nós como nação, e o Kadima é o partido que governa o país, e vamos continuar a fazê-lo por muitos anos.
O tom decidido de Tzipi Livni é o que os israelenses gostam de ver em seus governantes. Semana passada, Paul McCartney fez um show inédito em Tel Aviv. Na coletiva à imprensa, ele disse que foi a Israel p/ “dizer que precisamos de paz nesta região e de 2 Estados. Trago uma mensagem de paz e penso que a região precisa disso”. É aí que Paul se engana. Os israelenses não querem 2 Estados, os palestinos também não. A diferença é que Israel tem mais poder de fogo, e pune severamente quem pensa diferente.
Omer Goldman não sabe quanto tempo passará na cadeia: “Tenho medo, outros jovens que se recusaram já ficaram 2 anos na prisão, espero que não fiquemos tanto tempo. Por enquanto, todos os meus planos p/ o futuro foram congelados.” Resta esperar que Livni tenha bom-senso p/ buscar uma saída diplomática p/ as diferenças c/ os países vizinhos. Ela pode começar libertando Omer, Miya e Tamar, as 3 jovens israelenses presas por protestar. Aê, Tzipi, libera essa mixaria!
Yarden e Gal, ex-soldados israelenses: Faça amor, não faça guerra

domingo, setembro 21, 2008

ESTRÉIA ONTEM

O nome é "Periferia" mas poderia ser "Borracharia". Foto: Detefon
Estreou neste sábado o Periferia, às 15H30, pela Aperipê TV. Anunciei no início do mês que a estréia seria no dia 27, mas a data foi antecipada e o programa já está no ar. A seguir, os principais trechos de uma matéria veiculada nos sites da TV e da ABEPEC:

Novo programa da Aperipê TV dá voz à periferia [19/09]

(...) Apresentado pelo rapper Hot Black, o programa traz a música,
o esporte, a cultura e a realidade das comunidades periféricas. Com um formato moderno e cheio de estilo, o Periferia vai ao ar a partir das 15h30.
Toda semana um entrevistado diferente traz sua experiência com trabalhos sociais desenvolvidos nas comunidades e um DJ convidado fará a trilha sonora do programa com o som que embala as periferias de todo o Brasil. O conteúdo se completa com videoclipes de rap e matérias sobre esporte, arte e tudo o que envolve as comunidades.
Segundo o diretor do Periferia, Adolfo Sá, o programa dará oportunidade àqueles que nunca tiveram vez na TV. “A idéia é mostrar a produção do subúrbio, da periferia, dos bairros mais pobres, que geralmente não têm acesso a grandes investimentos culturais e nem o direito de mostrar essa produção para fora. O programa pretende mostrar o talento de quem é excluído da grande mídia, fomentando, assim, a cultura nos bairros mais carentes”, afirma o diretor.
Hot Black, que também apresenta o programa Império Periférico na Rádio Aperipê FM 104,9, aos domingos, das 16h às 18h, explica que um dos objetivos do programa da Aperipê TV é provocar nas pessoas que vivem nas comunidades periféricas o interesse por sua própria realidade. “A gente quer reforçar que a comunidade é responsável por sua formação e dar visibilidade ao sucesso de gente da própria comunidade.
O Periferia quer que a comunidade se perceba e tenha orgulho do lugar onde mora e das pessoas que vivem ali mostrando que elas são pessoas capazes como qualquer outra”, afirma ele.
ESTRÉIA
No programa de estréia do Periferia, a psicóloga Fátima Lopes conversa sobre a redução da maioridade penal e o DJ Léo Levi traz o ritmo da música negra. Hot Black também apresenta duas matérias com exemplos de sucesso e talento saídos da periferia. O skatista Cara de Sapo conta como venceu e o que já conquistou nesse esporte ainda estigmatizado, e o grupo Mente Armada mostra que é possível fazer música superando as adversidades.


Estou preparando um novo blog junto c/ meu parceiro Marcão, onde viabilizaremos vídeos c/ os principais trechos dos programas exibidos, como este clip do skatista Fabrízio Santos, o "Cara de Sapo", nascido em Riachuelo [interior de Sergipe] que hoje mora nos EUA e é um dos principais nomes do skate mundial. As imagens foram feitas por Júlio Detefon, Hot Black e Fábio Galinha, no Cara de Sapo Skate Park, um dos melhores do Brasil, localizado na praia de Atalaia. A montagem é minha e a trilha é do RZO:
video

sexta-feira, setembro 19, 2008

CONFESSO QUE BEBI
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Jaguar é um clássico. Não estou falando do carro esporte, e sim de Sérgio Jaguaribe, um dos maiores cartunistas do Brasil, sócio-fundador do jornal O Pasquim, autor dos livros Átila, Você É Bárbaro; Ipanema, Se Não Me Falha a Memória e Confesso Que Bebi.
Nascido em 1932 e ainda na ativa [faça as contas], Jaguar fundou O Pasquim em 1969, auge da ditadura, após reunir-se c/ os jornalistas Sérgio Cabral e Tarso de Castro. A idéia era substituir o tablóide humorístico A Carapuça, de outro Sérgio, o Porto, tb conhecido como Stanislaw Ponte Preta. O nome “pasquim” significa “jornal difamador, folheto injurioso”, segundo o Aurélio, o dicionário: Terão de inventar outros nomes p/ nos xingar, disse Jaguar ao final da reunião. O símbolo do jornal era o ratinho Sig, inspirado em Sigmund Freud, ou melhor, em uma anedota sobre o pai da psicanálise: “Se Deus criou o sexo, Freud criou a sacanagem”.
O Pasquim arregimentou as melhores cabeças da esquerda festiva dos anos de chumbo: Ziraldo, Henfil, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Ruy Castro, Paulo Francis e Fausto Wolff, entre outros [Claudius, Prósperi, Fortuna, Sérgio Augusto, Carlos Leonam etc.]... Nesse tempo, vigorava a lei da censura prévia aos órgãos de imprensa, e 1 ano após a criação do jornal a redação inteira foi presa por ter publicado uma sátira ao famoso quadro de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, de autoria do pintor Pedro Américo. A turma passou 3 meses encarcerada. A intenção dos militares era tirar o jornal de circulação, mas Millôr, que escapara da batida, tocou o projeto c/ colaborações de Antônio Callado, Chico Buarque, Glauber Rocha e Rubem Fonseca, entre outros.
As prisões continuaram ao longo da década de 70, até que no início dos 80 os milicos adotaram outra estratégia: bancas que vendiam O Pasquim passaram a ser alvo de atentados c/ bombas. Metade dos pontos de venda na cidade do Rio parou de repassar o tablóide, temendo represálias. O jornal resistiu até o início dos anos 90, mesmo após a saída da turma mais jovem, que injetara um novo humor na publicação – Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva fundaram O Planeta Diário, que viria a se tornar o humorístico televisivo Casseta & Planeta.
Jaguar foi o único membro do staff a permanecer do início ao fim: “Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. (...) Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas não, fiquei lá, morando numa redação, domindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco”, disse ele à jornalista Sylvia Colombo em uma entrevista p/ a Folha de S.Paulo, ano passado.
NINGUÉM É PERFEITO
Após passar a vida inteira na pindaíba, pendurando contas nos botecos da zona sul carioca, Jaguar finalmente passou a colher alguns bons frutos da sua boemia, seu humor fino e seu traço vagabundamente genial. Em 2006, a editora Desiderata lançou O Pasquim – Antologia 1969-1971, compilação feita por ele e Sérgio Augusto de matérias e entrevistas das 150 primeiras edições do semanário. O livro virou best-seller e motivou o lançamento de um 2º volume, no ano seguinte, cobrindo o período de 1972 a 73.
Também em 2006, a Elma Chips lançou a linha de salgadinhos Opa!, voltados p/ o público adulto, e contratou nosso herói p/ desenhar alguns cartuns na embalagem. Os salgados foram criados p/ serem consumidos como aperitivos p/ cerveja. Jaguar criou um garçom voador: “Escolhemos um dos mais famosos cartunistas brasileiros p/ criar um ícone da marca. Jaguar desenvolveu um garçom num formato muito criativo e simpático, que apresenta grande identificação c/ o conceito de roda de amigos”, comentou Eduardo Garofalo, VP de marketing da Pepsi Co., proprietária da Elma Chips.
Em 05 de abril deste ano, Jaguar e outros 20 jornalistas perseguidos durante a ditadura militar tiveram seus processos de anistia aprovados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Ele e Ziraldo receberam as maiores indenizações: 1 milhão de reais cada. E no início deste mês, foi lançado Ninguém É Perfeito pela Desiderata, livro originalmente publicado na Argentina há mais de 30 anos c/ o título Nadie Es Perfecto. A história é a seguinte: Jaguar estava bebendo no Lamas quando foi abordado por um editor argentino, interessado em lançar uma coleção de livros de cartunistas latino-americanos. O ano era 1972. Jaguar levou-o à redação d’O Pasquim, entregou-lhe “um monte de desenhos” e 2 meses depois embarcava p/ Buenos Aires, p/ a noite de lançamento, onde deu autógrafo até p/ o Quino, criador da Mafalda.
Após a surreal entrevista de Fausto Wolff p/ a F., tenho a honra de reproduzir aqui a entrevista de Jaguar p/ a Folha. C/ vocês, o homem, o mito, o bebum:
FOLHA - Como anda o cartum?
JAGUAR
- O cartum é uma espécie em extinção. Tem muita gente publicando história em quadrinhos, charges, caricaturas. Não é a mesma coisa. Sou cartunista, mas sobrevivo fingindo que sou chargista. Se não, não pago as minhas contas.
FOLHA - Qual é a diferença essencial entre cartum e charge?
JAGUAR
- Simples. Por exemplo. Hoje fiz uma charge sobre a visita do Bush. Desenhei o Lula chamando o Bush, que está indo embora do quadrinho. Só aparecem os pezinhos dele. Lula estica o dedo e chama: "Ei, ô companheiro, e a saideira?". Isso é uma charge. Uma piada que, daqui a cinco anos, ninguém vai entender, porque é
em cima de uma circunstância.
FOLHA - E o cartum?
JAGUAR
- É um troço que você faz sobre assuntos que daqui a 20 anos qualquer um entenderá. Um exemplo clássico, uma piada qualquer sobre o 'Ricardão dentro do armário'. Todo mundo sabe do que eu estou falando. Piadas sobre vida conjugal, sexual, todo mundo entende. Em qualquer época. Já piadas em cima de fatos políticos momentâneos vão ficando incompreensíveis.
FOLHA - E por que o cartum está em extinção?
JAGUAR
- Porque ninguém mais publica. Eu não tenho onde publicar. De vez em quando emplaco um cartum. Mas tem de ser disfarçado de charge. Se não for assim, não passa.
FOLHA - O mundo está se desinteressando do humor?
JAGUAR
- Pelo menos deste formato de humor, sim. Tanto que revistas no mundo todo estão desaparecendo. A única que ainda publica cartum de verdade é a The New Yorker.
FOLHA - Há uma nostalgia excessiva com relação a O Pasquim? As pessoas romantizam demais essa época?
JAGUAR
- Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o que vou fazer amanhã. Mas as pessoas ficam com esse papo: ‘Ah, no tempo do Pasquim’. É uma bobagem, coisa de velho gagá. Como se tivesse sentido existir O Pasquim até hoje.
FOLHA - Quando lê os jornais, vê a influência d'O Pasquim?
JAGUAR
- Os jornais mudaram muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não fosse por um lado, seria pelo outro. As coisas já estavam em transformação.
FOLHA - Mas você escreveu que, c/ O Pasquim, a imprensa tirou o paletó e a gravata.
JAGUAR
- É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O Pasquim deu certo porque as pessoas se identificaram. Por outro lado, posso dizer que quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.
FOLHA - Como assim?
JAGUAR
- A gente tinha feito uma entrevista com o Ibrahim Sued. Fomos eu, o Tarso de Castro e o Sérgio Cabral. Mas depois todo mundo sumiu.
FOLHA - Sumiu?
JAGUAR
- Sim, sumiu. Éramos um bando de porra-louca. Os dois foram para a farra e eu tive de tirar a entrevista sozinho. Só que eu não sou jornalista e não sabia fazer isso. E deixei o texto com o jeito coloquial mesmo. Virou nosso ‘estilo’.
FOLHA - E pegou na hora?
JAGUAR
- Não. Demorou. Os jornais resistiram a adotar o tom coloquial. Só depois que a publicidade começou a usá-lo é que a imprensa foi atrás. Mas hoje já acho que essa fórmula se esgotou.
FOLHA - Por quê?
JAGUAR
- Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de um entrevistado que não tinha chance de abrir a boca. Passava um aperto danado. Depois que a coisa pegou, a imprensa começou a usar essa fórmula, só que para levantar a bola do entrevistado. Aí perdeu a graça.
FOLHA - Até quando, então, você acha que o Pasquim justificou a sua existência?
JAGUAR
- O Pasquim foi uma experiência muito divertida, mas eu poderia tê-la diminuído em dez anos. Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal perdeu a influência, a tiragem era pífia. Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas, não, fiquei lá, morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco.
FOLHA - Dá para viver de cartum?
JAGUAR
- Não. Eu trabalhei 17 anos no Banco do Brasil. E nunca faltei nem um dia. O banco foi fundamental. Não só pela grana, mas porque me ensinou a ser profissional. Sou um porra-louca, bêbado, alcoólatra, um monte de coisa. Mas nunca faltei no trabalho. Também nunca deixei de entregar um desenho no horário, no dia certo. Isso eu devo ao banco.
FOLHA - Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?
JAGUAR
- Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez anos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia. Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gente passa um pouco, leva pito. Eu não levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: ‘Ah, é o Jaguar, deixa ele’.
Folha de S.Paulo, Caderno Ilustrada, 13 de março de 2007

domingo, setembro 14, 2008

E POR FALAR EM SAUDADE... 1 ano sem Nando. Esta foto foi um dos últimos registros dele, tirada na porta da cozinha lá de casa, c/ Gil, minha namorada, e minha mãe, Ana, a seu lado. Elas duas gostavam muito dele. E ele, bom, acho que ele gostava de todo mundo.
Dia triste...

quarta-feira, setembro 10, 2008

O LOBO SACIADO E A OVELHA

"Um lobo saciado viu uma ovelha que jazia por terra. Achando que ela tinha desmaiado de medo, ele se aproximou e a acalmou dizendo: - Dize-me 3 coisas verdadeiras e te deixarei partir. A ovelha respondeu: - Eis as 2 primeiras: gostaria de não ter te encontrado, ou, se encontrasse, que estivesses cego. Quanto à 3ª, ouça bem: que a morte te carregue, a ti e a todos os lobos que atacam sem piedade pobres ovelhas. O lobo, achando que ela havia dito a verdade, deixou-a ir embora. Assim é a força da verdade, mesmo se dita a nossos inimigos.
[Fábulas, Esopo]
Esopo foi um escravo liberto que viveu na Grécia do séc.VI a.C.. Feio, pobre e corcunda, destacou-se da plebe e tornou-se um dos nomes mais influentes da cultura grega graças à sua sagacidade: bom de lábia e ligeiro no raciocínio, criou centenas de fábulas onde os personagens eram animais, mas cujo final sempre tinha uma moral. Dizem que costumava usar seu dom p/ ironizar seus detratores. Acabou influenciando Heródoto, Aristófanes e Platão, entre outros filósofos gregos. “Literatura é ‘cojones’”, já dizia Fausto Wolff.

O VELHO E O MAR

Mês passado o Brasil chorou a morte de Dorival Caymmi. As 2 coisas que mais me lembram o Caymmi são aquele longa-metragem do Pato Donald, em que ele vai à Bahia levado pelo Zé Carioca, e uma tirinha da série Histórias de Amor, do Angeli – CENA: casal namorando na praia. ELE: - O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito. ELA: - Que merda! ELE – É do Caymmi. ELA: - Ah! Que lindo!..
Caymmi foi o responsável pelo sucesso internacional de Carmen Miranda, que estourou na gringa ao gravar “O Que É que a Baiana Tem”. Espécie de cânone nacional, Dorival representou muito bem o Brasil lá fora e cantou a Bahia c/ canções melodiosas e imortais – ao contrário de hoje em dia, quando as bandas baianas são barulhentas e descartáveis... Famoso pela preguiça, compôs 80 canções em 80 anos de carreira [uma média de 1 música por ano], e tornou-se um dos pilares sobre os quais se ergueu a MPB, o que depõe mais contra do que a favor. Vão desculpando a ignorância, mas eu não sou o tipo de cara que tem paciência p/ ouvir um disco dele até o fim. O Caymmi gostava de cantar “Boi da Cara Preta”. Suas músicas me fazem dormir.
Chorei mesmo a morte de outros velhotes batutas. Não que eu tenha chorado, de derramar lágrima. Malandro não chora, malandro baixa a bola... E as músicas de Isaac Hayes eram pura malandragem. Seu teclado foi uma das bases da black music dos anos 70, quando se tornou o 1º artista negro [“afroamericano”, como preferem os politicamente corretos] a levar um Oscar de trilha sonora, c/ o tema do filme Shaft. Vestia-se como um super-herói de revista em quadrinhos, e nos anos 90 voltou a se destacar fazendo a voz do personagem Chef, do desenho South Park, ao mesmo tempo em que bandas tão diferentes quanto Portishead e Racionais MCs sampleavam suas batidas. Morreu no dia 10 de agosto, em sua casa em Memphis, Tenessee.Por falar em desenho animado, no início do mês [02/09] também se foi Bill Meléndez, desenhista profissional de animações por 7 décadas. Começou em 1938, nos estúdios Disney, trabalhando no seriado do Mickey e em clássicos do cinema, como Pinóquio e Fantasia. Mexicano radicado no oeste americano, Meléndez ficou mais conhecido nos EUA como a voz do cachorro Snoopy. Amigo do criador da personagem, Charles Schulz, foi o único animador do mundo a ter permissão p/ transpor as tirinhas p/ a TV. Um gênio.

WALDICK SEMPRE WALDICKDepois foi a vez de Waldick Soriano, cantor baiano ícone do brega nos anos 70/80. Chegou a São Paulo na década de 50, fugido de sua cidade natal, Caetité, após se envolver c/ uma mulher casada e ter a cabeça posta a prêmio pelo corno. Antes de engrenar a carreira de cantor, foi lavrador, engraxate e garimpeiro. Emplacou seu 1º sucesso em 1960 – “Quem És Tu” – , chamando a atenção da mídia pelo visual agressivo p/ a época: grandes óculos escuros, roupas sempre negras [no melhor estilo Johnny Cash], e chapéu de caubói.
Cantor de boleros de dor-de-cotovelo, foi censurado nos anos 70 c/ a canção “Tortura de Amor”, porque a ditadura não permitia o uso da palavra “tortura”. Boêmio e namorador, teve uma dezena de esposas ao longo da vida e lançou 28 discos, c/ títulos sugestivos como Ninguém É de Ninguém [1960], Eu Também Sou Gente [1972] e Segue o Teu Caminho [1974]. Seu maior hit é a clássica “Eu Não Sou Cachorro Não”, dos anos 80, que todo mundo sabe cantar até hoje. Não que eu vá ouvir um disco inteiro dele, mas há que se respeitar o homem por seu estilo.
Soriano passou as décadas seguintes no semi-ostracismo. Foi resgatado ano passado c/ o documentário Waldick, Sempre no Meu Coração, dirigido pela atriz Patrícia Pillar. Na seqüência, foram lançados o CD e o DVD Waldick Soriano – Ao Vivo, gravados numa apresentação recente do cantor, já debilitado e quase cego. Há 2 anos vinha lutando contra um câncer de próstata, até o último dia 04, quando pediu a saideira e fechou a conta.
No dia seguinte, morreu Fausto Wolff.

O ACROBATA PEDE DESCULPAS E CAI
Pescador de sardinha no norte do Atlântico até os 35 anos, Wolff chegou a passar 6 meses em alto-mar. Era a versão brazuca do Hemingway – um aventureiro que escrevia c/ muito estilo. Só que Fausto batia mais: “Levar porrada eu nunca levei não... levei na cadeia... mas na cadeia você dá e leva... mas como você está preso você acaba levando mais do que dá”, disse ele ao staff da revista F. em uma entrevista há 2 anos. Um outro escritor durão, Norman Mailer, era pugilista e amigo de Mohamed Ali, mas Mailer, peso médio, não duraria muitos rounds contra Wolff, peso super-pesado. O marinheiro tornou-se um grande escritor depois de abandonar o navio [grande ele era, mesmo que não fosse escritor]. Jornalista, poeta, romancista, professor, ex-crítico de teatro, ex-diretor da Rede Globo, ex-editor d'O Pasquim junto ao cartunista Jaguar [de 1978 a 88], há décadas assinava uma coluna de humor, política e crônicas no Jornal do Brasil. Durante muitos anos, manteve 2 colunas simultâneas – a sua e a de seu alter-ego, Nataniel Jebão: “Meu sucesso se deve ao fato de eu ser bonito, rico, culto, bem-dotado e gostar de mulher. Mulher é bom, mas é preciso ir com calma. Em primeiro lugar é necessário que ela não tenha pênis. Se tiver, já imaginou a humilhação do leitor ao descobrir que o dela é maior do que o seu. Também não pode ser escocês nem padre. Se não tiver pênis, não for escocês nem padre, o leitor pode ir em frente porque é bom.[“Nossa Sociedade”, F#4].
Allan Sieber, Leonardo, Arnaldo Branco e André Dahmer gravaram uma conversa c/ Wolff em seu apartamento, regada a muito uísque. Foi um massacre. Garotos da zona sul carioca entrevistando um bardo gordo, velho, bêbado e mal-humorado, não tinha como dar certo... O título da matéria, publicada na 4ª edição da revista, foi “Medo e Delírio em Copa” mas poderia ser “As Ovelhas no Covil do Lobo”, como numa fábula de Esopo. O “alemão” só aliviou o lado do Sieber, outro sujeito cascudo: “(...) vou falar uma coisa definitiva pra vocês: literatura é sinceridade. Literatura é ‘cojones’. Literatura é a capacidade de se olhar no espelho. Só depois vem o estilo. Só depois vem o escrever bem. Aqui de vocês, infelizmente, eu só tenho o exemplo do Allan. Você lembra o que eu escrevi sobre o ‘Preto no Branco’? Aquilo é absolutamente sincero. Porque você vê que o cara que fez aquele humor levou todas aquelas porradas que ele disse.O maior orgulho da vida de Fausto Wolff foi ter comido a Brigitte Bardot, na clássica temporada da atriz francesa no Brasil, anos 60: “Eu namorava uma moça que era socialite e fui em uma sexta de tarde pra Búzios. (...) e eu fui à praia... eu tinha 23, 24 anos e lá está aquela mulher nua, maravilhosa, vou lá e converso com ela, porra, os cornos da Brigitte Bardot, eu como, ela vai pra um lado, eu vou para o outro (...). Vou pra casa, eu estava com a minha namorada e dizem ‘ih, rapaz, sabe que hoje tem uma festa pra Brigitte Bardot’? (risos)”. C/ vocês, alguns trechos de Fausto Wolff na F.... Depois desta entrevista, a revista acabou:
(...) André Dahmer: Você acha que está difícil fazer humor no Rio de Janeiro? Que o carioca não está preparado para rir da situação atual?
Fausto Wolff: Eu vou explicar pra vocês, porque eu sou jovem há mais tempo do que vocês (risos). E eu já cansei de escrever isso, eu vou dizer mais uma vez: hoje você pode fazer o que quiser com o povo brasileiro. Vai chegar um momento daqui a dez, vinte, trinta anos em que isso não vai ser possível, mas isso não vai ser por causa da educação. Vai ser porque o povo vai estar tão acuado que ele vai começar a morder.
AD: É um estado de calamidade pública mesmo...
FW: Tá entendendo? Mendigo vai te dar uma mordida na mão.
(...) Arnaldo Branco: Como você consegue, as colunas,os romances, a poesia, muita produção...
FW: Porque eu sei escrever e é fácil. Basta você saber o que você tem pra dizer. Eu, por exemplo, já sei o que eu tenho pra dizer pra uma coluna daqui a um mês. Olha, eu disse a vocês, hein: eu não vou pedir cópia!
AD: Mas você vai gostar da entrevista, não vai bater em ninguém, você acha que vai chegar aqui e bater no Allan, que é um cara fraco, pode bater...
FW: Vou bater em você, que é forte (risos)... você sabia que sou campeão mundial de queda de braço? O último cara de quem eu ganhei, vocês todos sabem, foi o Mariel Mariscott (famoso policial truculento que integrava um grupo de elite chamado ‘Homens de Ouro’; foi executado na cadeia).
TODO MUNDO: Do Mariel Mariscott??? Caralho!!!
Leonardo: Quais que você considera suas grandes glórias, ‘tenho orgulho de ter feito isso’...
FW: (desconfiado) Orgulho de quê? (...) Escuta, vocês viram o quanto eu bebi hoje?
AB: Mais do que a gente e estamos bem pior. Somos amadores.
(...) FW: Vocês são uns merdas, então... aquela revista F. que só fala na condicional! ‘Ah, eu poderia, eu faria...’. É, é verdade, vocês são uma revista de merda... Ou você começa matando a pau ou não vai matar a pau nunca!
AB (evidentemente arregando): Concordo! É isso aí! Merdas, nós somos uns merdas!
L: Somos, mas estamos fazendo, ué... (...) a gente é uma mídia impressa, numa época em que não se dá valor a isso.
FW: Você pode explicar isso escrevendo.
L: A idéia da F. é justo o impublicável.
FW: Eu não acho que vocês façam grande coisa a mais do que eu faço no JB. Todo dia eu levo meu limite ao máximo.
L: Mesmo assim não te permitem fazer o máximo que você pode.
FW: Sim, mas eu sei que eu não tenho nada a ver com isso.
L: A gente faz o máximo que a gente pode.
FW: Não. Não é verdade, vocês se autocensuram.
(...) AB: Fausto, a gente está arrumando briga com nossos próprios pares. Não acho que o Miguel Paiva nem o Chico Caruso gostem da F... a gente não topa corporativismo (...) o Ziraldo veio reclamar com a gente.
FW: Eu acho que vocês estão prontos pra entregar essa revista.
L: Discordo. (...) O problema da gente é que a revista é uma coisa arcaica, neguinho não se interessa se pode baixar tudo da internet.
FW: Então vocês têm que pensar um negócio: ‘Onde foi que nós erramos?’
(...) L: E essa da gente disputar espaço em banda de jornal...
FW: Você sabe quantas bancas de jornal tem no Rio de Janeiro?
AB: Quantas?
FW: Vocês não sabem? Então, vocês são uns merdas. Vocês tinham que saber...
AB (irônico): A gente é artista, Fausto...
FW (cagando pra ironia): Ah, ‘artista’... artista dá o cu. Tem que saber quantas bancas, quantas famílias...
(...) L: Ninguém faz isso, Fausto. A gente só sabe fazer revista.
FW: Revista até eu faço.
AB: Nosso nome não tem o seu peso.
L: É inclusive uma honra pra gente te entrevistar...
FW: Cala a boca e escuta. Você é um cara que pensa e sabe. Há uma possibilidade da revista F. existir em todas as bancas: (...) a revista tem que transmitir o medo.
L: Mas ela dá medo.
FW: Não dá, vocês vão se fuder, entrevistam aquele idiota...
L: Mas essa é a idéia, entrevistar um cara totalmente diferente do outro a cada número...
FW: Eu acho que vocês têm que fazer o seguinte, apresentar as coisas como se fosse um grande negócio escrever. Qualquer um, o Rubem Fonseca... vocês têm que ganhar a credibilidade do leitor. Qual foi o primeiro cara que vocês entrevistaram?
L: Cláudio Assis, do ‘Amarelo Manga’...
FW: Fraco. Quem foi o outro?
L: Mr.Catra, o rapper. Você é o 4º; o 3º foi o Diogo Mainardi.
FW: Pois é! É a partir daí que pega... o Diogo Mainardi, eu já disse em uma entrevista, eu se fosse ele já tinha me suicidado (risos). Ah, ele é só um filhinho de papai. Tanto que ele não se mete a me esculhambar (pausa, suspiro). E agora vamos editar essa entrevista.

quinta-feira, setembro 04, 2008

TEASER
Aperitivo da estréia do PERIFERIA na Aperipê TV. Montei o filminho c/ trechos da abertura, de cabeças e matérias, mixando os áudios originais. Evitei usar caracteres p/ não poluir demais a composição e deixar o telespectador curioso - afinal seria um "teaser". A direção da TV optou apenas pela chamada institucional, c/ off, lettering e data do 1º programa (27/09). Como a chamadinha não foi aprovada, vai pro ar aqui mesmo, na TVxLxBx. Como diria o Hot Black, "periferia é periferia em qualquer lugar":
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segunda-feira, setembro 01, 2008

C.B.C.B.’S
CONFRARIA DE BAR CLEOMAR BRANDI
Jornalista gonzo em ação: Homem-Brasa e suas 2 loiras
A profissão faz alcoólatras, jogadores, impotentes, solitários empedernidos ou viciados na gula da mesa e do poder, e, por isso, rodeados de inimigos, detratores e desafetos por toda parte.” A frase é do escritor/jornalista João Antonio, do texto Abraçado ao Meu Rancor, de 1986. Ele se referia ao jornalismo em plena ressaca da ditadura. Do AI-5 à Anistia, não houve liberdade de expressão no Brasil, e jornalistas tiveram que escrever sobre receitas de bolo ou migrar pro teatro e literatura p/ sobreviver.
Hoje a situação é outra, o Brasil vive em regime democrático há 2 décadas e os jornalistas são formados em universidades, ao contrário das gerações anteriores, que vinham das ruas. Diminuiu o número de profissionais frustrados, aumentou o número de jornalistas medíocres. “Os cronistas estão morrendo. Essa é uma notícia fúnebre que eu quero dar. Os cronistas estão morrendo porque as pessoas não estão lendo. Você tem articulistas, pessoas que opinam, mas a sensibilidade de perceber o movimento da vida no dia-a-dia e transformar aquilo de maneira séria, brincalhona, jocosa, mordaz ou amarga, raramente se vê”, declarou Cleomar Brandi em uma palestra p/ estudantes.
Cleomar é o maior jornalista sergipano vivo, apesar de ser baiano. Investigativo, polêmico, boêmio, Brandi é um vinho antigo de uma safra rara: “Transpiro textos, pautas, crônicas, procuro diagramar certinho minha postura profissional. Gosto de chegar às 6 da manhã na redação, de ouvir rádio, de sair fuçando pauta por aí.” Há 33 anos na ativa, já passou pelos principais periódicos e tevês do estado, foi correspondente de revista nacional, e atualmente dirige as redações do Jornal da Cidade e da Aperipê TV, emissora pública na qual eu trabalho.
ANOTA AÍ
Eu também sou jornalista. Nunca ganhei dinheiro c/ isso. Na minha C.T., ‘tá lá: “Editor de imagens”. É o que eu faço. Também dirijo um programa e faço uns quadrinhos, mas ganho dinheiro mesmo editando vídeo. Há 3 semanas, olha só, fui entrevistado por um site local [na verdade, um portal] junto c/ o Cleomar, numa matéria sobre a profissão de jornalista. Alguns dos principais trechos:
Jornalismo: olhar crítico da realidade [por Karinéia Cruz e Raquel Almeida]
(...) Jornalismo é muito mais que a habilidade para levar informação para um determinado público. Na verdade, é o resultado de uma preparação técnica, e principalmente, ética para conduzir a notícia diante dos fatos. Para Cleomar, tem elementos fundamentais que compõem o profissional da área. ‘É preciso ser crítico, entender o mundo, gostar de ler e tentar trazer algo diferente que o clichê encontrado nas redações. Tem que ser teimoso para conseguir uma boa matéria e saber conduzir o impacto social’, diz.
(...) A televisão, visada por boa parte dos estudantes de Jornalismo, tem sido cultivada pela sociedade que preza constantemente o valor pela imagem. O editor de imagens, jornalista Adolfo Sá diz que ‘uma possível explicação é a ilusão de aparecer. E a própria sociedade cultiva isso na função. É uma massagem no ego.’ Esse frisson tem refletido na preferência desse veículo em relação a todos os outros. Brandi diz que ‘o mercado está carente de funções específicas de bastidores, como a de produtor, editor e afins’. O editor Adolfo, que atua no mercado há 3 anos, diz que repórteres e apresentadores são na verdade o resultado final de uma equipe que trabalha intensivamente nos bastidores. ‘Quase 90% dos profissionais, no caso da Televisão, trabalham sem aparecer na linha de frente. Além disso, não basta ter uma boa estampa, tem que ter um bom texto e uma postura como profissional’. Para se manter no mercado, Brandi dá uma dica que é comum a todas as outras profissões: ‘você tem que ser bom no que faz’, diz o diretor. Hoje em dia, no mercado do Jornalismo a pessoa tem que gostar. Em Sergipe, o piso base pago ao jornalista é de R$ 880,00. O jornalista Adolfo Sá conclui concordando. ‘Hoje se faz [Jornalismo] porque é gratificante e prazeroso. Não é uma atividade atrativa quanto a salários’, finaliza.
Pois é, se quiser ganhar dinheiro de verdade, não seja jornalista. Puta honra ser enfocado numa reportagem sobre minha profissão ao lado de um dos pais da matéria, mas as meninas cataram nossos depoimentos em blocos de anotações, escrevendo apenas as palavras principais, mudando muita coisa que a gente falou. “Gratificante”?! Essa palavra não faz parte do meu vocabulário. C/ a tecnologia aí dando sopa – até MP3 tem gravador de voz – essas minas ficam inventando moda. Querem ser roots, anotar no papel como os jornalistas antigos, mas não conseguem fazer 2 coisas ao mesmo tempo: escutar e escrever. Eu atuo no mercado há 3 anos? Esse é só o tempo que eu estou na TV – edito há 5 anos, escrevo há mais de 10.
Nunca gostei de anotar em bloquinho. Ou eu uso um gravador ou escrevo o que vi, ouvi, vivi. Como raramente carrego gadgets, acabei desenvolvendo uma memória flex, à prova [ou na base] de álcool, drogas e acidentes, técnica desenvolvida ao longo de anos de excessos em meio a reportagens. Descobri depois que chamam isso de “jornalismo gonzo”, inventado pelo maluco Hunter S. Thompson, mas falarei sobre o Gonzo em outra oportunidade; agora, ‘tou a fim de falar do Festival Quanto Rock, que rolou no sábado, 23/08.
QUANTO ROCK
Tava a fim de ir nesse festival só p/ ver o Mukeka Di Rato, banda de HC crust que já foi destaque aqui no blog. Descolei 2 ingressos c/ o diretor de marketing da TV, Werden “O Verde”, catei minha namorada Gil e cheguei na Live no início do show da 3ª ou 4ª banda do festival, The Baggio’s, duo local de blues-punk na linha White Stripes/Black Keys – guardadas as devidas proporções. A Live é o antigo Tequila Café reformado – o mezanino virou um 2º andar, c/ espelhos na parede e um sofazão lounge c/ mesinhas, onde o Mozine [foto], baixista do Mukeka, montou seu camelô de discos e camisetas da Läjä Records, a sua gravadora 200% independente. Lá em cima também ‘tava rolando uma exposição de arte – do desenhista Cachorrão – e muita pegação, c/ destaque p/ as ninfetas lésbicas roqueiras. Encontrei c/ meu chapa Adelvan “Escarro Napalm” e a 1ª coisa que ele me disse foi: “...’tou vendo uma ‘quase’ cena de sexo aqui!”... Uma mina dançava no colo de um conhecido tatuador aqui da área, encaixadinha, ao lado das portas dos banheiros. Completando o cenário, molecada “emo”, surfistas, carecas, punks-77 e as tais ninfetinhas lésbicas. Noite eclética.
A cerveja a $2 reais foi o combustível da balada. “Mas é Kaiser!”, reclamava minha amiguinha Ellen, enquanto eu tentava tranqüiliza-la: “Relaxa! À noite, todos os gatos são pardos.” Era a única marca e tipo de bebida alcoólica no cardápio, fazer o quê diante das opções? Enquanto isso, O Circo, de Salvador, fazia sua apresentação. Não prestei atenção. Estava concentrado em ficar bêbado e beijar minha garota, não necessariamente nessa ordem. Tinha saído direto do trampo pro show, e ainda ia trabalhar no domingo.
Mukeka Di Rato foi meia horinha de esporro HC, curto & grosso, c/ direito aos hits “Maconha” e “Minha Escolinha”. Como eu levo a sério meu jornalismo gonzo, tirei umas fotos do show, o mais barulhento do ano, até agora. As fotos saíram quase todas desfocadas, mas representam bem meu estado de espírito no momento em que as tirei. O MxDxRx tem uns 7 discos e mais de 10 anos na estrada, é de admirar que os caras não estejam surdos a essa altura. Os punks da platéia piraram, as menininhas detestaram. Na seqüência veio o Garage Fuzz, de Santos (SP), fechando o festival. Já conhecia a banda desde os anos 90, quando lançaram o 1º disco, Relax In Your Favourite Chair, pela multinacional Roadrunner. Na época, chamava-se o tipo de som que eles fazem de “hardcore melódico”, mas hoje esse termo caiu em desuso, é “EMO” mesmo. As menininhas adoraram, os punks caíram fora.
Foi minha 1ª noitada na Live, desde o fim do Tequila. Não freqüento os bares da moda, igual faz Cleomar: “Gosto da Orlinha, sou assíduo ao Pastelão. Ali, amigos decoraram a parede c/ uma confraria de amigos que leva o meu nome: ‘Confraria de Bar Cleomar Brandi’. São muitos na confraria, e é bom ouvir aquele monte de mentirosos dizendo que estão c/ ‘uma gata de arrasar quarteirão’, até que são vistos andando furtivamente na rua c/ um verdadeiro canhão. E beijando, o que é pior.” Quando o assunto é mulher, C.B. também é mestre: “Alguns dizem que tiveram muitos amores. Talvez eu tenha tido muitas mulheres e poucos amores.
A Orlinha de Atalaia está acabando, engolida pelo avanço do mar nos últimos anos. Serve como metáfora p/ o jornalismo. Daqui a um tempo não haverá mais Confraria, nem cronistas do naipe de um Cleomar Brandi: “O mundo hoje é do conhecimento, e eu não me canso de dizer que quem não lê, não escreve. Se eu tivesse um caminhão, esta seria a frase do meu pára-choque.
ADOLFO SÁ - tb é baiano radicado em Sergipe, mas veja bem, ninguém é perfeito
Mukeka Di Rato, Live, Aracaju/SE, 23/08. Foto: Brasa
TRILHA SONORA: “Lugar Du Caralho”, do Júpiter Maçã - “Eu preciso encontrar/ um lugar legal pra mim (...)/ Tem que ter um som legal/ Tem que ter gente legal/ E ter cerveja barata/ Um lugar onde as pessoas sejam mesmo a fuder/ Um lugar onde as pessoas sejam loucas/ E super-chapadas/ Um lugar du caralho...