sábado, junho 20, 2009

BANHO DE SANGUE
Mais que uma fraude, houve um golpe de estado no Irã”, declarou Marjane Satrapi ao repórter Ricardo Martinez Rituerto, do jornal El País, da Espanha. A entrevista c/ a quadrinista e cineasta iraniana de 39 anos serviu p/ que ela apresentasse uma cópia do comunicado confidencial em que o Ministério do Interior do Irã adianta a vitória do candidato opositor ao regime. “Satrapi vive exilada em Paris e embora se defina como apolítica diz que se envergonharia de não saltar agora à arena em defesa da democracia em seu país”, escreve Rituerto. “A junta eleitoral adiantou a Mir Hosein Mousavi sua vitória antes que os militares lhe dissessem que o regime não o tolerava”, diz Marjane, revelando o que todo mundo já sabia, mas ninguém tinha provado.

Os protestos no Irã já duram 6 dias. Ontem, o líder supremo do país, aiatolá Ali Khamenei, falou a milhares de seguidores na tradicional prece de sexta-feira na Universidade de Teerã: “As demonstrações de rua são inaceitáveis. Elas são uma afronta à democracia após as eleições. O resultado da eleição vem das urnas, não das ruas. Hoje, a nação iraniana precisa de calma”, disse ele, antes de alertar que seria da oposição “a responsabilidade por qualquer derramamento de sangue. O Irã é praticamente um estado teocrático desde a Revolução de ’79, como eu já disse há menos de uma semana. Aiatolá Khamenei não é Alá, mas tem status de semideus no sistema islâmico xiita. “O povo escolheu quem queria”, fechou a conta, ‘legitimando’ a vitória de Ahmadinejad.

A polícia iraniana dispersou hoje milhares de manifestantes em frente à mesma universidade onde o aiatolá sinistrão discursou ontem. A explosão de uma bomba perto do santuário do fundador da Revolução, aiatolá Khomeini, matou 1 pessoa – a 11ª desde o início dos protestos. Pelo menos 4 estudantes estão desaparecidos desde a invasão dos alojamentos universitários. As informações são da agência iraniana extra-oficial FARS. Os descontentes c/ o resultado das eleições planejavam mais uma passeata monstro p/ este sábado, mas o ato acabou cancelado. Por causa das pesadas restrições à imprensa, muitas informações não podem ser confirmadas de forma independente.

Diante da censura, os iranianos têm usado a internet p/ se comunicar e organizar. Além das redes sociais como Twitter e Facebook, eles criaram o fórum WHY WE PROTEST, onde 1.800 usuários convocações p/ as manifestações, fotos e vídeos da repressão do stablishment. O fórum é divido nas seções 'Dentro do Irã', 'Ativismo', 'Geral', 'Discussão Internacional', 'Tradução', 'Em Memória', 'Miscelânia' e 'Pessoas Desaparecidas'. Os internautas também dão dicas sobre como manter o anonimato p/ evitar represálias, como os violentos ataques da milícia Basij.

Enquanto isso, aqui no Brasil, o STF decide que a formação superior em jornalismo não é necessária p/ o exercício da profissão. Segundo o ministro Gilmar Mendes, “a formação em jornalismo deve continuar nos moldes de cursos como o de culinária, moda ou costura”. Puta que pariu. Se meu diploma já não valia muita coisa, agora não serve nem p/ pendurar na parede. Mas essa é outra história...

De Bruxelas, na Bélgica, direto de seu auto-exílio, Marjane Satrapi expõe seu ponto de vista sobre toda essa treta que está rolando em sua terra natal:

El País - O que aconteceu no Irã?
Marjane Satrapi - Houve um golpe de Estado, mais que uma fraude. A comunidade internacional não deve reconhecer a legitimidade de Mahmoud Ahmadinejad.

EP - Que provas a senhora tem desse golpe de estado?
MS -
Inúmeras. Que votaram 13 milhões de pessoas a mais que 4 anos atrás, e votaram pela mudança; que nas eleições anteriores Mehdi Karrubi teve mais de 5 milhões de votos e agora só aparece c/ 280 mil; que os candidatos foram derrotados inclusive em suas localidades natais por porcentagens de 93%; que os números que saem do Ministério do Interior em um comunicado confidencial são completamente diferentes dos oficiais...

Mousavi recebeu uma ligação da comissão eleitoral na qual lhe disseram que havia ganho e que fosse preparando seu discurso, e depois os chefes militares foram vê-lo para dizer que não se aceitaria essa revolução. Segundo a lei eleitoral iraniana, os resultados devem ser anunciados 72 horas depois, p/ que haja certeza de que os votos foram bem contabilizados, e aqui foram anunciados rapidamente.

EP - Não é muita diferença de votos a favor de Ahmadinejad para se duvidar?
MS -
Pode-se dizer que os iranianos elegeram Ahmadinejad porque é um populista, mas o barril de petróleo não está a US$ 100, e sim a US$ 40. O país é pobre, o preço da cesta básica triplicou... por isso não creio nesse voto populista. Se realmente 62% dos iranianos votaram em Ahmadinejad, deveria haver manifestações de milhões de pessoas a seu favor. Inclusive supondo que não houve fraude, já que houve tantos protestos, por que não votar novamente? Se 62% votaram em Ahmadinejad, voltarão a fazê-lo, ou não?

EP - A República Islâmica pode cair?
MS -
Não creio. Quando 85% das pessoas vão às urnas é porque o regime não está prestes a cair. Os iranianos querem mudanças, evolução. Os que vivem na diáspora podem ter grandes sonhos, mas os que vivem no país é que devem decidir.

EP - A senhora procede de uma família laica, cosmopolita e de esquerda, e não parece inflamada contra a teocracia iraniana.
MS -
Eu sou de esquerda, mas hoje falo da possibilidade de mudança que as leis oferecem. Não sei se é realista dizer agora que é preciso mudar tudo, de cima a baixo. O realista é que, se só é possível melhorar um pouco, é preciso fazer esse pouco.

EP - Acredita que os iranianos estão dispostos a ir até o fim?
MS -
Já são 3 dias de manifestações [a entrevista foi feita na quarta], sem ninguém dirigindo nada, porque as comunicações foram cortadas. Mas continuam se manifestando. E manifestar-se no Irã não é como manifestar-se na Europa. Lá podem matá-lo.

EP - Em 'Persépolis' a senhora se refere à ampla manifestação da revolução de 1979 como a maior festa da história do Irã. A grande manifestação de terça-feira em Teerã lembrou a algumas pessoas essa de 30 anos atrás. Faria uma nova história em quadrinhos sobre tudo isso?
MS -
Não creio. Há 15 anos que não vivo no Irã e dez desde que fui pela última vez. Com o livro e o filme eu disse o que tinha a dizer. Sou uma artista. A política não é para mim. Infelizmente, o que está acontecendo é muito grave e me envergonharia de mim mesma se não fizesse nada.

A NOTA

Data: 23.3.1388 (12-06-2009)

Ministério do Interior

À atenção do Líder Supremo Khamenei

Cordiais saudações,

Como o senhor estava inquieto pelo que diz respeito ao resultado das décimas eleições presidenciais e como considera preferível que Ahmadinejad continue no cargo, por causa do momento delicado, abordamos a questão conforme programa previsto e para prevenir futuros acontecimentos os candidatos e os líderes dos partidos estão sob vigilância.

Os votos são os seguintes:

Total: 42.036.078

M. H. Mousavi: 19.075.622

M. Karrubi: 13.387.104

M. Ahmadinejad: 5.698.417

M. Rezai: 3.754.218

Votos nulos: 38.216

Ministro do Interior

Sadegh Mahsuli.

CENAS DE UMA REVOLUÇÃO


>por Viva La Brasa c/ reportagem de El País, Estadão, FARS e UOL Notícias

2 comentários:

fabio" binho "nunes disse...

sinistro Brasa, só vc mesmo man~!!!!!!!!

manifestacoes bombardeadas de balas de verdade e granadas, um verdadeiro show de horror, isso é aqui no Planeta terra??? ou no novo epsódio do Planetas dos Macacaos quando os humanos querem tomar a terra de volta, ams já é muito tarde, essa versao esta no filme do Tim Burton. abraxxxxxxx

Viva La Brasa disse...

Pois é, Binho... A Coréia do Norte tem suas bombinhas de São João mirando pro Japão, o Irã tá desenvolvendo seu programa nuclear fundamentalista islâmico, e o Paquistão é a nova casa da Al Qaeda. A tecnologia atômica tá disponível em qualquer camelô da 25 de março... Qdo os foguetes começarem a voar, só vão sobrar as baratas pra contar a história.