terça-feira, junho 23, 2009

NEDA
A imagem da garota baleada caída no chão, sendo inutilmente acudida pelas pessoas ao redor enquanto sangra pela boca até a morte correu o mundo esta semana e deu um rosto à luta pela democracia no Irã. Neda Agha Soltan era estudante de música e filosofia, e por estar no lugar errado na hora errada, tornou-se uma das mais trágicas vítimas das circunstâncias de que se tem notícia. Pelo que consta, tinha apenas 16 anos. A tragédia aconteceu no sábado, 20/06.
Os números oficiais registram, até agora, 18 mortes. Multiplique por 2 ou 3 p/ ter o número real. A milícia Basij, facção de fiéis radicais de Khamenei, atira primeiro e bate depois. “Algumas pessoas afirmam que ela foi tomada claramente como alvo e recebeu tiros no peito”, afirma Caspian Makan sobre a execução de Neda, sua noiva. Os mais radicais dirão que inocentes também morrem baleados no Brasil, e milícia tem de monte no Rio, mas essa é a questão: por quê?
No caso persa, sistema teocrático & intolerância política. "Ela estava a algumas ruas do local em que as principais manifestações aconteciam, perto do bairro de Amir Abad", contou Makan à rede BBC: “Ela estava c/ seu professor de música, sentada em um carro e bloqueada nos engarrafamentos. Estava muito cansada e sentia muito calor. Ela saiu do carro por alguns minutos. Foi quando atiraram."
2MB ON-LINE
A BBC Persian TV é iraniana mas fica sediada em Londres. Um modo de driblar a mão-de-ferro dos aiatolás – e de Ahmadinejad. Desde que os protestos começaram, há 10 dias, o Estado aumentou a censura sobre os meios de comunicação, e recolheu passaportes de jornalistas estrangeiros, impedidos de deixar o país. Mas as tentativas de controle da informação do regime fundamentalista do Irã têm fracassado diante da realidade. Nem que seja a virtual: passeatas continuam sendo organizadas através do Twitter, e a truculência dos milicianos vem sendo documentada através das câmeras de celulares.
Foi assim que a triste cena de Neda agonizando correu o mundo: “[...] o homem que fez o vídeo de 40 segundos que registrou o momento calculou os riscos do jogo de gato e rato que teria que travar”, descrevem os jornalistas Brian Stelter e Brad Stone no jornal The New York Times. “Ele sabia que o governo havia bloqueado websites como o YouTube e o Facebook. Portanto, tentar enviar o vídeo a estes centros de mídia social colocaria ele e sua família em risco.
O herói anônimo enviou um e-mail c/ o vídeo de 2 megabytes anexado a um amigo, que repassou as imagens aos jornais Voice of America, nos EUA, e The Guardian, na Inglaterra, além de outros 5 amigos iranianos radicados na Europa, c/ uma mensagem que dizia apenas: “Por favor, deixem o mundo saber”. Foi um desses expatriados, residente na Holanda, que postou as imagens no Facebook. Cópias deste vídeo, e de outro mais curto [15s] feito por mais uma testemunha, rapidamente se espalharam pelo YouTube e foram exibidas no mesmo dia pela CNN.
MÁRTIR
Hoje foram divulgadas fotos da sepultura de Neda. A família foi proibida de realizar a cerimônia religiosa de despedida em uma mesquita. As autoridades temiam que um funeral público incitasse ainda mais a população:Eles estão cientes de que todos no Irã e em várias partes do mundo sabem o que aconteceu a ela”, declarou Caspian. “Eles temem mais confusão.” A menina foi enterrada no cemitério Behesht-e-Zara, zona sul de Teerã: “Tivemos que sepultá-la numa parte do cemitério separada p/ receber as pessoas mortas durante os protestos.
Caspian Makan denunciou também a demora na liberação do corpo: “Ela foi levada p/ um necrotério fora de Teerã, e os funcionários perguntaram se podiam tirar partes de seu corpo p/ transplantes médicos. A família concordou porque queríamos enterrá-la imediatamente.” O enterro de Neda aconteceu no domingo.
Durante a Revolução Islâmica, os aiatolás usaram a tecnologia da época p/ se organizar: fitas K7. Ao assumir o poder, incentivaram os iranianos a ter muitos filhos, numas de ‘fortalecer a nação islâmica’. Hoje, 30 anos depois, os baby-boomers do Islã usam a tecnologia p/ fazer a sua contra-revolução: “A onipresença da internet torna a censura um trabalho muito mais complicado”, diz John Palfrey, do Centro de Internet e Sociedade da Universidade de Harvard.
Os marqueteiros muçulmanos gostam de utilizar imagens dos mártires como incentivo p/ a juventude. A brutalidade do regime de Khamenei e Ahmadinejad conseguiu criar mais um(a): NEDA. C/ certeza ela será uma eterna inspiração p/ os jovens. Mas vai ser difícil p/ os aiatolás usar esse martírio a seu favor.
A LUTA CONTINUA

4 comentários:

Adelvan disse...

Foda. Tava pensando aqui e acho que sou contra quase tudo lá no oriente medio. Contra o regime do irã, arquiinimigo dos americanos, e também contra a monarquia saudita, aliadissimos dos amerianos e outra ditadura brutal. Lembro de uma noticia que li uma vez: duas meninas morreram queimadas num incendio na Arabia Saudita. A policia dos costumes não seixou os bombeiros socorrê-las porque elas estavam sem o véu e, por isso, não poderiam aparecer em publico. Não por acaso, é uma parte do mundo ainda dominado pela religião, e por isso mesmo, imerso em trevas.

Viva La Brasa disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Dani S. disse...

Acho que a idade real da Neda era 26,mas esse detalhe não tira o brilho da cobertura que os autores do blog fizeram sobre o Irã.Liberdade de expressão para as mulheres!

Ricardo disse...

Eu escrevi um poema pra ela, gostaria de colocar em meu orkut com esse rosto desenhado, mas ele é muito pequeno, é uma pena, mas passem por la. Para ler. Caso tenham orkut. Chef Ricardo (Dylan)