domingo, junho 14, 2009

PRELIMINARES Mahmoud Ahmadinejad. O nome é feio, o cara também, suas idéias são bizarras e seu governo foi desastroso, mas ele acaba de se reeleger p/ mais 4 anos na presidência de um dos países mais importantes do mundo. Antiga Pérsia, uma das mais antigas e ricas civilizações da humanidade, a república do IRÃ é resultado de mais de 2500 anos de guerras, invasões e golpes de estado, o último deles ocorrido em 1979: a Revolução Islâmica.

Desde a descoberta de petróleo em seu solo, a Pérsia tornou-se um ‘estado-tampão’ p/ as 2 grandes potências do séc.XIX, Rússia e Inglaterra, que assumiram o controle da economia e política persa. Em 1925, um golpe militar levou ao poder Reza Khan. “Ele deu oficialmente ao país o nome de Irã e acelerou sua ocidentalização, para grande ira dos religiosos, que começaram a sonhar com um poder islâmico”, explica o historiador David B. na introdução do livro Persépolis, da iraniana Marjane Satrapi. Durante a 2ª Guerra Mundial houve nova ocupação de ingleses e russos, aliados aos EUA, que depuseram o . “Em 1953, a CIA organizou seu primeiro golpe de estado contra Mossadeq, o chefe do governo, que contestava a divisão dos lucros provenientes da exploração de petróleo feita pela Anglo-Iranian Oil Company. Os americanos submeteram o país a um embargo, impedindo a exportação do produto. Então Mossadeq foi derrubado,e Mohammad Rezah, que havia fugido, voltou ao trono. Ficou no poder até 1979, quando fugiu da Revolução.
Marjane Satrapi é bisneta do último imperador da dinastia Qadjar, aquele mesmo derrubado pelo golpe de Reza Khan. Nascida em Rasht, recebeu uma educação que aliava a tradição persa à cultura ocidental. Filha de intelectuais de esquerda, estudou no Liceu Francês de Teerã e cresceu em um ambiente liberal. “Eu sabia tudo sobre as crianças palestinas, sobre Fidel Castro, sobre os pequenos vietnamitas mortos pelos americanos, sobre os revolucionários do meu país... Mas o meu livro preferido era uma história em quadrinhos chamada ‘O Materialismo Dialético’. Descartes e Marx estavam lá”, escreve ela em “O Véu”, primeiro capítulo da série Persépolis, uma HQ onde conta a história da Revolução Islâmica através da sua própria trajetória pessoal.
PERSÉPOLIS Julho de 1982. (...) Quem manifestasse qualquer resistência ao regime era perseguido...Marjane tinha 10 anos quando a Revolução eclodiu, em meio a uma guerra sangrenta contra o vizinho Iraque – que já naquela época era governado por Saddam Hussein. A princípio, uma revolta comunista contra um regime explorador e submisso aos interesses dos EUA, que logo se tornou um veículo p/ a tomada do poder pelos aiatolás, os líderes religiosos xiitas que dominam o país até hoje. Apesar de ser oficialmente um regime presidencial, o Irã é quase um estado teocrático.
Mulher tem que usar véu porque “os cabelos das mulheres contém raios que excitam os homens[“A Viagem”, Persépolis]. Homens devem deixar a barba crescer e estão expressamente proibidos de usar gravatas e camisas de manga curta. Ser pego c/ álcool é cadeia na certa. A educação oferecida nas escolas é regida por preceitos religiosos, e qualquer música ou literatura ocidental é considerada imoral. Um regime fundamentalista que completa 30 anos em 2009.
Em 1984, Marjane tinha 14 anos e era uma adolescente contestadora. Foi expulsa do Liceu Francês após jogar a diretora no chão, e na escola seguinte protagonizou uma discussão ideológica c/ a professora que afirmava não haver presos políticos na República Islâmica. “Meu tio foi preso pelo regime do Xá, mas foi o regime islâmico que mandou executá-lo”, bradou diante de uma sala de aula cheia. “A senhora afirma que não temos mais presos políticos. Só que de 3 mil presos na época do Xá passamos a 300 mil com o seu regime!”.
Esclarecida desde o berço e apreciadora de vários símbolos da ‘decadência ocidental’ – Iron Maiden, Michael Jackson e tênis Nike, por exemplo – Satrapi foi mandada p/ a Áustria pelos pais, que temiam por sua integridade física: “(...) pelo seu temperamento e pela educação que recebeu, nós achamos que é melhor você sair do Irã”, explica seu pai no capítulo “O Dote”.
DIRETAS JÁ As eleições p/ a 10ª presidência do Irã são uma das mais importantes da história deste país”, declarou o ex-presidente Ali Akbar Rafsanjani ao terminar de votar em Teerã. Durante o atual governo, os índices de desemprego e inflação aumentaram na mesma medida em que cresceu a tensão c/ Israel e EUA. Até sexta-feira, o candidato reformista Mir Hussein Mousavi aparecia c/ mais de 60% nas intenções de voto, segundo pesquisas de boca de urna, contra pouco mais de 30% do candidato à reeleição. A coisa andava tão feia p/ Ahmadinejad que ele apelou p/ ataques pessoais a Mousavi no último debate televisionado, quarta-feira: chegou a apresentar um documento c/ uma foto 3x4 da esposa do seu adversário – Zara Rahnavard, respeitada professora de ciências políticas – acusando-a de entrar p/ o programa de graduação universitária sem fazer o teste de admissão.
A forma como o presidente me insultou foi um insulto a todos”, disse Zara em uma coletiva p/ jornalistas internacionais, enquanto apresentava as credenciais islâmicas que refutavam as acusações. Seu marido, Mousavi, rebateu afirmando que a política de Ahmadinejad se baseia em “irresponsabilidades, ilusionismos, exibicionismo, extremismo e superficialidade. Exemplos notórios são as negações da existência de homossexuais no Irã e da verdade histórica do Holocausto.
Em abril, o presidente do Irã causou mal-estar na Conferência da ONU em Genebra, Suíça, durante seu discurso: “Depois do final da 2ª Guerra Mundial, enviaram imigrantes da Europa e dos EUA p/ estabelecer um governo racista na Palestina ocupada. Recorreram à agressão militar p/ privar de terras a uma nação inteira, sob pretexto do sofrimento judeu.” Não que ele esteja de todo errado, mas foi o bastante p/ que representantes de 9 países ocidentais abandonassem o evento, e gritos de “assassino” fossem ouvidos no plenário. A repercussão foi tão negativa que sua visita ao Brasil na semana seguinte foi cancelada, sob pressão da comunidade judaica nacional.
Contrariando todas as expectativas, Mahmoud Ahmadinejad foi reeleito neste sábado, c/ 62% dos votos, contra apenas 33% de Mousavi – que já solicitou ao Conselho dos Guardiães [algo como o STF no Brasil, só que presidido pelo aiatolá Khamenei] a anulação da eleição. “Este resultado põe em perigo os pilares da cultura iraniana e coloca o país no caminho da tirania”, disse. Em vários colégios eleitorais onde Mousavi era o favorito, as cédulas de votação esgotaram-se antes do final do prazo. Ele chegou a receber um telefonema do Comitê de apuração dos votos informando-o da vitória, p/ horas depois ver o resultado oficial virar de cabeça p/ baixo. Pela 1ª vez em 3 décadas, estudantes e trabalhadores saíram às ruas em protestos violentos que já duram 2 dias de combate c/ a polícia. Fala-se em 60 presos até agora, mas parece que o número verdadeiro é o dobro disso.
JOGO DE XADREZ Ahmadinejad já expressou publicamente o desejo de ver o Estado de Israel varrido do mapa. Sua reeleição aumenta o clima de ameaça atômica que vem crescendo nos últimos meses c/ a entrada de um novo e perigoso jogador: a Coréia do Norte, sob a batuta do ditador Kim Jong-Il. País mais fechado do mundo, um dos últimos bastiões comunistas, 2/3 de sua população depende de ajuda humanitária internacional. C/ um PIB de apenas $1.700 dólares per capita – contra $12.800 do Irã, por exemplo – o governo norte-coreano prefere gastar 30% do seu orçamento em despesas militares. Israel, c/ $28.200 per capita, investe 8%; EUA, maior potência bélica do mundo, 4%.
Armada c/ a bomba desde 2005, a Coréia do Norte já possui quase 10 ogivas, e realizou os 2 únicos testes nucleares deste século: o 1º em 2006 e o 2º há 2 semanas. Lançou mísseis no mar do Japão, condenou 2 jornalistas americanas a 12 anos de trabalho forçado numa prisão, e declarou guerra a todo e qualquer país que adotar as sanções econômicas impostas pela ONU, ou mesmo interceptar seus navios em águas internacionais. Comparado à Coréia, o Irã é quase a Suíça em termos de diplomacia. Além de ser uma democracia [mesmo que somente no papel], o país dos aiatolás é signatário do Tratado de Não Proliferação Nuclear, ainda não desenvolveu sua bomba atômica, e não descarta o diálogo c/ o Ocidente.
No início do mês, Barack Obama esteve no Oriente Médio e fez um discurso considerado histórico na Universidade do Cairo, capital do Egito, onde propôs “um novo começo entre os muçulmanos e os EUA”, lançando ao mundo islâmico um apelo p/ que o combate ao terrorismo seja uma causa mútua. “Obama sabe que o conflito contra a Al-Qaeda não é militar, mas sim ideológico”, explica o professor libanês Fawas Gerges. Osama Bin Laden reagiu c/ um vídeo onde cita as “sementes” de ódio e desejo de revanche contra os Estados Unidos: Os números dessas sementes equivale ao número daqueles que sofreram e daqueles que foram deslocados do Vale do Swat. Que o povo americano se prepare p/ colher os frutos do que têm plantado os dirigentes da Casa Branca durante os anos e décadas por vir”.
Já o aiatolá Ali Khamenei reagiu de forma mais positiva, acenando c/ a possibilidade de mudança na política externa iraniana caso os EUA mudem também a sua: “Não temos nenhuma experiência do novo governo e do novo presidente. Observaremos e julgaremos. Mudem e nossa atitude mudará.” Infelizmente, o mesmo não pode ser dito do governo de Kim Jong-Il. Ele segue firme c/ sua chantagem atômica, desafiando o conselho da ONU c/ um ultimato: “Não há mais como voltar atrás. Todo o plutônio em estoque e o que vier a ser produzido será usado na fabricação de bombas atômicas. Qualquer sanção ou bloqueio representará um ato de guerra”.
A POSSIBILIDADE DE UMA ILHA Em discurso realizado hoje, o presidente reeleito do Irã comparou a reação dos eleitores de Mousavi ao comportamento de uma torcida de futebol: “Num jogo, os 2 lados querem ganhar, mas só 1 sai vencedor. Eles perderam e têm que aceitar este fato.” P/ variar, ele acusou a imprensa estrangeira de mentir e garantiu que as eleições foram honestas, e o resultado “representa uma grande vitória”. Será que a Satrapi concorda?

Marjane viveu 4 anos em Viena, onde estudou, namorou pela 1ª vez, conheceu a literatura anarquista, fumou – e vendeu – maconha, e chegou a ser moradora de rua por 3 meses. Salva por uma pneumonia, que a levou ao hospital e fez c/ que fosse localizada pela família, retornou a Teerã c/ 18 anos. “Não era só com o véu que eu precisava me reacostumar, havia também todo o ambiente: a apresentação de mártires pelos murais de 20 metros de altura, enfeitados com slogans em sua honra, como ‘o mártir é o coração da história’ ou ‘eu queria ser mártir’ ou ‘o mártir está eternamente vivo’. Principalmente depois de 4 anos na Áustria, onde o que a gente via nos muros era ‘as melhores salsichas por 20 xelins’, o caminho para a readaptação parecia bem longo”, escreve ela em “A Volta”.
Arrumou um emprego de professora de aeróbica, cursou a faculdade de belas-artes, casou-se c/ um pintor, mas continuou tendo problemas c/ a ‘polícia ideológica’ e também não se adaptou ao casamento. Separou-se e, em setembro de 1994, saiu do Irã p/ nunca mais voltar – a não ser p/ visitar os pais ou ir ao enterro da avó. Firmou-se em Paris como ilustradora e, de 2000 a 2003, publicou sua autobiografia em capítulos, Persépolis, tornando-se a 1ª autora de quadrinhos iraniana. Ganhou o prêmio de melhor HQ na Feira do Livro de Frankfurt, Alemanha, em 2004, e viu sua história virar filme em 2007 – c/ a participação do ídolo Iggy Pop dublando a voz do tio Anoush.
Esse contato c/ Iggy rendeu um convite p/ que Marjane ilustrasse o novo disco do cantor, Preliminaires, lançado em maio. Baseado em um livro do francês Michel Houellebecq entitulado A Possibilidade de Uma Ilha, o novo álbum de Pop difere de tudo o que ele já fez, solo ou nos Stooges – é uma aventura no jazz, bossa nova e chanson d’amour. Começa c/ “Les Feuilles Mort”, um clássico da música francesa, e vai até uma versão em inglês p/ “Insensatez”, de Tom Jobim. “Toda a intriga do romance é uma preliminar da morte. E, na minha idade, cada ato é uma preliminar da morte: compor ou não, trabalhar ou se divertir, tentar ganhar dinheiro ou liberdade”, explica o sensato Iggy, sobrevivente aos 62 anos de rock, seringas e cacos de vidro.
A literatura é muito importante p/ mim”, diz Pop: “Em minhas obras da juventude já havia muitos ecos de Burroughs, Kerouac e Ginsberg.” Apesar de sempre ter sido tirado de ‘loki’ pela sua atitude suicida em cima do palco [e fora dele também], James “Iggy” Oesterberg é mais culto do que sonha nossa vã filosofia. O nome do disco The Idiot, de 1977, foi inspirado no livro homônimo do DostoievskiO Idiota. Já no caso do livro de Houellebecq, “ele ilustra coisas que eu tinha em mente em relação ao sexo, à morte e às mulheres”.
Por falar em mulher, Marjane Satrapi lançou outro livro autobiográfico depois de Persépolis; Frango com Ameixas, c/ as histórias que seu tio lhe contava. P/ o disco de Iggy Pop, ela concebeu toda a arte da capa e do encarte, além do compacto de vinil e libreto que compõem o kit da versão de luxo de Preliminaires. “A literatura é como a cocaína, e a música é como a heroína: a primeira aguça o espírito, a segunda te idiotiza”, conclui Iggy, às gargalhadas. Será que o Ahmadinejad concorda?
MARJANE POR ELA MESMAINFLUÊNCIAS
Eu li de tudo, vi de tudo, escutei de tudo, do movimento punk a Abba, de Bee Gees a Pink Floyd. Eu gosto dos mestres dos quadrinhos e sempre comprava quando podia, mas não vou destacar nenhum em especial porque foram muitos que me influenciaram. No Irã, eu já comprava K7s do Iron Maiden no mercado negro. Pode parecer piada, mas é a mais pura verdade: p/ se comprar um simples tênis era toda uma operação.

FAMÍLIA
Da minha família falo pouco. Tudo o que posso dizer é que eles ainda moram no Irã e estão ótimos. Eles têm se comportado muito bem e tenho certeza que serão protegidos. Eu não tenho medo. Sei que estou contando a minha história. Não sou como você, jornalista, que tem compromisso c/ a verdade. Eu tenho o compromisso de contar a minha verdade mais real que posso.

LIBERDADE
Eu pintava eu mesma minhas jaquetas c/ frases do tipo ‘PUNK IS NOT DED’, c/ erro mesmo, em vez de ‘dead’. E isso me custou várias broncas das bedéis islâmicas. Diziam que eu estava usando os símbolos da ‘decadência ocidental’, o que não deixava de ser verdade. Mas a liberdade de cada um usar o que se quer é, p/ mim, irrefutável.
HISTÓRIA
Pode parecer irônico criar uma realidade em quadrinhos p/ contar a realidade do meu país, mas é isso. Eu sempre amei desenhos e descobri neles a melhor forma de contar minha historia.

ISLÃ
Acredito que, se um país tem sua cultura de base muito bem fundamentada, ele pode se abrir para o que de melhor há nas outras culturas sem perder a sua. Acho que é um balanço de tudo. Eu estudei em uma escola francesa a vida toda, mas jamais deixei de ser iraniana. Eu ainda sinto muita saudade de casa. Moro em Paris, mas, como minha avó me dizia, procuro nunca perder minha integridade.

2 comentários:

Anônimo disse...

E viva la brasa!

Bons textos.
Juliano.
bancadadecoral.blogspot.com

Anderson Ribeiro disse...

E um dos motivos da recontagem dos votos é que cerca de 500 mil votos foram contados em menos de duas horas, sem urna eletrônica. Vê se pode isso!

Como sempre um belo texto.