domingo, agosto 17, 2008

STOOGES ROUBADOS
OS 3 PATETAS: Iggy Pop e os irmãos Asheton, sua "banda de guerra"

As Olimpíadas da China estão bombando. Perto dali, na fronteira entre a Europa e a Ásia, tem outros 2 países bombando também: RÚSSIA e GEÓRGIA. O pivô da treta entre as 2 ex-repúblicas soviéticas é a província de Ossétia do Sul, que quer se separar da Geórgia e unificar-se c/ a russa Ossétia do Norte. A Rússia enviou tropas p/ dar suporte à causa separatista e atacou a capital da Geórgia, Tbilisi, c/ 50 caças. A Geórgia reagiu bombardeando Tskinvali, capital da Ossétia do Sul, c/ foguetes Katiusha [tecnologia russa]. A Rússia respondeu enviando centenas de tanques e lançadores de foguetes, e MILHARES de soldados p/ a zona rebelde, e deu um ultimato às forças georgianas. “Se o ultimato for rejeitado, todas as medidas de cumprimento da lei serão usadas”, ameaçou o general Sergei Chaban, direto de Abecásia, outra província separatista da Geórgia ocupada por tropas russas. 3.000 civis já morreram em uma semana de conflito, e 35.000 moradores da região – metade da população – estão desabrigados. A Geórgia é uma área estratégica p/ o fornecimento de petróleo p/ o Ocidente: por lá passa um gigantesco oleoduto. Não é de se estranhar que os EUA e a ONU tenham entrado tão rápido na jogada. A Casa Branca “sugeriu” ao Kremlin que desistisse da ocupação do país vizinho por meio da força, em nome da diplomacia internacional, ao mesmo tempo em que articulava uma eventual expulsão da Rússia do G8, grupo dos países industrializados mais ricos do mundo, em retaliação à invasão. O chanceler russo Serguei Lavrov, em uma coletiva, mandou os EUA escolherem: ou “tiram a colher” dessa briga de “marido e mulher” e continuam a ser parceiros, ou a Rússia retira seu apoio no combate ao programa nuclear do Irã. “Se as tropas georgianas abandonarem a Ossétia do Sul, e entre a Geórgia e essa região for firmado um acordo de renúncia, a paz se restabelecerá”, declarou Lavrov. E pro Tio Sam, disse: “A Rússia não pode considerar como parceiro quem permitiu que fossem cometidos crimes de guerra que causaram a morte de milhares de cidadãos russos, incluindo soldados de paz.
Enquanto as coisas esquentavam na Geórgia, gatunos agiam na surdina no Canadá. Na madrugada do dia 06, ladrões roubaram o caminhão dos STOOGES c/ todos os instrumentos e aparelhagem dentro, após um show da banda em Montreal... Logo no Canadá, um dos países mais seguros do mundo! Logo os Stooges, a mais legal, fudida e sem-grana banda de rock de todos os tempos!

KICK OUT THE JAMS
O ano é 1968, e Danny Fields, executivo da gravadora Elektra, estava em Detroit, Michigan, p/ ver um show do MC5, a banda mais perigosa do mundo naquele momento. Os caras apavoravam: 1º grupo de rock assumidamente de esquerda, viviam em comunidade, pregavam a revolução armada, posavam p/ fotos c/ guitarras e rifles, e seu grito de guerra era “Kick out the jams, motherfuckers!, registrado em disco – numa época em que “filho-da-puta” era realmente um palavrão. Sabe como é, éramos de Detroit, e MC5 parecia-se c/ algo saído das montadoras. E a gente tinha visual de delinqüente juvenil, visual greaser”, relata Wayne Kramer no livro Mate-me Por Favor. Kramer era o guitarrista, e anos depois seria preso por tráfico: “A gente era a voz dos hippies lúmpens, do mesmo jeito que os Panteras Negras eram a voz do proletariado lúmpen – o que significava massa trabalhadora sem emprego.”
Então, Danny Fields estava na cidade dos caras p/ assistir uma apresentação e, quem sabe, contratá-los: “Eles (...) tocavam realmente rápido. Foi um grande show, mas eles não estavam rompendo a barreira do rock´n´roll.” Wayne Kramer sacou a do Fields e deu a dica: “Se você gostou de nós, vai adorar mesmo é a nossa pequena banda-irmã, Iggy and The Stooges.”

Iggy
era o apelido de James Newell Osterberg, um moleque pequeno e franzino que virava um monstro no palco. Ex-baterista das bandas The Iguanas e Prime Movers, já era um veterano aos 20 anos, quando voltou de uma temporada em Chicago, onde conviveu c/ músicos mais velhos de blues e jazz, e resolveu formar sua própria banda, THE PSYCHEDELIC STOOGES, c/ seus amigos do subúrbio de Ann Arbor: Dave Alexander e os irmãos Ron & Scott Asheton.
Dave, Ron e Scott tinham uma banda de garagem, Dirty Shames, quando se juntaram a Iggy: “Estávamos sempre por aí, ouvindo discos e falando sobre os Beatles ou os Stones. (...) Tocávamos junto c/ os discos e dizíamos: ‘Somos sensacionais!’ Então a gente tirava o disco e dizia: ‘O quêêê? Hey, talvez esse som não seja tão bom assim’.
Acredite se quiser, a fama de banda que nunca fez um show rendeu aos Dirty Shames [cujo nome significava “os vergonhosos”, ou algo do tipo] um convite da Discount Records p/ abrirem o show dos Rolling Stones em Detroit, no Olympia Theater. “Ficamos entusiasmados, até nos flagrarmos: ‘Uau, a gente nem sabe tocar!’”, conta Ron.
Como não conseguiam tocar tão bem quanto o Pink Floyd [que lançara o 1º disco, The Piper at the Gates of Dawn, naquele ano], p/ serem considerados “psicodélicos”, The Stooges ficaram sendo apenas “Os Patetas”, que tocavam mal mas faziam suas próprias músicas: “A proeza era conseguir que Ronnie ou Scotty abrissem a porta, porque eles dormiam até o meio-dia”, conta Iggy no Mate-me..., biografia do movimento punk escrita pelos 1º zineiros da era moderna, Legs McNeil e Gillian McCain.
Os Ramones inventaram o punk em 1976? Papo furado! Em 1968 a coisa já estava toda lá: a falta de apuro técnico, a rebeldia adolescente, a inadequação ao sistema, e uma cena suja e degradante. Detroit era a cidade dos carros e delinqüentes, c/ MC5 e Stooges, e Nova Iorque o reduto dos junkies, c/ o Velvet Underground de Lou Reed, que só se vestia de preto e versava sobre heroína, traficantes, marginais e travestis. Não é a toa que o guitarrista do Velvet, John Cale, foi escolhido pela Elektra p/ produzir o 1º disco de Iggy & seus asseclas, o seminal The Stooges [1969]. Sim, Danny Fields foi ao show da “pequena banda-irmã” do MC5, e gostou tanto que tornou-se empresário deles e fechou um contrato p/ 3 discos: “Era 22 de setembro de 1968. Não posso minimizar o que vi no palco. Nunca tinha visto alguém dançar ou se mover como Iggy. Nunca tinha visto tamanha energia atômica vindo de uma pessoa. (...) Era a música que eu tinha esperado toda a minha vida pra ouvir.

“It´s 1969, ok/ War across the USA/ It’s another year for me and you/ another year with nothing to do” ["1969", The Stooges]
O niilismo juvenil e as músicas de 3 acordes fazem do álbum de estréia dos Stooges o 1º disco punk da história, c/ pedradas como “1969”, “No Fun” e “I Wanna Be Your Dog” no lado A, e “Real Cool Time”, “Not Right” e “Little Doll” no lado B. Os caras eram cabeludos, usavam óculos Ray-Ban de lentes alaranjadas e jaquetas de couro estilo Hell´s Angels. Iggy cantava sempre sem camisa [o que faz até hoje], e agia de modo insano e obsceno: Ele gritava, contorcia o corpo, sujava-se c/ pasta de amendoim e carne crua, atirava-se na platéia e cortava o próprio corpo c/ pedaços de vidro. (...) parte do público se identificava c/ a música e parte passava o show inteiro xingando os integrantes.” Esta passagem não foi retirada de Mate-me Por Favor, é da Wikipedia mesmo. Os shows dos Stooges eram uma experiência mesmerizante. Iggy não deixava por menos, cuspia no público e mandava se foder.
As gravações do disco foram tumultuadas, os caras não se deram muito bem c/ o produtor: “Embora eu fosse um grande fã do Velvet Underground, não fiquei excitado por ter o John Cale produzindo o 1º álbum, porque não ficava excitado em ter alguém me produzindo. Não ficava excitado ao ter alguém mexendo na minha música, da mesma forma que você não quer que um estranho fique mexendo em qualquer parte de você, ha, ha, ha”, relembra Iggy.
Ron Asheton confirma: “A gente nunca tinha estado num estúdio antes e instalou amplificadores Marshall e ligou no volume 10. Então começamos a tocar, e John Cale disse: ‘Oh, não, não é assim...’ Ficamos naquela: ‘Não tem jeito. A gente toca alto, e é assim que a gente toca.’ Então Cale continuou tentando nos dizer o que fazer, e como éramos uns jovens teimosos, fizemos uma greve branca. Largamos os instrumentos, fomos p/ uma cabine de som e começamos a fumar haxixe. (...) Não conseguíamos tocar se não fosse em volume alto. Não tínhamos habilidade suficiente nos instrumentos, era só na base dos acordes porrada. A gente tinha aberto pro Blue Cheer no Grande, e eles tinham uma espécie de amplificador Marshall triplo e eram tão barulhentos que chegava a doer, mas nós adoramos: ‘UAU, amplificadores triplos, cara.’ Era o único jeito que a gente sabia tocar. Então nosso trato foi: ‘Ok, vamos botar no 9’. Por fim, ele só disse: ‘Foda-se’, e deixou pra lá.
Detroit passava por uma crise de desemprego e êxodo da população, e diante da fraca vendagem do disco de estréia, a Elektra alugou uma casa p/ a banda morar e ensaiar em Los Angeles, Califórnia. O lugar virou um pardieiro, c/ mulheres entrando e saindo, igual às agulhas que injetavam cada vez mais heroína nos braços dos caras. Os Stooges curtiram tanto essa fase que apelidaram sua casa/estúdio de “Fun House”, casa da diversão.“O ponto dos picos na Fun House era o apartamento do meu irmão”, recorda-se Ron: “(...) havia grandes pingos de sangue no chão e nas paredes, porque, quando você puxa uma agulha do braço depois de uma picada, fica um pouco de sangue na seringa e, pra limpá-la, você esguicha. Então eles esguicharam um monte nas paredes e no forro. Shhhhtick... (...) Não estava tudo vermelho, só algumas manchas marrons grandes e feias, mas muitas vezes havia material fresco e vermelho. Então pingava na mesa ou no chão, onde eles jogavam as bolas de algodão. Quanta degradação.
Foi nesse clima que foi gravado Fun House [1970], 2º disco dos Stooges, a obra-prima da banda. O batera Scott, por incrível que pareça, consegue lembrar das gravações: “(...) tentamos fazer um som mais parecido c/ a banda original antes do 1º álbum – uma coisa mais livre, improvisada, e acrescentamos John MacKay no saxofone. Foi basicamente um álbum ao vivo no estúdio.” A única música a tocar nas rádios foi “Down on the Street”, mas ainda havia os punk-rocks “Loose”, “TV Eye” e “1970”, o blues “Dirt”, a levada jazz da faixa-título e a barulheira de “L.A.Blues”. De novo, Scott: “Paz e amor não fizeram muita parte dele. No fundo a gente não se importava muito em fazer alguém se sentir bem. (...) ‘Dirt’ é um exemplo de como era a nossa atitude. Sabe como é: ‘Foda-se toda essa merda, somos lixo, não nos importamos.’”
A parceria c/ o saxofonista John MacKaye não foi o único flerte dos Stooges c/ o jazz. “Toda vez que tocávamos em Nova Iorque aparecia no nosso show um cara que dava um vidrinho de coca pros Stooges, completamente por iniciativa dele mesmo”, conta Ron. “Então estávamos no camarim c/ Miles Davis, e esse cara finalmente chega e apresenta a tradicional montanha de pó. A gente já estava c/ os canudinhos prontos. Imagina a cena fabulosa – a cabeça de Miles Davis junto c/ as cabeças de todos os Stooges indo ‘CHHHEIRAAAR’!

Fun House foi outro fracasso de vendas, e a Elektra não quis arriscar sua grana num 3º disco – contrato cancelado. Afundados nas drogas e sem gravadora, não demorou pros caras se separarem. O roqueiro inglês David Bowie, que começava a fazer sucesso e era fã declarado da banda, conseguiu reuni-los em 1972 p/ gravar um novo disco. No ano seguinte, Raw Power é lançado pela Columbia. Agora a banda se chamava IGGY & THE STOOGES.
Achei ‘Raw Power’ genial”, conta Danny Fields: “‘Search and Destroy’ era uma das melhores canções de rock´n´roll de todos os tempos. Não havia nada melhor que isso.O álbum foi bem recebido pela crítica, mas de novo não vendeu. A formação havia mudado – Dave Alexander saiu, Ron assumiu o baixo, e o novato James Williamson ficou na guitarra solo. Kathy Asheton, irmã de Ron e Scott, definiu a chegada de Williamson na banda como “uma nuvem negra baixando”.
E os problemas não paravam por aí. “Ronnie atendeu a ligação de um cara da Receita Federal que disse que a banda devia um monte de dinheiro em impostos”, relembra o ex-roadie Bill Cheatham, que tocou baixo por algumas semanas após a saída de Alexander. “Ronnie disse: ‘Não sei nada a respeito disso’. O cara da Receita disse: ‘Bem, é melhor você descobrir’. Aí Ronnie disse: ‘Hey, olha, cara, somos todos viciados em drogas, não sabemos onde está a porra do dinheiro’. O cara disse: ‘Oh!’, e desligou. Os Stooges nunca mais ouviram falar da Receita.

LUST FOR LIFE

Iggy andava tão chapado que em um show no Electric Circus, em Nova Iorque, a banda entrou no palco c/ 1 hora de atraso porque ele não conseguia encontrar uma veia que prestasse p/ se injetar – seus braços já estavam detonados pelos picos. Dee Dee Ramone descreveu esse show assim: “Eles entraram e ficaram tocando a mesma canção, sem parar. Ela só tinha 3 acordes. E as únicas palavras eram: ‘I want your name, I want your number’. Aí Iggy olhou pra todo mundo e disse: ‘Vocês me dão enjôo!’ Então vomitou.
No que dizia respeito à minha relação c/ os Stooges, estava tudo se despedaçando”, relata Danny Fields. “Eu não estava ganhando dinheiro. Havia rumores de que eles estavam assaltando postos de gasolina nos fins de semana p/ pagar o aluguel da casa, e a casa ia ser demolida (...).
Eu estava na Fun House quando o telefone tocou, recorda-se Ron Asheton, sobre o momento em que a banda chegou ao fundo do poço. “A ponte da Rua Washington – ela devorou muitos caminhões. Scotty estava dirigindo. Ele estava a uns 60 km/h e BAM! O choque arrancou o topo do caminhão. (...) Fui pro hospital, e você sabe como são aquelas enfermeiras, não dizem nada, tudo que elea dizia era: ‘Todos eles estão em estado grave, é tudo o que posso dizer agora’. Eu pensava: ‘Oh, cara!’ Então fui até a ponte, e o caminhão estava todo fodido, aí voltei pro hospital. Quando entrei na sala de espera, todos eles estavam sentados lá, os 2 roadies, Larry e Jimmy, e meu irmão, Scotty. Pareciam os 3 Patetas – Larry sem os dentes, meu irmão c/ pontos na língua, e Jimmy todo enfaixado. Aí, quando fui levar Larry e Scotty pra casa, Larry diz: ‘Me leva até a ponte!’ (...) Chegamos lá, e eles desceram e começaram a vasculhar entre os arbustos. Foi quando descobri que eles tinham tomado anfetamina. Quando os tiras apareceram, eles jogaram o pacote de anfetamina pela janela. Então a gente teve que voltar lá e pegar. Eu disse: ‘Seus filhos-da-puta idiotas!’.
ANOS 70: David Bowie, Iggy Pop e Lou Reed

O último show dos Stooges foi em Detroit, fevereiro de 1974, e rendeu o último álbum oficial da banda, Metallic K.O., lançado pela Sky Dog em 1976. Os irmãos Asheton ficaram na merda, mas David Bowie salvou Iggy, encaminhando-o a uma “rehab” e descolando p/ ele um contrato de US$ 100.000 c/ a CBS. “Acho que o fascínio de David Bowie por Iggy tinha a ver c/ Bowie querer penetrar na realidade rock´n´roll em que Iggy vivia – e que David Bowie jamais poderia viver porque era um estudantezinho insosso de arte da Zona Sul de Londres, e Iggy era da escória de Detroit”, relata Leee Childers, empresário de Bowie na época: “David Bowie sabia que nunca conseguiria captar a realidade na qual Iggy nascera. Então pensou que poderia comprá-la.
Depois que a banda acabou, foi se tornando cada vez mais cultuada: os Sex Pistols tocavam “No Fun” em seus shows, Fun House foi eleito o “disco mais barulhento” de todos os tempos [desbancando bandas como Slayer, Napalm Death e Atari Teenage Riot] numa votação da revista Q, os álbuns foram relançados em CD, e Iggy participou de vários filmes clássicos: Sid & Nancy e A Cor do Dinheiro em 1986, Cry Baby em 1990, O Corvo em 1997, Sobre Café e Cigarros em 2003, além de outros 5 títulos.
Metallic K.O. permaneceu como o último disco dos Stooges durante quase 30 anos. Nesse meio tempo, Iggy Pop se tornou um cantor de rock bem sucedido, c/ 16 discos lançados e alguns hits: “The Passenger”, “Lust for Life”, “Chinese Girl” e “Candie”. Apresentou-se pela 1ª vez no Brasil em 1989: “Eu fiquei bem puto por anos porque os brasileiros nunca me convidaram p/ o Rock In Rio... Eu ficava pensando: ‘Seus filhos-da-puta artificiais e superficiais, vão se foder!’ Fiquei bem ressentido c/ isso...”, disse ele ao amigo Jonathan Shaw em uma entrevista durante a turnê dos Stooges em 2006, quando a banda finalmente veio ao Brasil.
É isso mesmo que você leu – após 30 anos separados, os Stooges voltaram a se reunir em 2003, tocaram no Rio e em São Paulo em 2006, lançaram disco novo em 2007, e estão na ativa até hoje. E a formação dessa reunião é da pesada – Iggy & os irmãos Asheton na guitarra e bateria, John MacKaye no sax, e Mike Watt, ex-Minutemen, no baixo.
Tive uma doença que quase me matou em 2000 e p/ me fortalecer enquanto me curava eu formei algumas bandas cover dos Stooges: c/ Peter Distefano e Stephen Perkins, do Porno For Pyros, na costa oeste, e J.Mascis e Murph, do Dinosaur Jr., na costa leste”, explica Watt. “Quando passamos por Ann Arbor, J. sugeriu que eu ligasse p/ Ron Asheton, convidando-o para tocar algumas músicas dos Stooges conosco. Eu tinha trabalhado c/ Ron numa música p/ a trilha do filme Velvet Goldmine e fizemos alguns shows em Nova Iorque e na Inglaterra. Thurston Moore, do Sonic Youth, sugeriu que Ron, J. e eu formássemos uma banda c/ Scott Asheton na bateria, p/ tocarmos somente músicas dos Stooges. Fizemos alguns shows na Europa, sob o nome de ASHETON, ASHETON, MASCIS AND WATT. Então, no outono de 2002, rolou um desses shows de premiação e eu fui convidado p/ tocar numa banda c/ 2 caras do The Hives na guitarra, Pete Yorn na bateria, e Iggy, que era do júri, como o frontman. Nós tocamos 3 músicas c/ ele. Uns meses depois, Iggy chamou Ron e Scott p/ participar da gravação de 4 músicas p/ o seu álbum Skull Ring. Foi quando eu recebi uma ligação dele dizendo que Ron havia me apontado como o ‘homem do baixo’. O 1º show foi em Coachella, Califórnia, 27 de abril de 2003. Fizemos mais de 50 desde então. Tem vários deles lembrados em diários de turnê no meu site. Como você pode ver, nada foi planejado, foi um monte de acidentes e coincidências que fizeram essa reunião acontecer. De certa forma, você pode culpar a doença que quase me matou! Todo o respeito ao poder de cura da música dos Stooges!

The Weirdness, 4º álbum de estúdio da banda, foi lançado no início de 2007 após um hiato de 3 décadas. Igual ao que acontecia nos anos 60/70, o disco foi subestimado pela crítica e ignorado pelo público. Mas, p/ variar, é um dos melhores álbuns de rock da nossa época, principalmente considerando-se que é um disco de punk rock gravado por senhores de meia idade.
Iggy, por exemplo, está c/ 61 anos: “Essa é a principal característica que sempre ficou mal entendida sobre mim. Toda essa porcaria que eles falam que eu fiz – mexer c/ sangue, praticar atos profanos – eu só fiz isso porque acreditava que estava certo e que estava fazendo a música que pessoas reais, que tinham uma vida real, iriam querer ouvir. Minha música se espalhou justamente por contradizer a porra da pirâmide comercial”, diz Pop, que há alguns anos abdicou da porra-louquice p/ viver de modo mais sóbrio e saudável.
Mesmo assim, o homem ainda vira um demônio no palco, como os brasileiros puderam comprovar durante o Tim Festival em 2006. Um outro show da banda, na Bélgica, tornou-se o DVD Escaped Maniacs – Live at Lokerse, lançado no final do ano passado. Metallic K.O. também foi relançado em 2007, numa edição remasterizada que traz no encarte um testemunho do finado jornalista gonzo Lester Bangs: “Este é o único disco de rock que eu conheço onde você realmente pode ouvir garrafas de cerveja sendo espatifadas contra cordas de guitarras”.

Fiquei sabendo do roubo do caminhão dos Stooges por acaso, no site português do jornal russo Pravda. Enquanto este texto era escrito, 2 acordos de paz entre Rússia e Geórgia foram quebrados, o número de desabrigados subiu p/ 40.000, e até jornalistas estão sendo metralhados no conflito: “A posição da Rússia não se altera: vamos apoiar quaisquer decisões tomadas pelos povos da Ossétia do Sul e da Abecásia em concordância c/ a Carta da ONU. Não só apoiamos como damos garantias”, disse anteontem o presidente russo Dmitry Medvedev.
Quanto ao prejú dos Stooges, o caminhão roubado foi encontrado 5 dias depois, a alguns quarteirões do hotel em que a banda se hospedou, totalmente depenado. Entre os tesouros desaparecidos está o baixo Gibson que Mike Watt usou pela 1ª vez em 1980, no Minutemen. “Se tivermos a sorte de recuperá-lo, esse instrumento irá direto p/ o Rock and Roll Hall of Fame”, afirmou Eddie Fischer, road manager do grupo, que teve que seguir a turnê tocando num equipamento alugado.
A seguir, a compilação de 2 entrevistas concedidas por Iggy Pop em sua passagem pelo Brasil, há 2 anos – uma p/ o site UOL Música, outra p/ a revista Trip. Esta última foi realizada por Jonathan Shaw, jornalista americano radicado no Rio de Janeiro, na laje de sua casa num morro carioca:
UOL - Alguém ainda te chama de James?
IGGY -
Tem gente que me chama de James, tem gente que me chama de Jim, tem gente que me chama de Iggy, tem gente que me chama de cretino, de fracassado! Me chamam de tudo...

UOL - De onde veio o nome Iggy Pop?
IGGY - ‘Iggy’ vem de Iguana, o nome do 1º grupo que eu tive, The Iguanas. A gente tinha um empresário péssimo, e ele ficava me chamando de Iggy, como um diminutivo de iguana. E eu nunca consegui me livrar desse nome. ‘Pop’ era o nome de um cara que eu conhecia, que cheirava cola. Eu gostei do nome e roubei dele.

UOL - Você sempre cantou sem camisa?
IGGY - Desde o meu 2º show, em 1968. É uma coisa que eu tomei emprestado dos antigos artistas do rhythm’n’blues. Tinha uma época em que cantores como o James Brown, ou Jackie Wilson, começavam o show c/ uma camisa bem justa, de tecido meio transparente. Durante o show eles iam abrindo a camisa, e, às vezes, a rasgavam. As fãs ficavam loucas! E eu pensei... Bem, por que não começar o show já sem camisa?! Daí em diante eu sempre fiz show sem camisa. Só lá pelo meio dos anos 80, quando eu dei uma engordada, é que eu usei camisa em alguns shows. Esse é o único motivo pelo qual os cantores usam camisa! Porque estão gordos!

TRIP - Quando o vejo no palco, me pergunto se em algum momento você se sente como se uma entidade o possuísse.
IGGY - Uau, já me fizeram essa mesma pergunta... É isso o que você vê?

TRIP - É como se eu o conhecesse como Jim, e o Jim é um carinha bacana... Aí ele sobe ao palco e se transforma no absurdo Iggy...
IGGY -
Bem, não sei bem o que acontece. Geralmente não me expresso muito. Mas quando estou no palco, fazendo um disco ou qualquer coisa que tenha a ver c/ música, aí digo ‘o.k., é aqui’. Sei lá, complete c/ o clichê de sua preferência: ‘expressar meu lado humano’; ‘fazer a diferença’; ‘passar p/ outra dimensão’, blá-blá-blá, qualquer merda, ser um palhaço, virar um chimpanzé, o que der na telha...

TRIP - Sente como se estivesse servindo a um poder superior?
IGGY -
Isso eu já não sei... Poderia ser um poder inferior.

TRIP - Acredita em Deus?
IGGY - Gosto de um monte de deuses, o deus da xícara de café, o deus da mulher gostosa, deus de todas as coisas. Tem uma palavra p/ isso... ‘politeísta’! É isso, sou politeísta.

TRIP - O que você costumava fazer nos anos 60?
IGGY -
Eu fazia coisas... Exemplo: depois que consegui montar uma casa p/ fazer nossa música, eu tomava ácido, ligava um órgão elétrico que tinha no porão, colocava o amplificador no 10 e ficava c/ os pés no teclado por umas 8 horas direto. Os pés em cima da porra das teclas, sem mexê-los, nem precisava, porque estava tudo se mexendo, saca? Então passei por toda essa merda idiota… Lembro de outra vez que tínhamos todos fumado DMT e eu vi um Buda enorme, rico em detalhes, no teto dessa casa. Me dei conta de que ele não estava lá de verdade, mas percebi que era detalhado demais, muito mais do que minha mente teria a capacidade de imaginar. Pensei que aquela devia ser minha mente superior, ou inferior, e disse: ‘Tenho que tirar as roupas’. Estava morando c/ 3 caras jovens, minha banda, e eles não ligavam: ‘Ele tem que tirar a roupa’...

TRIP - E as pessoas da pequena Muskegon, onde você nasceu, que achavam disso?
IGGY -
Sentiam pena de mim. Toquei pelado em uma festa no Halloween de 1967 e todo mundo ficou constrangido. Mas não desisti.

UOL - Qual o seu disco favorito do Iggy Pop?
IGGY - É 'The Idiot' [1977]. Porque nele eu comecei a usar a voz de um jeito completamente diferente do que eu fazia antes. E também porque as composições, que foram feitas em parceira c/ o David Bowie, têm mais profundidade.

UOL - Você e o Bowie ainda são amigos?
IGGY -
Faz tempo que a gente não se fala, mas eu imagino que ele ainda se interessa por aquilo que eu faço...

UOL - E você se interessa pelo que ele faz hoje em dia?
IGGY -
Sim, eu sempre ouço. Não é algo que eu fique ouvindo um monte de vezes, mas eu sempre tenho interesse em saber o que ele está fazendo. Mas é muito difícil ter objetividade, pois eu já estive muito envolvido c/ a música dele. Então, hoje, eu prefiro outras coisas.

UOL - Você gosta das novas bandas influenciadas pelo punk, como Franz Ferdinand, TV on the Radio, Bloc Party, Interpol?...
IGGY - Das bandas que você citou, só conheço o Franz Ferdinand e o Interpol. Acho que o Franz Ferdinand é uma banda c/ muita habilidade na composição, naquela tradição inglesa, que, de modo diferente, estava presente no trabalho do Depeche Mode, do Suede e do Duran Duran. Não é o tipo de música de que eu mais gosto, sabe? Mas eu tenho que admitir a habilidade deles. Já o Interpol é uma banda que, ao meu ver, tem menos habilidade na composição e segue por uma linha mais Joy Division, mais pesada. Mas não é o tipo de música que me faça sair pulando e gritando: ‘Ei, esse som salvou a minha vida!’ Mas, pelo menos, é melhor do que The Killers, que me faz querer vomitar...

UOL - Qual a diferença de tocar c/ os Stooges hoje e há 30 anos?
IGGY - Nenhuma! Não é estranho? A gente é muito estranho mesmo... As únicas diferenças é que hoje a gente dorme em camas e não usa mais tantas drogas...

UOL - Por que vocês voltaram a gravar?
IGGY -
Acho que já existem discos demais do Iggy Pop. É uma chance p/ as pessoas comprarem discos dos Stooges...

TRIP - Sabe que às vezes penso em “Search and Destroy” [música do disco Raw Power,1973] como a trilha sonora do apocalipse?
IGGY -
Assim que voltamos a tocar juntos, alguém me disse: ‘Isso é maravilhoso, porque houve o Vietnã, agora a guerra no Iraque e vocês voltaram. É o momento perfeito p/ The Stooges!’ Então tá, talvez tenha algo a ver: banda de guerra, de repente.

UOL - As suas apresentações exigem muito esforço físico. Como você se prepara p/ elas?
IGGY - Eu não vou à academia, não levanto pesos nem nada parecido. Nunca fiz isso. Eu faço uma rotina de exercícios chineses que me mantêm em forma, meia hora por dia, nada além disso.

UOL - Você tem uma voz grave incrível. Nunca pensou em fazer um disco de jazz, algo assim?
IGGY -
Sim! Eu ainda quero fazer isso. Mas o Rod Stewart já está fazendo, no momento, então vou esperar um pouco. Mas é uma coisa que eu quero muito fazer. De verdade.

UOL - De que cantores você gosta?
IGGY - Adoro Julie London, Frank Sinatra... Sabe, eu adoro a Astrud Gilberto. Adoro aquele disco dela c/ o Stan Getz. Uma vez eu fui ver um show dela, no S.O.B., em Nova York, e fiquei puto! Ela não cantou nenhuma música antiga! Só queria cantar músicas novas. E eu pensava: ‘Não! Canta uma antiga!'...

UOL - Então você gosta de bossa nova?
IGGY -
Gosto. Não é o tipo de música que eu faço, mas gosto de ouvir em casa. Eu ouço muita música cubana também, música de rituais religiosos, de vodu, que eu sei que vocês também têm no Brasil, c/ outro nome [Candomblé]. Cerca de 75% do que eu ouço em casa é música negra ou de gente que já morreu.

UOL - Você gosta de regravações de músicas suas feitas por outros artistas? A Grace Jones regravou 'Nightclubbing', a Siouxsie regravou 'The Passenger'...
IGGY - O cover que eu mais gosto é o da Grace Jones, porque ela é fantástica. Eu sempre gosto dela. E a produção de Sly & Robbie é simplesmente perfeita. Eu adoro.

UOL - Você sabia que um grupo brasileiro [Capital Inicial] regravou 'The Passenger' em português?
IGGY - Sim. Eu ouvi falar, mas nunca ouvi a gravação.
[N.E.: Sorte sua, Iggy]

+ STOOGES: Zona Punk e Last FM

BIO DO IGGY ON-LINE: Tesão pela Vida – A História de Iggy Pop”, por Márcio Ribeiro e Rubens Leme da Costa

LIVRO DE CABECEIRA: Mate-me Por Favor”, Legs McNeil e Gillian McCain

IN MEMORIAN: Dave Alexander [*03/06/1947 - +10/02/1975]

sexta-feira, agosto 08, 2008

MAKING OF
A história dessas fotos é a seguinte: Descolei uma equipe da Aperipê TV p/ gravar uma matéria sobre a Reação, banda de reggae sergipana que dá nome a um morro no bairro Santos Dumont. A pauta era do PERIFERIA, programa qu’eu estou dirigindo desde o início do ano. Estava tudo certo, sou amigo dos dreadlocks há quase uma década – já entrei de graça em VÁRIOS shows como convidado e emprestei alguns discos que nunca mais eu vi, ou ouvi. Os caras sabiam da reportagem, e a crew era de 1ª: carro da empresa c/ motorista (Marcelo), estagiário de produção p/ cuidar do áudio (Thiago), cinegrafista c/ 20 anos de experiência (Claudionor), e o apresentador/produtor/locutor/músico Anderson “Ganso”. Ganso não gosta de ser chamado de “ganso” (apelido de infância), porque em São Paulo isso significa “X-9”, informante da polícia. Ele acha que pega mal no rap um codinome de tal naipe, e inventou p/ si a alcunha “HOT BLACK”, em inglês tipo Racionais MCs. Eu contraargumento citando o Bastardo, do SNJ, que usou um apelido inglório a seu favor. Mas essa é outra história... Neste dia (faz tempo), subimos o morro e não encontramos ninguém. Chegamos às 14:00H e tínhamos apenas 4 horas p/ fazer o máximo de imagens possíveis, incluindo um ensaio na laje da Reação. Minha 1ª “externa” na direção, e a banda fura! O tempo ia passando, e p/ não perdermos a viagem, bolamos uma nova pauta: “O que te salvou?”, uma matéria feita em 4 tempos e lugares diferentes, c/ 4 personagens periféricos que se salvaram das roubadas da vida usando suas habilidades – na música, no esporte, nos livros. Às 15:15H começamos a gravar as cabeças, às 15:30H nosso parceiro DETEFON colou na área fazendo as fotos que ilustram este post e às 16:00H, finalmente, apareceu o 1º integrante do grupo, Júnior Moziah, c/ sua namorada. A Reação é uma banda complexa – c/ 7 integrantes na formação e 1 disco gravado há mais de 1 ano e ainda não mixado, todo processo c/ os rastas é lento – e o barato é louco. Cara certo na hora certa, Moziah foi o 1º personagem da nossa matéria improvisada. A entrevista foi realizada naquela laje ali atrás do Ganso [vide fotos], ao lado da copa da árvore. Voltamos ao morro em outra tarde, gravamos vários depoimentos – Moziah, Levi, Ras Lau – mas de novo a banda estava incompleta e a matéria da Reação não ficou pronta até hoje. Ontem me bati c/ o batera Wipson Firmino “Firmeza” quando atravessava a rua e vi um rasta numa moto esperando o sinal abrir. Ele me deu uma carona até o trampo e prometeu que da próxima estará lá p/ gravarmos esse ensaio. Quem viver, verá.
"Aqui no morro, o movimento é diferente..." [Originais do Samba]
ENQUANTO ISSO...
Na cidade de Viseu, no Pará, moradores invadiram e incendiaram o fórum e a delegacia, após o assassinato de um adolescente por policiais. O rapaz, de 17 anos, ao ser flagrado fumando maconha numa praça, tentou correr e foi capturado. Terminou executado c/ um tiro na testa à queima-roupa, o que gerou a revolta entre a população. “Começamos a escutar ‘quebra, quebra!’ (...). Tocaram fogo no fórum, todos os processos, inclusive os eleitorais, saquearam toda a casa (...). Soltaram todos os presos, colocaram fogo na delegacia, os policiais fugiram (...). É uma situação em que todos nós corremos perigo de vida”, declarou a imprensa o juiz César Rodrigues, que junto c/ um promotor, teve que ser resgatado de helicóptero pela Polícia Militar, que enviou 60 homens da Tropa de Choque p/ controlar a situação, na tarde de terça-feira (05/07). No último post eu já havia chamado atenção p/ a sanha da polícia em atirar p/ matar. O protesto do Pará serve p/ mostrar que finalmente o povo está deixando de ser passivo e começando a reagir. Quebra! Queima! Bem qu’eu “aviseu”.

Aracaju, vista do alto do Morro da Reação