segunda-feira, setembro 29, 2008

AS PERSEGUIDAS Essas 3 garotas israelenses foram presas por rejeitar o serviço militar. Em Israel, todo cidadão é obrigado a se alistar – os homens servem por 3 anos e as mulheres por 2. Omer Goldman, Miya Tamarin e Tamar Katz deviam ter se alistado na última terça, 23/09, mas as meninas chegaram na base militar de Tel Hashomer acompanhadas de uma centena de manifestantes contra a ocupação dos territórios palestinos.
Não pretendo ir p/ o exército em hipótese alguma”, disse Omer à BBC. “Eu me sinto obrigada, moralmente, a recusar. Viajei muitas vezes aos territórios ocupados e vi, c/ meus próprios olhos, o que o exército israelense faz lá, são coisas c/ as quais eu não posso colaborar.
Joe Sacco, cartunista americano que viveu em Jerusalém e na faixa de Gaza por alguns meses entre 1991 e 92, escreveu em sua premiada graphic novel PALESTINA – Uma Nação Ocupada: “Perto de 400 vilarejos palestinos foram destruídos pelos israelenses durante e depois da guerra de 1948... palestinos que fugiram foram declarados ‘ausentes’... suas casas e suas terras declaradas ‘abandonadas’ e ‘não-cultivadas’ e foram expropriadas para assentamento de judeus”. Assim começou a história da prisão de Omer, Miya e Tamar.

1948 foi o ano da criação do Estado de Israel, a partir do Plano de Partilha da ONU, que propunha a divisão daquela região do Oriente Médio em 2 Estados – um árabe e um judeu. A Palestina era domínio da Inglaterra, que coordenou uma ação mundial p/ aprovação do Plano em 1947. A proposta foi rejeitada pelos árabes e a violência eclodiu quase instantaneamente: houve guerras c/ Egito, Síria, Líbano e Jordânia, à medida em que Israel ocupava a península do Sinai [Egito], as colinas de Gola [Síria], o sul do Líbano, a Cisjordânia e a faixa de Gaza.
Israel surgiu a partir das idéias sionistas de Theodor Herzl, filósofo do séc.XIX, o primeiro a sonhar c/ a criação de um Estado judeu na região conhecida como Palestina Histórica: “Teremos que encaminhar a população pobre [sic] para o outro lado da fronteira, gerando empregos para ela nos países vizinhos e negando emprego no nosso próprio país”. Seu principal argumento era a Diáspora – se não estivesse fugindo da escravidão, o povo judeu jamais teria deixado suas terras há mais de 2000 anos. A idéia ganhou força e respaldo c/ o genocídio de 6 milhões de judeus em campos de concentração nazistas na 2ª Guerra Mundial.
Em 1979, Israel assinou um acordo de paz c/ o Egito e retirou-se do Sinai. Em 1994, resolveu suas disputas territoriais c/ a Jordânia por meio de um tratado. Em 2000, retirou a população judia do sul do Líbano, após 18 anos de ocupação. Mas a situação c/ a Palestina não foi resolvida até hoje.
Em 1991, após a 1ª Intifada, a Conferência de Madri tentou a paz através de negociações bilaterais entre representantes israelenses e palestinos – sem sucesso. Em 93, Israel e Palestina assinaram o Acordo de Oslo, que estabelecia um governo palestino autônomo, c/ controle sobre Gaza e Cisjordânia. Atentados a bomba por parte dos palestinos e a continuidade das ocupações israelenses fizeram Oslo dar em nada. Em 2005, depois de mais uma Intifada e 2 anos de trabalho conjunto entre EUA, ONU, União Européia e Rússia, um acordo de paz finalmente foi estabelecido entre os 2 países, c/ o 1º cessar-fogo efetivo: os palestinos pararam de explodir judeus, e Israel esvaziou assentamentos e saiu de Gaza.
A eleição do Hamas, grupo terrorista e partido político cuja carta de fundação prevê a destruição do Estado de Israel, em janeiro de 2006 p/ assumir o controle do Conselho Legislativo Palestino congelou as relações diplomáticas entre as 2 nações. Em março daquele ano, Ehud Olmert assume o posto de 1º Ministro de Israel e aciona operações militares em Gaza e no Líbano, que descambam p/ uma guerra de 34 dias c/ a milícia xiita Hezbollah. Em 2007, Olmert encerra definitivamente o diálogo c/ a Autoridade Nacional Palestina, após Mahmoud Abbas, presidente da ANP, formar um governo independente do Hamas, que assumira o controle da faixa de Gaza.
Território, história e religião são causa e efeito de todos os conflitos em que Israel se envolveu desde sua criação em 1948. “Por causa do ancestral belicismo com os vizinhos árabes, Israel se tornou ao mesmo um Estado laico, religioso e militar. Desde a segunda metade dos anos 70 também é potência nuclear, embora nunca tenha reconhecido isso de forma oficial. Em mais um paradoxo, o mesmo belicismo que assusta é também o mesmo que levou o país a ser uma das pontas de lança da tecnologia mundial”, descreveu o jornal Folha de S.Paulo em uma série de reportagens sobre os 60 anos de Israel, completados este ano.
Jerusalém é uma cidade com poder de fogo, o maior nível de rifle automático no ombro que eu já vi, mas pelo menos os israelenses colocam mulheres no exército, o que melhora a paisagem para uma pessoa com preocupação estética como eu”, ironiza Joe Sacco em PALESTINA, no capítulo “Olho do Observador”: “(...) eu colocaria as mulheres israelenses numa posição bem alta entre as mais bonitonas do mundo... e de uniforme – particularmente aqueles pulôveres verde-oliva – elas são inigualáveis... Sempre que posso, e não consigo evitar, subo a rua Jaffa para dar uma olhada nas oficiais adolescentes... basicamente só para lembrar de como estou envelhecendo.” Sacco não é uma exceção machista. A edição de julho da revista masculina Maxim estampou em sua capa - e no recheio - 5 beldades estonteantes, ex-soldados do Exército de Israel. A reportagem perguntava: "Será que as mulheres das Forças de Defesa de Israel são os soldados mais sexy do mundo?". Deputadas do Knesset [o Parlamento israelense] acusaram o governo de promover uma "campanha pornográfica" e incentivar o turismo sexual no país.
Segundo Gabriel Castellan, porta-voz do Exército israelense, o número de jovens que se recusam a prestar o serviço militar obrigatório por razões políticas é pequeno, mas tem aumentado nos últimos 2 anos – em 2005 foram 57 casos, ano passado, 72. E a quantidade de adolescentes liberados também vem aumentando – em 2003, a porcentagem dos homens que não prestaram serviço era de 22%, e entre as mulheres, 35,6%; em 2008, o percentual foi de 27,7% entre os homens e 43,7% entre as mulheres. O principal motivo p/ a liberação é quase sempre a religião. Homens que comprovam estudar em seminário rabínico são liberados, e mulheres que se declaram religiosas ortodoxas também são isentas. Outras razões são problemas de saúde, antecedentes criminais e residência no exterior. Quem se recusa voluntariamente a servir é acusado de “covardia” e “traição.
A população, em sua maioria, apóia as prisões de jovens que se negam a prestar o serviço militar, considerado quase “sagrado” em Israel. “Os israelenses estão cansados de pedir desculpas pelos territórios ocupados! Aconteceu uma guerra! Nós ganhamos a terra na guerra! É a nossa terra!”, diz Naomi, uma garota israelense que Joe Sacco conhece em Tel Aviv: “Sinto muito pelo que acontece com os palestinos, mas os soldados israelenses não atiram em ninguém sem advertir... Primeiro atiram para cima e depois nas pernas (...)”. Bem sutil. A Naomi conclui sua linha de raciocínio assim: “Talvez eu não saiba de tudo que acontece por lá, mas o meu irmão teve que fazer terapia depois que serviu o exército.

Os soldados fazem o que querem, diz ela, entram nas salas de cirurgia sem máscaras, interrogam visitantes, já gritaram com pessoas que estavam doando sangue, já bateram no diretor do hospital”, escreve J.S. no capítulo “Vamos Lá Doutor”, sobre o depoimento de uma médica palestina. E não é só isso. O Exército israelense usa várias técnicas de tortura contra prisioneiros palestinos, e colonos judeus formam milícias em territórios ocupados. Sacco reproduz um diálogo entre um soldado israelense e um palestino que denuncia um ataque à sua casa na noite anterior:
- Não temos poder para proteger judeus nem palestinos, diz o soldado. Olhe, do seu lado existem extremistas e do nosso lado existem extremistas.
- Bem, gostaríamos que seus extremistas fossem punidos como nossos extremistas são, responde o palestino.
As ações do exército só geram mais hostilidade e mais violência, e não quero participar de uma organização que aponta armas contra civis de maneira indiscriminada”, afirma Tamar Katz, a mais gatinha das 3 mártires da causa pacifista. Miya Tamarin tentou ser liberada do serviço militar por “razões de consciência”, como ela mesma definiu p/ a reportagem da BBC: “Há uma semana recebi a resposta negativa do exército e decidi que minhas convicções pacifistas não me permitem participar de uma instituição que é toda baseada na violência.
Essas acusações contra nós, de que queremos ‘tirar o corpo fora’ de nossas responsabilidades são absurdas”, afirma Omer Goldman. Acho que nosso ato de recusar é um ato de responsabilidade social, e espero levar mais pessoas a questionarem a ocupação. Desde pequena estive envolvida em ações voluntárias, e minhas colegas também. Durante o último ano todas nós participamos de projetos voluntários, eu trabalhei na cidade de Yavne em um projeto de educação de crianças etíopes.

O protesto liderado pelas meninas tinha como armas cartazes c/ os dizeres: “Basta de ocupação”, “Não queremos participar, e coisas do tipo. Os cento e poucos jovens rebeldes fazem parte de uma pequena parcela da população israelense descotente c/ a escalada de violência ao longo de décadas. Desde o início da 2ª Intifada, em 2000, mais de 500 soldados e oficiais da reserva abandonaram a carreira militar por razões políticas.
É irônico que a prisão das garotas tenha ocorrido às vésperas de uma mulher tomar posse do cargo de 1ª Ministra de Israel. A chefe da diplomacia israelita, Tzipi Livni, foi a vencedora das primárias do Kadima, partido do poder, e deverá ser a primeira mulher a assumir o posto desde Golda Meir, que governou o país de 1969 a 74. Livni foi tenente do Exército e agente do Mossad [o serviço secreto israelense] dos 22 aos 26; redigiu o programa político do Kadima; e ocupou 7 diferentes cargos durante o governo de Ariel Sharon, antecessor de Ehud Olmert, que deixa o cargo acusado de corrupção. Livni, por sua vez, tem fama de honesta – ao ponto de ser chamada de “Senhora Mãos Limpas” – e era admirada por Sharon por sua “capacidade analítica”. Além disso, sua imagem jovial, c/ cabelos loiros, jeans e tênis dá leveza ao ambiente carregado da política israelense. “Precisamos agir rapidamente. Não temos tempo a perder nos desentendendo sobre política”, disse ela na reunião c/ deputados do Kadima, após sua vitórias nas prévias. “Há difíceis desafios a nós como nação, e o Kadima é o partido que governa o país, e vamos continuar a fazê-lo por muitos anos.
O tom decidido de Tzipi Livni é o que os israelenses gostam de ver em seus governantes. Semana passada, Paul McCartney fez um show inédito em Tel Aviv. Na coletiva à imprensa, ele disse que foi a Israel p/ “dizer que precisamos de paz nesta região e de 2 Estados. Trago uma mensagem de paz e penso que a região precisa disso”. É aí que Paul se engana. Os israelenses não querem 2 Estados, os palestinos também não. A diferença é que Israel tem mais poder de fogo, e pune severamente quem pensa diferente.
Omer Goldman não sabe quanto tempo passará na cadeia: “Tenho medo, outros jovens que se recusaram já ficaram 2 anos na prisão, espero que não fiquemos tanto tempo. Por enquanto, todos os meus planos p/ o futuro foram congelados.” Resta esperar que Livni tenha bom-senso p/ buscar uma saída diplomática p/ as diferenças c/ os países vizinhos. Ela pode começar libertando Omer, Miya e Tamar, as 3 jovens israelenses presas por protestar. Aê, Tzipi, libera essa mixaria!
Yarden e Gal, ex-soldados israelenses: Faça amor, não faça guerra

2 comentários:

mensagenegram12producoes disse...

nunca pensei que pudesse aceitar um convite para ir pra guerra... ma após essa postagem do meu mano dolfas começei a repensar a hipótese. embora não seja da mesma nacionalidade que essa beldades... eu aceito a tarefa.

PS: por favor alguém me escale!!!

VItÒRIA A ISRAEL!!!

Anderson Ribeiro disse...

Rapaz, mais uma vez e mais de uma vez falo: Que texto primoroso! Como são perfeitos os links. Vá se f...! parabéns! E antão, vai fzer a campanha libera as gatas pro Ocidente?