quarta-feira, outubro 07, 2009

FILME QUEIMADO [ou Qualquer Título que Lhe Caia Melhor]Curta-SE é o Festival Iberoamericano de Cinema de Sergipe. Começou modesto e independente, há 9 anos, e hoje é importante & bancado pela Petrobras. “Fundamental” foi a palavra mais proferida pelos “realizadores” – como são chamados cineastas e videomakers hoje em dia – durante inúmeras entrevistas ao longo da última edição, realizada na virada de setembro p/ outubro.
Sem modéstia alguma, classificaria o cenário local em antes e depois do Curta-SE”, diz a produtora Rosângela Rocha, idealizadora do festival e diretora executiva da Casa Curta-SE. “Primeiro, pela reinserção de Sergipe no cenário nacional, incentivo à produção anual, fomentação das reflexões sobre questões antigas e contemporâneas do cinema e audiovisual brasileiro e mundial. Segundo por provocar a construção de uma política pública p/ o setor, ainda inexistente em Sergipe.” É fato.
Realizando cursos, incentivando o intercâmbio, a influência da Casa Curta-SE pode ser sentida em algumas das novas produções do cinema nacional, como Orquestra dos Meninos e O Senhor do Labirinto, 2 longa-metragens rodados dentro do estado c/ atores locais no elenco e parte da equipe técnica na produção. Uma nova geração vem sendo formada no Núcleo de Produção Audiovisual. E a única rede de salas de exibição de Aracaju oferece 3 sessões de cinema independente: a fixa Cine Cult todas as tardes e as esporádicas Notívagos e Virada Cinematográfica nas madrugas de alguns sábados.
AMALDIÇOADOSConheço Rosângela da época em que estudávamos cinema à noite no SESC, através de uma parceria c/ a Casa de Cinema de Porto Alegre, nos anos de 1997/98. Sergipe praticamente não existia no mapa cinematográfico, a não ser pelo ator Orlando Vieira e por passagens pontuais, como Sargento Getúlio e Tieta, rodados parcialmente aqui. Contato c/ o mundo externo, só através do acervo e da abnegação do jornalista Ivan Valença, que já freqüentou até o Festival de Cannes e mantém na base da resistência a Super Vídeo Locadora, onde podem ser encontrados TODOS os clássicos, de Lumiére e Melier a Scorcese e Tarantino.
Não havia festivais, nem filmes nem cursos, e através daquele convênio tivemos o 1º contato c/ caras que trabalhavam c/ película de verdade, como os premiados Giba Assis Brasil e Jorge Furtado. Era tipo ficção científica, os caras saindo de uma nave espacial – o cinema – e falando aos terráqueos – nós. Foi quando recebi a 'Maldição do Cacique Furtado':
- Cara, cinema não é o único meio pelo qual você pode se expressar. Se você já faz quadrinhos, faça quadrinhos! O tempo se encarrega do resto...
Salve Jorge. Desisti do cinema e voltei aos zines & HQs. Acabei indo parar na TV. Alguns ex-alunos viraram pesquisadores, professores, produtores. Outros foram mexer c/ música. E houve os que se tornaram publicitários. Deus tenha piedade dessas almas.
A Rosângela, não. A baixinha manteve o foco na tal da 7ª arte [dizem que a fotografia é a 8ª e os quadrinhos, a 9ª; e as tattoos? e o graffiti?]. Hoje, ela realiza um dos maiores festivais de cinema do Nordeste, quiçá do Brasil. “Fazer o Curta-SE, captar recursos, já é muito difícil”, disse ela ao Jornal do Dia em 22/09. Questionada sobre a falta de grandes projetos da Casa Curta-SE p/ além do festival, Rosângela rebateu: “Só conseguimos fazer o Curta-SE porque conseguimos nos classificar no edital da Petrobras, porque o incentivo local é difícil e quase insuficiente. Então, se mal conseguimos realizar o Curta-SE, como prever outras atividades com continuidade sem incentivo?
É por isso que eu faço quadrinhos, e só publico minhas histórias na Tarja Preta. “Mais barato que fazer uma guerra, ou um filme”, ensina o mestre Allan Sieber – quadrinista e cineasta. Nunca ganhei prêmio nenhum, mas sobrevivi a um acidente, casei, tenho bons amigos e voltei a pegar onda. Minha vida daria um filme.
O PROTESTO DO CABELOQuem sabe eu faça um e inscreva no Curta-SE? Isto é, caso haja uma 10ª edição, porque a 9ª quase não acontece. Marcado originalmente p/ abril, o festival foi adiado duas vezes este ano. E quando finalmente começou, em 29 de setembro, os problemas sucederam-se um ao outro. Na 1ª noite, o projetor deu pane no final do 1º curta da mostra competitiva, Resfriado, da Gabriela Caldas, campeã em outras edições c/ A Morrer e Epiphanie. Sessão encerrada por aquele dia.
Rubens Carvalho, diretor do documentário U-507, sobre um capítulo da 2ª Guerra Mundial passado na nossa costa, levou boa parte da comunidade de Areia Branca – praia onde foi afundado um navio da frota brasileira por torpedos de um submarino alemão – e além de não ter seu filme exibido, seus convidados [negros] passaram pelo constrangimento de serem enquadrados pela segurança por trazerem nas mochilas latas de Coca-Cola compradas em supermercado. Cultura enlatada, só pode a que é vendida dentro do Cinemark.
Na 2ª noite, a mostra de curta-metragens sergipanos, adiada na exibição anterior, atrasou absurdamente e só foi iniciada à 1:30H da madrugada de sexta. Um dos concorrentes, Alessandro Santana, o ‘Cabelo’, teve seu nome excluído da cédula de votação, e o do seu filme Desconforto da lista de exibição. “Desde a sua primeira edição, acompanho o festival. Trabalhei em um dos filmes exibidos no 1º Curta-SE, estou aqui novamente participando da 9ª edição como realizador, e percebi que, desde a publicação das obras selecionadas p/ esta última edição do festival, coisas estranhas têm acontecido”, diz Cabelo, que escreveu um manifesto, POR UM MÍNIMO DE RESPEITO PARA COM O ARTISTA SERGIPANO, reproduzido a seguir quase na íntegra:
Assim que recebi um e-mail p/ ir retirar minha credencial na Casa Curta-SE, lá vem o primeiro erro: meu sobrenome trocado na lista de circulação interna p/ controle das credenciais. Até aí, tudo bem. Um pedido de desculpas resolve o problema.
No primeiro dia da mostra de filmes sergipanos, somente um dos vídeos propostos para a mostra foi exibido, com defeito nos créditos e a mostra de vídeos sergipanos acabou-se aí. Os artistas sergipanos não tiveram seus filmes exibidos, assim como o público que compareceu a fim de apreciar a produção local foi desrespeitado.
Na segunda mostra, ocorreu uma coisa que mexeu particularmente com a minha pessoa: senti-me desrespeitado primeiramente por não ter sido mencionado na abertura da segunda noite, assim como também pela não inclusão do título do meu vídeo na cédula para votação do júri popular. Era como se eu não estivesse ali, ou como se simplesmente o vídeo não existisse.
Sim, eu me senti marginalizado. Não que eu estivesse fazendo questão de ganhar algum prêmio, mas simplesmente pela falta de organização (e conseqüente RESPEITO) do festival para com o meu trabalho, assim como os dos realizadores que teriam seus trabalhos exibidos na primeira mostra (que só exibiu um dos quatro vídeos programados).
Pois bem, vou ser bastante ingênuo ao crer que, pelo tipo de vídeo que eu faço (me dedico inteiramente aos vídeos ditos experimentais), a produção teria esquecido exatamente da minha obra no momento de digitar a ficha pois não lembraram da ‘estorinha’ que o meu vídeo contava, ou talvez o título seja muito grande e deu preguiça.
Uma outra leitura do fato se resume em uma simples palavra: INCOMPETÊNCIA. Ah, esse mal que assola esta cidade. O mesmo vídeo em questão – ‘DESCONFORTO ou Qualquer Título que Lhe Caia Melhor’; experimental, 15:18 min – também foi selecionado para outro festival em Sergipe, o Curta na TV da Fundação Aperipê, onde a fundação, EM CONTRATO, se predispunha a premiar com 100 cópias cada realizador dos vídeos selecionados. Até hoje espero essas cópias, embora agora sem mais nenhuma esperança, pois pelo que eu tenho ouvido por aí, a Aperipê está contendo despesas. E no caso desses vídeos, suponho que não os interessem mais, a partir do momento em que o realizador sergipano deveria por direito ter o seu devido reconhecimento, apoio e RESPEITO pela sua contribuição à cultura local (que não é somente festa de folclore/ cultura popular, e sim toda e qualquer manifestação artística produzida aqui nesta província).
Nestes dois casos me sinto DESRESPEITADO enquanto artista e sergipano que sou, concluindo aqui com algumas perguntas intrigantes:
É DESTA FORMA QUE SE APÓIA E VALORIZA A CULTURA LOCAL?
O QUE FINALMENTE RESTA PARA O ARTISTA SERGIPANO??
D’ACCORD
Cabelo falou o que muita gente pensou e não disse. Mas quem melhor resumiu o Curta-SE 2009 foi meu chapa belga Damien Chemin [foto], formado em fotografia p/ cinema em Bruxelas e diretor de 4 curtas e 1 média na Europa, que chegou ao Brasil há 5 anos p/ trabalhar num documentário sobre Lampião e nunca mais foi embora, depois que conheceu uma sergipana. Perguntei ao gringo o que tinha achado do festival, e ele me respondeu c/ seu sotaque francês: “Non consegui acharr nada. Fui na segunda noite, atrrassou tanto que fui emborra antes o início da prrojeçon. É muita bagunça esse negócio!
PREMIADOS – VÍDEOS SERGIPANOS
1º lugar: Resfriado – diretora Gabriela Caldas
2º lugar: O Arquivo de Ivan – diretor Fábio Rogério
3º lugar: U-507 – diretor Rubens Carvalho

6 comentários:

Adelvan disse...

Infelizmente, eu também já desiti de acompanhar o Curta-Se faz tempo. Depois de ter ido lá no G. Barbosa comprar quilos de alimento pra torcar por ingrsso e dar com a cara na porta umas 4 vezes, e das vezes que insisti e consegui ingresso, ficar lá esperando, esperando e esperando pelas sessãoes, quase sempre atrasadas. Nesse ultimo acabei vendo um filme pq o Roberto Nunes me deu um ingresso lá de ultima hora. Esperei pra ver os curtas sergipanos, mas deu aquele pane. Esperei uns 15 minutos pra ver se resolviam ou informavam as pessoas de que não ia mais rolar, desiti e fui embora, e me surpreendi com um coquetel da porra no corredor. Porra, eu (e mais um monte de gente) lá feito besta esperando a porra da sessão e o povo lá fora bebendo e comendo. Garanti umas duas empadinhas e fui embora, que já era tarde da noite de um dia de semana e no dia seguinte eu iria trabalhar. Lamentável isso, pois conheço pouco a idealizadora, Rosangela, mas a respeito muito. Não sei bem o que acontece pra ser assim tão bagunçado, nem nunca vi explicação na imprensa (mas ok, posso não ter visto pq não acompanho a imprensa sergipana).

Anderson Ribeiro disse...

GENTE, QUE RESFRIADO É ESSE QUE PEGA TODO MUNDO TODOS OS ANOS? NÃO É POSSÍVEL QUE NÃO HÁ NADA DE NOVO NESSE PLANETA?!!! SERÁ QUE VOU TER QUE DAR MINHA CARA A CALDAS? ANO QUE VEM ALGUÉM LANCE 'ANTIBIÓTICO' PELO AMOR DE DEUS!

Viva La Brasa disse...

Vale deixar claro que a intenção não foi detonar a Rosângela, nem a Gabriela, nem o Curta-SE...
Ambas são minhas amigas, da mesma forma que o Cabelo, autor do manifesto, mas não boto panos quentes nem comigo mesmo, e não adianta chorar:
Ou profissionaliza essa bagaça de uma vez ou merdas como as citadas no texto continuarão a acontecer nas próximas edições.

programa de rock disse...

Amar é: Apontar os problemas, também. Nada cresce apenas com elogios, brodagem e rasgação de seda

gabriela disse...

Anderson,

Como vai a vida ai em BSB?
Tudo bem?

Nao sabia que vc tb fazia curtas. Quero muito ver algo seu no proximo festival !!

suerte

g.

rafael disse...

Gosto muito do Curta-Se. Realmente ele é importantíssimo para a cultura sergipana. No entanto, falta mais preocupação com o público... O festival tem que ser pensado com foco no público, não em patrocinador ou nos convidados de outros estados.

As mostras que acontecem durante o dia necessitam de mais divulgação, pois, exceto a equipe e os jurados, o público destas mostras raramente passa de 5 pessoas. O que mais me entristece é que isso acontece desde que eu conheci o festival, no ano de 2005, e nada é feito para atrair mais público.

A quantidade de público para as mostras que acontecem no cinemark também está bem abaixo do potencial do curta-se.

Em suma, o curta-se é importantíssimo, porém precisa ser melhor conduzido para que cumpra seu papel de forma eficaz e possa crescer sempre.