quinta-feira, julho 31, 2008

POLÍCIA MILÍCIA O Rio de Já-era é a cidade maravilhosa mais perigosa do mundo. Lá, o crime favelado é mais organizado que o Estado, a concorrência do tráfico é a polícia, e os reféns são a população. Mas o que esperar de um lugar onde ex-governadores são acusados de formação de quadrilha?
Segundo a
ONU, o Brasil é o país que mais mata c/ arma de fogo no mundo. São Paulo e Rio são as capitais campeãs, concentrando 42% dos homicídios cometidos em território nacional – de uma média de 43.000 assassinatos/ano, 18.000 acontecem lá. Só p/ dar uma idéia, 8 pessoas entre 15 e 24 anos perdem a vida todos os dias nessas cidades, vítimas de armas de fogo. Nesta faixa etária, a chance de uma pessoa ser morta por tiros é 4,5 vezes maior do que o restante da população. Há 30 milhões de jovens no país, o maior número de toda a história. No entanto, 75% dos municípios brasileiros não oferecem nenhuma alternativa de lazer e cultura, 96% não têm cinema, 86% não têm teatro, e 25% não têm bibliotecas.
Em fevereiro de 2007, os cariocas
André Dahmer e Vinícius Costa criaram o site Rio_Body_Count p/ contabilizar os mortos & feridos na guerra civil do Rio, inspirados no site Iraq_Body_Count. O slogan era: "Não acreditamos em paz vigiada, queremos inclusão social". Após alguma repercussão na mídia, a página foi retirada da internet. Em seu lugar, surgiu o Rio’s_Police_Body_Count, p/ “chamar atenção (e abrir discussão) p/ o número preocupante de profissionais de segurança pública que morrem vitimados pela violência no Rio de Janeiro. O policial, em quem muitas vezes é depositada a responsabilidade pelo quadro de insegurança que se instalou no estado, é, antes de tudo, também uma vítima do mau a que se destina combater”, escreveu o PM Alexandre de Sousa no editorial. O site PE_Body_Count registra os homicídios em Pernambuco, um dos estados mais violentos do país. Até o fechamento deste texto, o mês de julho registrava 313 corpos.
NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR*A chance de um brasileiro morrer por arma de fogo é 3 a 4 vezes maior do que a média mundial. Nos últimos 20 anos o número de brasileiros assassinados aumentou 237%. E nos últimos 2 meses, quem mais se destacou na contabilidade da carnificina foi a PM-RJ, mostrando total despreparo e medo na hora de atuar, atirando p/ matar em uma série de operações desastrosas, nas quais os principais alvos foram civis inocentes – incluindo mulheres e crianças.Em um determinado momento, a minha geração de oficiais acreditou que a gente podia ganhar a guerra. Que operações noturnas, c/ alto grau de letalidade, c/ enfrentamento aos traficantes, poderiam inverter o jogo no Rio de Janeiro, mudar o que a gente vê. O que acontece é que depois de 2 anos, o oficial começa a perceber que essas operações são uma grande besteira. Que você subir na favela de madrugada, trocar tiro c/ traficante p/ apreender 100g de cocaína, 2 pistolas e 1 metralhadora, quando na verdade aquela favela tem 50 metralhadoras, 50 fuzis, 50 traficantes... Você começa a perceber que está enxugando um grande gelo...”, afirma o ex-capitão do Bope, Rodrigo Pimentel, autor do livro A Elite da Tropa e um dos roteiristas do filme Tropa de Elite. Rodrigo deixou a corporação em 1999, desiludido c/ o sistema.
Em entrevista ao
Jornal do Commercio, de Recife (14/10/2007), ao ser perguntado se há diferença entre “assassino” e “assassino de bandidos”, Pimentel declarou: “(...) Se existe um assassino do bem e um assassino do mal, eu diria que quem mata sem ódio, quem matou bandido acreditando que estava fazendo um benefício p/ a sociedade, na pura ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu não chamaria essa pessoa de assassino.” Acompanhe os últimos fatos e tire suas próprias conclusões:15/06 – Corpos de 3 jovens são encontrados num aterro sanitário do Rio de Janeiro, c/ mutilações e várias outras evidências de tortura. Descobre-se que eles (Marcos Silva, 17, Wellington Gonzaga, 19, e David Florêncio, 24) eram moradores do Morro da Providência e foram entregues a traficantes da favela rival, a da Mineira. O detalhe: quem os entregou foram militares do Exército que estão ocupando a Providência por causa das obras do Cimento Social, projeto eleitoreiro do bispo Marcelo Crivella, da Igreja Universal, candidato a prefeito. O comandante da patrulha era o tenente Vinicius Ghidetti, 25, o cara que entregou os moleques aos leões. Marcos, Wellington e David foram presos por engano quando desciam o morro. Iam p/ uma festa.
16/06 – O carro da engenheira Patrícia Amieiro Franco, 24, é encontrado na beira de um rio, na Barra da Tijuca, c/ buracos na carroceria, fragmentos de bala em seu interior, e o vidro dianteiro destruído por uma pedra de 10kg. O corpo de Patrícia nunca foi encontrado. A perícia acredita que o crime foi cometido por policiais militares durante uma falsa blitz – Patrícia estava c/ a habilitação vencida e teria tentado furar o bloqueio. A pedra no carro seria uma tentativa tosca de maquiar a execução da garota. O caso continua sem solução.

05/07 – O carro da advogada Alessandra Soares é fuzilado por 2 PMs. 3 tiros acertam o garoto João Roberto, de 3 anos, que morre instantaneamente. Havia ainda uma criança de 9 meses no interior do veículo no momento da execução, que por sorte não foi atingida. Os policiais confundiram o carro da advogada (um Palio Weekend grafite) c/ o de bandidos que eles perseguiam (um Stilo preto). “Não consigo perdoar”, desabafou o pai de João, Paulo Roberto, após a missa de 7º dia do menino. “Queria ter ido às manifestações gritar o nome do meu filho, mas tenho uma ferida aberta, que ainda sangra. Eu preciso me tratar para seguir com meu outro filho, que está vivo por um milagre”, disse à imprensa ainda emocionado.
14/07 – O administrador de empresas Luiz Carlos Costa, 35, é assaltado enquanto dirigia seu carro de volta p/ casa. Vítima de seqüestro relâmpago num primeiro momento, acaba vitimado definitivamente por disparos desferidos de dentro da viatura da PM que perseguia o ladrão. Durante a remoção dos corpos p/ uma ambulância, uma equipe do SBT flagra a brutalidade c/ que os policiais retiram os mortos – entre eles o inocente Luiz Carlos – , puxando-os pelas pernas, jogando-os no chão e carregando-os sem uma maca sequer (Costa ainda respirava).
"A polícia agiu corretamente", disse o secretário de estado de Segurança, José Beltrame. Mesmo pressionado pela opinião pública, ele garante que não irá mudar os procedimentos de abordagem: "Qual a polícia do mundo que recebe tiros e não reage? E não peçam para a polícia não reagir. A sociedade não quer que a polícia leve tiros e ela não quer levar tiros. O que ocorre é que os criminosos estão habituados há décadas a darem tiros por muito menos que isso e sempre vão dar tiros na polícia. Se essas pessoas tivessem acatado a ordem da PM de parar e fazer c/ que a polícia fizesse a abordagem como está treinada para fazer, nada disso teria acontecido."
O major Fábio Souza, chefe de instrução do Bope, discorda: “A instrução é clara: o policial militar não deve atirar em um carro durante uma abordagem ou perseguição policial se ele não conseguir identificar quem está dentro do veículo. É protocolo. E se tiver uma pessoa seqüestrada dentro dele? Mesmo que a pessoa atire contra você, não deve haver revide. Ou você se abriga, ou pára a perseguição e pede reforço pelo rádio. Você atira quando está vendo efetivamente o alvo, ou seja, o marginal que está atirando em você. Aí você atira." A declaração do major causou constrangimento entre as autoridades. De novo, Beltrame: "Ninguém autoriza nem autorizará ninguém a matar. O que provocou esses episódios foram bandidos, foram criminosos, acostumados há décadas a usarem, a portarem armas a hora que quiserem e onde quiserem. Ninguém está dando carta branca p/ matar."

16/07 –
Um curso de reciclagem p/ 22 homens é improvisado no 3º BPM, Méier, zona norte. Ministrado pelo major Fábio Souza, o treinamento foi dividido entre uma palestra sobre o “uso seletivo da força” e prática de técnicas de abordagem de veículo. O curso durou 3 horas.
Ao longo do mês, mais gente morreu na mão da PM carioca: Ramon Fernandes, 6 anos, na favela do Muquifo durante perseguição a traficantes; William de Souza, 19, confundido c/ criminoso por policiais do 14º BPM - Bangu (William era cantor gospel); Daniel Duque, 18, baleado por um segurança de boate (PM fazendo hora extra) em Ipanema; Brian Alves, 8 anos, atingido na cabeça dentro de uma lan house durante operação de polícia na Cidade de Deus...
Nessa guerra não há vencedores. No dia 17, um sargento e um cabo da PM foram assassinados na Lagoa Rodrigo de Freitas, e um outro sargento, reformado, foi perseguido em sua moto por 6 homens e metralhado no subúrbio do Engenho da Rainha. Durante uma solenidade de entrega de novas viaturas, o governador Sérgio Cabral caiu na real: “Que cidade é essa? Inocentes morrem, e policiais são metralhados. Que cidade é essa? É a cidade que nós queremos?

21/07 – O deputado estadual Natalino Guimarães (DEM) é preso em casa após troca de tiros c/ a polícia em Campo Grande, zona oeste.
Outros 5 homens foram presos c/ ele. Natalino, ex-inspetor, fora expulso da Polícia Civil apenas 10 dias antes da operação que o levou sob custódia. Junto c/ o irmão Jerônimo, ele é acusado de chefiar a milícia conhecida como “Liga da Justiça”. Milícias são organizações paramilitares compostas por civis. No Rio, esses grupos disputam o controle das favelas e comunidades carentes c/ o tráfico. Funcionam como a máfia: expulsam os traficantes e passam a cobrar taxas por serviços como gás, luz e principalmente segurança.
As milícias têm utilizado candidatos próprios impostos à força aos moradores das comunidades dominadas por eles. Afinal, esses “currais eleitorais” significam nichos de até 500.000 eleitores em potencial. Estima-se que, somente na zona oeste do Rio de Janeiro, esses grupos tenham faturado R$ 17 milhões em 2007.

24/07 – Em outra operação, a Polícia Civil desmonta um esquema de apoio ao candidato a vereador Luiz Cláudio de Oliveira, o
Claudinho da Academia (PSDC), presidente da Associação dos Moradores da Rocinha. Documentos apreendidos na casa de uma das mulheres do chefe do tráfico no morro, Antônio Lopes, o "Nem", revelam diretrizes p/ a comunidade: “Todo empenho p/ o candidato da Rocinha. Não aceito derrota! Ninguém trabalhando p/ candidato de fora. (...) Convidar os amigos que ‘trabalha’ p/ outro político p/ a próxima reunião. Quem faltar vai mandar buscar. (...) Pedido do candidato da Rocinha não pode ser negado em nenhum segmento (vans, mototáxi, etc.).
Nas cobranças feitas por Nem a líderes comunitários, o traficante reclama do maior comerciante de gás da favela, Gonçalo Evangelista, que não estaria apoiando nenhum candidato, além de abandonar a Associação dos Moradores sem avisá-lo. Na ata de reunião, Nem decreta: “Romper c/ gás”.
Diante das evidências, a conclusão do governador Sérgio Cabral: “Esses episódios mostram que a criminalidade do Rio é algo absolutamente grave, que nós temos que enfrentar e nós vamos continuar enfrentando. Quem acha que pode enfrentar bandidos fortemente armados c/ fuzis, c/ granadas e c/ discurso, está equivocado.
UPDATE"Diz aí Adolfo, onde a PM não é assassina?", perguntou-me um amigo por e-mail, quando eu contei que estava escrevendo uma matéria sobre a polícia carioca. No último domingo, 27/07, o brasileiro André Martins, 25, morreu assassinado pela polícia de Massachusetts (EUA) ao tentar furar uma blitz. André, que estava c/ a namorada no carro e trabalhava como jardineiro na região de Cape Cod, já tinha sido preso por dirigir sem licença. O autor dos disparos foi o policial Chistopher Van Ness, 34. Segundo Van Ness, o brasileiro tinha um "cigarro de maconha" na boca. “Eles estão tentando arrumar uma desculpa p/ o que fizeram, mas eles não tinham nenhum motivo p/ atirar nele”, diz Camila Campos, namorada de Martins. “Até americano corre da polícia quando está sem documento.
BLOG ALTAMENTE RECOMENDADO: Rasura Livre, do cartunista Leonardo - a série de charges "Arquivo Moribundo" resume tudo o que foi dito aqui.

*NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR (1999), João Moreira Salles e Kátia Lund:

http://br.youtube.com/watch?v=K9TS_N2YbZ4

segunda-feira, julho 21, 2008

MACACO LOUCO
Schiavon, gênio do mal
"São Paulo está um caos, é época eleitoral, Morta e Nosferatu estão no páreo, os EUA dominam o mundo e os clones de George Bush são a polícia. Os clones estão por todo lado e a você cabe a missão de salvar a indústria das pegadinhas." Este é o roteiro de “GTA_SP”, uma das versões brasileiras de “Grand Theft Auto”, da inglesa Rockstar Games, o joguinho mais popular do momento, onde o mote é ser ladrão de carro & apavorar geral. O mapa do jogo original era uma cidade virtual, “Vice City”, que traduzindo quer dizer “Cidade do Vício” e é igualzinha a Miami. Assim como “San Andreas” é Los Angeles (GTA_II), e “Liberty City” é Nova Iorque (GTA_III). No Brasil, o pirata “GTA_RJ”, c/ cenas em favelas e funk na trilha sonora, já circula no mercado negro, e vários programadores estão desenvolvendo uma versão p/ São Paulo, entre eles Luís Schiavon, autor da história que abre este parágrafo. Seu MOD do “GTA” tem como personagens Sérgio Mallandro, João Kleber e Netinho, entre outros, e fez sucesso numa exposição do Santander Cultural em Porto Alegre (RS).Schiavon é roteirista de videogame, professor de animação digital e criador da ADM - Sociedade Secreta, trinca de ases do cartum: MZK, Allan Sieber e ele mesmo. Seu 1º personagem publicado foi Zuper Zâmbala, uma tira estilo noir que fazia parte do encarte MAU da revista Animal, no início dos anos 90. Depois vieram o Mãos Trocadas e o Drogado Matador, nas revistas Dundum e Glória, Glória, Aleluia!. Passou um tempo sumido – 2ª metade dos anos 90 – mas nunca parou de produzir quadrinhos. Das “500 ou 600” páginas desenhadas no período, “não tenho um único original comigo, eu sempre descolei p/ quem parecia gostar daquilo mais do que eu”, diz. “Os quadrinhos que não foram publicados têm letras toscas e o desenho é corrido porque eu estava preocupado em viver, não em ficar trancado, fazendo ‘bunitu’ p/ marmanjo babar.Voltou à cena c/ o gibi Mulher Preta Mágica, da coleção de bolso da editora Tonto, do cartunista Fábio Zimbres. "Schiavon é o nome de um cara que tocava no RPM e todo mundo vive confundindo os dois (...). Mas não tem nada a ver. Um é cuzão e o nosso é legal. Escandalizando leitores desde os tempos da Animal, o rapaz continua espalhando o medo pelo assoalho encerado dos quadrinhos brasileiros", escreveu Zimbres no perfil do amigo nas Tiras Tonto. Em seguida, veio a Liga da Vesga, publicada em capítulos na revista Tarja Preta, zoação c/ os super-heróis: o Governo Brasileiro assinou um contrato c/ Satanás, e a Vesga é a salvação no dia do Juízo Final. A heroína que dá nome à série é zarolha, assombrada pelo fantasma da mãe, gosta de andar nua, e protagoniza tórridas cenas de lutas lésbicas c/ suas inimigas. Seus aliados são o Mãos Trocadas, o Mãos de Morsa, o Saci Firmeza, o Gorila Sábio, a tartaruga Cubanito, e o skatista Lázaro, aquele da Bíblia, reencarnado num deficiente físico c/ super-poderes. Outro personagem bíblico repaginado é Jesus, de volta à Terra como Jizzla, um ciborgue rasta inspirado no cantor jamaicano Sizzla, que não permite brancos em seus shows e é a favor do assassinato de homossexuais.
Viva La Brasa – Como é ter o mesmo nome do tecladista do RPM?
Schiavon - O maluco ficou sumido mais tempo do que eu, ainda domino a 1ª página de busca do google no Brasil, agora só me perguntam que fone qu’eu uso no Faustão. Na época do RPM, eu tinha uma banda punk e recebi uma carta de uma fã, eu era tão Jeca que achei que era p/ mim...
VLB - Você é paulista ou gaúcho? Lembro de seus quadrinhos na Animal, que era de SP, mas tb. na Dundum, do RS...Sch - Eu sou paulista mas morei um tempo em Porto Alegre, fiz uma oficina de tiras c/ os editores da Animal, Fábio, Priscila e Newton, e eles resolveram publicar as tiras de alguns alunos. A DumDum veio depois, eu entrei pra Banda, conheci o modo bagaceiro de viver, fui professor de violão e conheci um estúdio de desenho animado, a Otto Filmes.
VLB - C/ certeza vc nunca ganhou dinheiro c/ quadrinhos...Sch - No começo, os quadrinhos até me deram uma grana, eu fiz uns gibis pornôs, 60 pgs cada, desenhava roteiro dos outros e tinha uma editora lavando dinheiro de contrabando que comprava tudo que eu fazia. Um dia o Fábio Zimbres me disse: ‘por quê o roteiros das HQs XXX são tão mixurucas?’, eu pensei nisso e bolei o Mãos Trocadas, 64 páginas, uma editora comprou, mas não lançou. Acho que c/ esse gibi eu consegui ofender toda criatura viva, quando eu acabei, a lâmpada explodiu em cima da minha cabeça. O nome ‘mãos trocadas’ eu tinha ouvido uns anos antes no estúdio do Otto, eu roubei do Rodrigo sem querer. Este ano vendi um roteiro p/ um curta animado, estou agora desenvolvendo os personagens e os cenários: http://www.schiavox.blogspot.com...
VLB - A ADM foi idéia sua?
Sch - Na época (90 e poucos) eu disse pro Allan que nós deveríamos montar uma organização, grupo ou coisa assim, o MZK entrou depois, virou presidente e a ADM se tornou sociedade secreta.
VLB - Vc ficou só nos quadrinhos pornô nos anos 90?
Sch - Fiz o Clube da Vesga, mas não vendeu. Depois fiz outro tipo de HQ p/ o Cybercomix, tive tendinite e comecei a fazer 3D c/ a mão esquerda, voltei a desenhar fazendo arte final p/ animação publicitária, trabalhei numa produtora de vídeo, fiz cenários e comecei uma série onde eu faço tudo: o Tomate Ladrão. Joguei fora a papelada e as tintas p/ fazer a arte final só no computador, essa transição e as 200 páginas que eu não publiquei foram adversidades enfrentadas nesse meio tempo.
VLB - Seus personagens são os mais loucos... De onde surgiu a idéia do Zuper Zâmbala e do Drogado Matador, por exemplo?
Sch - Sobre o Zâmbala, o desenho dele saiu do meu reflexo no café no fundo de uma xícara de camping, o estilo antigo tipo Nick Holmes (Alex Raymond) tinha algo que era incômodo p/ mim, os personagens não se olham e falam com a boca fechada, eu queria isso na minha tira. O cachorro eu não sei explicar, não havia nada parecido em lugar nenhum que eu poderia conhecer. O Drogado Matador veio do preconceito (maior há alguns anos) que todo maconheiro é bandido, eu só ampliei a idéia.
VLB - A Liga da Vesga vai continuar na Tarja...?Sch - Sim! A Liga é a continuação da Turma do Morsamania e do Clube da Vesga. Já entreguei as páginas p/ o nº 6, finalizadas no Toon Boom, e acaba no nº 7 c/ o ‘Sermão da Montanha de Entulho’.
VLB - E o Jizzla?
Sch - Eu hoje sou evangélico, mas antes eu tinha preconceito e até mesmo ódio das pessoas religiosas, mas conheci gente séria que vive além da teoria. Por conta dos adoradores da grana, de ídolos, dos que esperam um tesouro na cova, eu fiz um Jesus que devia ser o Vilão, mas veja bem. Eu comecei a Liga depois que o EUA invadiram o Iraque, as tramóias dos governos seriam o pano de fundo para a questão: a humanidade merece ser salva? P/ todos os personagens a questão foi simples, eles são brasileiros, esperam que todos morram menos eles próprios, certo; mas e Jesus? Ele ama todas pessoas e esse estranho conceito é a linha invisível do que eu quis discutir.
VLB - Fale dos videogames que vc anda desenvolvendo...
Sch - Eu fiz um MOD p/ GTA3 onde troquei as texturas das cidades, insertei personagens novos, recriei a estória e gravei novas missões, não há nada parecido no mundo. Nesse blog explico como fiz tudo:
http://www.gtasp-skiii.blogspot.com.
VLB - O que vc acha dessas proibições a games aqui no Brasil?
Sch - Quando um grande grupo é penalizado p/ poupar um pequeno grupo, se vê que a coisa vai mal, quem tem que ver o que os guris estão jogando é o pai, a mãe etc. Nos EUA, daonde a gente gosta de copiar proibições, não rola, porque quando eles resolveram poupar grana dos exercícios militares, tentaram 1º o paintball, depois chegaram a conclusão que os games seriam a boa. Então o governo americano disponibiliza um jogo que é uma escolinha p/ assassinos, as armas são reais e o jogo te ensina a lidar com elas e como acontece nos massacres nas escolas de lá, você pode aprender a atirar no 2º alvo antes que o 1º caia. Por aqui o ignorante que proibiu os games devia proibir o futebol, que tem um efeito muito pior p/ a população.
SCHIAVON GAMES LTD.Ralli Z: “Depois da Microsoft criar sua engine p/ jogos, o XNA, a Sony e Nintendo também vão lançar suas próprias plataformas p/ criação de games. As produtoras se especializaram demais em fazer porcarias como jogos de samurai, oferecendo somente um visual mais elaborado p/ cada console mais novo, por isso essa onda de ‘power to the people’. O mais importante p/ um novo game é ter 1º o roteiro, os modelos 3D e suas caixas de colisão. O roteiro eu já tenho e já projetei 3 cidades, 50 carros e 60 personagens.”
GTA_SP: “O Vice City é um jogo bonito mas chatão, tem a parada capitalista que é estilo Sim´s, ‘meu boneco é o dono da cidade’, pusta porcaria. O Santo André [GTA - San Andreas] vai muito bem até o lance de arrumar a namorada e combater os alemão, é um emprego! Mas as texturas são tão boas que fica muito difícil trocar por uma melhor, e o mapa que é 3X maior que o VC, que é 5X maior que o III. Estou passando os posts do GTA_SP p/ um blog próprio, c/ a tarefa de provar que eu sou o único roteirista de games do Brasil, mas não vou sonegar informação não! Comece mudando o filme da abertura, tem 2 no formato MPEG, na pasta movies. Minha opinião é que jogo não tem que ser realista, na sequência eu posto o esquema das gangs e das novas missões. Até a vitória final!”
GALERIA SCHIAVONBLOGS: Schiavon tem 2 blogs, o Schiavox e o Schiavoz. No 1º divulga seus trabalhos de animação, videogame etc. No 2º publica seus quadrinhos e observações sagazes acerca da realidade brasileira: “A 1ª vez que eu vi um ‘doutor’ numa propaganda foi numa revista velha vendendo cigarros, dizia que fumar era uma linda jogada, ‘limpava os dentes e refrescava o hálito’, nessas palavras. Os comercias de cigarro fizeram outras migrações, os do Free, agora são de pinga e vodca, e como antigamente nos reclames do Hollywood, as pessoas pegam os jet-skis e dão o maior rolê p/ escovar os dentes na casa do chapéu.”CURSO DE ROTEIRO: “Não tem uma semana que eu fico sem ver alguém dizer que faltam bons roteiros por essas bandas, mas o método dos nossos roteiristas é muito bom, vejam esse exemplo: 1) 1º vc assiste os canais gringos p/ ‘referência’ e p/ enxergar tendências, tipo: todo ano rola um seriado de vampiro, agora até de empregos os sangue-sugas estão atrás, mas o quê os gringos nunca fizeram? 2- Idéia meio original: O Vampiro Índio! 3- Vamos transpor essa idéia p/ nossa realidade, explorando a pobreza feliz e os índios que tem por aqui. Mande comprar as câmeras!”OLLDOG: É o nome da sua produtora de desenhos. Entre seus trabalhos, está a animação anarquista “Tomate Ladrão”.ARTE: Schiavon tb traça umas linhas mais clássicas, ainda que suas técnicas não tenham nada de convencionais: “1º trampo no tablet. Eu passei no scanner o lápis e pintei em cima.”

quarta-feira, julho 16, 2008

PROIBIDÃO A justiça é cega. É por isso que eu confio mais em ditados populares do que nela. Semana passada a Polícia Federal realizou a Operação Satiagraha. Satya” significa “verdade” em sânscrito, e “Graha”, “firmeza”. A expressão “satiagraha” foi usada por Gandhi durante sua campanha pela independência da Índia, no início do séc.XX. Um século depois, a PF brasileira usou o termo em mais uma de suas operações c/ nomes cool: Zumbi, Vampiro, Sanguessuga, Isaías, Zaqueu, Matusalém, Pandora, Colheita, Hurricane, Farol da Colina... No dia 08 de julho, os hômi agiram como poucas vezes se viu no Brasil – prendendo bandido rico. Ouviram voz de prisão em suas respectivas mansões e coberturas o ex-prefeito de SP Celso Pitta, o notório pilantra Naji Nahas (o cara que quebrou a Bolsa do RJ nos anos 80, um clássico do 171!), o dono do banco Opportunity, Daniel Dantas, e mais 14 pessoas envolvidas num esquemão de lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta, evasão de divisas, formação de quadrilha e tráfico de influência p/ a obtenção de informações privilegiadas em operações financeiras.
Um político ser preso nem me surpreendeu tanto – o padrinho do Pitta, Paulo Maluf, já tinha ido – mas um banqueiro?! As coisas pareciam mesmo estar melhorando, mas cadeia de rico dura pouco,
e o presidente do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, expediu habeas corpus por considerar “desnecessária” a prisão dos suspeitos: “É um quadro de espetacularização das prisões, dificilmente compatível c/ o estado de Direito". Antes mesmo de a operação acontecer, Dantas tinha se antecipado e pedido um habeas preventivo. O juiz do STJ paulista, De Sanctis, expediu novo mandato de prisão em seguida, e o ministro Gilmar Mendes novamente mandou soltar. O Ministro da Justiça, Tarso Genro, afirmou que a concessão de um novo habeas corpus ao banqueiro cria a possibilidade de fuga do país: "A possibilidade realmente existe. Como Daniel Dantas tem insistido que é inocente e vai provar a sua inocência, nós esperamos que ele fique p/ provar sua inocência e responder o processo." Oportunidade ele tem, né ministro.
Os 2 habeasback-to-back” do juiz Gilmar Mendes coroam uma série de decisões bizarras que a justiça brasileira vem tomando este ano.
Além de impedirem a realização de marchas de maconheiros, os ilustres magistrados tb proibiram a comercialização de alguns videogames no início do ano. Enquanto a polícia mata inocentes a rodo no Rio de Janeiro e o crack se populariza no Brasil c/ mais voracidade que a dengue, a Justiça acha que o problema são os joguinhos de computador – os games “Bully”, “Evequest” e “Counter Strike” estão proibidos sob alegação de serem “impróprios p/ o consumo na medida em que são nocivos à saúde dos consumidores". O principal argumento é a violência inerente nestes jogos, alguns deles comercializados no país desde 1999. “Bully” é a simulação de universidade americana onde o mote são os “trotes” barra-pesada dos veteranos nos calouros. “Everquest” é um jogo de luta estilo medieval. E “Counter Strike” é você dando uns tiros nuns inimigos em ambientes inóspitos, como o campo de batalha no Iraque ou uma favela do Rio. Segundo o Procon, esses joguinhos ferem o Código de Proteção e Defesa do Consumidor.Counter Strike” é um dos maiores hits de todos os tempos, e alguns brasileiros já venceram a Electronics Sports World Cup, Copa do Mundo dos games, graças a ele. A barra começou a sujar pro “C.S.” quando começou a circular a notícia de que Cho Seung-Hui, autor dos assassinatos múltiplos na Virginia Tech, era fã do jogo – o que nunca foi provado. "O que me deixa furioso é que políticos decidam assumir o papel de pais substitutos. Os resultados disso são usualmente desastrosos, além de antidemocráticos", escreveu Stephen King em sua coluna sobre cultura pop na revista Entertainment Weekly em abril. À época, estava sendo votado em Massachusetts (EUA) um projeto de lei que proibiria a venda de games violentos p/ menores de 18 anos.
O problema não é se o jogo é violento ou não. O problema é se você consegue separar que o jogo é um jogo e a vida a ser vivida aqui fora, neste mundo de carne e osso, é parte daquilo ou não”, explica o professor de informática da Universidade Federal de Pernambuco, Sílvio Meira, especialista em engenharia p/ criação de videogames. Outro professor de informática, Bruno Feijó, da PUC e UERJ, acha que a proibição não é apenas preconceituosa, mas ineficaz: “Ela não tem meios de controlar o acesso e o uso desse conteúdo digital nas suas várias formas, não só o game”. Feijó refere-se à internet e à pirataria digital.
Não acho que o jogo influencia o comportamento, é uma questão de educação. Todo mundo jogou ‘Super Mario’ quando era criança, mas ninguém pisa em tartaruga e come cogumelo por causa disso. Ninguém sai atirando”, diz Cláudia Miranda, paulista de 24 anos, recém-formada em arquitetura. Ela joga “Counter Strike” desde 2001, e participa de competições profissionais desde 2004. Junto c/ mais 4 gatinhas, ela forma o time LadieS, 2X vice-campeãs da ESWC na categoria feminina do “C.S.”: “É outra era. Muitos pais não entendem que o computador, hoje, é melhor que a rua, que a bicicleta”, diz Cláudia. Sua companheira de equipe, Priscilla Nagashima, 18 anos, lembra que o jogo pode ser comprado on-line c/ cartão de crédito internacional. “Se for p/ proibir, tem de proibir muitas outras coisas, como filmes e coisas do dia-a-dia”, indigna-se a japinha.
Se apenas a idéia de classificação etária causa calafrios em Stephen King – um cara acostumado a escrever sobre o horror - , no estado de Missouri (EUA), pesquisadores da Universidade de Columbia monitoraram a atividade cerebral de 39 jogadores e sugerem uma relação de causa-efeito baseada em impacto emocional: videogames c/ cenas de violência aumentariam a probabilidade de seus usuários se comportarem de maneira agressiva. Segundo o psicólogo Bruce Bartholow, que liderou o estudo, as pessoas pesquisadas manifestavam pouca reação ao ver imagens de violência na vida real”.
No Reino Unido, o jogo “Manhunt” da produtora Rockstar Games está proibido desde 2007. Manhunt” significa “Caçada Humana”: o enredo é a fuga de um paciente de um asilo psiquiátrico que precisa matar seus perseguidores p/ ter uma chance de sobreviver. Os pais do adolescente Stefan Pakeerah, assassinado em 2003, culparam a obsessão do assassino de seu filho pelo jogo como fator determinante na execução do crime. Este ano, a Advertising Standards Authority (ASA), entidade que regulamenta a publicidade britânica, proibiu a propaganda na TV do jogo “Stranglehold”: “Consideramos que os anúncios poderiam encorajar a violência”. A Picture Production Company, responsável pela produção do conteúdo, contraargumenta: “A violência é estilizada, e não realista.
Paradoxalmente, o game Grand Theft Auto” é o produto de entretenimento mais rentável da história, c/ direito a registro no Guiness Book. A sua 4ª versão, lançada em 29 de abril, vendeu 3,6 milhões de cópias no dia de estréia, gerando US$ 310 milhões, superando outros recordes de vendas em 24 horas, como o game "Halo 3" (US$ 170 milhões), o filme "Homem-Aranha 3" (US$ 60 milhões) e o livro "Harry Potter e as Relíquias da Morte" (US$ 220 milhões). Produzido pelo mesmo estúdio Rockstar do proibido “Manhunt”, o novo “GTA″ conta a história de um imigrante croata chamado Niko Bellic que chega aos EUA em busca do “sonho americano” – mas as coisas, obviamente, não saem como o esperado p/ o personagem. A série “Grand Theft Auto” (cuja tradução literal é “Grande Roubo de Carro”) ficou famosa por dar aos jogadores a oportunidade inédita de atirar em policiais, praticar assaltos e abusar de prostitutas. Em tempos de “Lei Seca” no Brasil, o game tem um atrativo a mais: é possível dirigir bêbado na nova edição. Apenas no Reino Unido, foram vendidas 609 mil cópias no dia de lançamento. "As últimas 24 horas têm sido como um novo Natal", comemorou Kim Bayley, diretor da Entertainment Retailers Association (ERA), que representa 5 mil lojas de games naquele país: “GTA IV é um fenômeno!”.
Em abril de 1999, os adolescentes Dylan Klebold e Eric Harris invadiram sua escola c/ um arsenal, atiraram nos colegas, mataram vários deles, e depois se suicidaram. O atentado foi creditado à má influência do jogo “Doom”, clássico game de tiros em 1ª pessoa. Em novembro daquele mesmo ano, o estudante Mateus Meira invadiu um cinema na zona sul de São Paulo e atirou impiedosamente contra a platéia. Culpou-se então o game “Duke Nukem 3D”. Segundo a promotoria, a movimentação de Mateus no cinema repetia uma das seqüências do jogo, em que o personagem principal deve combater extra-terrestres que pretendem invadir a Terra. O Ministério da Justiça, então, proibiu a circulação e venda de 6 videogames, entre eles “Duke Nukem” e “Doom”, antes mesmo de uma avaliação classificativa dos jogos. No decorrer do processo, ficou provado que Meira tinha agido sob efeito de cocaína, da qual era dependente, e que possuía um histórico de problemas familiares e tendências psicóticas.
"Na minha experiência, aprendi que as pessoas que fazem essa transposição da violência do virtual para o real, em geral, apresentam conteúdos que precisam ser investigados e que, na verdade, já dão sinal há um longo tempo", avalia a professora Lynn Alves, da Universidade Estadual da Bahia, autora de uma tese de doutorado sobre o tema. "Trabalho há muito tempo c/ a relação entre educação e tecnologia. Nas palestras que dava, recebia c/ freqüência perguntas sobre a violência dos jogos, vindas de pais preocupados c/ os filhos. A partir desses questionamentos, comecei a investigar esse fenômeno. A primeira conclusão é de que os sujeitos compreendiam a violência como algo inato e que a sociedade e a cultura é que iam brecar esses instintos violentos", explica.
Na Alemanha foi realizado um estudo do comportamento do cérebro em jogadores de games violentos. Ligadas a um equipamento, as cobaias disputaram um game cuja tarefa era invadir um complicado refúgio p/ resgatar reféns, matando uma série de inimigos no caminho. O professor Klays Mathiak, da Universidade de Aachen, responsável pela pesquisa, chegou à conclusão que “à medida que a violência ficava evidente, as áreas do cérebro ligadas à emoção eram desativadas”. O trabalho de Mathiak foi publicado na revista New Scientist.
Os joguinhos citados até aqui (“Doom”, “Duke Nukem”, “Manhunt”, “Bully”, “Everquest” e “Counter Strike”) não são os únicos proibidões do mundo dos games. A Austrália proibiu os jogos “50 Cent Bullet Proof” e “Marc Ecko´s Getting Up”, e a Nova Zelândia, “Reservoir Dogs”; os EUA proibiram “The Guy Game”; a China baniu “Command and Conquer: Generals”; a Coréia do Sul, “Mercenaries: Playground of Destruction”; o México, “Ghost Recon Advanced Warfighter 2; a Alemanha, “Postal” e “Commandos: Behind Enemy Lines”. Pokemon”, por incrível que pareça, foi tirado de circulação dos países árabes sob acusação de “possuir a mente das crianças – o brilho emitido pelo personagem Pikachu em sua transformação no desenho animado provocou ataques epiléticos em alguns telespectadores no Oriente.
Alguns países, como EUA, Alemanha e Holanda, possuem centros particulares c/ tratamento exclusivo p/ gamers. Os principais casos registrados são dos viciados em RPG on-line: World of Warcraft” é responsável por 40% das internações. O dr.Cristiano Nabuco, do Hospital das Clínicas de SP, já atendeu um adolescente que passava dias inteiros em frente ao computador – urinava e defecava nas calças. Ano passado, o melhor jogador brasileiro de “Gunbound” foi seqüestrado por uma quadrilha que exigiu como resgate os pontos acumulados por ele neste jogo. No mercado negro dos videogames, o crédito virtual da vítima do seqüestro já estava valendo R$ 15.000,00.
A primeira vez que ouvi falar de um videogame proibido foi c/ Carmageddon”, no qual o jogador dirigia um carro pela cidade e ganhava pontos ao atropelar pedestres. "Muitas pessoas usam a violência dos games como uma catarse mesmo, uma maneira de extravasar, colocar a raiva p/ fora", relata a professora Lynn Alves. Mas ela acredita que a proibição dos jogos eletrônicos é uma simplificação do próprio fenômeno da violência: "As pessoas reduzem a questão à causa e efeito. É como se bastasse jogar o videogame p/ tb agir violentamente e reproduzir mecanicamente aquele comportamento. A análise desse contexto tem que levar em conta a questão cultural e social."
Atualmente, um jogo no Brasil pode receber cinco diferentes classificações: Livre, 12, 14, 16 ou 18 anos. Segundo Celva Reis, do Departamento de Classificação Indicativa, a intenção é fornecer subsídios p/ que os pais e os próprios jogadores saibam de antemão o que estão comprando: "Nosso trabalho é indicativo p/ oferecer esclarecimentos aos pais e à sociedade. Agora, a opção de comprar ou não, fica p/ a família."

Segundo a professora Lynn, os pais podem, e devem, utilizar a violência dos joguinhos p/ debater o assunto c/ os filhos. "O que acredito e defendo, é que os pais, independente da faixa etária do filho, participem dessa escolha. Vá lá, veja, jogue, interaja", diz. "Creio que essa é a forma. Porque quem vai intermediar o tempo que o jovem vai passar no videogame é o adulto. Os casos em que os indivíduos fizeram a transposição do virtual p/ o real foram de pessoas que não internalizaram uma lei que deve ser constituída lá atrás, na infância."
Videogames não se restringem à violência
. É comprovada a eficácia do uso de simuladores virtuais no treinamento de cirurgiões e aviadores, por exemplo. E estudos já ratificaram o estímulo dos joguinhos às capacidades cognitivas e motoras. O novo lançamento da Nintendo, o Wii, já está sendo usado em fisioterapias e até tratamentos geriátricos nos EUA, Canadá e Europa. “Atendi um senhor que teve um derrame durante uma partida de tênis e, mesmo após a reabilitação, continuava a ter problemas motores e de equilíbrio. O Wii foi ideal p/ ele praticar os movimentos que precisava p/ voltar às quadras”, relata o médico Matthew White, especialista no uso de tecnologias avançadas p/ tratamentos fisioterápicos.
"O debate que estamos vendo é muito semelhante ao que ocorre há anos em relação à televisão. A verdade é que há muitos fatores que podem levar à violência, é difícil dizer que a tendência à violência ocorre por causa de um único fator", afirma David Buckingham, professor do British Institute. Lynn Alves acrescenta: "Analisar o fenômeno da violência de forma tão simplista é irresponsável. É algo que precisa ser analisado de forma cultural, social, histórico, emocional. É um problema de saúde coletiva."

Enquanto os jogos continuam proibidos, 12 dos 14 indiciados na Operação Satiagraha estão soltos, incluindo Pitta, Nahas e Dantas. Picaretas, iguais àquela usada no “Didi na Mina, game que vinha de brinde no Odyssey, principal concorrente do Atari nos anos 80. A novidade no caso é o afastamento de 3 delegados responsáveis pelas investigações, entre eles Protógenes Queiroz, responsável pela operação. Oficialmente ele deixa o posto p/ fazer um curso presencial de reciclagem”, tb conhecido como "Cala Boca. Após o curso, ele não retornará às investigações, nem os outros delegados “reciclados”.
Eu sempre fui fã dos joguinhos old school, como “Pac Man”, “Donkey Kong” e “Super Mario Bros”. Nunca tive vontade de sair atirando por aí depois de jogar “Space Invaders”, por exemplo. Das atuais plataformas 3D, gosto da série “Tony Hawk”: no #3 eu curtia dar uns rolês de skate na pele do Bam Margera vestido de palhaço. Tb curto “Tetris” (2D) e “Pinball” – o real & o virtual. E, p/ falar a verdade, de todos os games de luta, nunca me diverti tanto quanto jogando “Street Chaves”, sátira do “Street Fighter” c/ os personagens do seriado mexicano do SBT: é possível travar duelos clássicos, como Chaves X Quico, Seu Madruga X Sr.Barriga, ou até mesmo Dona Florinda X Prof.Girafales (briga de casal). E ainda tem a Chiquinha, o Nhonho, a Bruxa do 71...
Viva La Brasa é jornalismo gonzo de verdade
, sempre jogando a farinha no ventilador – p/ desespero dos bicudos... Corri atrás e descolei uma entrevista realizada pelo site Audiogame c/ os hackers Roger e Joca, criadores do polêmico “Counter Strike - Rio de Janeiro”, um mapa pirata simulando ambientes de favelas cariocas. Celebrado pela geral e sucesso nas lan-houses, “CS_Rio” acabou sendo um dos principais alvos da Justiça no processo de banimento do jogo no Brasil:

Como e quando surgiu a idéia?
- Surgiu em uma Lan onde jogávamos “Half-Life – Deathmatch” e por conseqüência o “Counter-Strike”. O Roger já era programador, e tb era ligado em games, uma vez ele até fez o prédio q morávamos na plataforma do “Doom”. E nesta onda de cenários p/ games, resolvemos arriscar 1 p/ “Counter-Strike”. Bem no começo do “CS” existiam mapas como Iraque, Itália e Havana, achamos que o Brasil deveria ter um mapa, e nada melhor que uma favela no Rio de Janeiro p/ retratar um jogo de polícia e ladrão.
Quanto tempo levou p/ o cenário ficar pronto?
- O tempo todo de trabalho, desde o primeiro rascunho a lápis até estar disponível p/ download, foi de 1 ano inteiro. Claro que foi feito aos poucos, pois como trabalhamos a semana toda, nos dedicávamos aos fins de semana.
Qual a repercussão, na época em que foi disponibilizado, entre os demais jogadores?
- Foi muito positiva. Só no primeiro mês muita gente baixou, não só pelo site do “CS_Rio” original, como em outros sites q também disponibilizaram o mapa, como por exemplo o da INFO, e do TERRA. Logo na seqüência veio a CPL no Renassaince onde o mapa foi divulgado e ovacionado. Tb rolou um campeonato na Alemanha só c/ o “CS_Rio”. Os europeus adoraram o mapa, pelo exotismo e pelo campinho de futebol jogável.

Qual foi a reação de vocês ao sucesso do mapa?
- Totalmente inesperada. O negócio só começou a pegar fogo quando começamos a receber e-mails do mundo todo comentando o mapa. Começou a aparecer na mídia, em revistas de informática, matérias de jornal e, principalmente, na televisão nas emissoras maiores. Gravamos um programa de televisão voltado a games, entrevistas e outras coisas q também repercutiram.
Como vocês se sentiram quando souberam do banimento do mapa no Rio de Janeiro? E do recente banimento do jogo “Counter Strike” em todo o território nacional (que foi “justificado” pelo conteúdo do mapa, que não está incluído no jogo)?
- Acho muito esquisito este negócio de banir um jogo, ou até um mapa. Nunca recebemos um e-mail, ou qualquer informação p/ tirar o mapa da net, está aí até hoje, é só baixar e ter o counter. Acho que existe tanta coisa no Brasil p/ se preocupar, em vez de proibir games.
- Acredito que as pessoas que proibiram o “Counter Strike” devem ter tido uma infância difícil, onde na escola recebiam castigos de ajoelhar no milho e eram surradas pela palmatória, ou ainda eram abusadas sexualmente pelos professores, porque voltar a esta questão é voltar à censura, à época que aconteciam estas coisas.
- O banimento não resolve nada, pelo contrário, atrai mais interesse para o jogo. Nessas épocas, o download do “CS_Rio” vai p/ as alturas!
Vocês acham que o jogo “reproduz a guerra entre bandidos e policiais e impressiona pelo realismo”, como diz o texto publicado pelo Procon?
- Acho q a frase “impressiona pelo realismo” é muito gratificante p/ nós. Realmente, foi um grande trabalho achar e criar as texturas, e mérito p/ o pessoal da Valve, que fez o “Half-Life” e seus derivados.

- Estamos em 2008, e o grande trunfo dos games e programas gráficos é se aproximar ao máximo da realidade, como você pode ver agora o c/ o game “Crysis”: é super realista e c/ isso é sucesso no mundo todo.

- P/ você ter um idéia, esta frase aí veio da TV Globo, em uma matéria que saiu no Jornal Hoje em 2002, que pode ser achado no YouTube. Acho que o pessoal do Procon deveria ver menos televisão e tirar suas próprias conclusões.

E a acusação de que os terroristas são “traficantes do Rio de Janeiro” e que seus reféns são “três representantes das Nações Unidas”?
- Sim! Todo mapa de “Counter-Strike” tem uma história por trás, um motivo p/ a peleja estar acontecendo, um porquê p/ resgatar os reféns e o mesmo p/ plantar bombas. A idéia de reféns da ONU é muito criativa e tornou o “CS_Rio” ainda mais polêmico. C/ certeza existem jogos c/ histórias bem mais cabeludas, como destruição da Terra, da humanidade, e não são proibidos.
- Em vários jogos vale matar o Saddam, o Bin Laden, pelotão da SWAT, terroristas, tropas americanas e japonesas. Mas matar bandidos brasileiros, não!
Existe isso de “quanto mais PMs matar, mais pontos”?
- 1º: não são PMs, e sim os próprios “counter terrorists” do jogo. Se você já jogou “Counter Strike”, vai ver que os terroristas no mapa da favela não são traficantes ou maloqueiros, e sim terroristas comuns de qualquer organização. O mesmo vale para os CTs. Eles nem falam português!
E quanto ao trecho do texto que diz: “na visão de especialistas, o jogo ensina técnicas de guerra, haja vista o jogador deve ter conhecimento sobre táticas de esconderijo, como se estivesse numa guerrilha”?
- Disso eu não sabia! Gostaria que o Procon me enviasse um link c/ os tutoriais destas táticas! Quem sabe nós gamers aprenderemos mais de “Counter” c/ eles, já que se preocupam tanto. No “Counter”, posso estar numa guerrilha mesmo, como também numa montanha de neve, num supermercado. Isso vai de cada cenário.

Mesmo proibido, o “CS_Rio” já ganhou prêmios internacionais e ainda pode ser encontrado em várias lan-houses...
- Tem até novela com favela, tá na moda. P/ vc ter uma noção, o “CS_Rio” foi lançado em 2001, antes do filme “Cidade de Deus”, “Tropa de Elite”... Acredito que serviu de inspiração para o cinema nacional. Outro dia, estava assistindo “Cidade dos Homens” e tem uma cena onde os bandidos invadem o morro pelo campinho de futebol. Impressionante, mas era uma releitura do “CS_Rio”, só que em filme.
- C/ essas proibições, acredito que o mercado esquente ainda mais p/ a venda de softwares “piratas”, já q não tem mais do original. Pior pro governo q não vai receber imposto.
- E pelo que estou vendo, proibiram a venda do “Counter” e não do “Half-Life” nem “Half-Life 2”, o que mostra ainda mais que as pessoas que proíbem não entendem nada do game. É como proibir o Big Mac e não o MacDonalds…Se for seguir este raciocínio, tem q banir 90% dos jogos do mercado.
Se vocês quiserem adicionar mais algum depoimento ou declaração sobre o assunto, sintam-se livres para tal. Toda declaração será publicada na íntegra e sem alterações.
- Pode esperar q aí vem mais confusão.
BAIXE STREET CHAVES AQUI - ANTES QUE PROÍBAM...
(E BAIXE CS_RIO AQUI)