domingo, maio 31, 2009

PEGANDO JACARÉ O Conjunto Augusto Franco é um dos bairros mais populosos de Aracaju. Fica na rota da praia e do aeroporto, composto por dezenas de condomínios de prédios populares, onde moram milhares de pessoas. A parada de ônibus da av.Heráclito Rollemberg, em frente à 4ª Delegacia Metropolitana, é um dos pontos nevrálgicos. Chova ou faça sol, o movimento lá é sempre intenso, do início do dia ao final da noite – criançada indo pra escola, pessoal voltando do trabalho...
Na manhã do dia 19 de maio, essa rotina foi quebrada pela ilustre presença de um jacaré do papo amarelo. A fêmea de 1m30 esperava tranquilamente um busão e, apesar do susto na geral, não atacou ninguém nem ofereceu resistência ao ser capturada pelos bombeiros. “Não deu muito trabalho, ELE estava calmo”, declarou o assessor de imprensa da PM, referindo-se a um animal FÊMEA como se fosse macho.
Ali sempre teve jacaré, aquilo tudo era mangue até começarem a aterrar p/ fazer os condomínios”, diz mestre Cleomar, referindo-se à gigantesca área de manguezais da Zona Sul, que se estende pelos bairros 13 de Julho, Garcia, Jardins, Ignácio Barbosa, Distrito Industrial, São Conrado, Orlando Dantas, Augusto Franco, Santa Maria e Atalaia, entre outros.
Biólogos do Ibama acreditam que as chuvas que vêm caindo intensamente na cidade tenham contribuído p/ que a jacaré “saísse de seu habitat natural e se aventurasse pela capital” – parafraseando Jadilson Simões, repórter fotográfico free lancer. É dele a fantástica foto de um surfista fazendo ‘tow at’ [tow-in em marolas] numa rua alagada no residencial Costa do Sol, puxado por uma moto, capa da edição de 20/05/09 do Jornal da Cidade.
TOW AT-OLADO
Faz 1 mês que chove chuva, chove sem parar, e há 3 semanas minha rua está ALAGADA. No auge da frente fria, a água enlameada entrou no meu terreno e por pouco não invadiu minha casa. Moro na Praia da Costa desde 2002, e a cada ano piora a situação. O governo anterior fez uma ponte gigante ligando a Barra à capital, condomínios estão sendo erguidos na entrada da cidade, o asfalto foi recapeado, mas ainda falta muito p/ justificar o mítico título de “Capital da Qualidade de Vida”, especialmente do lado de cá da ponte. A estrada p/ a Atalaia Nova, que passa pela Costa, não tem iluminação – o que já me valeu um sério acidente de moto – e a rua onde moro ainda é de piçarra. Que vira LAMA quando chove.
Minha sorte é que moro na praia, dá p/ sair pelo outro portão e caminhar uns 500 metros à beira-mar, até pegar um trecho seco e subir a estradinha rumo ao ponto de ônibus na avenida principal. Tá ruim mesmo é pros meus vizinhos da Atalaia Nova. Além das chuvas, eles têm que lidar c/ outra intempérie natural: o avanço do mar.
O município da Barra dos Coqueiros fica num braço de terra entre o Rio Sergipe e o Oceano Atlântico. Os bairros Coroa do Meio, em Aracaju, e Atalaia Nova, na Barra, localizam-se no estuário do rio. Essa área está sujeita a alterações geográficas constantes, por causa da força das marés, que se intensificaram nesses últimos anos c/ o aquecimento global. Mesmo assim, o homem insistiu em construir quebra-mares. Em vão.
A orlinha da Coroa do Meio, em frente ao farol da Atalaia – a ‘velha’ – , onde ficava a Confraria de Bar Cleomar Brandi, praticamente não existe mais, só os bares mais próximos à pista ainda resistem. E a ‘nova’ Atalaia está sendo gradualmente ENGOLIDA pela ira do mar. “A coisa começou a ficar difícil quando construíram o molhe da Coroa do Meio. As águas não tinham pra onde ir, acabaram voltando pra cá, causando essa destruição. Aí colocaram essas pedras de contenção, mas passados tantos anos, as pedras estão sendo deslocadas e o mar tomando conta do que é dele”, diz Seu Juraci, nascido e criado na ‘ilha’, referindo-se ao quase extinto quebra-mar da Atalaia Nova.
TEMPO BOM NÃO VOLTA MAIS
Aquela praia dos velhos tempos, em que aconteciam grandes festas, os bares e restaurantes lotados aos finais de semana e feriados, já não existe mais”, constata João Batista, outro morador. “O poder público podia tomar providências p/ evitar que a destruição seja total.” Mas, como esperar soluções de um Estado que deixa faltar água nas casas mesmo quando chove? A companhia de abastecimento de água instituiu, no início do ano, um rodízio nos bairros da Grande Aracaju por causa da seca que tinha baixado o nível dos reservatórios, no entanto mesmo debaixo de um dilúvio as torneiras continuam vazias.
Muita gente ainda vem pra Atalaia Nova nos fins de semana e feriado. Os turistas gostam da praia”, lamenta Patrícia Emídio, proprietária do boteco Gogó Gelado, mais um dos fadados ao fim: “Eu já coloquei essas pedras pra impedir que o mar derrube o meu bar, mas não tem adiantado muito. Esse bar vizinho já tá quase todo destruído.A Atalaia Nova é uma das praias mais bonitas do estado, c/ uma vista surreal: a cidade de Aracaju do outro lado do rio. Desde sempre, é um dos destinos favoritos de veranistas, hippies e toda sorte de malucos, inclusive surfistas – c/ o swell certo dá pra pegar uma marolinhas perfeitas no quebra-mar.
Valmir Neto, o melhor surfista surgido em nossas praias, é nativo da ‘ilha’. Tentei contatá-lo p/ esta matéria, mas ‘Netinho’, como é chamado por nós [amigos e família], está neste momento competindo numa etapa do Brasil Tour. Em compensação, editei um videoclipe c/ imagens dele, de Romeu Cruz e de Bruno Marujinho, c/ cenas da Praia do Meio e Atalaia Nova, exclusivo p/ o VxLxBx. As imagens são de Leonardo Menezes, filmadas há 3, 4 anos, e fizeram parte do filme Merrecas. Esse material estava num pen drive que o Léo passou p/ o PERIFERIA, quando fizemos um perfil c/ ele. Apenas uma cena de surf é recente e feita pelo cinegrafista Júnior Guedes, da Aperipê TV. Usei uma música da REAÇÃO, “Recado do Zion”, grande performance do André Levi, p/ provar que dá p/ fazer filme de surf usando bandas locais na trilha sonora:
(...) Não há caminho para o perambulante/ Faz-se o caminho ao caminhar/
Com a convicção de que unidos somos fortes/ Quem são eles para nos subjugar?/
Para ninguém/ Para ninguém/ Não viemos aqui pra nos curvarmos pra ninguém (...)
PASSADO... PRESENTE... FUTURO?
Romeu Cruz é o maior nome do surf sergipano de todos os tempos, o 1º a conquistar o título nordestino open, em 1992, e até hoje o único a fazer parte do Super Surf, do qual foi Top 20 em 2001, ao ficar em 2º lugar na etapa de Pernambuco. Está c/ 36 anos e é o melhor representante do estado no circuito nordestino pro 2009, c/ uma semi na 1ª etapa.
Netinho e Marujinho são a evolução. Bruno Robson é filho do pescador dono do Bar do Marujo, daí seu apelido. Valmir Neto [foto] é filho do longboarder Valmir Chagas, ex-presidente da FSS. São 2 caras que cresceram c/ água salgada no sangue, e as cenas do CLIP registram um período de transição p/ ambos: a passagem de amador p/ profissional. Em 2005 Netinho foi campeão open dos circuitos sergipano, paraibano, potiguar e nordestino, e no ano seguinte estreou entre os Top Pro do Nordeste ao ser vice da última etapa. Marujinho, 5 anos mais jovem, foi campeão sergipano júnior e open em 2006 e Top 5 nordestino. Enquanto Valmir adiou ao máximo a mudança de categoria, à espera de inve$timento, Marujinho não se fez de rogado e virou pro aos 19 anos, apenas 1 ano depois da profissionalização de Netinho, aos 23.
De lá p/ cá, o surf de ambos foi se desenvolvendo a olhos vistos – Marujinho [foto] passou a dominar os aéreos a ponto de levar todas as expression sessions realizadas aqui este ano; Netinho investiu em viagens a Fernando de Noronha e incluiu em seu repertório de manobras voadoras adaptações modernas como sex change e kerrupt flips. Porém, há quase 2 anos nenhum deles emplaca um resultado expressivo. Valmir Neto, campeão sergipano e pernambucano pro em 2007, desde então não venceu mais nenhum campeonato, e perdeu seu lugar entre os Top nordestinos na última temporada. Bruno ‘Marujo’ voltou a competir como amador no final do ano passado – venceu a última etapa do circuito Aracaju Surf Power e lidera o ranking estadual c/ dois vices em duas etapas.
ENTRE 2 AMORES
No caso do Marujinho, falta patrocínio. Durante 2 anos a construtora Norcon lhe pagou um mísero salário mínimo, mas desde que esse contrato acabou, o moleque tem feito bico de motoboy p/ pagar as contas. Valmir é da equipe da marca paulista South to South e tem o apoio das lojas Venice, mas a cabeça tem lhe deixado na mão: não gosta de viajar sozinho, se deixa abalar pelas críticas do pai, não participa das campanhas publicitárias do seu patrocinador, e não quer mudar p/ o Sul ou o Sudeste p/ não ficar longe da namorada, a também competidora Carine Góis.
Ironicamente, Carine vem se tornando uma das maiores papa-títulos da região: atual campeã nordestina universitária, vice-campeã brasileira, levou as $500 pratas do Verão Sergipe [1º prêmio em dinheiro oferecido às mulheres no estado], venceu a etapa de abertura do estadual e chegou a competir contra os homens no II Atalaia Nova Surf Style, realizado na Praia da Costa, em março. Ela foi a única surfista a se inscrever na categoria feminina, e c/ a falta de competidoras optou por fazer um treino na open masculina [já que não poderia competir na júnior por ter 20 anos]. Passou em 1º lugar na sua bateria de estréia surfando mais do que os marmanjos: “Foi muito bom ter participado dessa competição junto c/ os garotos, eles têm um nível de surf muito bom, mais alto do que as meninas. Então tentei ali me igualar a eles, buscando evoluir meu surf.
Carine Góis está c/ um blog bem completo no ar, contemplando seus principais resultados e aparições na mídia. Coisa que seu namorado Valmir já deveria ter há um bom tempo, não fosse tão mal assessorado. Netinho tem que cair na real do surf, uma profissão c/ data de validade curta e garantias mínimas p/ o futuro. A hora de ganhar o mundo é essa. Daqui a alguns anos talvez ele não tenha as mesmas oportunidades que vem tendo agora. Daqui a alguns anos, pode ser que nem exista mais Atalaia Nova.
MORAL DA HISTÓRIA
1) "Em rio que tem esgoto, jacaré anda de ônibus" Brasaman
2) "Sem liberdade de criticar, não existe elogio sincero" Beaumarchais
VALMIR NETO - 'REENTRIE' ANIMAL!
DO SITE EM FOCO SURF [25/05/09]: "O atleta sergipano Valmir Neto não venceu a etapa nordestina de surf mas protagonizou uma das manobras mais iradas da competição. Rodrigo Mesquita, o fotógrafo oficial da ANS, não deu mole e segurou o dedo para registrar uma das melhores manobras executadas durante a terceira etapa do circuito nordestino de surf profissional 2009. Com essa manobra Valmir obteve uma boa média dos juízes e garantiu a sua vaga na terceira fase, onde parou diante de Messias Félix, John Max e Rudá Carvalho. Será que ele completou?"

RESPOSTA: "Lógico que voltou, fez um 7 e pouco só nessa única manobra, surfa muito este fera, ele em casa na próxima etapa em Aracaju vai ser show, boas ondas rapaziada, valeu!" Thibério Menezes, colaborador do site Ondulação

RECADO DO ZION


IMAGENS: Leonardo Menezes [2005/06] / Júnior Guedes [2009]
EDIÇÃO: Homem-Brasa
/TRILHA SONORA: "Recado do Zion", Reação [2008]

terça-feira, maio 19, 2009

O CORVO
Binho Nunes pinta quadros e tem uma banda de rock... ...mas é em ondas como Pipeline que ele mostra o melhor da sua arte

Dadá Figueiredo era roqueiro, tatuado e cabeludo no início dos anos 90, quando ganhou dos leitores de uma revista o título de “SURFISTA MAIS HARDCORE DO BRASIL”. Dadá surgiu na década de 80 c/ uma abordagem anos-luz à frente de seu tempo: manobras como aéreos e tail slides faziam parte de seu repertório, e seu visual punk-metal-dreadlock fazia dele um alien em meio a tantos cabelos de tigela e shortinhos coloridos. O cara morava no morro, shapeava suas próprias pranchas e tinha uma banda HC chamada Os Nor+, cujo maior hit era a singela “Bodyboard e Jet Ski Fora Daqui”. Top 16 do Brasil por anos a fio, foi campeão carioca pro em 1989. No ano seguinte, levou mais de 10 facadas numa briga de bar e começou a descer a ladeira. Mesmo c/ a popularidade em alta, bons patrocínios e vencendo eventos, Dadá caiu em desgraça, tornando-se dependente químico ao ponto de parar de surfar e só retornar após se converter ao Cristianismo.
Em 1992, ano de sua única vitória no Circuito Brasileiro, Dadá foi entrevistado por outra revista especializada, que pediu sua opinião sobre um novo garoto que estava surgindo em São Paulo e era apontado por todos como o “novo Dadá”. O guri em questão se chamava Fábio Nunes, o ‘Binho. Dadá, que nunca gostou de ser comparado a ninguém, mandou na lata: “Acho o surf do Binho mais parecido c/ o do Fernando Bittencourt do que c/ o meu”. Ele se referia a um amigo que também era pro surfer e freqüentador dos Top 16, cujo surf não era muito bonito de se ver. O ‘Bittenca’ tinha um bordão p/ suas vitórias, “É muita maldade!”. Mas mau mesmo era o Dadá, anti-herói favorito da molecada daquela época, que incluía caras tão distantes [geograficamente e em nível de surf] quanto eu em Aracaju e o Binho de Itanhaém – que ficou mordido ao ler aquilo. “Foi a gota d’água pra eu aprimorar meu estilo”, conta ele na entrevista que me concedeu por e-mail.
SMELLS LIKE TEEN SPIRIT

Binho Nunes já era cabeludo e roqueiro quando apareceu na cena, aos 13 – as tatuagens viriam depois. Seu surf ultramoderno e cheio de personalidade lhe valiam vitórias a cada semana nos campeonatinhos amadores, e em pouco tempo já tinha obtido TODOS os títulos nas categorias de base: campeão paulista iniciante, mirim, júnior e open, até chegar a campeão brasileiro júnior e vice-campeão panamericano em 1993. Participou da seleção brasileira no Mundial Amador de 94, na Barra da Tijuca, e se profissionalizou naquele mesmo ano. Começou a viajar p/ fora do país, e quando voltou p/ competir na perna brasileira, protagonizou uma dobradinha c/ o ídolo australiano Matt Hoy em 2 eventos ‘back-to-back’ que escreveram definitivamente seu nome na história do surf nacional. Tudo isso aos 18 anos.

Hoy venceu o Hang Loose Pro no Guarujá em ondas pesadas de 6’, c/ Binho vindo das triagens e chegando em 2º. Na semana seguinte, Binho levou o Sea Club Final Heat arregaçando as marolas de Ubatuba, deixando o top do WCT em vice. Essas provas também valiam p/ o circuito brasileiro, e o elevaram ao Top 7 nacional e a poucos pontos da classificação p/ o WCT. Em 95, mudou-se p/ o Havaí e no final da temporada foi convidado a participar do Pipeline Masters. Na esquerda mais temida e desejada do mundo, ‘Da Crow’, como é conhecido entre os amigos, deixou mais uma vez sua marca ao vencer 2 disputas e só perder nas oitavas-de-final p/ o campeão mundial Derek Ho.
Mas Binho nunca foi uma máquina de competir. Se ele venceu muitas vezes, é porque seu dom ‘supernatural’ o colocava um nível acima dos demais. Nunca se preocupou c/ táticas em baterias nem em pôr seus adversários em interferência. Seu negócio sempre foi dar show, e isso custou um preço – os resultados foram ficando escassos na mesma medida em que as cobranças da mídia e dos patrocinadores aumentavam. Venceu mais um WQS, no Ceará em 96, e só. Continuou seguindo o circuito por alguns anos, até decidir parar de competir definitivamente no início dos anos 2000.

SAMBA ESQUEMA NOISE

Binho foi p/ os anos 90 o que Dadá representou pros 80: um surfista punk, cabeludo, irreverente, criativo, multitalentoso, superradical, extremamente carismático – e único. Mas, ao contrário do carioca, jamais chegou ao fundo do poço, nunca beijou a sarjeta, nem precisou se converter. Cabeça feita, não tem problema c/ drogas e sua religião é o surf. Se Dadá shapeava as pranchas que usava, Binho pinta as suas. Pioneiro nas artes psicodélicas c/ canetinhas e aerógrafos, suas pranchas c/ motivos rockers já nasceram clássicas: teve a série de retratos do Jimi Hendrix, a capa do Blood Sugar Sex Magic do RHCP, as pranchas ‘Nação Zumbi’ e ‘Kill Bill’...
Foi um dos primeiros profissionais a se mudar p/ Floripa, influenciado pela esposa Paloma e fissurado nos tubos da Joaquina [seqüência ao lado] e do Campeche: “Aqui me divirto. Moro do lado do Fábio Gouveia. É muito bom morar junto do meu ídolo máximo. Ele é o poderoso chefão”, conta o extrovertido Binho, um dos mais engraçados e amigáveis surfistas do mundo, junto c/ seu xará paraibano. “O Binho Nunes influenciou várias gerações pelo seu surf, sua atitude e seu estilo. Até hoje ele é um surfista que quando está na água você sai do mar p/ assistir ele surfar”, declarou Stephan Figueiredo, o ‘Fun’, big rider da nova geração, ao VxLxBx: “Felizmente tive a oportunidade de conhecê-lo e me tornar amigo do Binho. Nas viagens sempre um cara alto astral, c/ muito surf no pé e muita música na viola.

Binho apresentou durante alguns anos o programa Super Surf ao lado da modelo Maryeva
, veiculado originalmente na Mtv e depois no Sportv. A função era extrair dos surfistas algo mais do que a meia dúzia de palavras usuais da ‘tribo’ [“”, “pode crer”, “qual é” e “”],
mas sua presença de espírito criou momentos memoráveis na telinha, como o concurso de funk que Alexandre “Dadazinho” Almeida levou graças à ‘dança do aleijadinho’, ou outro concurso, do cabelo mais feio, que na opinião unânime dos concorrentes foi vencido por ele mesmo, c/ seu moicano. A experiência em vídeo e a facilidade de fazer amigos e transitar em diferentes meios lhe valeu o programa Barca do Binho, na Zona de Impacto, onde ele sai de ônibus c/ uma turma de surfistas, skatistas e músicos atrás de ondas e diversão no litoral do Brasil e da América Latina. James Santos, Marcos Sifu, Rodrigo Sininho, Fernando Fanta, Marcelo Kozake, Léo Kakinho, Biano Bianchin, os irmãos Ramos e até Marcelo D2 são alguns dos habituées da barca, que virou filme no início deste ano.

ROOTS BLOODY ROOTS

Fã do Sepultura desde criança e chapa dos irmãos Cavalera a partir dos 15, o envolvimento de Binho c/ a música só aumenta c/ o passar dos anos. Sua 1ª banda se chamava Star Fish Dog Shit, na qual tocava baixo e uma garota cantava. Agora, toca guitarra nos BIFE KILLERS, banda que formou junto c/ o Digão, dos Raimundos, e o também pro surfer Danylo Grillo nos vocais. O projeto, que começou a troco de rango, fica mais sério a cada apresentação. D2, Derrick Greene, Andreas Kisser e o ex-batera do Natiruts já subiram ao palco em jams c/ os Assassinos de Bife.

Rock à noite, surf de dia
.
Aos 32 anos, Binho Nunes acaba de assinar novos contratos de patrocínio e está prestes a rodar o globo novamente, desta vez só p/ se expressar livremente. Os primeiros destinos serão Austrália, Tahiti e Indonésia: Vou lá e radicalizar, procurar dar aéreo, show. Gosto de arriscar, mas sou de lua e tem dias que quero fazer o surf arte, desenhar o arco-íris nas ondas.” C/ seu vasto arsenal de manobras que vai de floaters, laybacks e carves a toda uma variedade de aéreos, ele pinta verdadeiras obras-primas em ondas tubulares como Pipeline e Teahupoo, e como se fosse pouco tem feito também quadros a tinta acrílica que dão a certeza que de fome ele não morre quando se aposentar do pro surf.
Autêntico fã de Waldick Soriano, Binho gosta de retratar cachorros. “Essa é a minha essência. Se mudar perde a graça. O negócio é estar feliz”, diz nosso herói, apelidado de Corvo por causa da pele escura, herança de antepassados índios e negros. Pele cada vez mais preenchida c/ tattoos, como a gigantesca arraia desenhada pelo mestre Jun Matsui, fisgado ao ver Da Crow num cartão postal do Havaí: “Ao longo dos anos tatuei pessoas de diversas nacionalidades, raças, idades e ocupações... o CEO, o mafioso, a advogada, o operário, a cantora, o jogador de futebol... Quantas dessas tatuagens estão escondidas sob ternos executivos? Quantas são usadas p/ intimidar? P/ atrair? P/ seduzir? Quantas são ostentadas como meros ‘acessórios’ de moda?”, escreveu Jun em seu blog Life Under Zen: “Imagens como a do Binho naquela onda no Hawaii me ajudam a voltar ao ‘centro’ e pensar na tatuagem simplesmente como uma celebração do amor pela vida e pela liberdade. O desenho não faz a tatuagem e a tatuagem não faz o homem... No final, meu amigo, sua tatuagem, independente do desenho e tatuador, é somente tão bela, interessante e verdadeira quanto a vida que você vive.”

C/ vocês, Binho Nunes, o surfista mais rock’n’roll – e gente fina – do Brasil:


VLB> Onde vc aprendeu a surfar desse jeito?

Nasci em Sampa, fui pra Itanhaém com 6 anos de idade, pulei na água com 9 ou 10 anos e dela não saí mais, as ondas de lá ajudavam bastante, pois eram fáceis de surfar e sem quebra-cocos.


VLB>
Quando vc apareceu, era comparado ao Dadá Figueiredo, mas numa entrevista em 92, o Dadá disse que achava seu surf mais parecido c/ o do Fernando Bittencourt... Vc lembra disso? Foi algo que te chateou na época?


Lembro disso sim, fiquei meio puto pois o Fernando não tinha um estilo legal, e o Dadá não queria ser comparado com ninguém, e quando fizeram o cara não curtiu. Eu já me preocupava em não parecer um macaco em cima da prancha, nessa época eu já sabia que não queria surfar igual a todo brasileiro, pois 99% deles têm um tique de cabeça e uma quebra de linha no fim da manobra que os gringos não têm. Quando ele falou isso em uma entrevista, foi a gota d’água para que eu melhorasse de vez meu estilo e polisse ele também.


VLB> O mundial amador de que você participou em 94 foi considerado o melhor de todos os tempos e teve talvez os surfistas juniores mais fortes – Neco Padaratz, Kalani Robb, Cory & Shea Lopez, Andy & Bruce Irons... Vc chegou perto das finais, deve ter tido umas boas disputas contra esses caras. Como foi essa experiência?

Foi legal pacas, passei uma bateria com o Bruce e na sequência perdi pro Kalani nas quartas, aquele campeonato deu uma boa base, pois ver os moleques quebrando tudo faz vc correr atrás de verdade. Depois desse campeonato me empenhei muito no Hawaii, para aprender a surfar ondas pesadas e melhorar o ‘punch’ das manobras.


VLB>
Logo em seguida você se profissionalizou, e aí rolou aquela dobradinha c/ o Matt Hoy em 2 etapas consecutivas do WQS: vc em 2º no Hang Loose vencido por Hoy, e campeão da última etapa do brasileiro c/ o Hoy em 2º... Lembro da sua comemoração, entornando o espumante e caindo no chão, haha!.. Qual a sensação de chegar atropelando todo mundo? Vc e o Hoy já lembraram disso bebendo uma cerveja, ou algo assim?


Cara isso foi muito louco, pois comecei o tour no meio de 94, então era só um teste, mas comecei a passar várias baterias, enfileirava geral. Cheguei no Brasil e comecei o campeonato no pré-trials, de tanta gente que tinha competindo, quando parei pra pensar estava nas quartas e tomei todas pra comemorar, no dia seguinte o mar estava grande com dois metros quase ressaca, eu fui pra cima e deu no que deu, segundo lugar. No final da temporada fiquei a 3 posicões do CT se não me engano, foi loucura total.

Na noite da comemoração fui até a casa do Igor Cavaleira onde estavam hospedados o Hoyo
[foto] e o Dog Marsh, convidei um amigo meu, Fandangos, para fazer frente na bebedeira e tomamos todas, eu caí nocauteado logo cedo; às 3 da matina, quando acordei, estava meu camarada, que não falava inglês, conversando com Matt como se os dois falassem a mesma língua....muita breja na cabeça também pode ser cultura


Depois dessas duas finais nos tornamos amigos e quando nos encontramos uns meses depois comentamos em como foi divertido fazer aquelas duas finais e comemorar as duas como se fossem nossas últimas.


VLB>
No ano seguinte você foi convidado p/ competir na etapa final do mundial, o Pipe Masters.
Neste evento, Kelly Slater garantiu seu 4º título mundial ao vencer uma semifinal histórica contra Rob Machado, Mark Occhilupo começou sua volta por cima ao chegar na final depois de passar pelas triagens, e vc foi mais uma vez o azarão, roubando o show nas primeiras fases p/ terminar o evento em 9º lugar. Foi a única oportunidade que vc teve na vida de disputar o Masters, certo?


Sim,
foi minha única oportunidade e assim que recebi o convite pulei dentro; em 95 eu estava morando no Hawaii, já tinha feito semifinal em Sunset e estava bem seguro, nunca achei Pipe perigoso porque nunca tinha parado pra pensar nas pedras afiadas que tem no fundo, coisas de moleque querendo mudar o mundo... Então fui que fui, morava numa casa cheia de amigos, queria mudar os parâmetros do surf brasileiro, achava todo mundo careta e com um surf antiquado, então agarrei essa chance com unhas e dentes, surfei Pipe com prancha bem menor do que a dos caras que estavam na competição, fiquei orgulhoso por ter passado pelo Taylor Knox na primeira fase e pelo Jeff Booth na segunda, perdi pro Derek Ho que tirou um 10 e um 9... Mas saí da água como se tivesse ganho a bateria, o locutor me comparou ao Tom Carroll naquelas condições, pois dei uma rasgada embaixo do lip que a praia toda gritou quando desapareci e depois apareci no meio da espuma branca gigante... Tá certo que o locutor babou meu ovo me comparando ao Tom Carroll... Sei que estava bem longe das atuações dele e nunca vou chegar lá... Mas a comparação me abriu grandes portas no outside de Pipe, valeu locutor!

VLB>
Mesmo depois de tudo isso você não emplacou no mundial, apesar de vencer mais uma etapa do WQS em 96... O que vc acha que faltou p/ se classificar pro WCT, coisa que nunca aconteceu apesar de todas as previsões e torcida da geral?


Cara, no ano de 95 eu viajei bastante pra aprimorar meu surf e não me foquei, daí em 96 eu voltei com tudo, fiz um 5º na Nova Zelândia, um 9º na África e 13º na Austrália, ganhei no Brasil, mas faltou um resultado mínimo, cheguei no Hawaii na maior pressão e me lembro bem daquele ano porque foi uma decepção não ter arrumado um resultado em Sunset... Só depois caiu minha ficha, eu não sabia surfar lá, pois não surfava lá, somente em Pipe...


No ano seguinte fiquei um pouco baqueado e me machuquei na França durante uma Expression Session e fiquei de molho por muito tempo me tratando na Califórnia, estraguei meu osso do pé na volta de um aéreo. Depois disso dei uma desencanada de surfar ondas micros e os resultados deram uma sumida, a pressão também estava grande e certas cobranças, mas o principal fator foi não estar preparado psicologicamente.


Tentei mais dois anos de tour e me machuquei novamente, não me focava em fazer o básico, só queria dar um show em cada bateria, isso ia me alimentando, mas caí na armadilha dos altos e baixos de tentar fazer da bateria uma expression session. Queria me expressar mas tinha que me conter, pois os chefes de equipe não curtiam meu estilo loucão de ser, pranchas pretas com caveiras e coisa e tal, mesmo sabendo que eu era careta de drogas, tinha que viver me policiando e nunca estava bom o suficiente, um belo dia percebi que o esquema competição não estava mais funcionando pra mim, eu tinha perdido aquele espírito de querer ser o melhor, então percebi que o surf era muito mais que um esporte em si, é um estilo de vida que aqui no Brasil poucos vivem de verdade, embarquei pra ser free surf por minha livre e espontânea vontade e assim comecei a me expressar do jeito que bem entendia.


VLB>
Vc foi um dos primeiros a personalizar suas pranchas c/ pinturas, numa época em que todo mundo usava prancha branca... As pranchas c/ o Jimi Hendrix e Red Hot Chili Peppers são lembradas até hoje...


Não queria mais me enganar com as competições... elas são boas até certo ponto, mas se não está funcionado, vc tem que optar por ficar na mesma tecla ou tentar novos caminhos para ser feliz, então embarquei de cabeça no free surf e nesse mesmo tempo, descobri uma terapia chamada: arte de pintar suas próprias pranchas. Pintava as minhas pranchas conforme o som que estava escutando no momento, era uma coisa nova pra todos também. Pinto minhas pranchas até hoje, e guardo muitas das mais bonitas. Comecei a me envolver com a arte graças a esse começo de pintar as pranchas.


VLB> E esses quadros que você anda pintando? Como começou, e qual tipo de tinta vc usa? Já arriscou uns graffitis, usando spray e rolo, tal?..

Comecei a pintar por acidente, pintava as minhas pranchas e um belo dia não tinha mais pranchas pra pintar e meus desenhos não cabiam mais nelas, então comprei uma tela e tinta e mandei bala, uso acrílico e caneta Posca, uso spray as vezes em alguns fundos, mas não penso no graffiti em si, tenho respeito por ele, mas acho muito complicado pra mim, prefiro ligar um som a noite e mandar bala me divertindo com as minhas telas.


VLB>
Vc gosta de pintar cachorros... Tem algum em casa?

Tenho dois, um viralata muito funk, John John Juvenal, e uma American Staff, Shadow, que só falta falar…

Dogs são o que me traz paz, parece brincadeira, mas não é, pinto dogs por consideração a eles, eles sofrem demais nas mãos dos seres humanos, a minoria os tratam bem, o restante não faz a menor idéia de como tratar um cachorro bem e deixá-lo sem traumas. Agora estou pintando umas caveiras também, que somos nós na minha visão, os cachorros vão pro céu e nós para debaixo da Terra...


VLB>
Qual a maior cachorrada que já aprontaram contigo?


Cachorradas as pessoas sempre aprontam, mas uma cachorrada pra mim é não ter palavra e respeito pelos outros…


VLB>
Vc sempre foi amigo dos caras do Sepultura, da Nação Zumbi e do Raimundos, tanto que agora tem uma banda junto c/ o Digão... Desde quando vc tira som, e como foi que começou esse envolvimento c/ o rock?


Sempre fui fã de música, meu tio e irmão sempre tocavam e eu ficava vidradão, meu tio tinha uma banda, eu era moleque, mas isso ficou na minha cabeça... um dia pedi pro meu irmão me ensinar a tocar, então comecei e depois desencanei pois não saía nada decente.


Um belo dia estava em Itanhaém de bobeira e pronto pra sair pra balada, um cara chegou e disse que o Max Cavalera estava no bar de um amigo meu, então fui lá e levei uma foto que tinha acabado de sair na revista, na foto eu estava surfando com o logo do Sepultura estampado grandão na minha prancha, ele se amarrou, deu valor, resolvemos ir na minha casa, morava com minha avó na época, ele entrou, trocou uma idéia com minha avó, assinou umas fotos na minha parede e saímos pra tomar umas, eu tinha 15 anos quando isso aconteceu e marcou muito ter conhecido um cara que admirava e descobrir que ele era muito simples, um cara normal, de um modo ou de outro esse encontro serviu como um modelo de vida a seguir, sempre tentei me espelhar em caras simples como ele.


Depois disso morei no Hawaii com uns caras de Brasília, eles me apresentaram os Raimundos ainda em fita demo, mais tarde fui apresentado aos caras da banda pelo Klebinho, um amigo film maker, logo ficamos amigos, pois os caras gostavam de praias e estavam afim de aprender a surfar, o Digão foi algumas vezes para Itanhaém, para surfar nas ondas gordas e longas de lá, assim começou nossa amizade que dura até hoje.


VLB>
E a banda, o negócio é sério? Tipo, vcs vão lançar disco, fazer turnê, essas coisas?

Eu e Digão tocávamos as mesmas músicas e temos um gosto musical muito semelhante, esses dois fatores ajudam a nossa comunicação musical, nos entendemos bem e quando tocamos, dá uma liga muito grande, a energia toma conta de tudo, agora que o Danylo Grillo assumiu os vocais a coisa vai rolar mesmo, ele tem a energia que faltava pra coisa pegar fogo, até trocamos o nome da banda para Os Bife Killers, antes era BEEF. Estamos com 3 músicas prontas para gravar, vamos fazer a demo e ver no que vai dar. Sobre as turnês, vamos tocar em alguns lugares relacionados com surf, com rock, por enquanto não temos 20 músicas próprias pra tocar por aí em um show, então tocamos covers de bandas que curtimos, mas na nossa pegada.


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Quais suas bandas favoritas? E que sons vc tem escutado mais ultimamente?


Minhas bandas favoritas sempre serão: Sepultura, Dead Kennedys, Ramones, Sex Pistols, que foram minha base. O que escuto hoje: muito Alice In Chains, Nirvana, Soundgarden, The Cure, Ramones e DK, algumas coisas mais calmas, como Night Mare on Wax, Willie Bobo, Lovage, Cat Power, Dan the Automator e por aí vai a lista...


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Nos últimos anos vários pros se mudaram p/ Santa Catarina – Fábio Gouveia, Paulo Moura, Márcio Farney, Guilherme Herdy, etc... Vc foi um dos primeiros a se radicar, e é casado c/ uma catarinense. Qual o maior atrativo de Floripa: as ondas ou as mulheres?


Na real minha mulher Paloma que me trouxe pra cá, viemos passar férias aqui com calma, tava rolando altas ondas na ilha toda, sem crowd, surfava no Moçambique todos os dias sozinho, então resolvi ficar por aqui, chegamos aqui em 2000, graças a ela estamos vivendo aqui até hoje.


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Este ano você lançou o filme A Barca do Binho, que nasceu como um programa de TV... Vc já tinha uma experiência prévia fazendo o Super Surf... Vai investir nesse lance de apresentador?


Fiz um trampo na TV como comentarista e apresentador de leve, fazia mais a liga dos surfistas que não sabiam falar para a câmera, eu os fazia desembuchar...


Quanto ao filme, são meus amigos surfando e andando de skt em alguns picos que curtimos, montei um roteiro e o Marcos Feijó, da Garden Groove Filmes, acreditou no projeto e deu no que deu... Nesse filme nós tentamos passar pras pessoas o mundo em que vivemos, pra todos entenderem que fazemos o que gostamos e vivemos por isso. No filme está claro que o espírito Barca é a camaradagem, o respeito e o bom desempenho.


Nós gravamos no Norte do Peru, no México e em Santa Catarina, especialmente na ilha de Floripa. Esse é o filme vol.1, que virá com um bônus chamado Barca vol.1,5... O filme já está pronto e estamos vendo o processo de distribuição dele.


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E o skate? Você sempre tá fazendo festas, sessions e churrascos na pousada Hi-Adventures, o bowl mais famoso de Floripa... Suas manobras, em si, já são bem skt... Vc andou muito de carrinho qdo era moleque? Ainda anda?


Sempre dei meu rolé de skt, quando moleque machuquei o pulso e fiquei sem competir no surf por dois meses, tinha 13 anos, aí abandonei o skt. Voltei a andar aqui em Floripa, o bowl é o surf do asfalto. Gosto de ver a sessão pegando fogo, gosto de ver o Léo Kakinho, Gugu e o Kozake no bowl, me dá uma energia animal, os irmãos Ramos são pessoas nota 1000...


Aaahh! Curto muito ver o Pedro Barros, ele é acima da média, atropela tudo... e dá um flashback vê-lo andar, uma renovada nas energias.


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Mesmo sendo um “trickster” dos bons, vc tb é um puta tuberider e se joga nas ondas grandes... Toda vez que vai ao Hawaii sai uma fotona sua em Pipeline...
O que falta p/ vc bater cartão toda temporada nas ilhas? Grana? Ou o crowd e a bad vibe do lugar atrapalham?

Por falar em cartão, virei cartão postal de Pipeline nos anos 90, engraçado demais, um amigo meu chegou em casa e disse, ‘caraiii vc tá em um cartão postal por toda a parte no Hawaii!’... só isso já diz tudo. Fiquei lá por muito tempo entre campeonatos nos anos que corria o circuito, depois não consegui ir em todas temporadas, tenho ido de dois em dois anos. Na temporada 2007/2008 estive lá pela última vez e peguei uma bombas premiadas em Pipe. O que falta mesmo é grana, apoio e incentivo.


O crowd está cada ano mais infernal, a vibe está pesada, mas não tem jeito, se vc quer surfar aquelas ondas, vc fica 3 horas na água até pegar a sua e sair de cabeça feita por vários dias, vale a pena correr o risco, agora de patrô novo vou tentar ir todo ano, pois o retorno é animal para ambas as partes.


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Qual onda é mais pesada: Pipe ou Teahupoo?


As duas tem o seu peso, já surfei muito Teahupoo quando ainda era o WQS, fiquei lá um mês e 10 dias a primeira vez que fui... tem dias grandes muito pesados que não tem jeito de cair na remada, e tem dias muito clássicos na medida certa. Pipe é uma coisa de outro mundo, vc acha que pode domar a besta, mas quando chega lá, vc é domado pela adrenalina e fica igual a um bicho querendo entrar na toca.


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Bom, vc acaba de fechar contrato c/ as marcas More Core Division e Free Surf. Logo de cara, a MCD vai te mandar pra Austrália, Tahiti e Indonésia, sem falar que o time da empresa é composto por amigos seus, como Peterson Rosa, James Santos, Fun, Cássio Sanches e Fanta... Ei, por acaso tatuagens são pré-requisito p/ entrar na equipe?


A MCD é uma marca de surf que trabalha com o foco no free surf, combinando a personalidade do atleta e a hi-performance, é uma empresa com ótimo histórico no surf, ela tinha o Matt Archbold e o Pottz, entre outros tomados da época, na equipe.


Agora que esse namoro de anos deu liga, poderei representá-los com muito orgulho, na MCD já me sinto em casa, sei o que eles querem de mim... Isso facilita tudo, não tem pressão, além de tudo a pegada é outra, é uma das marcas mais underground do Brasil, a equipe é underground, a galera que trabalha lá é muito legal, ligada em arte, comportamento, isso eu respeito muito, coisa de primeiro mundo, e por coincidência todos tem tattoos dos pés a cabeça, melhor impossivél, pois lá não me sinto ou sou tratado como um peixe fora d’água.


Olho pra marca e sinto que sempre fui parte daquilo de um modo ou de outro, pois falamos a mesma língua.
VLB> Por falar nisso, c/ que idade vc fez sua 1ª tattoo? E quantas tem atualmente? Quais as preferidas? Pretende fazer mais? Enfim, o que vc pensa e sente sobre tattoo?

Fiz a primeira com 14 anos, não sei quantas eu tenho, pois estou ligando todas que posso, tipo um braço tem duas tattoos, um polvo feito pelo Bozó de BH e um Maori do Jun Matsui, no outro tenho umas carrancas na parte de cima e um mosaico com influências indígenas também do Jun Matsui, tenho uma raia do Jun nas costas, e uma na perna esquerda feita pelo Toca Tattoo, pretendo acabar meu antebraço direito que está quase lá, retocar algumas coisas e depois tirar tudo com laser!!!!!! Tô brincando!!!!!! Chega de sofrer...


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Você já viajou por todo o planeta, mas qual é a sensação de estar prestes a cair no mundo novamente? Dá aquele frio na barriga ou já acostumou?


Cair na estrada é o bicho, vc não fica estagnado com seus pensamentos, se seus pensamentos param nas mesmas coisas sempre, vc está ferrado, não produz nada novo, fica sem criatividade, não tem energia para aguentar o tranco de um dia cheio e por aí vai... Tenho que viajar, pra dar o devido valor às coisas quando retorno pra elas... e para retornar renovado.


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Quais são seus lugares favoritos no mundo? E qual não conhece mas tem vontade de ir?..


Gosto muito do Hawaii e do México, me sinto em casa no México, gosto de Floripa também, aqui tem seus dias clássicos. Um lugar que nunca fui mas tenho muita vontade de ir é o Japão, não pelas ondas e sim pela cultura, sou fascinado pela cultura japonesa.

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Aquele model Trident da Drop Shoes foi concepção sua? Já pensou em montar uma marca, ou coisa do tipo?

Foi sim, idéia minha. Já tenho uma marca chamada SEASON76, sou sócio do James Santos, estou cheio de idéias guardadas pra ela, esse ano vamos começar fazendo algumas coisas limitadas, vamos brincar de fazer coisas ao nosso modo, mas temos que ir com calma, pois não temos a grana para chegar estourando tudo.
VLB> Já pensou no que vai fazer daqui a, sei lá, 10 anos? Acha que vai estar sendo pago pra fazer arte, free surf ou música?
...Nunca parei pra pensar muito lá na frente não, tenho meus planos, mas não sei o que vai acontecer no dia de amanhã, pois se o mundo não se acabar até lá, gostaria de estar com saúde e com minha família e cheio de cachorros em um terreno gigante.




























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