sexta-feira, setembro 19, 2008

CONFESSO QUE BEBI
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Jaguar é um clássico. Não estou falando do carro esporte, e sim de Sérgio Jaguaribe, um dos maiores cartunistas do Brasil, sócio-fundador do jornal O Pasquim, autor dos livros Átila, Você É Bárbaro; Ipanema, Se Não Me Falha a Memória e Confesso Que Bebi.
Nascido em 1932 e ainda na ativa [faça as contas], Jaguar fundou O Pasquim em 1969, auge da ditadura, após reunir-se c/ os jornalistas Sérgio Cabral e Tarso de Castro. A idéia era substituir o tablóide humorístico A Carapuça, de outro Sérgio, o Porto, tb conhecido como Stanislaw Ponte Preta. O nome “pasquim” significa “jornal difamador, folheto injurioso”, segundo o Aurélio, o dicionário: Terão de inventar outros nomes p/ nos xingar, disse Jaguar ao final da reunião. O símbolo do jornal era o ratinho Sig, inspirado em Sigmund Freud, ou melhor, em uma anedota sobre o pai da psicanálise: “Se Deus criou o sexo, Freud criou a sacanagem”.
O Pasquim arregimentou as melhores cabeças da esquerda festiva dos anos de chumbo: Ziraldo, Henfil, Millôr Fernandes, Ivan Lessa, Ruy Castro, Paulo Francis e Fausto Wolff, entre outros [Claudius, Prósperi, Fortuna, Sérgio Augusto, Carlos Leonam etc.]... Nesse tempo, vigorava a lei da censura prévia aos órgãos de imprensa, e 1 ano após a criação do jornal a redação inteira foi presa por ter publicado uma sátira ao famoso quadro de Dom Pedro I às margens do Ipiranga, de autoria do pintor Pedro Américo. A turma passou 3 meses encarcerada. A intenção dos militares era tirar o jornal de circulação, mas Millôr, que escapara da batida, tocou o projeto c/ colaborações de Antônio Callado, Chico Buarque, Glauber Rocha e Rubem Fonseca, entre outros.
As prisões continuaram ao longo da década de 70, até que no início dos 80 os milicos adotaram outra estratégia: bancas que vendiam O Pasquim passaram a ser alvo de atentados c/ bombas. Metade dos pontos de venda na cidade do Rio parou de repassar o tablóide, temendo represálias. O jornal resistiu até o início dos anos 90, mesmo após a saída da turma mais jovem, que injetara um novo humor na publicação – Hubert, Reinaldo e Cláudio Paiva fundaram O Planeta Diário, que viria a se tornar o humorístico televisivo Casseta & Planeta.
Jaguar foi o único membro do staff a permanecer do início ao fim: “Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. (...) Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas não, fiquei lá, morando numa redação, domindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco”, disse ele à jornalista Sylvia Colombo em uma entrevista p/ a Folha de S.Paulo, ano passado.
NINGUÉM É PERFEITO
Após passar a vida inteira na pindaíba, pendurando contas nos botecos da zona sul carioca, Jaguar finalmente passou a colher alguns bons frutos da sua boemia, seu humor fino e seu traço vagabundamente genial. Em 2006, a editora Desiderata lançou O Pasquim – Antologia 1969-1971, compilação feita por ele e Sérgio Augusto de matérias e entrevistas das 150 primeiras edições do semanário. O livro virou best-seller e motivou o lançamento de um 2º volume, no ano seguinte, cobrindo o período de 1972 a 73.
Também em 2006, a Elma Chips lançou a linha de salgadinhos Opa!, voltados p/ o público adulto, e contratou nosso herói p/ desenhar alguns cartuns na embalagem. Os salgados foram criados p/ serem consumidos como aperitivos p/ cerveja. Jaguar criou um garçom voador: “Escolhemos um dos mais famosos cartunistas brasileiros p/ criar um ícone da marca. Jaguar desenvolveu um garçom num formato muito criativo e simpático, que apresenta grande identificação c/ o conceito de roda de amigos”, comentou Eduardo Garofalo, VP de marketing da Pepsi Co., proprietária da Elma Chips.
Em 05 de abril deste ano, Jaguar e outros 20 jornalistas perseguidos durante a ditadura militar tiveram seus processos de anistia aprovados pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça. Ele e Ziraldo receberam as maiores indenizações: 1 milhão de reais cada. E no início deste mês, foi lançado Ninguém É Perfeito pela Desiderata, livro originalmente publicado na Argentina há mais de 30 anos c/ o título Nadie Es Perfecto. A história é a seguinte: Jaguar estava bebendo no Lamas quando foi abordado por um editor argentino, interessado em lançar uma coleção de livros de cartunistas latino-americanos. O ano era 1972. Jaguar levou-o à redação d’O Pasquim, entregou-lhe “um monte de desenhos” e 2 meses depois embarcava p/ Buenos Aires, p/ a noite de lançamento, onde deu autógrafo até p/ o Quino, criador da Mafalda.
Após a surreal entrevista de Fausto Wolff p/ a F., tenho a honra de reproduzir aqui a entrevista de Jaguar p/ a Folha. C/ vocês, o homem, o mito, o bebum:
FOLHA - Como anda o cartum?
JAGUAR
- O cartum é uma espécie em extinção. Tem muita gente publicando história em quadrinhos, charges, caricaturas. Não é a mesma coisa. Sou cartunista, mas sobrevivo fingindo que sou chargista. Se não, não pago as minhas contas.
FOLHA - Qual é a diferença essencial entre cartum e charge?
JAGUAR
- Simples. Por exemplo. Hoje fiz uma charge sobre a visita do Bush. Desenhei o Lula chamando o Bush, que está indo embora do quadrinho. Só aparecem os pezinhos dele. Lula estica o dedo e chama: "Ei, ô companheiro, e a saideira?". Isso é uma charge. Uma piada que, daqui a cinco anos, ninguém vai entender, porque é
em cima de uma circunstância.
FOLHA - E o cartum?
JAGUAR
- É um troço que você faz sobre assuntos que daqui a 20 anos qualquer um entenderá. Um exemplo clássico, uma piada qualquer sobre o 'Ricardão dentro do armário'. Todo mundo sabe do que eu estou falando. Piadas sobre vida conjugal, sexual, todo mundo entende. Em qualquer época. Já piadas em cima de fatos políticos momentâneos vão ficando incompreensíveis.
FOLHA - E por que o cartum está em extinção?
JAGUAR
- Porque ninguém mais publica. Eu não tenho onde publicar. De vez em quando emplaco um cartum. Mas tem de ser disfarçado de charge. Se não for assim, não passa.
FOLHA - O mundo está se desinteressando do humor?
JAGUAR
- Pelo menos deste formato de humor, sim. Tanto que revistas no mundo todo estão desaparecendo. A única que ainda publica cartum de verdade é a The New Yorker.
FOLHA - Há uma nostalgia excessiva com relação a O Pasquim? As pessoas romantizam demais essa época?
JAGUAR
- Eu não tenho nostalgia nenhuma. Só quero saber o que vou fazer amanhã. Mas as pessoas ficam com esse papo: ‘Ah, no tempo do Pasquim’. É uma bobagem, coisa de velho gagá. Como se tivesse sentido existir O Pasquim até hoje.
FOLHA - Quando lê os jornais, vê a influência d'O Pasquim?
JAGUAR
- Os jornais mudaram muito. Mas acho que mudariam de qualquer jeito. Se não fosse por um lado, seria pelo outro. As coisas já estavam em transformação.
FOLHA - Mas você escreveu que, c/ O Pasquim, a imprensa tirou o paletó e a gravata.
JAGUAR
- É verdade, mas a mudança já estava acontecendo. O Pasquim deu certo porque as pessoas se identificaram. Por outro lado, posso dizer que quem começou essa transformação toda na imprensa brasileira fui eu, e por acidente.
FOLHA - Como assim?
JAGUAR
- A gente tinha feito uma entrevista com o Ibrahim Sued. Fomos eu, o Tarso de Castro e o Sérgio Cabral. Mas depois todo mundo sumiu.
FOLHA - Sumiu?
JAGUAR
- Sim, sumiu. Éramos um bando de porra-louca. Os dois foram para a farra e eu tive de tirar a entrevista sozinho. Só que eu não sou jornalista e não sabia fazer isso. E deixei o texto com o jeito coloquial mesmo. Virou nosso ‘estilo’.
FOLHA - E pegou na hora?
JAGUAR
- Não. Demorou. Os jornais resistiram a adotar o tom coloquial. Só depois que a publicidade começou a usá-lo é que a imprensa foi atrás. Mas hoje já acho que essa fórmula se esgotou.
FOLHA - Por quê?
JAGUAR
- Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de um entrevistado que não tinha chance de abrir a boca. Passava um aperto danado. Depois que a coisa pegou, a imprensa começou a usar essa fórmula, só que para levantar a bola do entrevistado. Aí perdeu a graça.
FOLHA - Até quando, então, você acha que o Pasquim justificou a sua existência?
JAGUAR
- O Pasquim foi uma experiência muito divertida, mas eu poderia tê-la diminuído em dez anos. Fiquei fazendo o jornal de teimoso. Me endividei. Foi um horror. Todos pularam fora e eu fiquei. O jornal perdeu a influência, a tiragem era pífia. Podia ter feito como os outros, que foram cuidar de suas vidas. Mas, não, fiquei lá, morando na redação, dormindo num colchonete debaixo da prancheta. Um maluco.
FOLHA - Dá para viver de cartum?
JAGUAR
- Não. Eu trabalhei 17 anos no Banco do Brasil. E nunca faltei nem um dia. O banco foi fundamental. Não só pela grana, mas porque me ensinou a ser profissional. Sou um porra-louca, bêbado, alcoólatra, um monte de coisa. Mas nunca faltei no trabalho. Também nunca deixei de entregar um desenho no horário, no dia certo. Isso eu devo ao banco.
FOLHA - Houve um retrocesso no humor brasileiro com relação aos anos da ditadura?
JAGUAR
- Sim. Essa coisa de não poder chamar crioulo de crioulo, por exemplo. Fui casado dez anos com uma crioula. Não é pejorativo. Não vou começar a dizer que casei com uma afro-descendente. É uma hipocrisia. Mas a maioria dos humoristas hoje é muito certinha. Criou-se um limite e, se a gente passa um pouco, leva pito. Eu não levo mais porque sou velho e sou o Jaguar. Aí as pessoas dizem: ‘Ah, é o Jaguar, deixa ele’.
Folha de S.Paulo, Caderno Ilustrada, 13 de março de 2007

5 comentários:

Álvaro Müller disse...

"Nossas entrevistas ficavam boas porque éramos um monte de caras de porre que íamos falar com um coitado de um entrevistado que não tinha chance de abrir a boca. Passava um aperto danado. Depois que a coisa pegou, a imprensa começou a usar essa fórmula, só que para levantar a bola do entrevistado. Aí perdeu a graça".
Eu canso de dizer isso. O jornalismo ficou muito amigável... Tá sem graça mesmo. Salve o Jaguar!

Adelvan disse...

Jaguar virou milionário ? Caralho, que massa ! Merecidissimo.

Boogie Boy disse...

Grande Jaguar...
Ótimo post.

Armando Maynard disse...

Saudades de "O PASQUIM" e sua turma de intelectuais inteligentes e bem humorados.Suas longas entrevistas ficaram célebres e seus artigos e charges quebram muitos preconceitos e ensinaram uma geração a se indignar com as mazelas do Brasil.Vida longa a Jaguar, com seus 76 anos bem vividos e "bebemorados" Um abraço,Armando(lygiaprudente.blogspot.com)

Armando Maynard disse...

CORRIGINDO palavra no texto acima: No lugar de 'quebram', o correto é quebraram.Dei uma olhada em outros posts do seu blog, os mesmos são bém atuais e informativos.Parabéns pelo post em homenagem a Fausto Wolff.Um abraço,Armando(lygiaprudente.blogspot.com)