quarta-feira, setembro 10, 2008

O LOBO SACIADO E A OVELHA

"Um lobo saciado viu uma ovelha que jazia por terra. Achando que ela tinha desmaiado de medo, ele se aproximou e a acalmou dizendo: - Dize-me 3 coisas verdadeiras e te deixarei partir. A ovelha respondeu: - Eis as 2 primeiras: gostaria de não ter te encontrado, ou, se encontrasse, que estivesses cego. Quanto à 3ª, ouça bem: que a morte te carregue, a ti e a todos os lobos que atacam sem piedade pobres ovelhas. O lobo, achando que ela havia dito a verdade, deixou-a ir embora. Assim é a força da verdade, mesmo se dita a nossos inimigos.
[Fábulas, Esopo]
Esopo foi um escravo liberto que viveu na Grécia do séc.VI a.C.. Feio, pobre e corcunda, destacou-se da plebe e tornou-se um dos nomes mais influentes da cultura grega graças à sua sagacidade: bom de lábia e ligeiro no raciocínio, criou centenas de fábulas onde os personagens eram animais, mas cujo final sempre tinha uma moral. Dizem que costumava usar seu dom p/ ironizar seus detratores. Acabou influenciando Heródoto, Aristófanes e Platão, entre outros filósofos gregos. “Literatura é ‘cojones’”, já dizia Fausto Wolff.

O VELHO E O MAR

Mês passado o Brasil chorou a morte de Dorival Caymmi. As 2 coisas que mais me lembram o Caymmi são aquele longa-metragem do Pato Donald, em que ele vai à Bahia levado pelo Zé Carioca, e uma tirinha da série Histórias de Amor, do Angeli – CENA: casal namorando na praia. ELE: - O mar quando quebra na praia é bonito, é bonito. ELA: - Que merda! ELE – É do Caymmi. ELA: - Ah! Que lindo!..
Caymmi foi o responsável pelo sucesso internacional de Carmen Miranda, que estourou na gringa ao gravar “O Que É que a Baiana Tem”. Espécie de cânone nacional, Dorival representou muito bem o Brasil lá fora e cantou a Bahia c/ canções melodiosas e imortais – ao contrário de hoje em dia, quando as bandas baianas são barulhentas e descartáveis... Famoso pela preguiça, compôs 80 canções em 80 anos de carreira [uma média de 1 música por ano], e tornou-se um dos pilares sobre os quais se ergueu a MPB, o que depõe mais contra do que a favor. Vão desculpando a ignorância, mas eu não sou o tipo de cara que tem paciência p/ ouvir um disco dele até o fim. O Caymmi gostava de cantar “Boi da Cara Preta”. Suas músicas me fazem dormir.
Chorei mesmo a morte de outros velhotes batutas. Não que eu tenha chorado, de derramar lágrima. Malandro não chora, malandro baixa a bola... E as músicas de Isaac Hayes eram pura malandragem. Seu teclado foi uma das bases da black music dos anos 70, quando se tornou o 1º artista negro [“afroamericano”, como preferem os politicamente corretos] a levar um Oscar de trilha sonora, c/ o tema do filme Shaft. Vestia-se como um super-herói de revista em quadrinhos, e nos anos 90 voltou a se destacar fazendo a voz do personagem Chef, do desenho South Park, ao mesmo tempo em que bandas tão diferentes quanto Portishead e Racionais MCs sampleavam suas batidas. Morreu no dia 10 de agosto, em sua casa em Memphis, Tenessee.Por falar em desenho animado, no início do mês [02/09] também se foi Bill Meléndez, desenhista profissional de animações por 7 décadas. Começou em 1938, nos estúdios Disney, trabalhando no seriado do Mickey e em clássicos do cinema, como Pinóquio e Fantasia. Mexicano radicado no oeste americano, Meléndez ficou mais conhecido nos EUA como a voz do cachorro Snoopy. Amigo do criador da personagem, Charles Schulz, foi o único animador do mundo a ter permissão p/ transpor as tirinhas p/ a TV. Um gênio.

WALDICK SEMPRE WALDICKDepois foi a vez de Waldick Soriano, cantor baiano ícone do brega nos anos 70/80. Chegou a São Paulo na década de 50, fugido de sua cidade natal, Caetité, após se envolver c/ uma mulher casada e ter a cabeça posta a prêmio pelo corno. Antes de engrenar a carreira de cantor, foi lavrador, engraxate e garimpeiro. Emplacou seu 1º sucesso em 1960 – “Quem És Tu” – , chamando a atenção da mídia pelo visual agressivo p/ a época: grandes óculos escuros, roupas sempre negras [no melhor estilo Johnny Cash], e chapéu de caubói.
Cantor de boleros de dor-de-cotovelo, foi censurado nos anos 70 c/ a canção “Tortura de Amor”, porque a ditadura não permitia o uso da palavra “tortura”. Boêmio e namorador, teve uma dezena de esposas ao longo da vida e lançou 28 discos, c/ títulos sugestivos como Ninguém É de Ninguém [1960], Eu Também Sou Gente [1972] e Segue o Teu Caminho [1974]. Seu maior hit é a clássica “Eu Não Sou Cachorro Não”, dos anos 80, que todo mundo sabe cantar até hoje. Não que eu vá ouvir um disco inteiro dele, mas há que se respeitar o homem por seu estilo.
Soriano passou as décadas seguintes no semi-ostracismo. Foi resgatado ano passado c/ o documentário Waldick, Sempre no Meu Coração, dirigido pela atriz Patrícia Pillar. Na seqüência, foram lançados o CD e o DVD Waldick Soriano – Ao Vivo, gravados numa apresentação recente do cantor, já debilitado e quase cego. Há 2 anos vinha lutando contra um câncer de próstata, até o último dia 04, quando pediu a saideira e fechou a conta.
No dia seguinte, morreu Fausto Wolff.

O ACROBATA PEDE DESCULPAS E CAI
Pescador de sardinha no norte do Atlântico até os 35 anos, Wolff chegou a passar 6 meses em alto-mar. Era a versão brazuca do Hemingway – um aventureiro que escrevia c/ muito estilo. Só que Fausto batia mais: “Levar porrada eu nunca levei não... levei na cadeia... mas na cadeia você dá e leva... mas como você está preso você acaba levando mais do que dá”, disse ele ao staff da revista F. em uma entrevista há 2 anos. Um outro escritor durão, Norman Mailer, era pugilista e amigo de Mohamed Ali, mas Mailer, peso médio, não duraria muitos rounds contra Wolff, peso super-pesado. O marinheiro tornou-se um grande escritor depois de abandonar o navio [grande ele era, mesmo que não fosse escritor]. Jornalista, poeta, romancista, professor, ex-crítico de teatro, ex-diretor da Rede Globo, ex-editor d'O Pasquim junto ao cartunista Jaguar [de 1978 a 88], há décadas assinava uma coluna de humor, política e crônicas no Jornal do Brasil. Durante muitos anos, manteve 2 colunas simultâneas – a sua e a de seu alter-ego, Nataniel Jebão: “Meu sucesso se deve ao fato de eu ser bonito, rico, culto, bem-dotado e gostar de mulher. Mulher é bom, mas é preciso ir com calma. Em primeiro lugar é necessário que ela não tenha pênis. Se tiver, já imaginou a humilhação do leitor ao descobrir que o dela é maior do que o seu. Também não pode ser escocês nem padre. Se não tiver pênis, não for escocês nem padre, o leitor pode ir em frente porque é bom.[“Nossa Sociedade”, F#4].
Allan Sieber, Leonardo, Arnaldo Branco e André Dahmer gravaram uma conversa c/ Wolff em seu apartamento, regada a muito uísque. Foi um massacre. Garotos da zona sul carioca entrevistando um bardo gordo, velho, bêbado e mal-humorado, não tinha como dar certo... O título da matéria, publicada na 4ª edição da revista, foi “Medo e Delírio em Copa” mas poderia ser “As Ovelhas no Covil do Lobo”, como numa fábula de Esopo. O “alemão” só aliviou o lado do Sieber, outro sujeito cascudo: “(...) vou falar uma coisa definitiva pra vocês: literatura é sinceridade. Literatura é ‘cojones’. Literatura é a capacidade de se olhar no espelho. Só depois vem o estilo. Só depois vem o escrever bem. Aqui de vocês, infelizmente, eu só tenho o exemplo do Allan. Você lembra o que eu escrevi sobre o ‘Preto no Branco’? Aquilo é absolutamente sincero. Porque você vê que o cara que fez aquele humor levou todas aquelas porradas que ele disse.O maior orgulho da vida de Fausto Wolff foi ter comido a Brigitte Bardot, na clássica temporada da atriz francesa no Brasil, anos 60: “Eu namorava uma moça que era socialite e fui em uma sexta de tarde pra Búzios. (...) e eu fui à praia... eu tinha 23, 24 anos e lá está aquela mulher nua, maravilhosa, vou lá e converso com ela, porra, os cornos da Brigitte Bardot, eu como, ela vai pra um lado, eu vou para o outro (...). Vou pra casa, eu estava com a minha namorada e dizem ‘ih, rapaz, sabe que hoje tem uma festa pra Brigitte Bardot’? (risos)”. C/ vocês, alguns trechos de Fausto Wolff na F.... Depois desta entrevista, a revista acabou:
(...) André Dahmer: Você acha que está difícil fazer humor no Rio de Janeiro? Que o carioca não está preparado para rir da situação atual?
Fausto Wolff: Eu vou explicar pra vocês, porque eu sou jovem há mais tempo do que vocês (risos). E eu já cansei de escrever isso, eu vou dizer mais uma vez: hoje você pode fazer o que quiser com o povo brasileiro. Vai chegar um momento daqui a dez, vinte, trinta anos em que isso não vai ser possível, mas isso não vai ser por causa da educação. Vai ser porque o povo vai estar tão acuado que ele vai começar a morder.
AD: É um estado de calamidade pública mesmo...
FW: Tá entendendo? Mendigo vai te dar uma mordida na mão.
(...) Arnaldo Branco: Como você consegue, as colunas,os romances, a poesia, muita produção...
FW: Porque eu sei escrever e é fácil. Basta você saber o que você tem pra dizer. Eu, por exemplo, já sei o que eu tenho pra dizer pra uma coluna daqui a um mês. Olha, eu disse a vocês, hein: eu não vou pedir cópia!
AD: Mas você vai gostar da entrevista, não vai bater em ninguém, você acha que vai chegar aqui e bater no Allan, que é um cara fraco, pode bater...
FW: Vou bater em você, que é forte (risos)... você sabia que sou campeão mundial de queda de braço? O último cara de quem eu ganhei, vocês todos sabem, foi o Mariel Mariscott (famoso policial truculento que integrava um grupo de elite chamado ‘Homens de Ouro’; foi executado na cadeia).
TODO MUNDO: Do Mariel Mariscott??? Caralho!!!
Leonardo: Quais que você considera suas grandes glórias, ‘tenho orgulho de ter feito isso’...
FW: (desconfiado) Orgulho de quê? (...) Escuta, vocês viram o quanto eu bebi hoje?
AB: Mais do que a gente e estamos bem pior. Somos amadores.
(...) FW: Vocês são uns merdas, então... aquela revista F. que só fala na condicional! ‘Ah, eu poderia, eu faria...’. É, é verdade, vocês são uma revista de merda... Ou você começa matando a pau ou não vai matar a pau nunca!
AB (evidentemente arregando): Concordo! É isso aí! Merdas, nós somos uns merdas!
L: Somos, mas estamos fazendo, ué... (...) a gente é uma mídia impressa, numa época em que não se dá valor a isso.
FW: Você pode explicar isso escrevendo.
L: A idéia da F. é justo o impublicável.
FW: Eu não acho que vocês façam grande coisa a mais do que eu faço no JB. Todo dia eu levo meu limite ao máximo.
L: Mesmo assim não te permitem fazer o máximo que você pode.
FW: Sim, mas eu sei que eu não tenho nada a ver com isso.
L: A gente faz o máximo que a gente pode.
FW: Não. Não é verdade, vocês se autocensuram.
(...) AB: Fausto, a gente está arrumando briga com nossos próprios pares. Não acho que o Miguel Paiva nem o Chico Caruso gostem da F... a gente não topa corporativismo (...) o Ziraldo veio reclamar com a gente.
FW: Eu acho que vocês estão prontos pra entregar essa revista.
L: Discordo. (...) O problema da gente é que a revista é uma coisa arcaica, neguinho não se interessa se pode baixar tudo da internet.
FW: Então vocês têm que pensar um negócio: ‘Onde foi que nós erramos?’
(...) L: E essa da gente disputar espaço em banda de jornal...
FW: Você sabe quantas bancas de jornal tem no Rio de Janeiro?
AB: Quantas?
FW: Vocês não sabem? Então, vocês são uns merdas. Vocês tinham que saber...
AB (irônico): A gente é artista, Fausto...
FW (cagando pra ironia): Ah, ‘artista’... artista dá o cu. Tem que saber quantas bancas, quantas famílias...
(...) L: Ninguém faz isso, Fausto. A gente só sabe fazer revista.
FW: Revista até eu faço.
AB: Nosso nome não tem o seu peso.
L: É inclusive uma honra pra gente te entrevistar...
FW: Cala a boca e escuta. Você é um cara que pensa e sabe. Há uma possibilidade da revista F. existir em todas as bancas: (...) a revista tem que transmitir o medo.
L: Mas ela dá medo.
FW: Não dá, vocês vão se fuder, entrevistam aquele idiota...
L: Mas essa é a idéia, entrevistar um cara totalmente diferente do outro a cada número...
FW: Eu acho que vocês têm que fazer o seguinte, apresentar as coisas como se fosse um grande negócio escrever. Qualquer um, o Rubem Fonseca... vocês têm que ganhar a credibilidade do leitor. Qual foi o primeiro cara que vocês entrevistaram?
L: Cláudio Assis, do ‘Amarelo Manga’...
FW: Fraco. Quem foi o outro?
L: Mr.Catra, o rapper. Você é o 4º; o 3º foi o Diogo Mainardi.
FW: Pois é! É a partir daí que pega... o Diogo Mainardi, eu já disse em uma entrevista, eu se fosse ele já tinha me suicidado (risos). Ah, ele é só um filhinho de papai. Tanto que ele não se mete a me esculhambar (pausa, suspiro). E agora vamos editar essa entrevista.

4 comentários:

alysson disse...

ei acho que isso te interessa
http://www.dtp.com.br/aracaju

alysson disse...

vc não tem perfil no orkut não é?

Viva La Brasa disse...

E aí Alysson. valeu pela dica do curso, mas não vai dar pra mim, bagulho muito caro... Sobre o Orkut, tenho perfil sim, só que não uso ele pra nada, a não ser p/ "add" umas amigas, qdo elas me pedem.

Adelvan disse...

Cacete, Fausto Wolf Comeu a Brigite Bardot ??? Deve ter morrido feliz, lembrando dessa foda ... Tipo, tou morrendo, mas foda-se, eu comi a Brigite Bardot.