sábado, agosto 15, 2009

AMPLA, GERAL E IRRESTRITA
A Anistia completa 30 anos este mês. No dia 28/08/1979, o então presidente João Figueiredo, 5º general a comandar o país durante o regime militar que durou de 1964 a 1985, assinou a Lei nº 6.683, concedendo anistia política a homens e mulheres perseguidos pelo sistema vigente: estudantes, professores, jornalistas, artistas e demais militantes de esquerda – alguns deles integrantes armados do movimento revolucionário – que foram presos, exilados ou mortos após o Ato Institucional Nº5, que fechou o Congresso em ’68 e recrudesceu a repressão à oposição.
DANDO NO COURO
O sergipano João Bosco Rolemberg Côrtes passou quase 5 anos no Presídio Barreto Campelo, na Ilha de Itamaracá [PE], de 1974 a ’79. Artista plástico, foi confinado por seu envolvimento c/ o movimento estudantil nos anos ’60, quando cursava Ciências Sociais na UFS. Durante o tempo que passou na prisão, Bosco Rolemberg produziu telas de pirogravura, técnica de ilustração no couro ou madeira usando uma caneta c/ ponta de metal aquecida.
Aquilo, de dar no couro, era o que ele fazia durante os quatro anos e nove meses que passou na ‘Ilha’. E que continuou a fazer, depois que saiu de lá”, escreveu Joana Côrtes em O Parto - Parte 1. Filha do artista, passou os primeiros anos de vida como uma ilhéu, tão perto geograficamente quanto de fato longe do pai: “Eu, dedo na boca, não lembro como fui parar ali. Aquilo era coisa de muita foice, lenço de camponesa, camisa aberta no peito, Zé Meninos, mato, pilão, olho de peixe morto, bocas vivas. Dava medo. Couro fede. Descapelar memórias, também.
Conheci Joana na universidade, ambos cursando jornalismo no final dos anos ’90. Mas sabe como é, THC causa amnésia e outras coisas que não consigo lembrar agora... E isso me valeu uma gafe, ano passado: ela estagiava na redação da TV e eu dirigia o Periferia, quando me interessei por uma série de reportagens – AI-5, Quarenta Anos Depois – que corajosamente revirava os esqueletos escondidos no armário. Procurei um dos editores-chefes, meu amigo Álvaro ‘Caninha’ Müller, e perguntei: “Cara, quem é essa Joana Côrtes da série AI-5? Quero este material p/ o programa!”; ao que ela, ouvindo o pedido, me estendeu a mão e disse: “Muito prazer, Adolfo! Lembra de mim?”.
Lógico que lembrava, só não associei o nome à pessoa. Eu sou péssimo. Bom, mesmo depois da minha ‘ratada’, ela liberou o material. Gente fina essa menina.
AMNESTIA
Joana mudou p/ São Paulo no início do ano, fazer mestrado c/ foco em literatura infantil. De férias em Aracaju, voltou a aprontar das suas: “Foi coisa de história de verão. Rede, sol, mar, balancei a imaginação: ‘Pai, olha só que legal, a Anistia faz 30 anos este ano, por que não fazemos uma amostra dos quadros que você produziu na Ilha?’”, escreveu em O Parto - Parte 2: “‘Oh, que beleza, não tem uma coisa mais nova não?’. A piada virou provocação. O que é que pode ser acrescentado nessa história de exposição, que aglomera, que diga mais, do que é que eu realmente gosto, o que falta pra aquecer em Aracaju? A palavra. Juntar Artes Plásticas e Literatura. Agora era isso.
Em cartaz desde o dia 06 na galeria Álvaro Santos, na praça da Catedral, centro da cidade, a exposição ANISTIADOS – Couro Esquecido, reunindo 10 telas de Bosco do período da prisão. São pirogravuras que retratam os nativos e os prisioneiros de Itamaracá, acompanhadas por 8 textos de Carlos Cauê, Cleomar Brandi, Lara Aguiar, Maria Carolina Barcellos, Maruze Reis, Nina Sampaio, Ronaldson e Vladimir Oliveira, além da ambiência criada por Raphael Borges, o ‘Mingau’, outro grande amigo meu, que criou instalações e uma videoarte interativa. “Meu desejo é que os jovens compareçam em massa à exposição e façam suas próprias leituras sobre significado de anistia. Nessa instalação de Mingau, cada um pode deixar seu conceito registrado, ao mesmo tempo em que o visitante também pode levar pra casa, através de filipetas, os textos plotados na exposição”, explica a curadora da mostra.
‘Anistia’ vem do grego ‘amnestia’, esquecimento. “De tirar da memória, de perder a lembrança de alguém, falta de atenção ou de interesse, nem sei direito, deu branco, esquece”, brinca Joana, que nunca nos deixa esquecer esse período tenebroso do Brasil, seja através de suas reportagens investigativas ou pela exposição, que permanecerá até o dia 29 de agosto: “Essa vontade de tirar a palavra da ‘naftalina’, não era só mexer c/ as histórias que estavam guardadas e trazê-las à tona, mas também provocar naqueles mais jovens, que não vivenciaram a época, uma reflexão sobre o tema. Escolhi as telas de acordo c/ o perfil de cada um e o resultado final foi muito satisfatório. Alguns se expressaram através de crônicas, outros através de contos, cada um, seguindo o seu estilo, brincou c/ essa memória, esse passado tão presente”.
COURO ESQUECIDO
Bosco Rolemberg passou alguns anos trabalhando em fábricas do ABC paulista, antes de ser descoberto e levado p/ a cadeia. “Foram dez anos na clandestinidade. Eu sabia que ele tinha ficado preso na Ilha de Itamaracá, mas não sabia o que comia, o que ouvia... Sabia que os melhores amigos dele são de lá, mas ficou aquele vácuo. Daí, decidi remexer nesse assunto, unindo artes plásticas e literatura”, diz sua filha. “De lá, trouxe silêncio, violão, orvalho de suor. E um monte de tela. Couro esquecido.
Hoje secretário-chefe de gabinete da Prefeitura de Aracaju, Rolemberg ficou ‘amarradão’ c/ a iniciativa da filha. “Ele utilizou a arte como uma fuga e um apoio p/ poder aguentar toda aquela pressão”, diz Joana sobre os quadros expostos na mostra. Segundo suas próprias palavras, a proposta é o “desencouraçamento da memória” do povo.
Bosco e sua família sofreram muito, mas houve quem tivesse menos sorte. Os anistiados foram aqueles processados formalmente pela Ditadura, e os que tiveram seus nomes publicados em listas nos jornais. Milhares de pessoas presas, torturadas e desaparecidas não foram anistiadas pelo fato de suas prisões não terem sido registradas oficialmente pelos militares. “Essa exposição, além de resgatar esse período turbulento, serve p/ repensarmos sobre as 426 mortes que foram divulgadas à época, bem como p/ fazermos uma análise sobre as ‘verdades’ divulgadas sobre o regime e seus presos”, conclui Joana.
ANISTIADOS – Couro Esquecido
galeria Álvaro Santos, 06 a 29 de agosto

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