quinta-feira, junho 18, 2009

BANHO DE ÁGUA FRIA A expectativa era grande. Pela 1ª vez uma etapa do circuito nordestino de surf profissional aconteceria em Sergipe: o Maresia Surf Pro, na Praia do Meio, orla de Atalaia, c/ R$ 20.000 de premiação. 4ª etapa da temporada, valendo vaga p/ a 1ª divisão nacional, presença certa dos melhores atletas da região. Marcado p/ o fim de semana dos namorados, de 12 a 14 de junho, final de outono, época propícia a boas ondas... Show de surf garantido.

Baianos, pernambucanos, paraibanos, potiguares e cearenses aterrissaram na nossa vala. Literalmente, já que nego ‘tava voando alto nas marolinhas do Meio: de lendas como o ex-Top WCT Fábio Silva, 37 anos [campeão de 4 etapas do WQS, do ISA Games 2000, 2X vicecampeão brasileiro e 9º lugar no Pipe Masters 97], a feras da nova geração como Júnior Lagosta [PE], Itim Silva [CE], Eberliel Andrade [PB] e Bruno Gallini [BA], entre outros. Nós tínhamos uma dezena de representantes, de diferentes idades: Romeu Cruz, 36, Daniel Silva, 28, Rafael Melo, 23, Marujinho, 21, Kayan Barbosa, 20... Mas, peraí! Cadê o Valmir Neto, nossa maior esperança de vitória?


Netinho e Carine terminaram e ele se jogou pra Natal. Nem se inscreveu no campeonato”, disse meu irmão , amigo de todos os ‘pros’ da nova geração aqui do estado – Valmir, Galego, Marujo – , ele mesmo ex-competidor. A mãe do Neto mora em Ponta Negra [RN], e foi lá que nosso chapinha forjou seus aéreos, surfando ao lado de Joca Júnior, Danilo Costa e Marcelo Nunes, e competindo contra Guilherme Tripa nos tempos de amador. Netinho é genial, mas talento só não basta. Ele precisa de um técnico, ou manager, p/ orientar sua carreira. Urgentemente. Eu já tinha cantado essa bola, mas santo de casa não faz milagre, né.


LEI DE MURPHY
O que era mau agouro virou anti-clímax c/ a morte de um surfista na manhã de sexta, início do campeonato. O universitário Felipe Amarante, conhecido como ‘Boto’, morreu afogado na Atalaia ao se enrolar numa rede de pesca. Os amigos só perceberam que havia algo errado quando a prancha ficou à deriva na beira da praia. Boto tinha 24 anos e estava se formando em psicologia.

Quando percebemos que estão colocando redes ou anzol em locais de banho, pedimos p/ retirar”, diz o assessor de comunicação do Corpo de Bombeiros, major Josué Costa, que explica ainda que os salva-vidas estão sempre alerta p/ essas situações. Por que ninguém salvou o cara, então? A praia de Atalaia oferece riscos em diversos locais, que mudam bastante a depender da corrente marinha. Esses locais são sinalizados diariamente pelos guarda-vidas, mas a força das águas forma valas que aumentam a força da natureza. Quem cai nessa zona fica muito difícil de escapar.

Diante desta fatalidade, a prefeitura decidiu proibir a pesca
c/ rede e anzol em praias freqüentadas por banhistas aos finais de semana e feriados. Mas isso não vai trazer o Felipe de volta. Nesse clima de luto, os sergipanos foram perdendo um a um nas primeiras rodadas.

POR UMA QUESTÃO DE CLASSE
O único a sobreviver até o domingo foi Rafael Melo, o ‘Galeguinho do Coque’, que passou 3 fases, uma delas em 1º, derrubando favoritos como os cearenses Michel Roque e Edvan Silva, atual bicampeão nordestino [2005/08]. Em seu 2º ano como profissional, Rafael está competindo em todo o circuito sem patrocínio, apenas c/ o apoio das pranchas Rio Doce, do shaper Felipe Souto, de Natal [RN]. Por sinal, competiu na etapa usando uma prancha do meu irmão, porque tinha quebrado todo o seu quiver nas semanas anteriores.

Culpa dos vôos que o Galego domina desde moleque. Foi campeão sergipano júnior no início da década, mas não lembra exatamente o ano ou a idade que tinha. Típico do Rafael, quase um sósia do Salsicha, parceiro do Scooby-Doo. Praticante de yoga e dono de um estilo ‘zen’ de surfar, sua abordagem aerialista não lhe rende muitas vitórias em campeonatos, mas sempre vale muito nas expression sessions. Ano passado ele levou 2 seguidas no circuito estadual, c/ 2 aéreos de backside, um reto e um rodando.

Rafael perdeu nas quartas-de-final, ao ficar em 3º na bateria que classificou o cearense Thiago de Souza, campeão nordestino 2006, e o potiguar Alan Jones, campeão da 3ª etapa em Pernambuco. “Faltou sorte de vir as ondas pra eu poder tirar as notas. Tava instigado, tava confiante, surf no pé...”, me falou ao telefone enquanto arrumava as malas p/ próxima etapa, Baía Formosa, Rio Grande do Norte.

O que você acha que faltou pros surfistas daqui se darem melhor nesse campeonato, Galego? “Faltou mais experiência, falta campeonatos pra galera entrar no rip...Não seria o caso de neguinho ter amarelado?Muita gente se intimida, por causa do nome dos caras, mas não tem nada a ver. Os caras já me conhecem, tô correndo atrás, a expectativa é a melhor.

Parabéns ao Rafael, representou. Mas tirando a performance dele e o aéreo 360 que o Marujinho mandou na bateria em que foi derrotado, a diferença entre o surf dos locais e o dos outros nordestinos ficou evidente. Mesmo surfando no quintal de casa c/ a torcida a favor, geral não conseguia emendar duas manobras boas por onda. Os baianos Rudá e Marco Fernandez, o cearense Thiago e o potiguar Alan Jones chegaram à final pegando as melhores ondas e manobrando sempre no crítico.

SOLTO NA VALA
Rudá Carvalho surfou na valinha da Praia do Meio como se estivesse no Backdoor de Ilhéus. Uma de suas ondas exemplifica a sua apresentação: batida de front tirando toda a prancha do lip, emendando c/ um tail slide segurando na borda. 17 pontos de média em 2 ondas p/ faturar os $6.000 reais do 1º lugar, 1500 pontos regionais e 500 no Brasil Tour. “Não fico pensando muito em ganhar, entro no mar p/ fazer meu surf. É muito bom ir p/ BF surfar aquelas ondas perfeitas embalado por uma vitória. Hoje é só felicidade”, disse o campeão, que assumiu a 4ª posição na disputa do título. “Esse foi o melhor público que já vi em campeonatos”, elogiou Rudá – só não sei se ele estava se referindo aos sergipanos em geral ou às SERGIPANAS...

Thiago de Souza, campeão brasileiro jr. em 1999 e nordestino pro em 2006, ficou em 2º. “Eu ainda tentei, sou cearense, nordestino, brasileiro e não desisto nunca, sou perseverante nos meus objetivos, estou sempre em busca. Mas estou contente c/ o pódio”, disse Thiago, que passa por uma ótima fase – venceu a etapa nordestina da Seletiva Petrobras, em Porto de Galinhas [PE], no fim de maio. Marco Fernandez e Alan Jones terminaram em 3º e 4º lugar, respectivamente. “Esses caras surfam muito, estão dominando tudo pelo Brasil afora. E eu vou trabalhando aos poucos p/ chegar ao meu objetivo que é ser campeão nordestino”, disse Fernandez.

Antes da final rolou a expression session, e apesar dos nossos aerialistas estarem na água, quem faturou foi mais um cearense, Messias Félix, campeão nordestino 2007 e Top 4 Super Surf 2008, c/ um kerrupt flip na base: “É isso aí, só monstro na água, eu tava ali do lado do Itim, um instigando o outro, consegui mandar o kerrupt e levar o prêmio pro Ceará... É uma manobra bastante moderna, vem do skate.
Ele vinha de um excelente resultado na semana anterior: o vicecampeonato na 2ª etapa do circuito brasileiro, em Salvador [BA], c/ o Rudá em 3º.

Messias recebeu também uma homenagem junto aos outros 2 campeões nordestinos, Edvan Silva e Thiago de Souza. O circuito foi reformulado em 2005 c/ a criação da ANS [Associação Nordestina de Surf], e se fortalece a cada ano. “Fico muito feliz de fazer parte dessa história”, disse Félix. “Surfar não tem preço e eu faria independente de qualquer coisa. O surf é mágico e tem me proporcionado muitas coisas boas, não só como surfista, mas como pessoa também tem me ajudado a evoluir”, discursou Thiago, muito aplaudido.

ENTRE MORTOS E FERIDOS

O pernambucano Halley Batista [à direita], campeão da 1ª etapa, assumiu a ponta do nordestino ao ficar em 5º lugar, perdendo nas semifinais p/ os baianos Rudá e Marco. Seu conterrâneo César ‘Molusco’ Aguiar [à esquerda] chegou aqui liderando mas caiu p/ 2º no ranking ao perder nas quartas, dividindo o 9º lugar na etapa c/ Rafael Melo e outros 2 competidores.

Rafael passou a ocupar a 29ª posição após esta etapa. É o melhor atleta do estado no circuito regional e parte c/ tudo p/ a próxima fase: “Tô amarradão, vou agora pra BF, tô tentando tudo p/ conseguir a vaga pro Super Surf”. Ponto p/ ele e p/ a FSS [Federação Sergipana de Surf], representada pelo videomaker Leonardo Menezes e o shaper Saulo Morais. Geraldo Cavalcanti, presidente da ANS, aprovou o que viu: “O evento foi perfeito. Vamos trabalhar p/ fazer esta etapa crescer em premiação e transformá-la no Festival Maresia de Surf em Sergipe. Ano que vem a etapa está confirmada, permanece e quem sabe a gente não traz o D2 ou O Rappa p/ este festival!

Nem precisa ir tão longe, basta por a Reação abrindo pra Nação Zumbi, ou a Plástico Lunar abrindo pro Eddie. Se ninguém morrer e o Valmir Neto der sinal de vida, o show vai ser completo.

ALGUNS DOS MELHORES MOMENTOS DO
* MARESIA SURF PRO *Adilton Mariano, top do Super Surf
Romeu Cruz, prata da casa
Edvan Silva, bicampeão nordestino

Thiago de Souza, campeão da Seletiva Petrobras
Rafael Melo, o melhor local na competiçãoHalley Batista, o novo líder do circuito

GALEGUINHO DO COQUE
Rafael Melo no vídeo 'Identidade' [2008]
IMAGENS: Leonardo Menezes
EDIÇÃO: Leo M. + Viva La Brasa
TRILHA: "Banditismo por uma Questão de Classe" Chico Science & Nação Zumbi

3 comentários:

espedito santos disse...

Saudades das ondas... mais saudade ainda das SERGIPANAS...

Viva La Brasa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Viva La Brasa disse...

só uma correção: o surfista que eu creditei como cesar molusco é na verdade junior lagosta... confundi os 2! tb, os caras são amigos, goofies, pernambucanos, aerilalistas... e frutos do mar!