quinta-feira, julho 30, 2009

QUANTO VALE O SHOW
BRETT, o primo rico do BART
Ganhar $ 100 mil dólares em uma semana, que tal?
Huntington Beach, a praia da Califórnia que sediou os clássicos OP Pro nos anos ’80, onde Curren & Occy iniciaram sua rivalidade; onde Andy Irons venceu 2 etapas back-to-back em ’98; onde Neco Padaratz derrotou Fábio Gouveia na única final verde-amarelo do WCT, em ’99; voltou a entrar p/ a história c/ o maior prêmio pago a um campeão de surf: US$ 100.000,00.
Comparado a outros esportes individuais como tênis e golfe, isso é uma ninharia – o troco do caddie. Roger Federer e Tiger Woods chegam a ganhar US$ 1 milhão por vitória. Mas comparado ao que ganham os surfistas pros, é uma verdadeira fortuna. Só p/ dar uma idéia, cada etapa do WCT – o Grand Slam do surf – paga ao campeão US$ 40.000,00.
ALMA SURFA?O Hurley US Open 2009 atraiu alguns dos maiores stars do surf: Kelly Slater, Mick Fanning, CJ Hobgood... Só p/ dar outra idéia, dos 8 classificados p/ o último dia de campeonato, 6 fazem parte da elite. Normalmente os tops não estão nem aí pro WQS [que, na real, é a 2ª divisão do pro surf mundial] mas um cheque de 6 dígitos não é algo que se despreze. Principalmente no mundo capitalista do qual esses caras fazem parte – e representam.
Precisamos construir ídolos e personalidades, disse Slater à revista EXPN: “Em nossos eventos, poderíamos ter um espaço p/ os atletas darem entrevista ao vivo pela internet depois das baterias. [...] A ASP deixou esse trabalho p/ os patrocinadores, mas é função da entidade vender seu principal produto.Atenção p/ a palavra ‘produto’ – o eneacampeão do mundo tem consciência de que sua imagem é uma COMMODITY p/ o mercado: “É importante que a entidade que regula o esporte esteja baseada na Califórnia, onde fica a maior parte da indústria do surf. E precisamos de mais eventos nos EUA.
O passe de Kelly é da Quiksilver, Mick é da Rip Curl, CJ da Globe, Mineirinho da Oakley, e assim vai... O mar ainda é de graça, mas viajar o mundo atrás de onda custa caro. Até free surfers têm patrocínio hoje em dia, afinal alguém precisa pagar as despesas daquela trip de sonhos, onde os ‘surfistas c/ alma’ [soul surfers] pegam tubos que se tornam fotos em revistas e imagens em filmes – registro do life style e retorno do investimento.
Seriam os competidores 'surfistas sem alma'?
SIMPSON$P/ o bem do patrocinador do evento e felicidade geral da nação [norte-americana], Brett Simpson levou a bolada de 100 mil doletas. O local de Huntington, que pertence ao time da Hurley, teve a performance de sua vida ao derrotar Mick Fanning na final. Competindo há 5 anos no ‘QS, Simpson nunca havia chegado nem perto da classificação p/ o ‘CT. Os 2500 pontos ganhos no US Open o alavancaram p/ o Top 5 no ranking de acesso.
É o melhor dia da minha vida!”, exultava Brett no pódio: “Eu nem sei o que dizer. Tô amarradão! Minha meta sempre foi competir no World Tour e esse resultado é um puta empurrão na minha confiança. Mal posso esperar pelo resto do ano!” O azarão californiano bateu 3 CTs no domingo: o conterrâneo Nathaniel Curran nas quartas, o campeão mundial de 2001, CJ, nas semis, e o de 2007, Mick, na última bateria.
Fanning chegou na final derrotando Mineirinho na semi. “Foi uma semana incrível p/ mim”, disse Mick: “Eu não competia aqui há 7 anos e voltar num evento como esse é alucinante! O cenário, o público, as ondas, é tipo um sonho!” Falar em sonho, Adriano de Souza, 22, realizou um dos seus – venceu pela 1ª vez Kelly Slater num confronto direto: “Obviamente, foi meu ponto alto no evento. Não rolaram muitas ondas nessa bateria, mas eu consegui pegar as melhores e surfar bem. Só fiquei desapontado por não achar as ondas contra o Mick”. Foram 9 derrotas p/ KS até esta desforra, muito comemorada.
Mas “mineiro” mesmo foi o Brett Simpson. Comendo quieto, pelas beiradas, passou as fases pontuando médias regulares, na casa dos 13 pontos, e guardou seu melhor jogo p/ a final, quando marcou 6,83, 7,83 e 9,10 em suas melhores ondas c/ “razor-sharp turns, explosive aerial maneuvers and a supernatural rapport”, segundo descrição original do site da ASP – algo como ‘curvas afiadas como navalhas, manobras aéreas explosivas e sobrenatural conhecimento do pico’.
O MESSIASMais do que um grande prêmio, o que faz um campeonato clássico são AS ONDAS. E Huntington Beach, que normalmente tem ondas c/ cor e formação de merda, desta vez bombou. “Este foi c/ certeza o melhor campeonato de todos os tempos!”, empolga-se o havaiano Kai Barger, vencedor do Nike 6.0, a categoria sub-21 do US Open: “O maior público, altas ondas, sol, muita grana... Eu nunca vou nas baterias pensando no que preciso fazer p/ passar. Eu vou p/ vencer. Foi o que fiz hoje e eu tô tendo um grande ano!
Barger é o atual campeão mundial pro-jr., título que obteve em janeiro na Austrália derrotando o brasileiro Jadson André, companheiro de equipe do Mineirinho, que chegou na Califórnia liderando o WQS mas foi ultrapassado pelo australiano Daniel Ross. De qualquer modo, Jadson é o melhor brasileiro no ranking e está praticamente garantido no WCT do ano que vem. Ambos – Barger e André – têm 19 anos.
Enquanto os dólares corriam na Califórnia, em Ubatuba [SP] acontecia a 3ª etapa do SuperSurf, valendo 1000 pontos no ranking nacional e $21 mil reais p/ o campeão. Um décimo do que pagou a Hurley, mas pergunta pro Messias Félix se ele está achando ruim. Em uma inédita final cearense, ele derrotou Márcio Farney p/ chegar à sua 1ª vitória no circuito e assumir a liderança na corrida ao título.
Messias, que tem a mesma idade do campeão do US Open – 24 anos – , vem de uma trajetória ascendente: campeão nordestino 2007, Top 4 do SuperSurf ano passado, chegou à sua 1ª final no mês de junho, em Salvador, e venceu a 6ª etapa da ANS há apenas 2 semanas.Fiquei meio triste na Bahia por ter perdido a final, mas depois entendi que era da vontade de Deus”, declarou Félix. Sobre sua nova vitória, afirma ter sido “mais emocionante ainda por ter sido contra um cearense, um grande amigo, e em altas ondas.
MOTOR V8Messias Félix tem sido o algoz dos seus conterrâneos nas finais. Além de Márcio Farney no brasileiro em Ubatuba, derrotou Thiago de Souza no regional em Pernambuco. “Eu paro o que estiver fazendo p/ assistir as baterias do Messias”, exalta Amélio Jr., vice-presidente da Associação Cearense de Surf. Félix é herdeiro da linha de surf moderno e aerialista iniciada c/ Fábio Silva nos anos ’90 e que hoje tem em Heitor Alves seu principal expoente.
Thiago de Souza, o 1º campeão da ANS em 2005, é outro em grande fase. Venceu a Seletiva Petrobras em maio e está de novo na briga pelo título nordestino, c/ os vices nas etapas de Aracaju [SE] e da Praia do Náutico [PE]. Thiago também é destaque na nova edição da revista virtual V8SURF, que traz um especial c/ 3 expedições às ondas geladas e perfeitas do Peru: uma barca c/ surfistas do sul do Brasil, uma de nordestinos composta por Thiago, Charlie Brown e Ernesto Nunes, e outra gringa c/ Rob Machado e Clay Marzo quebrando tudo num dia em que El Hueco quebrou clássico.
A revista é um projeto de Jonathas de Souza, artefinalista do jornal O Povo, de Fortaleza [CE]. A reportagem é de Ricardo Alves, e as fotos, de Javier Larea. A V8 é totalmente free, tanto no acesso quanto no enfoque ao surf livre. Machado é californiano, patrocinado pela Hurley e já venceu o US Open, mas hoje é mais fácil encontrá-lo em um pico perdido no deserto peruano do que na Meca do surf capitalista. Por mais que se inventem campeonatos milionários, no surf o verdadeiro pote de ouro escondido atrás do arco-íris são AS ONDAS.
Até Andy Irons, o surfista mais competitivo do mundo, já admitiu, em entrevista p/ o Surfline: “Surfar sempre vai me fazer feliz, independente de eu ser pago p/ isso ou não.
V8SURF - 3X PERU
Nº 5 julho 2009
THIAGO DE SOUZA
ROB MACHADO
CLAY MARZO
MARCOS PASTRO

domingo, julho 26, 2009

EVERLAST
JAKE LA MOTTA vs SUGAR RAY ROBINSON, Chicago Stadium, 1951
- Um dia eu estava treinando boxe e comecei a socar o saco de areia imaginando que era o Andy!
Kelly Slater em A Fly in the Champagne, registro de uma viagem c/ os 2 maiores rivais da atualidade que tem tudo p/ ser o filme de surf do ano. Andy Irons foi campeão mundial 3 anos consecutivos, de 2002 a 2004. Slater, que já tinha 6 títulos dos anos ’90, venceu em 2005, 2006 e ano passado. São os únicos tricampeões dos anos 2000.
Outro documentário, Blue Horizon, obra-prima do mestre Jack McCoy, evidencia a rivalidade dos 2: em 2003 foi travada a mais acirrada disputa da ASP – Slater levou 4 etapas e Irons, 5, num circuito decidido na última bateria. Andy levou o título, mas Kelly venceu mais eventos do que TODOS os outros campeões mundiais desta década nos respectivos anos de suas conquistas.
Grandes rivalidades, títulos mundiais... Isso lembra alguma coisa?
METAFORICAMENTEKelly Slater está p/ o surf assim como Cassius Clay está p/ o boxe: “Flies like a butterfly, sticks like a bee”. Aliás, o Slater dos anos ’90 era o Clay; o atual é o Muhammad Ali. E Andy Irons, George Foreman. Todos sabem como termina essa briga.
Rivalidade era Prost contra Senna na fórmula 1”, escreveu Júlio Adler, o ‘Marreco’, no artigo Post-Scritum, publicado na revista Surf Portugal: “‘Metaforicamente, Senna quer me matar’, dizia Prost. Corrida após corrida se enfrentavam, um contra o outro. Foda-se o resto. O negócio é pessoal. Mark Richards chamava Cheyne de ‘Brat’, algo em torno de pentelho, pra manter o padrão do horário nobre, ‘little brat’ quando o sangue esquentava. [..] Michael Peterson [foto] saiu duma bateria enlouquecido por ter perdido pro seu ‘sparring’, Wayne Bartholomeu, andou determinado até seu algoz e encerrou o assunto: ‘você é um merda, Rabbit!’. Andy pode rasgar a foto do Slater, mas quantas vezes será capaz de destruí-lo numa bateria?
Adler escreveu isso em 2003. 6 anos depois, Irons está fora. Pediu p/ sair. Mas foi só Slater vencer uma etapa p/ ele querer voltar.
MOSCA NO ESPUMANTE
– Comecei a acreditar no que estava lendo. Entrei no jogo criado pela mídia.
1998: Andy estréia no WCT e vence o Pro-Jr. no Havaí, enquanto Slats conquista seu 6º título mundial e se retira da cena, à espera de um adversário à altura. ‘AI’, o andróide do Kauai, passa os anos seguintes patinando: é desclassificado em ’99, quando perde até p/ Cristiano Spirro em Fiji, termina entre os Top 16 em 2000 correndo apenas metade do circuito como convidado, e entre os 10+ de 2001 – todos resultados abaixo de seu potencial.
2002: KS volta ao ‘CT e Andy é campeão do mundo. Coincidência? Em 2003 Irons, no auge, vence de novo e Slater é vice. 2004: Andy tri, Kelly, 3º. 2005: KS hepta mundial, AI, vice. 2006: kareca octa, andróide, 2º... Blue Horizon registra um momento trivial que ilustra todo o quadro: final da temporada ’03, penúltima etapa, Santa Catarina, o playboy havaiano chega na praia tomando açaí no dia seguinte à sua derrota no evento, e ao ver o arquiinimigo na água, começa a secá-lo: - Boooooo!.., vaia Andy da arquibancada. Ele era o defensor do título, venceria naquele ano e no seguinte, mas nunca venceu no Brasil. Slater venceu aquele campeonato, e de novo este ano.
Grandes rivalidades, títulos mundiais, comebacks... Sim, isso lembra alguma coisa.
NO SOAR DO GONGO2010 será ano de eleição, Copa do Mundo e retorno do Andy Irons. Slater estará no páreo p/ o tira-teima?
– O ser humano reage quando é pressionado. Sei que o Andy me tornou um competidor melhor, mais focado e forte. – diz Kelly em A Fly in the Champagne.
Se AI está p/ KS como Foreman estava p/ Ali, J-Bay é o novo Zaire. E se Mark Occhilupo é um touro tão indomável quanto Jake La Motta, Tom Curren é Sugar Ray Robinson, seu nemesis, aquele c/ quem travou as mais sangrentas lutas. Em seus auges, apenas um estava à altura do outro. E Bells Beach tem tudo p/ ser a Chicago desta revanche – as cotações nas bolsas de apostas estão altas p/ uma nova ‘luta’ na Austrália, durante a próxima páscoa, quando acontece o Rip Curl Classic, tradicionalíssima etapa do circuito mundial onde ambos travaram alguns dos mais memoráveis combates do surf.
MR versus Cheyne Horan, MP versus Rabbit, Dora e Fain, Occy contra Curren”, compara Marreco: “Rivalidade hostil era assim: surfista de lycra azul se alonga na areia, tenta afrouxar a tensão que vai crescendo com a proximidade do soar estridente da buzina. Nesse mesmíssimo tempo o desafiante vestido com a lycra vermelha range os dentes, imagina o adversário encurralado, fudido, numa situação constrangedora, esperando pelo golpe final da espada justa dos vitoriosos.
A LUTA DO SÉCULO [PASSADO]Após as 2 baterias do Clash of the Icons, o jornalista Tim Baker, do site australiano Surfing Life, trocou uma idéia c/ Occy & Curren sobre ondas, pranchas, baterias e, é claro, a rivalidade de ambos. Viva La Brasa traduziu e reproduz a seguir os principais trechos da entrevista, realizada no dia da final do campeonato:
Tim Baker - O tesão de competir voltou?
Tom Curren - Yeah, pra mim é uma coisa natural. Competir é algo que eu fiz por tanto tempo que bastam umas sessões de aquecimento pro corpo recuperar o que perdeu.
Que tal cair n’água c/ o Occy depois de todos esses anos?
TC - Bem, foi realmente interessante. Trouxe memórias à tona. Uma coisa em particular foi quando Occ fez aquele 8,67: ele estava remando e o olhar de concentração no seu rosto era o mesmo que ele tinha antigamente, isso trouxe de volta as lembranças. Ele começou a mandar seus ‘uppers’ no lip e eu pensei, ‘ok, ele vai c/ tudo nessa onda!’. Foi legal.
Vocês conversaram lá fora?
TC - Um pouco, não muito.
Então, Occy, como você se sentiu?
Mark Occhilupo - Definitivamente rolaram uns flashbacks. Eu não sabia se devia falar c/ ele ou não. Nós nunca conversamos muito, mas eu disse: ‘Essa onda foi boa!’, e ele disse: ‘Yeah!’. Foi tudo o que ele disse. Ele não estava se abrindo muito [risos].
A recepção do público e dos outros surfistas deve ter feito bem p/ vocês dois...
TC - Foi demais, realmente esta viagem foi memorável. As ondas estavam ótimas, e a areia foi movida debaixo do pico, eu nunca vi nada igual. Muitos caras, até os locais, nunca tinham visto o banco de areia tão liso assim. O swell ‘tava bombando, uma série a cada 3 minutos, o que é muito raro. Algumas das ondas mais épicas que eu vi nos últimos tempos.
MO - O engraçado é que hoje de manhã eu ainda estava c/ minha camisa de lycra [da competição], porque eu esqueci de devolver, aí eu vi o Tom andando na varanda [de J-bay] antes da bateria do Kelly Slater, puxei a lycra do bolso e gritei: ‘A gente cai em 5 minutos!’. E ele: ‘Você tá me zoando?’... Eu disse: ‘É, tou zoando!’, e ele: ‘Você não presta!’.
Tom, você foi o cara que popularizou esses equipamentos alternativos, fishes e tal. Está curtindo surfar mais c/ equipamento convencional hoje em dia?
TC - Eu surfo muito c/ pranchas normais atualmente. Se estiver muito pequeno e mexido eu uso um shape mais ‘fun’. Aqui, eu usei uma 6’8”.
Qual a sensação de correr uma bateria novamente? Vocês ficaram nervosos?
TC - Uma coisa que eu notei nas duas baterias é que as ondas meio que pararam por um tempo. Quase virei na última, mas eu cometi alguns erros na bateria c/ a seleção de ondas, tentando entubar ao invés de correr a parede, pra daí ver o que rolava no inside. Diante disso, eu acho que me saí bem, foi por pouco. E mais uma vez, nós estamos empatados, então...
MO - Foi legal. As ondas não apareceram p/ a festa mas a energia era tanta que valeu, eu acho.
É uma pena vocês não terem competido durante o swell...
MO - Nah, eles precisavam pro campeonato.
Tom, você curtiu estar rodeado pelos novos pros?
TC - Yeah, esses caras são clássicos. A vibe ‘tava boa, e as ondas, incríveis. É demais assistir à precisão c/ que eles surfam.
Você notou muitas mudanças desde sua era? Mark Richards comentou que os surfistas são na maioria mais amigáveis uns c/ os outros do que os competidores das antigas. Isso é verdade p/ vocês também?
TC - Acho que tem a ver, quando as ondas estão boas geralmente os surfistas ficam de melhor humor, individualmente ou em grupo. É uma coisa boa. Rivalidades vêm e vão, mas mesmo na mais intensa rivalidade você vai estar amarradão de dividir as ondas se elas estiverem boas.
Haverá uma revanche?
TC - Eu suponho que sim.
Talvez em Bells?
TC - Seria legal se fosse lá.
...
Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: ‘Dá glória a Deus, nós sabemos que esse homem é pecador’. Ele retrucou: ‘Se é pecador, não sei; uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo’.
João 9, 24-25. Novo Testamento

domingo, julho 19, 2009

OS DUELISTAS O que faz de alguém um mito? Atos heróicos, feitos extraordinários, histórias inesquecíveis? Mitos podem ser lendas, como os deuses gregos ou o ET de Varginha. Podem ser líderes espirituais como सिद्धार्थ गौतम ou Yeshua Meshiach. Mártires, como Jehanne ou Che. Músicos, como John Lennon ou Bob Marley. Ou surfistas.

Hungtinton Beach, Califórnia, EUA
. Agosto de 1985, auge do verão americano. Quase 100 mil pessoas na praia a fim de ver o herói local, TOM CURREN, vencer em casa o OP Pro, evento do seu patrocinador. Ele tinha 21 anos, estava a caminho do 1º título mundial, e era o bicampeão desta prova. Seria a 9ª vitória do prodígio de Santa Bárbara na ASP. Seria, se seu adversário não fosse outro fenômeno, um moleque australiano chamado MARK OCCHILUPO.

Os 2 já haviam se enfrentado 6 vezes antes, mas nunca numa final. E na área do Tom. Ele queria vencer. Ele PRECISAVA vencer. Era pessoal, questão de honra. “Tinha um mar de gente na praia, no Pier, todos lá p/ apoiá-lo, e eu fui o desmancha-prazeres”, relembra Occhilupo, o campeão naquele ano – e no seguinte também: “Eu o derrotei 2 vezes no Op Pro e a rivalidade começou aí, passando depois p/ Bells e outras etapas do circuito”.

A INVENÇÃO DO ESTILOEu lembro quando vi o Tom surfando pela 1ª vez.” O ano agora é 1983, o lugar, Cronulla Beach, Austrália, lar de Mark Occhilupo, 17 anos recém-completos. Occy estava estreando no tour e Curren acabara de vencer o Straight Talk Tires Open, 2ª vitória na carreira, em seu 2º ano de circuito. “Ele estava hospedado na casa do Jim Banks”, conta Occy: “Eu fui até a praia depois da escola, tinha 6’ a 8’ sólidos de onda e ele era o único lá fora.

Tom Curren é filho de um famoso surfista e shaper californiano, Pat Curren
. Cresceu surfando as melhores direitas do Oeste americano, no point break de Rincon, onde moldou seu surf clássico e moderno ao mesmo tempo. Foi campeão mundial amador jr. em 1980, aos 16, e open aos 18. No mesmo ano [1982], obteve sua 1ª vitória no mundial profissional, o Marui World Surfing no Japão, derrotando na final o australiano Tom Carroll, bicampeão mundial em ‘83/84.

Curren dominou o cenário competitivo dos anos ’80
, uma época cheia de talentos absurdos – Carroll, Pottz, Kong, Gerr – e competidores vorazes – Lynch, Hardman, Macauley, Ho. A diferença dele p/ os demais era a extrema classe: centro de gravidade baixo, joelhos juntos, braços sob controle. Surfava como os antigos longboarders, c/ alma e c/ calma, mas suas manobras eram tão fluidas, rápidas e explosivas que pareciam contradizer seus movimentos.

Quando eu tinha 13 anos, meu pai me disse que meu surf estava mais pro Jeff Hackman que pro Larry Bertleman. Isso foi tipo um aviso que ele me deu e que me ajudou a entender meu surf”, revela Tom. Bertleman, o homem-borracha do Havaí, era um showman; o californiano Hackman, o Mr.Sunset, era mais conhecido por sua finésse no trato da onda. Tom ouviu os conselhos de Pat e trabalhou seu ponto forte p/ tornar-se a epítome do estilo: hoje não há 1 só surfista na Terra que passe incólume à sua influência. Pode-se dividir o surf em A.C. e D.C. – antes de Curren e depois de Curren.

A bordo de suas
Channel Islands modelos Black Beauty e Red Beauty, venceu 12 eventos entre 1985 e ’86, durante as campanhas de seus 2 primeiros títulos mundiais. “Havia surfistas e havia o Tom Curren”, diz Kelly Slater: “No início da minha carreira perdi 6 ou 7 vezes p/ ele, por melhor que eu estivesse ou pior que ele surfasse. Havia qualquer coisa em mim que não me fazia aceitar bater o Tom Curren”.

OLHOS DE LOBO
Eu vou parar esses punheteiros americanos!” Essa história ficaria chata sem a interferência de um personagem: Marco Luciano Jay Occhilupo, um descendente de italianos que, ao seu modo, também redefiniu a maneira de se correr uma onda. “A primeira vez que vi Occy surfando foi em Jeffrey’s”, recorda-se Curren. “Ele tinha tanta energia, fazendo cada curva c/ tanta força e velocidade. Sua antecipação a cada momento era demais, realmente incrível.”

O mundo abriu os olhos p/ Mark Occhilupo em Jeffrey’s Bay, África do Sul. Durante o Billabong Country Feeling de 1984, Occy reinventou o surf de costas p/ a onda nas paredes de 2 metros da direita mais perfeita do mundo. “Eu sei que estou surfando c/ mais radicalidade e controle do que qualquer um antes de mim”, afirmou o garoto de 17 anos ao sair vitorioso em mais uma bateria, c/ a impáfia típica dos jovens. Na final, aplicou uma combination no havaiano Hans Hedemann p/ levar seu 1º evento na ASP.

"Quando eu cheguei, Tom estava no melhor da sua forma, enfileirando os adversários. Ninguém conseguia alcançá-lo”, Occy admite: “Eu não estava nem perto daquilo, tive que ralar muito p/ chegar ao nível dele”. Nos anos seguintes, ele conquistou suas mais emblemáticas vitórias: o Gunston 500 na África do Sul, o Swan MR Thriller na Austrália,o bicampeonato no Op Pro da Califórnia, e a coroa do Pipeline Masters, no Havaí.
Em todos esses eventos, arrasou os heróis locais – o sulafricano Shaun Tomson, campeão mundial ’78, em Durban; o aussie Mark Richards, tetracampeão do mundo [’79-‘82], em Margareth River; Curren nas marolas de Huntington Pier; e o havaiano Ronnie Burns em um Pipe grandão de ressaca [foto].

Occy tinha no pé todas as manobras novas”, diz Curren. As performances de Occhilupo lhe valeram o estrelato e um apelido: “Raging Bull”, Touro Indomável, alcunha emprestada do lutador Jake La Motta. As semelhanças entre os 2 iam além da força bruta e do sangue italiano. Occy era um rebelde, e a promessa de título mundial que não se concretizava foi lhe envenenando aos poucos.

Obteve sua última vitória em novembro de 1986, no BHP Steel International, em Newcastle, Austrália, derrotando na final adivinhem quem.
Em ’87, perdeu a final do Stubbies Pro p/ Curren em Oceanside, Califórnia, e terminou o ano em 9º lugar no geral – sua pior classificação desde que começara a correr o circuito. Em ’88, abandonou o tour na metade e só reapareceu no Havaí, ficando em 5º lugar no Billabong Pro AAA, o campeonato mais rico da época, que deu o título mundial a Barton Lynch num Pipe perfeito. Em ’89, deu as caras na perna francesa do mundial e, correndo os trials, chegou em 3º no Arena Surfmasters, vencido pelo inglês Martin Potter, o campeão do mundo naquele ano.

O LADO NEGRO DA FORÇA
Compare o último parágrafo aos 4 anteriores e você terá o quadro da meteórica decadência do Touro Indomável. Occy alternava momentos de euforia, quando promovia festas em seu apartamento, a outros de depressão, nos quais preferia ficar sozinho. Fumava, cheirava e bebia todo dia – e toda noite. Acostumado a destruir reputações, estava agora sabotando a sua própria.

Sem seu maior rival na cena, Tom Curren foi perdendo o interesse pelas competições
. Em ’88, ano em que travou seu último duelo contra Mark Occhilupo [nas semifinais do Marui Japan Open], o ídolo americano competiu no mínimo de etapas necessário p/ manter-se entre os Top 16, vencendo 3 delas – incluindo 2 vitórias back-to-back na Califa. A temporada acabaria c/ Curren em 15º e Occy, 42º na classificação geral. Em ‘89 TC só competiu nos EUA e Europa: ficou em 2º no Op Pro, perdendo p/ Richie Collins na final, e venceu o Rip Curl na França, seu 23º triunfo na ASP. Mesmo assim, não foi o suficiente p/ manter-se entre os tops – terminou em 50º no ranking.

Voltou ao tour em 1990 p/ conquistar 7 eventos e seu 3º título mundial
. Conquistou também 2 recordes que duram até hoje – único campeão do mundo vindo das triagens e maior número de vitórias numa só temporada [empatado c/ Damien Hardman e Kelly Slater, que também venceram 7 campeonatos em ’87 e ’97, respectivamente]. Outro recorde, de 33 campeonatos na carreira, obtido no ano seguinte, demorou 16 anos p/ ser batido – por Slater, atualmente c/ 42 tentos.
Inspirado em Curren, Occy arriscou uma volta no início dos anos 90
: estrelou 3 filmes do cineasta Jack McCoyPump, Bunyip Dreaming e The Green Iguana – e venceu o Hot Tuna na Inglaterra em ‘92, ano de estréia das duas divisões da ASP, o WCT e o WQS. Mas seu lado ‘Jake La Motta’ ainda falava alto, e após derrota na França, sofre uma crise nervosa e enterra suas pranchas na areia da praia. A partir daí, atinge o ponto mais baixo da sua vida, mergulhado numa deprê que o impedia de sair do sofá, engordando mais de 40 quilos. Aos 25 anos, o Touro Indomável mais parecia um boi pronto p/ o abate.
Em ’91, TC conquistou sua última vitória no mundial causando polêmica
– usou uma prancha sem logotipos durante a temporada havaiana, o que lhe custou o patrocínio da OP. A final estelar em ondas de responsa na praia da Haleiwa, composta pelos campeões Carroll e Pottz além do local Johnny “Boy” Gomes, atestava o alto grau de sua performance. Perdeu por pouco a vaga entre os tops no final de ’92, ano em que os novos formatos do circuito ainda estavam sendo testados e só os Top 16 classificavam-se pela divisão principal – Curren terminou em 17º. Sem mais nada a provar nas competições, o maior astro do surf dos anos ’80 partiu p/ outras viagens.
ANARQUIA E REDENÇÃO
Em maio de 2009, o site Surfline perguntou a Curren o que ele teria feito da vida caso não tivesse se tornado um surfista pro: “Eu tentaria viajar pelo mundo e surfar sem ninguém me julgar.

Em 1993, o melhor competidor de todos os tempos tornou-se free surfer
e partiu sem destino no projeto The Search, do seu patrocinador Rip Curl, que consistia em descobrir novas ondas em lugares remotos. Ao mesmo tempo, lançou-se como guitarrista c/ um disco de folk rock c/ influências de jazz e partiu numa turnê c/ a banda Skipping Urchins que passou por 27 cidades americanas.
Em ’95, assombrou o mundo ao surfar a inexplorada direita de Bawa, na Indonésia, c/ uma biquilha 5’7” em tubos pesados de até 10’
. Vivia-se a febre das pranchas ultrafinas e estreitas, lançada pelo Slater, e Tom Curren vinha na direção oposta. Convidado a competir em algumas etapas do WCT ’96, apareceu na França c/ uma 5’5” twin fin caindo aos pedaços. Surfando c/ um toco amarelado dos anos ‘70, bateu o nº 8 do mundo naquele ano, o aussie Matt Hoy, outro surfista espetacular: “A 5’ do Curren era um acinte, pesada, antiga, completamente ultrapassada e talvez sequer tenha sido um dia uma prancha razoável. Naturalmente Curren seria capaz de surfar 50% melhor c/ uma leve e moderna triquilha e provavelmente nem tinha a intenção de humilhar Hoyo nem toda a indústria mundial de pranchas, queria apenas, vejam só que ironia, divertir-se. E, por vezes, a diversão é a forma mais pura de anarquia”, explica o blogueiro e ex-surfista profissional Júlio Adler.

A reputação de Curren como um dos maiores surfistas da história é respaldada pelas suas realizações como competidor. Mas a maioria dos que pegam onda define Curren como um artista, depois como um campeão mundial”, escreveu o jornalista Matt Warshaw no livro Surf Riders. Enquanto isso, outro artista renascia das cinzas sem que ninguém se desse conta. Durante 2 anos, Occy malhou pesado e voltou a encarnar na água, c/ o suporte da 1ª esposa e do amigo Gordon Merchant, CEO da Billabong, marca que nunca o abandonou. De 111 quilos em ’93, voltou aos 75 kg do início da carreira, e em ’95 varou as triagens e chegou à final do Pipe Masters, 10 anos após sua vitória, deixando pelo caminho o havaiano Sunny Garcia [campeão do mundo em 2000] e perdendo apenas p/ Slater, que conquistava ali o terceiro de seus 9 títulos mundiais.

Occy ralou durante todo o ano de ’96
, encarando batalhas no WQS contra fedelhos 10 anos mais novos, como Taj Burrow, Andy Irons e Neco Padaratz, todos voando em ondas que mal conseguiam segurar o peso do Touro Indomável. Conseguiu a vaga p/ o WCT no sufoco, ao terminar em 20º no ranking de acesso. Em ’97, atropelou a elite do surf profissional, fechando o ano como vice-campeão mundial, atrás apenas de Slater – seu novo arquirrival. Os dois protagonizaram uma final na etapa do Brasil que fez lembrar os melhores momentos das disputas Curren X Occy dos anos ’80.

Mark Occhilupo obteve sua primeira vitória no WCT em casa
, no Rip Curl Pro de Bells Beach, em ’98. Em 1999, OCCY vence 3 etapas do circuito – Gotcha Pro Tahiti, Quiksilver Pro Fiji e Billabong Pro Mundaka [foto]p/ finalmente chegar ao título mundial e obter sua redenção, aos 33 anos.

A VIDA É UM SONHO
Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos p/ a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê c/ mais justeza?

No
Mito da Caverna, o filósofo grego Platão tece um diálogo fictício entre seu mestre Sócrates e seus irmãos mais novos, Glauco e Adimato, sobre seres humanos que passam a vida numa caverna, e cujo único contato c/ o mundo externo são sombras projetadas por um feixe de luz. É uma alegoria sobre a condição humana e o conhecimento. Segundo Platão, o processo p/ o domínio da consciência envolve a matéria – eikasia e pítsis – e as idéias – diánoia e nóesis. No livro A Vida É Um Sonho, o dramaturgo Calderón de La Barca explica: “[...] a realidade está no mundo das idéias e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo ilusório das coisas sensíveis, no grau da apreensão de imagens (eikaisa), as quais são mutáveis, corruptíveis [...]”.

Mark Occhilupo
manteve-se por 10 anos ininterruptos no WCT, aproveitando ao máximo a sua ‘2ª vida’. 15 anos após suas 2 vitórias na Califórnia, voltou a vencer o Op Pro duas vezes consecutivas, em 2000/01 – agora um evento especial p/ convidados. Nas ondas perfeitas da Mentawaii, bateu Slater, Sunny e os irmãos Irons, entre outros. Curtiu tanto a experiência que, na 1ª vitória, dividiu o dinheiro c/ todos os participantes. Também venceu 2 vezes o Super Skins em Bells Beach, outro campeonato p/ convidados onde cada bateria valia US$ 5.000; na 1ª edição, Occy venceu 11 delas e, invicto, levou a bolada de US$ 55.000 – até hoje um dos maiores prêmios da história do surf.

Foi vice-campeão mundial em 2001
, ano em que o circuito acabou na metade por causa do 11 de Setembro e o americano CJ Hobgood levou o título c/ uma combinação de resultados, sem uma vitória sequer. Nesse ano, Occy chegou à final da etapa do Brasil, mas antes da decisão na praia do Arpoador [RJ], resolveu ‘dar um 2’ na areia e quase roda na mão de um PM. A turma do 'deixa-disso' conseguiu liberar o herói doidão mas o estrago estava feito e, abalado, ele perdeu a decisão p/ Trent Munro, mesmo mandando um aéreo na melhor onda. Se tivesse vencido aquele campeonato, talvez hoje fosse bi mundial.

Astro de mais 1 filme do amigo Jack McCoy, The Occumentary, casou-se pela 2ª vez c/ uma taitiana 20 anos mais jovem, c/ quem teve 2 filhos, e em 2006 tornou-se o mais velho a vencer uma etapa da ASP, aos 40: o Margareth River Pro, no mesmo lugar onde conseguira uma de suas primeiras vitórias 21 anos antes – idade do seu oponente na final, Rick Basnett. Aposentou-se no ano seguinte, em Pipeline, c/ honras de herói: ao sair eliminado de sua bateria logo nos rounds iniciais, foi carregado na areia como se tivesse acabado de vencer o evento.
PRESIDENTE BOSSA-NOVAE Curren? Ele sempre foi ‘the Mysto Man’”, diz Occy, a respeito de seu grande rival e amigo. O Homem-Mistério seguiu gravando discos independentes e tentando seguir todo o WQS em busca de uma possível volta ao ‘CT, porém os problemas pessoais se sobrepuseram aos seus planos. Venceu algumas provas pequenas do ‘QS entre os anos de ’98 e 2001, mas o alcoolismo e as constantes separações, novos filhos e casamentos, envelheceram suas feições e lhe tiraram o foco.

Durante viagem de avião p/ um especial da Red Bull em Fernando de Noronha, foi alvo de piada do santista Picuruta Salazar, o 'Tom Curren brasileiro' dos anos 80 e um grande gozador: “Ih, olha só, o Menino Maluquinho já tá doidão!”, zoou Picuruta diante do estado etílico do ex-campeão.
Abandonado pelos antigos patrocinadores, às voltas c/ pensões alimentícias e cada vez mais endividado, TC começou a aceitar qualquer contrato que cobrisse o aluguel no final do mês.

Passou pela brasileira Mormaii e pela americana The Realm, na qual estrelou o filme Tom Curren For President, lançado em 2000 durante as eleições dos EUA – por certo ele seria melhor presidente que Bush, caso fosse candidato de verdade:
Eu não idolatro ninguém, mas respeito muito os pioneiros, como George Washington e Abraham Lincoln”. Há cerca de 6 anos retornou à Rip Curl, que adotou a estranha estratégia de enviá-lo a trips desbravadoras nos mares árticos do Canadá e da Rússia [foto]. Mandar o maior artista do surf p/ o exílio em lugares gelados c/ ondas mexidas. Quem é o responsável pelo marketing dessa marca?

Independente de sua trajetória errática, Tom Curren tornou-se uma lenda viva. Occhilupo também. Se o estilo de Curren é imitado por 11 entre 10 surfistas,
Occy será sempre o parâmetro do surf de costas p/ a onda. Não há um goofy no tour que não seja influenciado pelo seu backside [foto], assim como não há um só regular que não busque a mesma classe nas curvas que o Tom. Que o diga Joel Parkinson, líder do circuito e dono do melhor carve da atualidade, ou o veterano Taylor Knox, mais aplicado aluno da escola do estilo perfeito. Tom lançou a moda das fish, imitada por todos os pros que enveredam pelo caminho soul, como o americano Rob Machado e o neozelandês Dave Rastovich, e a moda dos surfistas músicos, encabeçada por Machado [à esquerda], que gravou um disco c/ o Slater nos anos ’90 chamado The Surfers e anda sempre c/ uma viola debaixo do braço, e Jack Johnson, o melhor compositor dessa safra: “Jack é muito bom no que faz, despretensioso, melódico, e também ajuda o meio ambiente. É um grande sujeito”, elogia Curren.

[...] E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas p/ aquele que se apercebesse, c/ o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?” De novo, o Mito da Caverna de Platão.

A BAÍA
"E se tiver de entrar de novo em competição c/ os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, [...] e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se às sombras exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros riam às suas costas e digam que, tendo ido lá acima, voltou c/ a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir lá?", pergunta o sofista Sócrates.
Occy e Curren passaram 21 anos sem disputar uma bateria contra o outro – até semana passada, quando participaram do Billabong Pro em Jeffrey’s Bay, válido pelo circuito mundial 2009. O evento, que contou c/ as melhores ondas do ano até agora, foi vencido por Joel Parkinson [foto] – que contabiliza 3 vitórias em 5 etapas e já pode ser considerado o virtual campeão deste ano. ‘Parko’, que foi bicampeão pro-jr. em ’99/01 e vicecampeão mundial 2002/04, obteve sua 1ª vitória no WCT nessa mesma J-Bay há exatos 10 anos, ainda adolescente, competindo como convidado: “Wow! Uma década passa mesmo muito rápido! Eu curto voltar aqui todo ano desde aquela 1ª vez, sempre é uma viagem incrível e eu pretendo voltar tantas vezes quantas forem possíveis”, disse o australiano.

Kelly Slater, 37 anos e de olho no 10º título, perdeu na 3ª fase p/ o brother Taylor Knox, 38. “Quando estou no mar não penso em quem é o meu adversário, só quero vencer. Mas é uma sensação estranha ganhar dele, porque somos amigos há mais de 20 anos. Ao mesmo tempo, ele é provavelmente o maior surfista de todos os tempos, e um resultado como esse é sempre bom”, falou Knox sobre Kelly, que saiu da água tão puto que jogou a prancha longe e deu socos na banheira de hidromassagem: “Agora eu tenho que vencer 3 campeonatos p/ voltar ao jogo. Olhando os números, Parko está a umas 10 baterias na minha frente, e se eu quiser entrar na briga tenho que alcançá-lo”. Antes disso, Slater havia dado show na sua bateria de estréia, marcando a maior média a 2ª fase: 18,84 num total de 20 pontos possíveis – chegando a descartar um 9 e um 9,23.

Os goofies Damien Hobgood e Kai Otton chegaram em 2º e 3º lugares, respectivamente, honrando a presença de Occy no pico. O wild card Sean Holmes [à direita], local c/ o melhor retrospecto em Jeffrey’s, chegou às quartas deixando p/ trás o campeão de 2007, Taj Burrow. Só foi parado por Dane Reynolds, a grande esperança yankee. Eleito o “surfista do ano” pelos leitores da revista californiana Surfer em 2006, ele ainda não tem resultados que o credenciem como herdeiro natural de Curren e Slater, pelo contrário – antes dessa etapa vinha amargando uma série de 33ºs: “Ninguém gosta de perder. Mas essas derrotas me fizeram querer competir de novo. Eu voei meio mundo p/ chegar aqui e queria vencer”.
SUPERTUBES Querer é poder, e em J-Bay Dane desencantou. Na 2ª fase travou um confronto contra Jordy Smith que tem tudo p/ ser a disputa dos títulos da próxima década. Jordy é a grande promessa sulafricana [grande mesmo, já que o moleque tem quase 1m90cm], venceu o Pro-Jr. e o WQS em 2007, está entre os Top 10 este ano, mas foi escovado em casa no duelo da nova geração. “Jordy ficou remando do meu lado o tempo todo, então eu pensei ‘certo, vou te deixar em pedacinhos’”, contou Reynolds sobre o tubo nota 10 que desclassificou Smith: “Mesmo no free surf, eu nunca sento lá fora e espero as séries. Eu sempre fico no inside e muitas vezes isso me atrasa nas baterias. Naquele 10, eu nem tinha certeza se a onda ia prestar. Eu tinha a prioridade e quando dropei, cavei e vi aquela linha se estendendo ‘por dias’, tive a certeza que a coisa ia ser boa.

Dane Reynolds tem 23 anos, é bancado pela Quiksilver – mesmo patrocinador de Slater – e seu livro de cabeceira é Pergunte ao Pó
, do conterrâneo John Fante. Jordy Smith
[foto] tem 21, é o melhor surfista da África do Sul desde Shaun Tomson, e há 2 anos foi pivô de uma das maiores negociações do mercado, ao ser disputado pela Nike, Quiksilver e O’neill, marca de roupas de borracha californiana que ganhou a disputa. Na ocasião, foi cortejado por megastars como Tiger Woods e o próprio Slater, a mando dos respectivos patrões, é claro. Mas tamanha bajulação e o salário milionário ainda não deram em nada – pelo menos, não no WCT. Ano passado perdeu na 1ª fase p/ Mineirinho, 22 anos, que junto a eles e ao francês Jeremy Flores, de 20, forma o G4 dessa geração.

Reynolds chegou às semifinais marcando mais um 10, na bateria contra Sean Holmes: “As ondas estavam tão divertidas que eu nem me senti num campeonato. Tinha umas que eu achava que não ia completar, dado o grau de dificuldade, mas eu puxei o limite e foi demais!Dane marcou a maior média de todo o campeonato, 19,20, e c/ a 3ª colocação sobe de 34º p/20º no ranking. “Este evento foi uma mudança bem-vinda p/ mim. Eu não tive um bom começo de ano, c/ problemas de acerto de prancha e tal... Eu nunca me dou bem quando penso no que devo fazer numa bateria, então eu só vou lá e surfo. Este resultado tira um pouco de pressão sobre mim em termos de classificação.


Outro destaque foi o novato do Tahiti, Michel Bourez, 23 anos, que também tirou um 10 p/ vencer o campeão mundial de 2007, Mick Fanning
, na 2ª fase: “Definitivamente, eu me sinto preparado p/ surfar nessas condições – longas direitas, tubos perfeitos. No meu 10, eu tinha acabado de voltar da minha primeira onda e ‘tava bem cansado, mas vi a onda subir e disse pra mim ‘é essa’. Me entoquei 3 vezes até a areia, fiquei tão amarradão que exigi a nota dos juízes. Eu TINHA que fazer isso!


ALÉM DAS PRANCHAS FLAMEJANTESUm evento marcado por tubos perfeitos e grandes duelos. Nenhum deles, no entanto, tão aguardado e eletrizante quanto o de Tom Curren & Mark Occhilupo no CLASH OF THE ICONS, o “Choque dos Ícones” promovido pela Billabong. Numa jogada de mestre, a patrocinadora do evento realizou 2 baterias de exibição reeditando as batalhas dos 2 maiores ídolos dos anos ’80.

O placar estava empatado em 8 X 8 há mais de 2 décadas: encontraram-se 16 vezes em disputas homem-a-homem de 1983 a ’88, c/ Occy levando vantagem nos 5 primeiros embates. Curren tem quase o triplo de vitórias no circuito mundial – 33 na fase pré-WCT, mais uma no Op Pro Fiji ‘87, que não contou p/ o ranking, 3 no WQS e 3 títulos mundiais [1985/86/90]. Occhilupo tinha 8 vitórias até abandonar o circuito, mais 4 na volta ao WCT, totalizando 12, mais 4 especiais, 4 WQS e o título de 1999. Seu aproveitamento foi de 55% na carreira, enquanto Tom tem a melhor porcentagem de todos os tempos, 73%, superando até mesmo Kelly Slater – foram 127 eventos até sua 33ª vitória, Slater conseguiu sua 34ª no 163º...

TC tem mais títulos, mas Occy reescreveu uma parte da história do surf em Jeffrey’s, há ¼ de século, e tem ali um trunfo: a vitória no Country Feeling em ’84. Curren nunca venceu na África do Sul, até porque passou a boicotar o país a partir de ’85 em protesto contra o apartheid. O reencontro dos 2 gerou grande expectativa em toda a comunidade internacional. O jornalista americano Lewis Samuels escreveu em seu blog:Coincidentemente redescobri o trailer de Beyond Blazing Boards hoje – o primeiro filme de surf que eu vi na vida. Cara, o aéreo do Occ e a batida vertical do Curren! A música é ‘Wild Child’ dos Untouchables. Comprei o vinil em ’87 p/ instigar minhas sessões.

A 1ª bateria caiu na água na terça-feira, 14/07, em ondas de 1 metro bem formadas. Occy largou na frente c/ um 6,5 e apostou nas intermediárias. Curren foi mais seletivo, optou por se posicionar mais no outside, e isso fez a diferença. Logo em sua 1ª onda marcou 7 pontos c/ um belo floater. Arrematou a vitória c/ um tubo, 2 rasgadas e um floater animal, indo parar nas pedras e marcando 7,5. No dia seguinte, antes da final do evento principal, rolou a 2ª disputa entre os dois. Desta vez, em ondas maiores, Occhilupo exibiu seu backside poderoso, que mantém afiado em treinos c/ o Parko, p/ somar 13,67 em 2 ondas e obter sua revanche. “Acho que havia muita energia e muita expetativa p/ este duelo, as ondas devem ter ficado um pouco assustadas”, avalia o sempre engraçado Occy.

SURFANDO A HISTÓRIA
Ao abandonar o circuito mundial, ambos fizeram a ASP começar a caminhar na direção que está hoje. Não haveria circuito dos sonhos sem essa dupla. “Competição é o formato mais puro do surf profissional, p/ mim, porque não está tentando ser nada mais do que realmente é. Campeonatos são a forma mais honesta de ganhar a vida surfando”, disse Curren em ‘96.

Paralelo ao WCT, acontecia no Brasil o Maresia Surf International, etapa 6 estrelas do WQS encerrada no último domingo. Provando que a História está sempre sendo escrita, o adolescente Gabriel Medina, 15 anos, tornou-se o mais jovem surfista a vencer uma etapa do circuito mundial ao derrotar Neco Padaratz, 32, na final em Florianópolis [SC], derrubando um recorde que já durava 23 anos, desde a vitória de Nick Wood em Bells Beach no longínquo 1986. “Foi a maior emoção, né? Quando comecei c/ aquela nota 9, já pensei que na próxima onda ia arriscar tudo. E todos batendo palmas, até os gringos. Na saída da água, todo mundo veio falar comigo, dei até autógrafo. Sou um pouco tímido, não estou acostumado c/ isso”, disse Gabriel c/ seu cheque de US$ 20.000. Mais do que eu ganho em 1 ano. Nada mal p/ um menino de aparelho nos dentes e espinhas na cara.

E por falar em história sendo feita, enquanto eu postava este texto, Neco vencia o Coca-Cola Saquarema Pro, mais um 6* da perna brasileira. O catarinense, bicampeão do WQS 2003/04, está em seu 3º comeback: no 1º ano, inspirou-se em Curren p/ voltar ao WCT após 1 ano parado e vencer 2 etapas, o US Open em '99 e o Quiksilver Pro France em 2002; no 2º, inspirou-se em Occy p/ voltar à elite após ser punido por uso de doping; agora sua inspiração é Ronaldo: "Quando o vi o 1º gol dele no Corinthians, me emocionei e chorei. Pra mim, é o maior exemplo de superação do esporte. E serviu de inspiração p/ mim." Padaratz somou 2500 no ranking de acesso à 1ª divisão, liderado pelo pro-jr. de Natal Jadson André.

Lee-Ann Curren, a filha mais velha do Tom, é mais um sanguinho novo no circuito mundial. Nesse caso, sangue azul - além de herdeira do maior 'estilista' do surf, teve como babá Kelly Slater: "Lembro pouco, mas é divertido pensar que isso aconteceu. Hoje em dia nos encontramos mundo afora nas competições", diverte-se a francesinha de 20 anos, atual campeã européia e 7ª colocada no WQS feminino. Comparando o cenário do surf atual c/ o da sua época, na entrevista p/ o Surfline há poucos meses, o soulman da Califórnia arrematou: “O nível de performance tem sido astronômico, todo o surf aéreo... Mas o que mudou mesmo desde que eu comecei é que a impregnação na água se tornou muito mais intensa”.

9 a 9, tudo igual na batalha dos mitos. C/ uma vitória p/ cada lado em 2009, a balança mantém-se equilibrada. Slater já botou pilha p/ um novo tira-teima dos ícones em Bells, ano que vem. Melhor deixar quieto. Afinal, quem foi o maior: Da Vinci ou Michelangelo? Bach ou Beethoven? Van Gogh ou Picasso? Pixinguinha ou Noel Rosa? Pollock ou Andy Warhol? The Clash ou Ramones? Occy ou Curren? Gênios não se medem por números, apenas tentamos entendê-los. “O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio dos deuses, semideuses e heróis”, ensina a Wikipedia. “Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade.

TOM CURREN – 03/07/64
506 baterias c/ 353 vitórias, 8 sobre Occy
45 finais, 33 vitórias, 73% de aproveitamento

MARK OCCHILUPO – 16/06/66
685 baterias c/ 380 vitórias, 8 sobre Curren
22 finais, 12 vitórias, 55% de aproveitamento

CLASH OF THE ICONS

heat 1 - CURREN 14.50 x 11.33 OCCY
heat 2 - OCCY 13.67 x 13.34 CURREN


BILLABONG PRO 2009

CURREN, aos 45, surfa mais que muito top do WCT

o touro OCCY e seu backhand indomável

Taylor Knox, o 2º melhor estilo do mundo

3 em 5: ninguém segura o PARKO este ano