domingo, julho 26, 2009

EVERLAST
JAKE LA MOTTA vs SUGAR RAY ROBINSON, Chicago Stadium, 1951
- Um dia eu estava treinando boxe e comecei a socar o saco de areia imaginando que era o Andy!
Kelly Slater em A Fly in the Champagne, registro de uma viagem c/ os 2 maiores rivais da atualidade que tem tudo p/ ser o filme de surf do ano. Andy Irons foi campeão mundial 3 anos consecutivos, de 2002 a 2004. Slater, que já tinha 6 títulos dos anos ’90, venceu em 2005, 2006 e ano passado. São os únicos tricampeões dos anos 2000.
Outro documentário, Blue Horizon, obra-prima do mestre Jack McCoy, evidencia a rivalidade dos 2: em 2003 foi travada a mais acirrada disputa da ASP – Slater levou 4 etapas e Irons, 5, num circuito decidido na última bateria. Andy levou o título, mas Kelly venceu mais eventos do que TODOS os outros campeões mundiais desta década nos respectivos anos de suas conquistas.
Grandes rivalidades, títulos mundiais... Isso lembra alguma coisa?
METAFORICAMENTEKelly Slater está p/ o surf assim como Cassius Clay está p/ o boxe: “Flies like a butterfly, sticks like a bee”. Aliás, o Slater dos anos ’90 era o Clay; o atual é o Muhammad Ali. E Andy Irons, George Foreman. Todos sabem como termina essa briga.
Rivalidade era Prost contra Senna na fórmula 1”, escreveu Júlio Adler, o ‘Marreco’, no artigo Post-Scritum, publicado na revista Surf Portugal: “‘Metaforicamente, Senna quer me matar’, dizia Prost. Corrida após corrida se enfrentavam, um contra o outro. Foda-se o resto. O negócio é pessoal. Mark Richards chamava Cheyne de ‘Brat’, algo em torno de pentelho, pra manter o padrão do horário nobre, ‘little brat’ quando o sangue esquentava. [..] Michael Peterson [foto] saiu duma bateria enlouquecido por ter perdido pro seu ‘sparring’, Wayne Bartholomeu, andou determinado até seu algoz e encerrou o assunto: ‘você é um merda, Rabbit!’. Andy pode rasgar a foto do Slater, mas quantas vezes será capaz de destruí-lo numa bateria?
Adler escreveu isso em 2003. 6 anos depois, Irons está fora. Pediu p/ sair. Mas foi só Slater vencer uma etapa p/ ele querer voltar.
MOSCA NO ESPUMANTE
– Comecei a acreditar no que estava lendo. Entrei no jogo criado pela mídia.
1998: Andy estréia no WCT e vence o Pro-Jr. no Havaí, enquanto Slats conquista seu 6º título mundial e se retira da cena, à espera de um adversário à altura. ‘AI’, o andróide do Kauai, passa os anos seguintes patinando: é desclassificado em ’99, quando perde até p/ Cristiano Spirro em Fiji, termina entre os Top 16 em 2000 correndo apenas metade do circuito como convidado, e entre os 10+ de 2001 – todos resultados abaixo de seu potencial.
2002: KS volta ao ‘CT e Andy é campeão do mundo. Coincidência? Em 2003 Irons, no auge, vence de novo e Slater é vice. 2004: Andy tri, Kelly, 3º. 2005: KS hepta mundial, AI, vice. 2006: kareca octa, andróide, 2º... Blue Horizon registra um momento trivial que ilustra todo o quadro: final da temporada ’03, penúltima etapa, Santa Catarina, o playboy havaiano chega na praia tomando açaí no dia seguinte à sua derrota no evento, e ao ver o arquiinimigo na água, começa a secá-lo: - Boooooo!.., vaia Andy da arquibancada. Ele era o defensor do título, venceria naquele ano e no seguinte, mas nunca venceu no Brasil. Slater venceu aquele campeonato, e de novo este ano.
Grandes rivalidades, títulos mundiais, comebacks... Sim, isso lembra alguma coisa.
NO SOAR DO GONGO2010 será ano de eleição, Copa do Mundo e retorno do Andy Irons. Slater estará no páreo p/ o tira-teima?
– O ser humano reage quando é pressionado. Sei que o Andy me tornou um competidor melhor, mais focado e forte. – diz Kelly em A Fly in the Champagne.
Se AI está p/ KS como Foreman estava p/ Ali, J-Bay é o novo Zaire. E se Mark Occhilupo é um touro tão indomável quanto Jake La Motta, Tom Curren é Sugar Ray Robinson, seu nemesis, aquele c/ quem travou as mais sangrentas lutas. Em seus auges, apenas um estava à altura do outro. E Bells Beach tem tudo p/ ser a Chicago desta revanche – as cotações nas bolsas de apostas estão altas p/ uma nova ‘luta’ na Austrália, durante a próxima páscoa, quando acontece o Rip Curl Classic, tradicionalíssima etapa do circuito mundial onde ambos travaram alguns dos mais memoráveis combates do surf.
MR versus Cheyne Horan, MP versus Rabbit, Dora e Fain, Occy contra Curren”, compara Marreco: “Rivalidade hostil era assim: surfista de lycra azul se alonga na areia, tenta afrouxar a tensão que vai crescendo com a proximidade do soar estridente da buzina. Nesse mesmíssimo tempo o desafiante vestido com a lycra vermelha range os dentes, imagina o adversário encurralado, fudido, numa situação constrangedora, esperando pelo golpe final da espada justa dos vitoriosos.
A LUTA DO SÉCULO [PASSADO]Após as 2 baterias do Clash of the Icons, o jornalista Tim Baker, do site australiano Surfing Life, trocou uma idéia c/ Occy & Curren sobre ondas, pranchas, baterias e, é claro, a rivalidade de ambos. Viva La Brasa traduziu e reproduz a seguir os principais trechos da entrevista, realizada no dia da final do campeonato:
Tim Baker - O tesão de competir voltou?
Tom Curren - Yeah, pra mim é uma coisa natural. Competir é algo que eu fiz por tanto tempo que bastam umas sessões de aquecimento pro corpo recuperar o que perdeu.
Que tal cair n’água c/ o Occy depois de todos esses anos?
TC - Bem, foi realmente interessante. Trouxe memórias à tona. Uma coisa em particular foi quando Occ fez aquele 8,67: ele estava remando e o olhar de concentração no seu rosto era o mesmo que ele tinha antigamente, isso trouxe de volta as lembranças. Ele começou a mandar seus ‘uppers’ no lip e eu pensei, ‘ok, ele vai c/ tudo nessa onda!’. Foi legal.
Vocês conversaram lá fora?
TC - Um pouco, não muito.
Então, Occy, como você se sentiu?
Mark Occhilupo - Definitivamente rolaram uns flashbacks. Eu não sabia se devia falar c/ ele ou não. Nós nunca conversamos muito, mas eu disse: ‘Essa onda foi boa!’, e ele disse: ‘Yeah!’. Foi tudo o que ele disse. Ele não estava se abrindo muito [risos].
A recepção do público e dos outros surfistas deve ter feito bem p/ vocês dois...
TC - Foi demais, realmente esta viagem foi memorável. As ondas estavam ótimas, e a areia foi movida debaixo do pico, eu nunca vi nada igual. Muitos caras, até os locais, nunca tinham visto o banco de areia tão liso assim. O swell ‘tava bombando, uma série a cada 3 minutos, o que é muito raro. Algumas das ondas mais épicas que eu vi nos últimos tempos.
MO - O engraçado é que hoje de manhã eu ainda estava c/ minha camisa de lycra [da competição], porque eu esqueci de devolver, aí eu vi o Tom andando na varanda [de J-bay] antes da bateria do Kelly Slater, puxei a lycra do bolso e gritei: ‘A gente cai em 5 minutos!’. E ele: ‘Você tá me zoando?’... Eu disse: ‘É, tou zoando!’, e ele: ‘Você não presta!’.
Tom, você foi o cara que popularizou esses equipamentos alternativos, fishes e tal. Está curtindo surfar mais c/ equipamento convencional hoje em dia?
TC - Eu surfo muito c/ pranchas normais atualmente. Se estiver muito pequeno e mexido eu uso um shape mais ‘fun’. Aqui, eu usei uma 6’8”.
Qual a sensação de correr uma bateria novamente? Vocês ficaram nervosos?
TC - Uma coisa que eu notei nas duas baterias é que as ondas meio que pararam por um tempo. Quase virei na última, mas eu cometi alguns erros na bateria c/ a seleção de ondas, tentando entubar ao invés de correr a parede, pra daí ver o que rolava no inside. Diante disso, eu acho que me saí bem, foi por pouco. E mais uma vez, nós estamos empatados, então...
MO - Foi legal. As ondas não apareceram p/ a festa mas a energia era tanta que valeu, eu acho.
É uma pena vocês não terem competido durante o swell...
MO - Nah, eles precisavam pro campeonato.
Tom, você curtiu estar rodeado pelos novos pros?
TC - Yeah, esses caras são clássicos. A vibe ‘tava boa, e as ondas, incríveis. É demais assistir à precisão c/ que eles surfam.
Você notou muitas mudanças desde sua era? Mark Richards comentou que os surfistas são na maioria mais amigáveis uns c/ os outros do que os competidores das antigas. Isso é verdade p/ vocês também?
TC - Acho que tem a ver, quando as ondas estão boas geralmente os surfistas ficam de melhor humor, individualmente ou em grupo. É uma coisa boa. Rivalidades vêm e vão, mas mesmo na mais intensa rivalidade você vai estar amarradão de dividir as ondas se elas estiverem boas.
Haverá uma revanche?
TC - Eu suponho que sim.
Talvez em Bells?
TC - Seria legal se fosse lá.
...
Então, chamaram, pela segunda vez, o homem que fora cego e lhe disseram: ‘Dá glória a Deus, nós sabemos que esse homem é pecador’. Ele retrucou: ‘Se é pecador, não sei; uma coisa eu sei: eu era cego e agora vejo’.
João 9, 24-25. Novo Testamento

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