segunda-feira, setembro 01, 2008

C.B.C.B.’S
CONFRARIA DE BAR CLEOMAR BRANDI
Jornalista gonzo em ação: Homem-Brasa e suas 2 loiras

A profissão faz alcoólatras, jogadores, impotentes, solitários empedernidos ou viciados na gula da mesa e do poder, e, por isso, rodeados de inimigos, detratores e desafetos por toda parte.” A frase é do escritor/jornalista João Antonio, do texto Abraçado ao Meu Rancor, de 1986. Ele se referia ao jornalismo em plena ressaca da ditadura. Do AI-5 à Anistia, não houve liberdade de expressão no Brasil, e jornalistas tiveram que escrever sobre receitas de bolo ou migrar pro teatro e literatura p/ sobreviver.
Hoje a situação é outra, o Brasil vive em regime democrático há 2 décadas e os jornalistas são formados em universidades, ao contrário das gerações anteriores, que vinham das ruas. Diminuiu o número de profissionais frustrados, aumentou o número de jornalistas medíocres. “Os cronistas estão morrendo. Essa é uma notícia fúnebre que eu quero dar. Os cronistas estão morrendo porque as pessoas não estão lendo. Você tem articulistas, pessoas que opinam, mas a sensibilidade de perceber o movimento da vida no dia-a-dia e transformar aquilo de maneira séria, brincalhona, jocosa, mordaz ou amarga, raramente se vê”, declarou Cleomar Brandi em uma palestra p/ estudantes.
Cleomar é o maior jornalista sergipano vivo, apesar de ser baiano. Investigativo, polêmico, boêmio, Brandi é um vinho antigo de uma safra rara: “Transpiro textos, pautas, crônicas, procuro diagramar certinho minha postura profissional. Gosto de chegar às 6 da manhã na redação, de ouvir rádio, de sair fuçando pauta por aí.” Há 33 anos na ativa, já passou pelos principais periódicos e tevês do estado, foi correspondente de revista nacional, e atualmente dirige as redações do Jornal da Cidade e da Aperipê TV, emissora pública na qual eu trabalho.
ANOTA AÍ
Eu também sou jornalista. Nunca ganhei dinheiro c/ isso. Na minha C.T., ‘tá lá: “Editor de imagens”. É o que eu faço. Também dirijo um programa e faço uns quadrinhos, mas ganho dinheiro mesmo editando vídeo. Há 3 semanas, olha só, fui entrevistado por um site local [na verdade, um portal] junto c/ o Cleomar, numa matéria sobre a profissão de jornalista. Alguns dos principais trechos:
Jornalismo: olhar crítico da realidade [por Karinéia Cruz e Raquel Almeida]
(...) Jornalismo é muito mais que a habilidade para levar informação para um determinado público. Na verdade, é o resultado de uma preparação técnica, e principalmente, ética para conduzir a notícia diante dos fatos. Para Cleomar, tem elementos fundamentais que compõem o profissional da área. ‘É preciso ser crítico, entender o mundo, gostar de ler e tentar trazer algo diferente que o clichê encontrado nas redações. Tem que ser teimoso para conseguir uma boa matéria e saber conduzir o impacto social’, diz.
(...) A televisão, visada por boa parte dos estudantes de Jornalismo, tem sido cultivada pela sociedade que preza constantemente o valor pela imagem. O editor de imagens, jornalista Adolfo Sá diz que ‘uma possível explicação é a ilusão de aparecer. E a própria sociedade cultiva isso na função. É uma massagem no ego.’ Esse frisson tem refletido na preferência desse veículo em relação a todos os outros. Brandi diz que ‘o mercado está carente de funções específicas de bastidores, como a de produtor, editor e afins’. O editor Adolfo, que atua no mercado há 3 anos, diz que repórteres e apresentadores são na verdade o resultado final de uma equipe que trabalha intensivamente nos bastidores. ‘Quase 90% dos profissionais, no caso da Televisão, trabalham sem aparecer na linha de frente. Além disso, não basta ter uma boa estampa, tem que ter um bom texto e uma postura como profissional’. Para se manter no mercado, Brandi dá uma dica que é comum a todas as outras profissões: ‘você tem que ser bom no que faz’, diz o diretor. Hoje em dia, no mercado do Jornalismo a pessoa tem que gostar. Em Sergipe, o piso base pago ao jornalista é de R$ 880,00. O jornalista Adolfo Sá conclui concordando. ‘Hoje se faz [Jornalismo] porque é gratificante e prazeroso. Não é uma atividade atrativa quanto a salários’, finaliza.
Pois é, se quiser ganhar dinheiro de verdade, não seja jornalista. Puta honra ser enfocado numa reportagem sobre minha profissão ao lado de um dos pais da matéria, mas as meninas cataram nossos depoimentos em blocos de anotações, escrevendo apenas as palavras principais, mudando muita coisa que a gente falou. “Gratificante”?! Essa palavra não faz parte do meu vocabulário. C/ a tecnologia aí dando sopa – até MP3 tem gravador de voz – essas minas ficam inventando moda. Querem ser roots, anotar no papel como os jornalistas antigos, mas não conseguem fazer 2 coisas ao mesmo tempo: escutar e escrever. Eu atuo no mercado há 3 anos? Esse é só o tempo que eu estou na TV – edito há 5 anos, escrevo há mais de 10.
Nunca gostei de anotar em bloquinho. Ou eu uso um gravador ou escrevo o que vi, ouvi, vivi. Como raramente carrego gadgets, acabei desenvolvendo uma memória flex, à prova [ou na base] de álcool, drogas e acidentes, técnica desenvolvida ao longo de anos de excessos em meio a reportagens. Descobri depois que chamam isso de “jornalismo gonzo”, inventado pelo maluco Hunter S. Thompson, mas falarei sobre o Gonzo em outra oportunidade; agora, ‘tou a fim de falar do Festival Quanto Rock, que rolou no sábado, 23/08.
QUANTO ROCK
Tava a fim de ir nesse festival só p/ ver o Mukeka Di Rato, banda de HC crust que já foi destaque aqui no blog. Descolei 2 ingressos c/ o diretor de marketing da TV, Werden “O Verde”, catei minha namorada Gil e cheguei na Live no início do show da 3ª ou 4ª banda do festival, The Baggio’s, duo local de blues-punk na linha White Stripes/Black Keys – guardadas as devidas proporções. A Live é o antigo Tequila Café reformado – o mezanino virou um 2º andar, c/ espelhos na parede e um sofazão lounge c/ mesinhas, onde o Mozine [foto], baixista do Mukeka, montou seu camelô de discos e camisetas da Läjä Records, a sua gravadora 200% independente. Lá em cima também ‘tava rolando uma exposição de arte – do desenhista Cachorrão – e muita pegação, c/ destaque p/ as ninfetas lésbicas roqueiras. Encontrei c/ meu chapa Adelvan “Escarro Napalm” e a 1ª coisa que ele me disse foi: “...’tou vendo uma ‘quase’ cena de sexo aqui!”... Uma mina dançava no colo de um conhecido tatuador aqui da área, encaixadinha, ao lado das portas dos banheiros. Completando o cenário, molecada “emo”, surfistas, carecas, punks-77 e as tais ninfetinhas lésbicas. Noite eclética.
A cerveja a $2 reais foi o combustível da balada. “Mas é Kaiser!”, reclamava minha amiguinha Ellen, enquanto eu tentava tranqüiliza-la: “Relaxa! À noite, todos os gatos são pardos.” Era a única marca e tipo de bebida alcoólica no cardápio, fazer o quê diante das opções? Enquanto isso, O Circo, de Salvador, fazia sua apresentação. Não prestei atenção. Estava concentrado em ficar bêbado e beijar minha garota, não necessariamente nessa ordem. Tinha saído direto do trampo pro show, e ainda ia trabalhar no domingo.
Mukeka Di Rato foi meia horinha de esporro HC, curto & grosso, c/ direito aos hits “Maconha” e “Minha Escolinha”. Como eu levo a sério meu jornalismo gonzo, tirei umas fotos do show, o mais barulhento do ano, até agora. As fotos saíram quase todas desfocadas, mas representam bem meu estado de espírito no momento em que as tirei. O MxDxRx tem uns 7 discos e mais de 10 anos na estrada, é de admirar que os caras não estejam surdos a essa altura. Os punks da platéia piraram, as menininhas detestaram. Na seqüência veio o Garage Fuzz, de Santos (SP), fechando o festival. Já conhecia a banda desde os anos 90, quando lançaram o 1º disco, Relax In Your Favourite Chair, pela multinacional Roadrunner. Na época, chamava-se o tipo de som que eles fazem de “hardcore melódico”, mas hoje esse termo caiu em desuso, é “EMO” mesmo. As menininhas adoraram, os punks caíram fora.
Foi minha 1ª noitada na Live, desde o fim do Tequila. Não freqüento os bares da moda, igual faz Cleomar: “Gosto da Orlinha, sou assíduo ao Pastelão. Ali, amigos decoraram a parede c/ uma confraria de amigos que leva o meu nome: ‘Confraria de Bar Cleomar Brandi’. São muitos na confraria, e é bom ouvir aquele monte de mentirosos dizendo que estão c/ ‘uma gata de arrasar quarteirão’, até que são vistos andando furtivamente na rua c/ um verdadeiro canhão. E beijando, o que é pior.” Quando o assunto é mulher, C.B. também é mestre: “Alguns dizem que tiveram muitos amores. Talvez eu tenha tido muitas mulheres e poucos amores.
A Orlinha de Atalaia está acabando, engolida pelo avanço do mar nos últimos anos. Serve como metáfora p/ o jornalismo. Daqui a um tempo não haverá mais Confraria, nem cronistas do naipe de um Cleomar Brandi: “O mundo hoje é do conhecimento, e eu não me canso de dizer que quem não lê, não escreve. Se eu tivesse um caminhão, esta seria a frase do meu pára-choque.

ADOLFO SÁ - tb é baiano radicado em Sergipe, mas veja bem, ninguém é perfeito

Mukeka Di Rato, Live, Aracaju/SE, 23/08. Foto: Brasa

TRILHA SONORA: “Lugar Du Caralho”, do Júpiter Maçã - “Eu preciso encontrar/ um lugar legal pra mim (...)/ Tem que ter um som legal/ Tem que ter gente legal/ E ter cerveja barata/ Um lugar onde as pessoas sejam mesmo a fuder/ Um lugar onde as pessoas sejam loucas/ E super-chapadas/ Um lugar du caralho...

7 comentários:

Adelvan disse...

De fuder, como sempre. Concordo com quase tudo que o Cleomar fala, especialmente com o risco de extinção dos cronistas, o que acho lamentável. São os "idiotas da objetividade", como bem dizia o sábio Nelson (Rodrigues, emboa Gonçalves também o fosse) tomando conta de tudo. Mas acho que a sentença final tá errada: acho que "Lugar do caralho" é de Jupiter Maçã, embora tenha ficado mais famosa com Wander Wildner. Vou já já consultar o oráculo pós-moderno google pra confirmar isso ...

pdrock disse...

confirmei no disco do Wander, a musica é de Jupiter. Porra Adolfo, o unico hit do cara, e você quer tirar o credito !!!

Hehehehe

Viva La Brasa disse...

Puta, que merda! Acho que ando bebendo demais, quase um alcoòlatra, hehe... Mas já corrigi a mancada. Até o Mudhoney, cabrón!

alysson disse...

cara quando chegou na parte do contraste entre o prazer da profissão e a má remuneração, lembrei do sobrinho do cleomar, me bati com ele na final do coverama, nos conhecemos do cefet, de onde somos formamos, ele era um ótimo aluno, sempre com boas notas e ótimo desempenho no curso de informática, acho que ele teria mais futuro nessa área, mas sabe-se lá, vai ver ser jornalista tenha seus encantos, mas o da remuneração devem ser a sereias que prometem :)

Débora Andrade disse...

"Os punks da platéia piraram, as menininhas detestaram."

se eu não tivesse tão bêbada, tería quebrado com os caras lá na frente. olha o preconceito!

¬¬

Viva La Brasa disse...

Nah, aqui não tem misoginia, só relatei o que vi. Gosto demais de mulher p/ ter qualquer tipo de preconceito. Mas o que escrevi é a real, o Mukeka não é o tipo de banda que faz sucesso c/ as "menininhas"...

Repórter Brasa, testemunha ocular da escória, heheh...

Boogie Boy disse...

Great!!!
gosto deste tipo de jornalismo, da pra brincar tb chando-o de Gonzador...
kkk

abração.