domingo, julho 19, 2009

OS DUELISTAS O que faz de alguém um mito? Atos heróicos, feitos extraordinários, histórias inesquecíveis? Mitos podem ser lendas, como os deuses gregos ou o ET de Varginha. Podem ser líderes espirituais como सिद्धार्थ गौतम ou Yeshua Meshiach. Mártires, como Jehanne ou Che. Músicos, como John Lennon ou Bob Marley. Ou surfistas.

Hungtinton Beach, Califórnia, EUA
. Agosto de 1985, auge do verão americano. Quase 100 mil pessoas na praia a fim de ver o herói local, TOM CURREN, vencer em casa o OP Pro, evento do seu patrocinador. Ele tinha 21 anos, estava a caminho do 1º título mundial, e era o bicampeão desta prova. Seria a 9ª vitória do prodígio de Santa Bárbara na ASP. Seria, se seu adversário não fosse outro fenômeno, um moleque australiano chamado MARK OCCHILUPO.

Os 2 já haviam se enfrentado 6 vezes antes, mas nunca numa final. E na área do Tom. Ele queria vencer. Ele PRECISAVA vencer. Era pessoal, questão de honra. “Tinha um mar de gente na praia, no Pier, todos lá p/ apoiá-lo, e eu fui o desmancha-prazeres”, relembra Occhilupo, o campeão naquele ano – e no seguinte também: “Eu o derrotei 2 vezes no Op Pro e a rivalidade começou aí, passando depois p/ Bells e outras etapas do circuito”.

A INVENÇÃO DO ESTILOEu lembro quando vi o Tom surfando pela 1ª vez.” O ano agora é 1983, o lugar, Cronulla Beach, Austrália, lar de Mark Occhilupo, 17 anos recém-completos. Occy estava estreando no tour e Curren acabara de vencer o Straight Talk Tires Open, 2ª vitória na carreira, em seu 2º ano de circuito. “Ele estava hospedado na casa do Jim Banks”, conta Occy: “Eu fui até a praia depois da escola, tinha 6’ a 8’ sólidos de onda e ele era o único lá fora.

Tom Curren é filho de um famoso surfista e shaper californiano, Pat Curren
. Cresceu surfando as melhores direitas do Oeste americano, no point break de Rincon, onde moldou seu surf clássico e moderno ao mesmo tempo. Foi campeão mundial amador jr. em 1980, aos 16, e open aos 18. No mesmo ano [1982], obteve sua 1ª vitória no mundial profissional, o Marui World Surfing no Japão, derrotando na final o australiano Tom Carroll, bicampeão mundial em ‘83/84.

Curren dominou o cenário competitivo dos anos ’80
, uma época cheia de talentos absurdos – Carroll, Pottz, Kong, Gerr – e competidores vorazes – Lynch, Hardman, Macauley, Ho. A diferença dele p/ os demais era a extrema classe: centro de gravidade baixo, joelhos juntos, braços sob controle. Surfava como os antigos longboarders, c/ alma e c/ calma, mas suas manobras eram tão fluidas, rápidas e explosivas que pareciam contradizer seus movimentos.

Quando eu tinha 13 anos, meu pai me disse que meu surf estava mais pro Jeff Hackman que pro Larry Bertleman. Isso foi tipo um aviso que ele me deu e que me ajudou a entender meu surf”, revela Tom. Bertleman, o homem-borracha do Havaí, era um showman; o californiano Hackman, o Mr.Sunset, era mais conhecido por sua finésse no trato da onda. Tom ouviu os conselhos de Pat e trabalhou seu ponto forte p/ tornar-se a epítome do estilo: hoje não há 1 só surfista na Terra que passe incólume à sua influência. Pode-se dividir o surf em A.C. e D.C. – antes de Curren e depois de Curren.

A bordo de suas
Channel Islands modelos Black Beauty e Red Beauty, venceu 12 eventos entre 1985 e ’86, durante as campanhas de seus 2 primeiros títulos mundiais. “Havia surfistas e havia o Tom Curren”, diz Kelly Slater: “No início da minha carreira perdi 6 ou 7 vezes p/ ele, por melhor que eu estivesse ou pior que ele surfasse. Havia qualquer coisa em mim que não me fazia aceitar bater o Tom Curren”.

OLHOS DE LOBO
Eu vou parar esses punheteiros americanos!” Essa história ficaria chata sem a interferência de um personagem: Marco Luciano Jay Occhilupo, um descendente de italianos que, ao seu modo, também redefiniu a maneira de se correr uma onda. “A primeira vez que vi Occy surfando foi em Jeffrey’s”, recorda-se Curren. “Ele tinha tanta energia, fazendo cada curva c/ tanta força e velocidade. Sua antecipação a cada momento era demais, realmente incrível.”

O mundo abriu os olhos p/ Mark Occhilupo em Jeffrey’s Bay, África do Sul. Durante o Billabong Country Feeling de 1984, Occy reinventou o surf de costas p/ a onda nas paredes de 2 metros da direita mais perfeita do mundo. “Eu sei que estou surfando c/ mais radicalidade e controle do que qualquer um antes de mim”, afirmou o garoto de 17 anos ao sair vitorioso em mais uma bateria, c/ a impáfia típica dos jovens. Na final, aplicou uma combination no havaiano Hans Hedemann p/ levar seu 1º evento na ASP.

"Quando eu cheguei, Tom estava no melhor da sua forma, enfileirando os adversários. Ninguém conseguia alcançá-lo”, Occy admite: “Eu não estava nem perto daquilo, tive que ralar muito p/ chegar ao nível dele”. Nos anos seguintes, ele conquistou suas mais emblemáticas vitórias: o Gunston 500 na África do Sul, o Swan MR Thriller na Austrália,o bicampeonato no Op Pro da Califórnia, e a coroa do Pipeline Masters, no Havaí.
Em todos esses eventos, arrasou os heróis locais – o sulafricano Shaun Tomson, campeão mundial ’78, em Durban; o aussie Mark Richards, tetracampeão do mundo [’79-‘82], em Margareth River; Curren nas marolas de Huntington Pier; e o havaiano Ronnie Burns em um Pipe grandão de ressaca [foto].

Occy tinha no pé todas as manobras novas”, diz Curren. As performances de Occhilupo lhe valeram o estrelato e um apelido: “Raging Bull”, Touro Indomável, alcunha emprestada do lutador Jake La Motta. As semelhanças entre os 2 iam além da força bruta e do sangue italiano. Occy era um rebelde, e a promessa de título mundial que não se concretizava foi lhe envenenando aos poucos.

Obteve sua última vitória em novembro de 1986, no BHP Steel International, em Newcastle, Austrália, derrotando na final adivinhem quem.
Em ’87, perdeu a final do Stubbies Pro p/ Curren em Oceanside, Califórnia, e terminou o ano em 9º lugar no geral – sua pior classificação desde que começara a correr o circuito. Em ’88, abandonou o tour na metade e só reapareceu no Havaí, ficando em 5º lugar no Billabong Pro AAA, o campeonato mais rico da época, que deu o título mundial a Barton Lynch num Pipe perfeito. Em ’89, deu as caras na perna francesa do mundial e, correndo os trials, chegou em 3º no Arena Surfmasters, vencido pelo inglês Martin Potter, o campeão do mundo naquele ano.

O LADO NEGRO DA FORÇA
Compare o último parágrafo aos 4 anteriores e você terá o quadro da meteórica decadência do Touro Indomável. Occy alternava momentos de euforia, quando promovia festas em seu apartamento, a outros de depressão, nos quais preferia ficar sozinho. Fumava, cheirava e bebia todo dia – e toda noite. Acostumado a destruir reputações, estava agora sabotando a sua própria.

Sem seu maior rival na cena, Tom Curren foi perdendo o interesse pelas competições
. Em ’88, ano em que travou seu último duelo contra Mark Occhilupo [nas semifinais do Marui Japan Open], o ídolo americano competiu no mínimo de etapas necessário p/ manter-se entre os Top 16, vencendo 3 delas – incluindo 2 vitórias back-to-back na Califa. A temporada acabaria c/ Curren em 15º e Occy, 42º na classificação geral. Em ‘89 TC só competiu nos EUA e Europa: ficou em 2º no Op Pro, perdendo p/ Richie Collins na final, e venceu o Rip Curl na França, seu 23º triunfo na ASP. Mesmo assim, não foi o suficiente p/ manter-se entre os tops – terminou em 50º no ranking.

Voltou ao tour em 1990 p/ conquistar 7 eventos e seu 3º título mundial
. Conquistou também 2 recordes que duram até hoje – único campeão do mundo vindo das triagens e maior número de vitórias numa só temporada [empatado c/ Damien Hardman e Kelly Slater, que também venceram 7 campeonatos em ’87 e ’97, respectivamente]. Outro recorde, de 33 campeonatos na carreira, obtido no ano seguinte, demorou 16 anos p/ ser batido – por Slater, atualmente c/ 42 tentos.

Inspirado em Curren, Occy arriscou uma volta no início dos anos 90
: estrelou 3 filmes do cineasta Jack McCoyPump, Bunyip Dreaming e The Green Iguana – e venceu o Hot Tuna na Inglaterra em ‘92, ano de estréia das duas divisões da ASP, o WCT e o WQS. Mas seu lado ‘Jake La Motta’ ainda falava alto, e após derrota na França, sofre uma crise nervosa e enterra suas pranchas na areia da praia. A partir daí, atinge o ponto mais baixo da sua vida, mergulhado numa deprê que o impedia de sair do sofá, engordando mais de 40 quilos. Aos 25 anos, o Touro Indomável mais parecia um boi pronto p/ o abate.

Em ’91, TC conquistou sua última vitória no mundial causando polêmica
– usou uma prancha sem logotipos durante a temporada havaiana, o que lhe custou o patrocínio da OP. A final estelar em ondas de responsa na praia da Haleiwa, composta pelos campeões Carroll e Pottz além do local Johnny “Boy” Gomes, atestava o alto grau de sua performance. Perdeu por pouco a vaga entre os tops no final de ’92, ano em que os novos formatos do circuito ainda estavam sendo testados e só os Top 16 classificavam-se pela divisão principal – Curren terminou em 17º. Sem mais nada a provar nas competições, o maior astro do surf dos anos ’80 partiu p/ outras viagens.

ANARQUIA E REDENÇÃO
Em maio de 2009, o site Surfline perguntou a Curren o que ele teria feito da vida caso não tivesse se tornado um surfista pro: “Eu tentaria viajar pelo mundo e surfar sem ninguém me julgar.

Em 1993, o melhor competidor de todos os tempos tornou-se free surfer
e partiu sem destino no projeto The Search, do seu patrocinador Rip Curl, que consistia em descobrir novas ondas em lugares remotos. Ao mesmo tempo, lançou-se como guitarrista c/ um disco de folk rock c/ influências de jazz e partiu numa turnê c/ a banda Skipping Urchins que passou por 27 cidades americanas.

Em ’95, assombrou o mundo ao surfar a inexplorada direita de Bawa, na Indonésia, c/ uma biquilha 5’7” em tubos pesados de até 10’
. Vivia-se a febre das pranchas ultrafinas e estreitas, lançada pelo Slater, e Tom Curren vinha na direção oposta. Convidado a competir em algumas etapas do WCT ’96, apareceu na França c/ uma 5’5” twin fin caindo aos pedaços. Surfando c/ um toco amarelado dos anos ‘70, bateu o nº 8 do mundo naquele ano, o aussie Matt Hoy, outro surfista espetacular: “A 5’ do Curren era um acinte, pesada, antiga, completamente ultrapassada e talvez sequer tenha sido um dia uma prancha razoável. Naturalmente Curren seria capaz de surfar 50% melhor c/ uma leve e moderna triquilha e provavelmente nem tinha a intenção de humilhar Hoyo nem toda a indústria mundial de pranchas, queria apenas, vejam só que ironia, divertir-se. E, por vezes, a diversão é a forma mais pura de anarquia”, explica o blogueiro e ex-surfista profissional Júlio Adler.

A reputação de Curren como um dos maiores surfistas da história é respaldada pelas suas realizações como competidor. Mas a maioria dos que pegam onda define Curren como um artista, depois como um campeão mundial”, escreveu o jornalista Matt Warshaw no livro Surf Riders. Enquanto isso, outro artista renascia das cinzas sem que ninguém se desse conta. Durante 2 anos, Occy malhou pesado e voltou a encarnar na água, c/ o suporte da 1ª esposa e do amigo Gordon Merchant, CEO da Billabong, marca que nunca o abandonou. De 111 quilos em ’93, voltou aos 75 kg do início da carreira, e em ’95 varou as triagens e chegou à final do Pipe Masters, 10 anos após sua vitória, deixando pelo caminho o havaiano Sunny Garcia [campeão do mundo em 2000] e perdendo apenas p/ Slater, que conquistava ali o terceiro de seus 9 títulos mundiais.

Occy ralou durante todo o ano de ’96
, encarando batalhas no WQS contra fedelhos 10 anos mais novos, como Taj Burrow, Andy Irons e Neco Padaratz, todos voando em ondas que mal conseguiam segurar o peso do Touro Indomável. Conseguiu a vaga p/ o WCT no sufoco, ao terminar em 20º no ranking de acesso. Em ’97, atropelou a elite do surf profissional, fechando o ano como vice-campeão mundial, atrás apenas de Slater – seu novo arquirrival. Os dois protagonizaram uma final na etapa do Brasil que fez lembrar os melhores momentos das disputas Curren X Occy dos anos ’80.

Mark Occhilupo obteve sua primeira vitória no WCT em casa
, no Rip Curl Pro de Bells Beach, em ’98. Em 1999, OCCY vence 3 etapas do circuito – Gotcha Pro Tahiti, Quiksilver Pro Fiji e Billabong Pro Mundaka [foto]p/ finalmente chegar ao título mundial e obter sua redenção, aos 33 anos.

A VIDA É UM SONHO
Considera agora o que lhes acontecerá, naturalmente, se forem libertados das suas cadeias e curados da sua ignorância. Que se liberte um desses prisioneiros, que seja ele obrigado a endireitar-se imediatamente, a voltar o pescoço, a caminhar, a erguer os olhos p/ a luz: ao fazer todos estes movimentos sofrerá, e o deslumbramento impedi-lo-á de distinguir os objetos de que antes via as sombras. Que achas que responderá se alguém lhe vier dizer que não viu até então senão fantasmas, mas que agora, mais perto da realidade e voltado para objetos mais reais, vê c/ mais justeza?

No
Mito da Caverna, o filósofo grego Platão tece um diálogo fictício entre seu mestre Sócrates e seus irmãos mais novos, Glauco e Adimato, sobre seres humanos que passam a vida numa caverna, e cujo único contato c/ o mundo externo são sombras projetadas por um feixe de luz. É uma alegoria sobre a condição humana e o conhecimento. Segundo Platão, o processo p/ o domínio da consciência envolve a matéria – eikasia e pítsis – e as idéias – diánoia e nóesis. No livro A Vida É Um Sonho, o dramaturgo Calderón de La Barca explica: “[...] a realidade está no mundo das idéias e a maioria da humanidade vive na condição da ignorância, no mundo ilusório das coisas sensíveis, no grau da apreensão de imagens (eikaisa), as quais são mutáveis, corruptíveis [...]”.

Mark Occhilupo
manteve-se por 10 anos ininterruptos no WCT, aproveitando ao máximo a sua ‘2ª vida’. 15 anos após suas 2 vitórias na Califórnia, voltou a vencer o Op Pro duas vezes consecutivas, em 2000/01 – agora um evento especial p/ convidados. Nas ondas perfeitas da Mentawaii, bateu Slater, Sunny e os irmãos Irons, entre outros. Curtiu tanto a experiência que, na 1ª vitória, dividiu o dinheiro c/ todos os participantes. Também venceu 2 vezes o Super Skins em Bells Beach, outro campeonato p/ convidados onde cada bateria valia US$ 5.000; na 1ª edição, Occy venceu 11 delas e, invicto, levou a bolada de US$ 55.000 – até hoje um dos maiores prêmios da história do surf.

Foi vice-campeão mundial em 2001
, ano em que o circuito acabou na metade por causa do 11 de Setembro e o americano CJ Hobgood levou o título c/ uma combinação de resultados, sem uma vitória sequer. Nesse ano, Occy chegou à final da etapa do Brasil, mas antes da decisão na praia do Arpoador [RJ], resolveu ‘dar um 2’ na areia e quase roda na mão de um PM. A turma do 'deixa-disso' conseguiu liberar o herói doidão mas o estrago estava feito e, abalado, ele perdeu a decisão p/ Trent Munro, mesmo mandando um aéreo na melhor onda. Se tivesse vencido aquele campeonato, talvez hoje fosse bi mundial.

Astro de mais 1 filme do amigo Jack McCoy, The Occumentary, casou-se pela 2ª vez c/ uma taitiana 20 anos mais jovem, c/ quem teve 2 filhos, e em 2006 tornou-se o mais velho a vencer uma etapa da ASP, aos 40: o Margareth River Pro, no mesmo lugar onde conseguira uma de suas primeiras vitórias 21 anos antes – idade do seu oponente na final, Rick Basnett. Aposentou-se no ano seguinte, em Pipeline, c/ honras de herói: ao sair eliminado de sua bateria logo nos rounds iniciais, foi carregado na areia como se tivesse acabado de vencer o evento.

PRESIDENTE BOSSA-NOVAE Curren? Ele sempre foi ‘the Mysto Man’”, diz Occy, a respeito de seu grande rival e amigo. O Homem-Mistério seguiu gravando discos independentes e tentando seguir todo o WQS em busca de uma possível volta ao ‘CT, porém os problemas pessoais se sobrepuseram aos seus planos. Venceu algumas provas pequenas do ‘QS entre os anos de ’98 e 2001, mas o alcoolismo e as constantes separações, novos filhos e casamentos, envelheceram suas feições e lhe tiraram o foco.

Durante viagem de avião p/ um especial da Red Bull em Fernando de Noronha, foi alvo de piada do santista Picuruta Salazar, o 'Tom Curren brasileiro' dos anos 80 e um grande gozador: “Ih, olha só, o Menino Maluquinho já tá doidão!”, zoou Picuruta diante do estado etílico do ex-campeão.
Abandonado pelos antigos patrocinadores, às voltas c/ pensões alimentícias e cada vez mais endividado, TC começou a aceitar qualquer contrato que cobrisse o aluguel no final do mês.

Passou pela brasileira Mormaii e pela americana The Realm, na qual estrelou o filme Tom Curren For President, lançado em 2000 durante as eleições dos EUA – por certo ele seria melhor presidente que Bush, caso fosse candidato de verdade:
Eu não idolatro ninguém, mas respeito muito os pioneiros, como George Washington e Abraham Lincoln”. Há cerca de 6 anos retornou à Rip Curl, que adotou a estranha estratégia de enviá-lo a trips desbravadoras nos mares árticos do Canadá e da Rússia [foto]. Mandar o maior artista do surf p/ o exílio em lugares gelados c/ ondas mexidas. Quem é o responsável pelo marketing dessa marca?

Independente de sua trajetória errática, Tom Curren tornou-se uma lenda viva. Occhilupo também. Se o estilo de Curren é imitado por 11 entre 10 surfistas,
Occy será sempre o parâmetro do surf de costas p/ a onda. Não há um goofy no tour que não seja influenciado pelo seu backside [foto], assim como não há um só regular que não busque a mesma classe nas curvas que o Tom. Que o diga Joel Parkinson, líder do circuito e dono do melhor carve da atualidade, ou o veterano Taylor Knox, mais aplicado aluno da escola do estilo perfeito. Tom lançou a moda das fish, imitada por todos os pros que enveredam pelo caminho soul, como o americano Rob Machado e o neozelandês Dave Rastovich, e a moda dos surfistas músicos, encabeçada por Machado [à esquerda], que gravou um disco c/ o Slater nos anos ’90 chamado The Surfers e anda sempre c/ uma viola debaixo do braço, e Jack Johnson, o melhor compositor dessa safra: “Jack é muito bom no que faz, despretensioso, melódico, e também ajuda o meio ambiente. É um grande sujeito”, elogia Curren.

[...] E se então distribuíssem honras e louvores, se tivessem recompensas p/ aquele que se apercebesse, c/ o olhar mais vivo, da passagem das sombras, que melhor se recordasse das que costumavam chegar em primeiro ou em último lugar, ou virem juntas, e que por isso era o mais hábil em adivinhar a sua aparição, e que provocasse a inveja daqueles que, entre os prisioneiros, são venerados e poderosos? Ou então, como o herói de Homero, não preferirá mil vezes ser um simples lavrador, e sofrer tudo no mundo, a voltar às antigas ilusões e viver como vivia?” De novo, o Mito da Caverna de Platão.

A BAÍA

"E se tiver de entrar de novo em competição c/ os prisioneiros que não se libertaram de suas correntes, [...] e antes que seus olhos se tenham recomposto, pois habituar-se às sombras exigirá um tempo bastante longo, não fará que os outros riam às suas costas e digam que, tendo ido lá acima, voltou c/ a vista estragada, pelo que não vale a pena tentar subir lá?", pergunta o sofista Sócrates.

Occy e Curren passaram 21 anos sem disputar uma bateria contra o outro – até semana passada, quando participaram do Billabong Pro em Jeffrey’s Bay, válido pelo circuito mundial 2009. O evento, que contou c/ as melhores ondas do ano até agora, foi vencido por Joel Parkinson [foto] – que contabiliza 3 vitórias em 5 etapas e já pode ser considerado o virtual campeão deste ano. ‘Parko’, que foi bicampeão pro-jr. em ’99/01 e vicecampeão mundial 2002/04, obteve sua 1ª vitória no WCT nessa mesma J-Bay há exatos 10 anos, ainda adolescente, competindo como convidado: “Wow! Uma década passa mesmo muito rápido! Eu curto voltar aqui todo ano desde aquela 1ª vez, sempre é uma viagem incrível e eu pretendo voltar tantas vezes quantas forem possíveis”, disse o australiano.


Kelly Slater, 37 anos e de olho no 10º título, perdeu na 3ª fase p/ o brother Taylor Knox, 38. “Quando estou no mar não penso em quem é o meu adversário, só quero vencer. Mas é uma sensação estranha ganhar dele, porque somos amigos há mais de 20 anos. Ao mesmo tempo, ele é provavelmente o maior surfista de todos os tempos, e um resultado como esse é sempre bom”, falou Knox sobre Kelly, que saiu da água tão puto que jogou a prancha longe e deu socos na banheira de hidromassagem: “Agora eu tenho que vencer 3 campeonatos p/ voltar ao jogo. Olhando os números, Parko está a umas 10 baterias na minha frente, e se eu quiser entrar na briga tenho que alcançá-lo”. Antes disso, Slater havia dado show na sua bateria de estréia, marcando a maior média a 2ª fase: 18,84 num total de 20 pontos possíveis – chegando a descartar um 9 e um 9,23.

Os goofies Damien Hobgood e Kai Otton chegaram em 2º e 3º lugares, respectivamente, honrando a presença de Occy no pico. O wild card Sean Holmes [à direita], local c/ o melhor retrospecto em Jeffrey’s, chegou às quartas deixando p/ trás o campeão de 2007, Taj Burrow. Só foi parado por Dane Reynolds, a grande esperança yankee. Eleito o “surfista do ano” pelos leitores da revista californiana Surfer em 2006, ele ainda não tem resultados que o credenciem como herdeiro natural de Curren e Slater, pelo contrário – antes dessa etapa vinha amargando uma série de 33ºs: “Ninguém gosta de perder. Mas essas derrotas me fizeram querer competir de novo. Eu voei meio mundo p/ chegar aqui e queria vencer”.

SUPERTUBES Querer é poder, e em J-Bay Dane desencantou. Na 2ª fase travou um confronto contra Jordy Smith que tem tudo p/ ser a disputa dos títulos da próxima década. Jordy é a grande promessa sulafricana [grande mesmo, já que o moleque tem quase 1m90cm], venceu o Pro-Jr. e o WQS em 2007, está entre os Top 10 este ano, mas foi escovado em casa no duelo da nova geração. “Jordy ficou remando do meu lado o tempo todo, então eu pensei ‘certo, vou te deixar em pedacinhos’”, contou Reynolds sobre o tubo nota 10 que desclassificou Smith: “Mesmo no free surf, eu nunca sento lá fora e espero as séries. Eu sempre fico no inside e muitas vezes isso me atrasa nas baterias. Naquele 10, eu nem tinha certeza se a onda ia prestar. Eu tinha a prioridade e quando dropei, cavei e vi aquela linha se estendendo ‘por dias’, tive a certeza que a coisa ia ser boa.

Dane Reynolds tem 23 anos, é bancado pela Quiksilver – mesmo patrocinador de Slater – e seu livro de cabeceira é Pergunte ao Pó
, do conterrâneo John Fante. Jordy Smith
[foto] tem 21, é o melhor surfista da África do Sul desde Shaun Tomson, e há 2 anos foi pivô de uma das maiores negociações do mercado, ao ser disputado pela Nike, Quiksilver e O’neill, marca de roupas de borracha californiana que ganhou a disputa. Na ocasião, foi cortejado por megastars como Tiger Woods e o próprio Slater, a mando dos respectivos patrões, é claro. Mas tamanha bajulação e o salário milionário ainda não deram em nada – pelo menos, não no WCT. Ano passado perdeu na 1ª fase p/ Mineirinho, 22 anos, que junto a eles e ao francês Jeremy Flores, de 20, forma o G4 dessa geração.

Reynolds chegou às semifinais marcando mais um 10, na bateria contra Sean Holmes: “As ondas estavam tão divertidas que eu nem me senti num campeonato. Tinha umas que eu achava que não ia completar, dado o grau de dificuldade, mas eu puxei o limite e foi demais!Dane marcou a maior média de todo o campeonato, 19,20, e c/ a 3ª colocação sobe de 34º p/20º no ranking. “Este evento foi uma mudança bem-vinda p/ mim. Eu não tive um bom começo de ano, c/ problemas de acerto de prancha e tal... Eu nunca me dou bem quando penso no que devo fazer numa bateria, então eu só vou lá e surfo. Este resultado tira um pouco de pressão sobre mim em termos de classificação.


Outro destaque foi o novato do Tahiti, Michel Bourez, 23 anos, que também tirou um 10 p/ vencer o campeão mundial de 2007, Mick Fanning
, na 2ª fase: “Definitivamente, eu me sinto preparado p/ surfar nessas condições – longas direitas, tubos perfeitos. No meu 10, eu tinha acabado de voltar da minha primeira onda e ‘tava bem cansado, mas vi a onda subir e disse pra mim ‘é essa’. Me entoquei 3 vezes até a areia, fiquei tão amarradão que exigi a nota dos juízes. Eu TINHA que fazer isso!


ALÉM DAS PRANCHAS FLAMEJANTESUm evento marcado por tubos perfeitos e grandes duelos. Nenhum deles, no entanto, tão aguardado e eletrizante quanto o de Tom Curren & Mark Occhilupo no CLASH OF THE ICONS, o “Choque dos Ícones” promovido pela Billabong. Numa jogada de mestre, a patrocinadora do evento realizou 2 baterias de exibição reeditando as batalhas dos 2 maiores ídolos dos anos ’80.

O placar estava empatado em 8 X 8 há mais de 2 décadas: encontraram-se 16 vezes em disputas homem-a-homem de 1983 a ’88, c/ Occy levando vantagem nos 5 primeiros embates. Curren tem quase o triplo de vitórias no circuito mundial – 33 na fase pré-WCT, mais uma no Op Pro Fiji ‘87, que não contou p/ o ranking, 3 no WQS e 3 títulos mundiais [1985/86/90]. Occhilupo tinha 8 vitórias até abandonar o circuito, mais 4 na volta ao WCT, totalizando 12, mais 4 especiais, 4 WQS e o título de 1999. Seu aproveitamento foi de 55% na carreira, enquanto Tom tem a melhor porcentagem de todos os tempos, 73%, superando até mesmo Kelly Slater – foram 127 eventos até sua 33ª vitória, Slater conseguiu sua 34ª no 163º...

TC tem mais títulos, mas Occy reescreveu uma parte da história do surf em Jeffrey’s, há ¼ de século, e tem ali um trunfo: a vitória no Country Feeling em ’84. Curren nunca venceu na África do Sul, até porque passou a boicotar o país a partir de ’85 em protesto contra o apartheid. O reencontro dos 2 gerou grande expectativa em toda a comunidade internacional. O jornalista americano Lewis Samuels escreveu em seu blog:Coincidentemente redescobri o trailer de Beyond Blazing Boards hoje – o primeiro filme de surf que eu vi na vida. Cara, o aéreo do Occ e a batida vertical do Curren! A música é ‘Wild Child’ dos Untouchables. Comprei o vinil em ’87 p/ instigar minhas sessões.

A 1ª bateria caiu na água na terça-feira, 14/07, em ondas de 1 metro bem formadas. Occy largou na frente c/ um 6,5 e apostou nas intermediárias. Curren foi mais seletivo, optou por se posicionar mais no outside, e isso fez a diferença. Logo em sua 1ª onda marcou 7 pontos c/ um belo floater. Arrematou a vitória c/ um tubo, 2 rasgadas e um floater animal, indo parar nas pedras e marcando 7,5. No dia seguinte, antes da final do evento principal, rolou a 2ª disputa entre os dois. Desta vez, em ondas maiores, Occhilupo exibiu seu backside poderoso, que mantém afiado em treinos c/ o Parko, p/ somar 13,67 em 2 ondas e obter sua revanche. “Acho que havia muita energia e muita expetativa p/ este duelo, as ondas devem ter ficado um pouco assustadas”, avalia o sempre engraçado Occy.

SURFANDO A HISTÓRIA
Ao abandonar o circuito mundial, ambos fizeram a ASP começar a caminhar na direção que está hoje. Não haveria circuito dos sonhos sem essa dupla. “Competição é o formato mais puro do surf profissional, p/ mim, porque não está tentando ser nada mais do que realmente é. Campeonatos são a forma mais honesta de ganhar a vida surfando”, disse Curren em ‘96.

Paralelo ao WCT, acontecia no Brasil o Maresia Surf International, etapa 6 estrelas do WQS encerrada no último domingo. Provando que a História está sempre sendo escrita, o adolescente Gabriel Medina, 15 anos, tornou-se o mais jovem surfista a vencer uma etapa do circuito mundial ao derrotar Neco Padaratz, 32, na final em Florianópolis [SC], derrubando um recorde que já durava 23 anos, desde a vitória de Nick Wood em Bells Beach no longínquo 1986. “Foi a maior emoção, né? Quando comecei c/ aquela nota 9, já pensei que na próxima onda ia arriscar tudo. E todos batendo palmas, até os gringos. Na saída da água, todo mundo veio falar comigo, dei até autógrafo. Sou um pouco tímido, não estou acostumado c/ isso”, disse Gabriel c/ seu cheque de US$ 20.000. Mais do que eu ganho em 1 ano. Nada mal p/ um menino de aparelho nos dentes e espinhas na cara.

E por falar em história sendo feita, enquanto eu postava este texto, Neco vencia o Coca-Cola Saquarema Pro, mais um 6* da perna brasileira. O catarinense, bicampeão do WQS 2003/04, está em seu 3º comeback: no 1º ano, inspirou-se em Curren p/ voltar ao WCT após 1 ano parado e vencer 2 etapas, o US Open em '99 e o Quiksilver Pro France em 2002; no 2º, inspirou-se em Occy p/ voltar à elite após ser punido por uso de doping; agora sua inspiração é Ronaldo: "Quando o vi o 1º gol dele no Corinthians, me emocionei e chorei. Pra mim, é o maior exemplo de superação do esporte. E serviu de inspiração p/ mim." Padaratz somou 2500 no ranking de acesso à 1ª divisão, liderado pelo pro-jr. de Natal Jadson André.

Lee-Ann Curren, a filha mais velha do Tom, é mais um sanguinho novo no circuito mundial. Nesse caso, sangue azul - além de herdeira do maior 'estilista' do surf, teve como babá Kelly Slater: "Lembro pouco, mas é divertido pensar que isso aconteceu. Hoje em dia nos encontramos mundo afora nas competições", diverte-se a francesinha de 20 anos, atual campeã européia e 7ª colocada no WQS feminino. Comparando o cenário do surf atual c/ o da sua época, na entrevista p/ o Surfline há poucos meses, o soulman da Califórnia arrematou: “O nível de performance tem sido astronômico, todo o surf aéreo... Mas o que mudou mesmo desde que eu comecei é que a impregnação na água se tornou muito mais intensa”.

9 a 9, tudo igual na batalha dos mitos. C/ uma vitória p/ cada lado em 2009, a balança mantém-se equilibrada. Slater já botou pilha p/ um novo tira-teima dos ícones em Bells, ano que vem. Melhor deixar quieto. Afinal, quem foi o maior: Da Vinci ou Michelangelo? Bach ou Beethoven? Van Gogh ou Picasso? Pixinguinha ou Noel Rosa? Pollock ou Andy Warhol? The Clash ou Ramones? Occy ou Curren? Gênios não se medem por números, apenas tentamos entendê-los. “O mito procura explicar os principais acontecimentos da vida, os fenômenos naturais, as origens do mundo e do homem por meio dos deuses, semideuses e heróis”, ensina a Wikipedia. “Pode-se dizer que o mito é uma primeira tentativa de explicar a realidade.

TOM CURREN – 03/07/64

506 baterias c/ 353 vitórias, 8 sobre Occy
45 finais, 33 vitórias, 73% de aproveitamento

MARK OCCHILUPO – 16/06/66

685 baterias c/ 380 vitórias, 8 sobre Curren
22 finais, 12 vitórias, 55% de aproveitamento


CLASH OF THE ICONS

heat 1 - CURREN 14.50 x 11.33 OCCY

heat 2 - OCCY 13.67 x 13.34 CURREN


BILLABONG PRO 2009


CURREN, aos 45, surfa mais que muito top do WCT

o touro OCCY e seu backhand indomável

Taylor Knox, o 2º melhor estilo do mundo

3 em 5: ninguém segura o PARKO este ano

2 comentários:

Anônimo disse...

Occy é o Kurt Cobain e Tom o Eddie Vedder entre as batalhas extra palco dos reservados contra -ditores insanos-que-fazem-a-diferença.
Essa ta animal man

Abrax do ABdu Abu Jamal Vulgo Crow

Eliade Pimentel disse...

menino,que posts gigantes. mas aí gosta mesmo de surf hein?
Baía Formosa é conhecida como BF'Bay, e olhando a foto da baía africana, pensei que parece mesmo.
meu amigo, nosso Ítalo Ferreira levou a mirim do Maresias (brasileiro). Aqueles meninos de BF estão com tudo. Alan Jhones segue primeiro no ranking. Publiquei até um material na Tribuna do Norte esses dias... venha no sete de steembro para o Pena Amador!!! Tem casa, comida e roupa lavada!!!