sexta-feira, outubro 31, 2008

MERDA, LEPTOSPIROSE E OSSOS QUEBRADOS

Espalhando Doenças Brasileiras na Europa 2007. Fotos: Binho Man
24/10/2007, 100 km/h na autobahn alemã. As bandas brasileiras Merda e Leptospirose já haviam passado pelas cidades de Giessen, Berlim, Oberhausen, Nünchritz e Leipzig, na Alemanha; Utrecht, na Holanda; e Sosnowiec, na Polônia, em sua turnê Spreading Brazilian Diseases in Europe. Caíram mais uma vez na estrada c/ sua van a caminho do leste europeu, onde tocariam na República Checa, Hungria, Romênia, Croácia, Eslováquia, Eslovênia e de novo na Polônia.

O Conjunto de Música Rock Merda é o projeto paralelo de Mozine, baixista do Mukeka di Rato, desta vez nos vocais e guitarra: Começou eu, Japa e Paulista, 2 Mukeka invertendo ali seus instrumentos, Paulista passando da guitarra pra bateria, eu passando do baixo pra guitarra, e Japonês tocando baixo, os 3 cantando, sendo influenciados por hardcore japonês e hardcore tosco americano em geral, como DFL, FYP, Beastie Boys velho, etc... A gente tocou uns sambinhas hardcore podre no último disco, Eu Tenho Pena dos Insetos que Me Picam, é capaz de num novo disco a gente fazer funk, tocamos muito também nos shows. Na tour européia, Paulista não poderia ir, então colocamos Nego Léo na bateria, e quando voltamos, decidimos que ele não sairia mais, então a atual formação conta comigo e Paulista nas guitarras, Japonês no baixo e Nego Léo na bateria”, explica Moz, de quem me tornei amigo após a última passagem do Mukeka por Aracaju.

O Leptospirose é um power trio de Bragança Paulista formado por Quique Brown na guitarra e voz, Velhote no baixo e Serginho na batera: “Merda e Leptospirose têm tamanhas (des)semelhanças que parecem se auto-completar”, escreveu o jornalista Ricardo Tibiu na introdução de Guitarra e Ossos Quebrados, livro escrito por Quique após a famigerada tour européia. “Velho, nego ouve de tudo: The Who, Beatles, Dead Kennedys, Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, Hermeto Pascoal, Iron Maiden, Motorhead, Can, King Krimson, Ratos de Porão, Motosierra, Thee Butchers Orchestra, The Stranglers, Miles Davis, 999, Joy Division, The Kinks, MC5, Ramones, Tim Maia, Jorge Ben etc... Já lançamos 2 discos e tamo pra lançar o 3º agora numa turnê pelo nordeste. Se chama Mula Poney e foi produzido pelo Rafael Ramos”, diz Quique no e-mail. “Ok, o Leptos tem quase um virtuosismo, já o Merda um quase analfabetismo musical, os paulistas têm uma veia jazz e rock and roll, os capixabas samba e funk, e por aí vai”, conclui Tibiu.

Em 2006 o Merda fez a tour Vila Velha [ES] x Uruguai, e na volta tocaram aqui em Bragança e foi tipo paixão à primeira vista”, diz Quique a respeito da parceria entre as 2 bandas: “Gravamos um CD que o Mozine lançou, fomos tocar em Vila Velha e os caras tocaram conosco, depois lançamos um split juntos, fomos pra Europa juntos e assim vai em frente a parada estilo banda irmã... Ricardo Tibiu tem uma matéria sobre isso.” Foi c/ o disco Lecker que as 2 bandas viajaram p/ a Europa, tocando e se hospedando em squats como o Zoro, Kombi, e o maior do mundo, o Kopi. Além de Alemanha, Holanda e leste da Europa, havia shows agendados também na Itália, França, Espanha e Portugal. Seria quase um mês na estrada, totalizando 26 shows, mas foi numa autobahn alemã que a tour do Merda e do Leptospirose acabou, no dia 24 de outubro.

Acordamos felizes e contentes pra irmos pra República Checa encararmos uma semana inteira de Leste Europeu”, conta Quique no capítulo “Morfina, Seringa e Cogumelos Fritos”. Até então a viagem era pura curtição punk: shows lotados, platéias empolgadas, e turismo chapado em Amsterdã, onde Quique chamou atenção nas ruas c/ seu visual “Cheech Marin Heavy Metal”, levando-o à conclusão de que “até na Holanda eu sou doidão”. Mas alegria de pobre [leia-se brasileiro] dura pouco, e apesar de não ser Beatles, o sonho acabou pra eles também: “(...) escutei gritos desesperados de Jaki [europeu manager da tour e motorista da van] – carro derrapando, gente acordando. Cheguei a pensar, ‘Caralho, não acredito que Jaki só foi ver esse congestionamneto agora!’ E antes de entender algo, PAU!!! Socamos a van na traseira de um caminhão que tinha acabado de bater num outro caminhão bem na nossa frente. Voei pra frente, dei uma olhada geral, perguntei se estavam todos bem; olhei pro lado e o Serginho estava pálido, com o nariz sangrando, e meu ombro fora do lugar. (...) saímos da caranga toda destruída sei lá por onde, com exceção do Binho [fotógrafo e videomaker da tour], que ficou preso nas ferragens. Era desesperador ver o cara ali, espantado, com o rosto todo ensangüentado, sem conseguir se mexer. (...) Enquanto isso, do lado de fora, Mozine gritava desesperadamente: - De novo, não! Isso não pode estar acontecendo de novo comigo!

Era a 3ª vez de Mozine na Europa, e o 2º acidente. Em 2006, ele viajou como baixista da banda Ataque Periférico p/ fazer 40 shows pelo continente: “Numa estrada da França um bunda lá da outra banda [o húngaro Tom, vocalista do Choose Your Path] resolveu pegar a van sem avisar a ninguém, todos estavam dormindo e ele estava muito rápido e acabou tombando a van na pista molhada num erro, por sorte ninguém ficou seriamente machucado”, conta Moz. Desta vez ele não teve a mesma sorte, e lesionou gravemente a coluna: “Ainda não existiam notícias exatas sobre o que estava acontecendo com Mozine. A idéia que se tinha, que era na verdade a exata, era a do risco de algum pedaço de osso quebrado deslocar até a medula óssea deixando o chefe paralítico, o caso era complicado”, escreveu Quique em seu livro. “Binho, que tinha ficado preso nas ferragens da van, teve suas roupas rasgadas pelos paramédicos que o resgataram à base de morfina.

Os caras voltaram pro Brasil cheios de hema- tomas e escoria- ções,parecendo putas de porto grávidas, Mini Terroristinhas da Estrela, mancando, com tipóias, com rostos rasgados”, descreve Quique no último capítulo [“Passaportes Please!”]. Mozine foi operado na Alemanha no dia 30, ficou no hospital até 05/11 e voou de volta pra casa no dia 06. Em dezembro foi lançado o livro mais punk rock desde Mate-me Por Favor, de Legs McNeil e Gillian McCain, e Coração Envenenado, de Dee Dee Ramone: Guitarra e Ossos Quebrados, escrito por Quique Brown, editado por Mozine, c/ capítulos como “Van Preta Podrássa Enfeite de Jardim” e “Power Violence Favela Cai na Noite em Grande Estilo Como Pede a Etiqueta do Partido Alto”, cheios de fotos e histórias da Spreading Brazilian Diseases in Europe Tour, que depois do acidente foi rebatizada p/ Breaking Brazilian Bones in Europe Tour 2007.

O livro é tão fodão que acaba de ganhar o prêmio Viva La Brasa de literatura 2008 [a premiação ainda não existe, só o título]. Entrevistei Mozine e Quique Brown por e-mail. Merda, Leptospirose, cena rock, tudo isso e muito mais c/ esses 2 especialistas em vans européias:

Viva La Brasa - Como tava sendo essa viagem até acontecer a batida?

Mozine - Tava sendo muito boa mesmo, o Merda e Leptos eram duas bandas bem desconhecidas na Europa, mas a gente tava conseguindo fazer milagres lá, teve shows muito bons e a expectativa pra Itália, Portugal era muito grande, recebíamos muitas mensagens e e-mails desses lugares, e na Alemanha a coisa tava se firmando já também, tinha gente até seguindo a banda, etc.

VLB - Você se fudeu muito no acidente, teve que ser operado e rolou até risco de um pedaço de osso se soltar e atingir a medula... Resume um pouco como foi passar esse terror...

MZ - Brother, se eu fosse escrever aqui o terror todo iam ser páginas de Word. A parada foi essa aí mesmo, apesar deu estar consciente e andando e me movimentado normalmente o tempo todo, existia uma fratura na medula número 7, e de acordo com uma junta médica eu não fiquei tetraplégico por uma questão de milímetros. Foi uma operação meio complicada que exigiu realmente uma junta médica, e foi um momento muito de terror os dias que antecederam a operação porque tinha um risco considerável de dar errado, apesar deu estar num dos melhores hospitais do mundo pra coluna... 7 dias depois de operado eu já tava encarando um vôo de volta pro Brasil apesar de ter assinado um termo no hospital dizendo que eu sabia dos riscos que era voar naquela condição de operado.

VLB - Quanto tempo pra se recuperar?

MZ - Depois da operação, uns 2 meses mais ou menos, mas ainda rola um processo todo, eu perdi uns 5 graus de movimento lateral do pescoço, mas tá valendo. :) Eu usei um colete no pescoço por mais 4 ou 5 semanas, só sei que em dezembro eu já tava tocando, ensaiando, dirigindo carro, a recuperação foi monstruosamente rápida em relação ao risco todo que envolvia a situação, mas graças a deus tamo aí bicho, vaso ruim do caralho, pra mim é bem complicado ainda encarar viagens de van, fizemos agora no Chile uma viagem de duas horas numa van e eu fiquei bastante agoniado, no nordeste fizemos também um viagem de 4 horas de van, aí haja cachaça, só vou no whiskinho pra ficar dopado e dormir, e fé em deus. O lance do trauma pós-acidente, parece que eu deveria ter procurado um psicólogo mas nem fui, cachaça tá sendo meu psicólogo, heheh...

VLB - A idéia de escrever o livro surgiu antes, durante ou depois da viagem?

Quique Brown - A idéia geral era a de fazer um filme, que sairá ainda este ano. Durante a viagem eu e Mozine mantínhamos um diário cada, que serviria posteriormente para nos guiar durante a montagem do filme, e que possivelmente cairia dentro do pacote junto com o DVD no formato de revista. Quando cheguei no Brasil senti a necessidade de reescrever o diário, já que eu tinha perdido o meu no acidente. Na frente do computador eu me sentia constrangido escrevendo coisas como: ‘hoje eu acordei em Berlim e comi um tomate’, pois já não era mais ‘hoje’ saca? Com isso o lance foi tomando o formato de história e lendo e relendo chegamos a conclusão que dava pra sair um livro ali, e foi mais ou menos isso o que aconteceu.

VLB - Você se inspirou em algum outro livro desse naipe?

QB - Não me inspirei diretamente em nada, apenas fui escrevendo ... O resultado ficou estilão beat yeah total.

VLB - O Leptos tem 2 discos lançados em esquemas independentes, e mesmo assim já tocaram no Uruguai, Argentina e Europa, no entanto, ainda não tocaram no Nordeste, por exemplo... Fala da diferença das cenas rock desses países em comparação c/ a brasileira...

QB - Cara, a cena da Argentina e do Uruguai é mais ou menos igual à cena brasileira em geral, já o lance europeu é bem diferente. Comentando tudo por partes a parada é mais ou menos a seguinte:

- Argentina: O lance lá é meio complicado, depois da crise e daquele lance de pegar fogo na discoteca a parada ficou doida por lá, organizar show em Buenos Aires é meio tenso, aluguel caro e outras complicações mais. Por outro lado a galera é firmeza, comparece, lança zine e faz corre, a parada tá melhorando legal, mas ainda é meio tenso ir pra lá.

- Uruguai: Monstruosidade, esquema muito forte de aparelhagem, fora do comum, passagem de som, barulho, amplificadores valvulados, cerveja etc.

- Europa: Esquema fodão, existe gente trabalhando diretamente no negócio, produzindo as tours, dirigindo van, lançando disco e tal. Rolam os squats, youth clubes e pubs que, atentos ao lance todo, organizam shows de segunda a segunda, e a partir do momento que rola isso, tudo fica mais fácil, pois o grande lance de uma tour de banda independente é tocar todo dia zerando ao máximo as despesas de uma viagem cara como essa.

- Brasil: O esquema aqui tá caminhando, temos um brother chamado Sergio Ugeda da gravadora Amplitude que tá tipo criando um banco de dados que tornará possível tour de 90 dias caminhando do Iapóque ao Chuí até 2010. Por hora o lance aqui ainda é meio osso, beira o impossível organizar shows de segunda, terça, quarta e quinta em muitos lugares e como você sabe uma banda em qualquer lugar do Brasil topando tocar por bilheteria pena em termos financeiros em dias sem show. Tamo indo agora em novembro pro nordestão, é uma vontade antiga que a gente tem, com certeza será muito bacana, todo mundo que já foi fala bem!!!

VLB - Moz, fala um pouco da sua gravadora/editora, a Läjä...

MZ - Tá uma merda brother, assim como 95% dos selos no Brasil, mas a gente vai se adaptando e tentando contornar a situação, mas já foi muito melhor, mas muito mesmo, o triste é saber que não vai voltar, não tem retorno ao que já foi, mas blz, todos os selos vão se adaptar, quem tinha selo pra ganhar grana, já fechou, quem tinha selo pra trabalhar, ganhar grana, mas fazia a parada por amor, vai continuar fazendo do seu jeito, seja com menos lançamentos, CDs a preço mais baixo, dentre outras mirabolantes artimanhas pra se manter vivo.

VLB - Além de manter um selo e tocar e escursionar c/ 2 bandas, você ainda tem tempo p/ uma 3ª banda, Os Pedrero?!..

MZ - Era um outro projetinho paralelo de bobeira que agora tá doido. Na verdade no começo nem projeto paralelo era, porque só eu tocava no Mukeka di Rato, mas chegou uma época em que Os Pedrero tinha 75% dos integrantes do Mukeka, agora tem 50%, a gente não considera projeto paralelo mas muita gente acha que é. Acabamos de finalizar um disco que estava gravado há muito tempo, pelo Rafael da Deck. Ele deve ficar pronto e sair somente em 2009 mesmo, eu acredito que será o melhor disco d’Os Pedrero, as músicas são muito legais e gravação impecável.

VLB - E aquele papo dos caras te chamarem de "ex-modelo" na intro do livro?

MZ - Hehe, nada, zoando, é que eu tava fazendo umas entrevistas pra uma TV capixaba aqui, com microfone personalizado e o caralho a quatro, e quando eu ficava bêbado, ficava dançando e falando que era dançarino e fazendo umas merdas, aí Japonês falou lá que eu era ex-apresentador, ex-dançarino, ex-modelo, sei lá que porra é essa, ou simplesmente pela minha grande beleza fácil né?

Kelly Key é fã do Merda

segunda-feira, outubro 13, 2008

ONLY A SURFER KNOWS THE FEELING
Enquanto o Capetali$mo regurgita o estouro da bolha financeira dos EUA [Estados Unidos do Apocalipse] e a queda nas bolsas de valores internacionais [Nasdaq, Paris, Londres, Frankfurt, Tóquio], Barack Obama surfa na onda de popularidade a 3 semanas das eleições. Num discurso em Ohio semana passada, o senador havaiano de Honolulu colocou seu adversário na corrida à Casa Branca em maus lençóis, condenando publicamente o plano de John McCain de adquirir os empréstimos imobiliários de Wall Street: "Os contribuintes não deviam pôr a mão no bolso p/ ajudar os que colaboraram c/ essa crise", disse ele p/ a platéia. "Na terça à noite, a campanha [de McCain] disse que o governo pediria aos bancos p/ assumir a maior parte do custo dessa medida, vendendo empréstimos podres ao Estado a um preço irrisório. Depois, na quarta de manhã, a campanha mudou de idéia e propôs salvar os bancos e os organismos de crédito imobiliário c/ o dinheiro do contribuinte. Não acho que possamos nos permitir esse tipo de comportamento nebuloso e essa maneira incerta de administrar, em uma época, ela mesma, incerta". Será que o negão conseguirá mesmo ser o 1º Presidente AFRO da AmériKKKa? Pessoalmente, não boto minha mão no fogo por político nenhum, mas depois de 8 anos de Bush, qualquer coisa é melhor que um candidato republicano.