segunda-feira, agosto 10, 2009

O HOMEM QUE CAIU NA TERRA
Cê tá pensando que eu sou loki, bicho? / Sou malandro velho, não tenho nada c/ isso”...
Loki era o deus do fogo p/ os vikings, um gigante que se transmutava em diferentes formas. “Pode ser considerado como um símbolo da maldade, traiçoeiro, de pouca confiança; está entre as figuras mais complexas da mitologia nórdica”, informa a onisciente Wikipedia: “Sendo um misto de deus e gigante, sua relação c/ os outros deuses é conturbada. Entretanto, ele é respeitado por Odin, os dois mantém relações fraternas. Ele também ajuda Thor em algumas situações p/ recuperar seu martelo Mjölnir, roubado pelos gigantes.
No Brasil, ‘Loki’ é sinônimo de louco desde os anos ’70, graças a Arnaldo Dias Baptista, o genial líder da banda Os Mutantes. Garoto prodígio do rock brasileiro nos anos ’60, namorado da Rita Lee, artífice do movimento tropicalista, compositor de mão cheia, multiinstrumentista, visionário, precursor no uso de eletrônica nas gravações e ácido lisérgico na cabeça, lançou a gíria em 1974 ao batizar seu 1º álbum-solo e uma incrível bossa-nova c/ o epíteto acompanhado de uma interrogação:
LOKI?...“A gente andou / a gente queimou / muita coisa por aí”...
Ele é o músico mais importante do Brasil desde 1967”, sentencia o maestro Rogério Duprat no documentário LOKI – Arnaldo Baptista, 1º longa-metragem produzido pelo Canal Brasil, exibido na última sessão Notívagos, no 1º fim-de-semana de agosto, em Aracaju [SE].
Duprat foi o cara que lançou Os Mutantes na cena nacional, ao introduzi-los no circuito dos festivais, que bombavam na época: foram banda de apoio p/ Nana Caymmi em 'Bom Dia' e p/ Gilberto Gil em 'Domingo no Parque', canção vice-campeã do 3º Festival da Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record. O maestro, falecido em 2006, também fez os arranjos do 1º álbum do grupo, de 1968, mesmo ano em que participaram do disco-manifesto Tropicália.
Arnaldo montou sua 1ª banda c/ o irmão mais velho Cláudio, em ’64, aos 16: The Wooden Faces, ‘os caras-de-pau’ numa tradução literal. Conheceram as Teenage Singers, um grupo vocal de garotas do qual fazia parte Rita Lee. Os 2 grupos se uniram num só, c/ o caçula Sérgio no lugar de Cláudio, e formaram O’Seis. O compacto que lançaram pela Continental em ’66 continha 2 músicas c/ títulos premonitórios: 'Suicida' & 'Apocalipse'.
A DIVINA COMÉDIAO single vendeu menos de 200 cópias e decretou o fim do grupo. Mas Arnaldo, Sérgio & Rita formaram um trio que batizaram de Os Mutantes – sugestão de Ronnie Von, leitor da ficção científica O Império dos Mutantes, de Stefan Wul. O resto é história: lançaram 5 discos clássicos c/ esta formaçãoOs Mutantes [‘68], Mutantes [‘69], A Divina Comédia ou Ando Meio Desligado ['70], Jardim Elétrico ['71], Mutantes e Seus Cometas no País dos Baurets ['72] – , onde passearam pela música erudita, francesa, latina, caipira, MPB, psicodelia californiana, soul, e principalmente ROCK.
Arnaldo e Sérgio dominavam seus instrumentos, e foram pioneiros no uso de distorção, feedback e recursos de estúdio, muitas vezes inventando seus próprios pedais de fuzz e efeitos sonoros. Até mesmo Rita, que entrava mais c/ a voz, inovou ao adotar a harpa e o Theremin, um instrumento inventado pelos russos que funciona à base de ondas de rádio. “Se antes dos Mutantes o gênero no Brasil era basicamente imitativo, a partir do pioneirismo de Arnaldo, Sérgio e Rita, abriu-se o caminho do hibridismo”, diz a Wiki.
Outra marca da banda era a irreverência. Quase sempre se apresentavam fantasiados, e vários de seus hits como 'Top Top', 'Cantor de Mambo' e 'Meu Refrigerador Não Funciona', têm o efeito de uma boa piada. Concediam entrevistas engraçadas e divertiam-se juntos como crianças no parque. Eram tão unidos que a lua-de-mel de Arnaldo e Rita foi em um sítio – na companhia do resto do grupo, que já contava c/ o baixista Liminha e o baterista Dinho como integrantes efetivos.
Em ’69 tocaram na França, no Midem em Cannes e no Olympia de Paris. No ano seguinte, gravam no estúdio Des Dames a convite do produtor Carl Holmes, visando o mercado internacional. O disco trazia versões de músicas suas como 'Baby' e 'Ando Meio Desligado' p/ o inglês, mas o projeto foi abandonado pela Polydor após as gravações. Enquanto isso, Os Mutantes continuavam experimentando. Mas não exatamente música.
ANDO MEIO DESLIGADO...“Ficamos até mesmo todos juntos / Reunidos numa pessoa só”...
Foi Antonio Peticov, brasileiro radicado na Europa, quem apresentou LSD a Arnaldo, Sérgio & Rita. A experiência foi tão impactante que eles temeram enlouquecer logo naquela 1ª noite de ácido na Cidade-Luz. Sérgio passou o tempo todo tentando montar um circuito elétrico p/ não se desligar totalmente da realidade. “Aquele foi o início do fim”, constata Liminha no documentário.
LOKI, o filme, é a cinebiografia de Arnaldo, um talento precoce marcado pelo uso excessivo de alteradores de consciência, que perdeu a mulher que amava na juventude e a sanidade junto, um gênio taxado de louco e suicida que sobreviveu a um acidente quase fatal e hoje vive em seu auto-exílio num sítio do interior de Minas Gerais, ao lado da esposa Lucinha, pintando quadros, escrevendo, tocando e compondo.
O título do filme vem da estréia-solo de Arnaldo em 1974, o inspirado e atormentado Loki?, onde ele tenta exorcizar alguns fantasmas, como o traumático fim do relacionamento c/ Rita – “Ando me apegando ao passado / e em ter você ao meu lado”, canta ele em ‘Será que Eu Vou Virar Bolor?’. É um álbum que abrange vasta gama de estruturas melódicas, do samba ao jazz, c/ letras tão pessoais, ora divertidas ora depressivas, que é considerado unanimemente como um dos melhores discos já lançados no país, independente de época ou gênero. “É um álbum essencial p/ compreender a música brasileira”, afirma o crítico Nelson Motta.
VOU ME AFUNDAR NA LINGERIE
Loki? é um trabalho emblemático. E é uma gíria que ele criou e tem um significado na mitologia nórdica, de um deus nórdico, que tem a capacidade de se transformar. É um ser mutante e tem muito a ver c/ o Arnaldo Baptista, que assumiu várias formas durante sua carreira e vida. Tem essa relação da metamorfose c/ o Arnaldo", diz o diretor do filme, Paulo Fontenelle.
Após o rompimento c/ Rita Lee, Arnaldo passou pelo inferno em vida: foi internado 3X em hospícios, e na 4ª internação beijou a morte ao cair de uma janela do 4º andar da ala psiquiátrica do Hospital dos Servidores Públicos de São Paulo, em 1982, passando 4 meses em coma c/ uma fratura no crânio que deixou fortes seqüelas – mas não foi capaz de destruí-lo totalmente. Em ’73 gravou seu único disco pelos Mutantes sem Rita, o A e o Z [que só viria a ser lançado em 1992], antes de abandonar de vez o grupo.
Durante a década de ’70 Arnaldo alternou tentativas de seguir a carreira c/ surtos psicóticos. Aficionado por OVNIs, chegou a viajar p/ a Itália a fim de convidar o amigo Peticov [aquele do LSD] p/ ser o comandante da nave espacial que ele dizia estar construindo. Montou a banda Patrulha do Espaço em 1977: “Os Mutantes era uma coisa mais clássica, a Patrulha é mais funk, mais heavy”, definiu ele a uma repórter de TV da época, episódio retratado na película de Fontenelle, que também traz imagens esquecidas de apresentações deste grande grupo que permaneceu ativo no underground mesmo após a saída do gênio louco em ’78.
Arnaldo passou a colecionar sacos de lixo, falar num dialeto desconhecido, sofrer crises de choro, agir violentamente, abandonar shows e projetos. Sua obsessão pela qualidade de som chegou ao ponto de fazê-lo parar de tocar a cada música p/ descer do palco e ir à mesa de P.A. acertar o áudio, outro episódio citado por Peticov no filme, tornando impossível p/ o público acompanhar uma apresentação sua. “Uma vez ele abriu os braços e me falou que sentia o tempo todo pessoas entrando e saindo por seus poros”, revela emocionada a bailarina c/ quem trabalhou em uma peça antes da sua última internação.
LET IT BEDQuem é louco, nós ou Van Gogh?”, pergunta Sérgio Dias Baptista em Loki. Arnaldo ainda gravou mais um disco em 1980, o realmente deprê Singin’ Alone, lançado 2 anos depois na estréia do selo independente Baratos Afins. Passou a década recuperando-se do acidente que quase o matou, e em ’87 grava um disco caseiro em 2 canais entitulado Disco Voador.
A partir daí, o mundo redescobre Arnaldo. Em ‘88 é lançado Elo Perdido, álbum de estúdio c/ a Patrulha do Espaço gravado 10 anos antes e até então inédito, assim como Faremos Uma Noitada Excelente, registro ao vivo do mesmo período. No ano seguinte sai Sanguinho Novo – Arnaldo Baptista Revisitado, tributo produzido por Alex Antunes e Carlos Eduardo Miranda c/ várias bandas da nova geração tocando versões de suas músicas. Sepultura tocando 'A Hora e a Vez do Cabelo Nascer' e Ratos de Porão c/ 'Jardim Elétrico' comprovam o potencial destruidor das canções do Loki.
Mas o principal responsável pela redescoberta de Arnaldo e Mutantes foi ninguém menos que Kurt Cobain, que comprou os discos – que estavam sendo relançados em formato CD – quando veio tocar no Brasil em ‘93, no Hollywood Rock. Kurt deu entrevistas p/ a TV brasileira mostrando sua recém-adquirida coleção, exaltando a criatividade e vanguardismo da banda, e chegou a mandar uma carta p/ Arnaldo, saudando-o como um herói: "Cuidado c/ o sistema, eles te engolem e te cospem fora como sementes de cereja", escreveu. Todos quisemos conhecer melhor Os Mutantes depois disso.
Em ’96 a gravadora Virgin relançou Singin’ Alone e Arnaldo regravou a ‘Balada do Louco’, que entrou como faixa-bônus, e em ’99 finalmente é lançado Tecnicolor, o álbum d’Os Mutantes feito na França. A arte da capa é de Sean Lennon, apenas um dos muitos fãs gringos, como a banda Belle & Sebastian e o cantor Beck, que chegou a batizar um de seus discos de Mutations. Em 2004 Arnaldo mostra que está vivo e na ativa c/ Let It Bed, disco inédito de músicas novas, no qual ele toca TODOS os instrumentos. O álbum foi inteiramente gravado em sua casa em Juiz de Fora [MG], produzido por John, do Pato Fu, e lançado junto c/ a revista Outra Coisa, pertencente ao selo independente do cantor Lobão.
A.B. ROADEm 2006, Arnaldo volta a surpreender ao se reunir c/ o irmão Sérgio p/ o mítico retorno d’Os Mutantes numa formação clássica e quase perfeita – Liminha, que virou produtor de sucesso, no baixo e Dinho Leme, que não tocava profissionalmente há 30 anos, na bateria; apenas Rita não aceitou voltar, e foi substituída por Zélia Duncan. Foram homenageados no Barbican Hall de Londres durante a mostra Trópicália – a Revolution in Brazilian Culture. O show, realizado no mais tradicional centro cultural europeu, teve os ingressos esgotados antecipadamente.
Seguiram p/ uma turnê nos EUA, c/ os pernambucanos da Nação Zumbi e o texano Devendra Banhart como atrações de abertura. Tocaram no Webster Hall em N.Y., no Hollywood Bowl em L.A., no Fillmore em San Francisco, Moore Theatre em Seattle, Cervantes Masterpiece Ballroom em Denver, e no Pitchfork Music Festival em Chicago. A gravadora Universal aproveitou o momento p/ relançar todos os discos de 1968 a ’72, remasterizados a partir das fitas originais.
Em janeiro de 2007 apresentam-se pela 1ª vez no Brasil após quase 3 décadas de ausência, durante o aniversário de São Paulo, tocando p/ 50 mil pessoas em frente ao Museu do Ipirangac/ Sérgio vestido de D.Pedro I. Seguem numa breve tour nacional, até Arnaldo desligar-se de novo da banda, desta vez sem atritos, p/ cuidar de seus projetos pessoais: um livro de ficção – Rebelde Entre os Rebeldes – , o lançamento em CD dos 2 discos da Patrulha do Espaço, e exposições de suas pinturas e esculturas.
LOKI, o filme-homenagem, refaz essa trajetória enquanto ele mesmo conta sua história num quadro que vai sendo pintado ao longo das 2 horas de exibição. “Quem assistir ao filme vai ter uma idéia completa de quem é Arnaldo Baptista. Mas acho que não tem uma palavra p/ defini-lo: gênio, louco, engraçado, trágico, cômico. Pode ser tudo. Segundo ele, após ver o filme, ficou claro p/ o mundo que ele será sempre o rebelde entre os rebeldes", resume o diretor.
NOTÍVAGOSO documentário de Paulo Fontenelle levou os prêmios do júri no Festival do Rio e na Mostra de Cinema de São Paulo, entrou em cartaz nos cinemas no mês de junho e foi exibido em Aracaju através do esforço dos produtores da sessão Cine Cult, que correram atrás do Canal Brasil p/ conseguir a cópia digital.
O Cine Cult é um projeto que visa trazer [...] filmes alternativos, que fujam do lugar-comum”, escreveu Adelvan Kenobi no Jornal do Dia: “Começou há cerca de dois anos e, devido a seu sucesso, foi adotada pela rede Cinemark e hoje existe como sessão fixa em várias cidades do Brasil. Além de uma sessão regular e diária, à tarde, alguns eventos especiais acontecem esporadicamente. É o caso da Virada Cinematográfica e da Sessão Notívagos”.
Ambas sessões são espécies de happenings: na Virada, 3 filmes são intercalados ao longo da madrugada, c/ café-da-manhã no final; e a Notívagos exibe um filme à meia-noite seguido por um show de rock no saguão de entrada do cinema. Há até cerveja à venda – o que é permitido desde que todas as salas estejam fechadas. Surreal que uma cidade até poucos anos atrás tão provinciana hoje crie opções de diversão totalmente de vanguarda e destituídas de intenções comerciais [pelo menos por enquanto]. A molecada de hoje é privilegiada e não sabe.
A 1ª Notívagos aconteceu em janeiro, c/ Repulsa ao Sexo, clássico dos anos ‘60 do não menos clássico Roman Polanski – o cara que teve a namorada assassinada a facadas por Charles Manson e depois foi banido dos EUA acusado de pedofilia – , seguido da apresentação do duo The Baggio’s [foto], de São Cristóvão. A 2ª exibiu o filme nacional Fim da Picada e teve a banda Daysleepers. Desta vez, o show pós-filme ficou a cargo da Plástico Lunar, a melhor e mais chapada banda brasileira de rock surgida nos anos 2000.
FAREMOS UMA NOITADA EXCELENTEA Plástico existe há 9 anos e é formada por autênticos rockers, moleques da nova safra que sabem que o melhor de gênero foi feito nas décadas de ‘60/70, aliados a um batera veterano, chapado e sacado, o Marcos Odara, que fez parte da Crove Horrorshow nos anos ‘80/90. Todos cantam e compõem: Daniel Torres, vocal e guitarra, o baixista Bicho-Grilo, o tecladista Léo Airplane [sósia do Urso do Cabelo Duro, desenho animado das antigas] e o guitarrista solo Julico, que também é metade do dueto Baggio’s, além do insano Odara, amigo meu de antigas gigs.
Em 2001 a Baratos Afins lançou a Plástico Lunar na coletânea Brazilian Pebbles vol.2, projeto que reúne a nata do rock psicodélico brasileiro da atualidade, c/ a canção ‘Meu Jardim’. Depois disso vieram os discos The Plastic Rock Explosion e Coleção de Viagens Espaciais, todos lançados de forma totalmente independente.
Os caras tocam muito, esquema virtuose mesmo, mas suas músicas, mesmo quando flertam c/ o progressivo, são sempre ‘p/ frente’, diretas, sem firulas, cheias de riffs e refrões, c/ um pé na psicodelia e outro no hard rock, passeando pelas influências de Doors, Yardbirds, Pink Floyd, Led Zeppelin, Deep Purple, T-Rex, e como não poderia deixar de ser, Mutantes e Patrulha do Espaço. Na Notívagos, tocaram seus hits – ‘Formato Cereja’, ‘Sua Casa É o Seu Paletó’, etc. – e covers de ‘Light My Fire’, ‘Balada do Louco’ e ‘Será que Eu Vou Virar Bolor?’.
Grande noitada, terminada no apê do Adelvão junto c/ o pessoal das bandas Urublues e The Swamp Beat Brothers, de Itabaiana [SE], num fim de semana que começou na sexta-feira c/ a participação da Plástico e deste blogueiro no Programa de Rock, da Aperipê FM – 104,9 Mhz.
FAÇA VOCÊ MESMO
Fomos convidados p/ participar do projeto “Sergipanidade, criado p/ fomentar a cena local. Em alguns dias a cada mês, a rádio só toca música sergipana. Diante dessa exigência, meu chapa Kenobi, que além de apresentar o PDR mantém 2 blogs na ativa, resolveu radicalizar e só tocou pedrada: Karne Krua, Kerosenes, Cessar-Fogo, Gee-O-Die, Música das Cinzas e Misery Hi-Tech, algumas das bandas e projetos mais zoadentos que este estado já ouviu.
A Plástico passou por lá antes de partir p/ uma festa na Casa do Rock, na praia de Aruana, respondendo algumas perguntas dos ouvintes e fazendo um set acústico muito fino. A segunda metade do programa foi dedicada aos zineiros: Aquino do zine Guerrilha, o anarco-punk Nininho, da banda Logorréia e autor d’O Velho Zine, Cícero ‘Mago’, também da Logorréia e do zine Zoada, Fábio da Urublues e dos zines Rosebud e Vitrola de Papel, além de mim – surpreendentemente lembrado pelo trabalho que fiz c/ o Cabrunco entre ’95 e ’97 – , e o próprio Adelvan, influência p/ todos nós c/ seu zine Escarro Napalm.
Dias depois, encontrei o diretor da FM, Léo Levi, que também é DJ, e ele me disse que esse foi o programa de maior repercussão, bombando a semana toda nas listas de discussão da internet. É engraçado – e legal – que um veículo dado como morto – o fanzine – continue a encontrar público entre a gurizada. Eu mesmo fui considerado “acabado” nos anos ’90, tirado de “loki” por meu envolvimento c/ drogas, e caído no ostracismo no início desta década. Sem falar no grave acidente há 4 anos.
Arnaldo Baptista é comumente comparado a Syd Barrett, outro gênio, responsável por quase todas as músicas do disco de estréia do Floyd, The Piper at the Gates of Dawn, que também fritou o cérebro c/ ácido lisérgico. A diferença é que Arnaldo sempre foi mais músico e teve uma carreira muito mais produtiva, c/ 14 discos lançados [só c/ Os Mutantes foram 8, incluindo os gravados na França em ’70 e na Inglaterra em 2006, ao vivo no Barbican Theatre], a despeito de crises depressivas, internações psiquiátricas, e as conseqüências de sua quase morte – física e emocional.
PROBABILIDADECilibrina pra lá / Cilibrina pra cá / Eu sou velho mas gosto de viajar”...
Se de artista, médico e louco todo mundo tem um pouco, Arnaldo Dias Baptista é doutor honoris-causa. A questão é que o ser humano gosta de construir ídolos p/ em seguida destruí-los; rir daqueles que realizam algo grandioso e depois tropeçam nas suas próprias fraquezas. “Subestimar o fraco é só uma prova da sua incapacidade de adaptação / Por isso os mutantes triunfarão / Porque o futuro é uma probabilidade / e a única estabilidade é aceitar a incerteza”, canta Fábio Trummer, da banda Eddie, de Olinda [PE], em ‘Probabilidade’.
O mutante Arnaldo foi tratado como maluco pela sociedade e ridicularizado pela mídia no auge de sua vida. “Mas o que dizer dos 5 álbuns de sua carreira solo? E como chamar de loucura sua opção pela amplificação valvulada, agora que as novas gerações de valvulados demonstram, mais uma vez, a sua supremacia perante os leves e descartáveis transistores? Seria loucura também sua opção por guitarra Gibson em detrimento da Fender usada por seu irmão Sérgio? E seus 2 livros de ficção científica? E suas centenas de pinturas a óleo?”, pergunta o jornalista Marcelo Dolabela no artigo ‘Genialidade Valvulada’.
A verdade é que a genialidade de Arnaldo só poderia ser tratada, pela mentalidade mediocrizante brasileira, de uma forma: como loucura. Nem uma possível morte, várias vezes anunciada, seria adequada. A loucura. Assim teríamos nosso Syd Barrett, nosso Arthur Rimbaud, nosso Antonin Artaud”, diz Dolabela.
Como canta Trummer, “a única salvação é a transformação a cada segundo”. Semelhante ao Loki dos vikings, Arnaldo Baptista tem o poder de se transformar e, graças a ele, está mais vivo do que nunca, em cartaz nos cinemas c/ sua biografia, pintando e compondo em seu refúgio mineiro na companhia da sua mulher e anjo-da-guarda, longe dos homens, perto da natureza, 61 anos comemorados na última quinta-feira. E se alguém quiser entendê-lo, basta ouvir ‘A Balada do Louco’, sua canção-manifesto: “Dizem que sou louco / por eu ser assim / Se sou muito louco / por eu ser feliz / Mais louco é quem me diz / e não é feliz / Eu sou feliz”.
Eu juro que é melhor / não ser o normal”... Arnaldo 'Loki', misto de deus e gigante

4 comentários:

Adelvan disse...

Excelente, cara. Excelente mesmo - com citações até do Eddie, que eu considero uma das bandas mais subestimadas e injustamente (quase) ignorada do Brasil.

Congratulations. Bou até dar uma divulgada lá no orkut do programa, pq esse post está, realmente, sensacional.

fabio" binho "nunes disse...

CARACA....SENSACIONAL...CLASSICO...AO MAXIMO ESSE TEXTO QUE SO´ VC SABE FAZER....COM AQUELA PITADA ALUCINOGENA !!!!! ABRAXXX

FabioSnoozer disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
FabioSnoozer disse...

fala la_brasa_man, só uma correção:
o Liminha nunca chegou a participar da Reunião Mutante de 2006: ele declinou o convite, assim como a Rita!

cheers