sábado, outubro 24, 2009

FUNCIONÁRIO DO MÊS Eu tenho batalhado tanto por isso, desde que venci o Mundial Jr. e o WQS. P/ finalmente vencer aqui em Mundaka, onde a cultura é tão rica e as pessoas amam o surf, é incrível. É o dia mais especial da minha vida.” Adriano de Souza, surfista profissional campeão da 8ª etapa do circuito mundial de surf, o WCT.

WCT significa “world championship tour”, turnê do campeonato mundial. Adriano de Souza é o Mineirinho, paulista do Guarujá de 22 anos e uma trajetória precoce e vitoriosa. Venceu seu 1º campeonato profissional aos 14 anos, idade em que a maioria dos adolescentes ainda nem chegou ao ensino médio. Aos 15, foi campeão brasileiro da divisão de acesso ao Super Surf, o Brasil Tour, c/ 2 vitórias, uma delas sobre o ídolo Fábio Gouveia. Aos 16, CAMPEÃO PRO JR. na Austrália. Até hoje o mais jovem campeão mundial da ASP.

ASP é a sigla de “association of surfing professionals”, associação dos profissionais de surf. É a entidade que rege o surf mundial, estabelecendo parâmetros financeiros, competitivos e de performance, coroando campeões através de um circuito anual c/ etapas realizadas nas melhores ondas . É um formato legítimo e em constante aperfeiçoamento, que já premiou c/ o título de “melhor do mundo” lendas como Rabbit, Shaun Tomson, Mark Richards, Tom Carroll, Tom Curren, Mark Occhilupo, Sunny Garcia, Andy Irons e o mais vencedor de todos – Kelly Slater.

Os números falam por si: 9X campeão mundial, 41 vitórias no WCT, mais um título do WQS e outro do Eddie Aikau Memorial, quase US$ 2 milhões em ganhos acumulados na carreira – apenas na ASP, sem contar os patrocínios. E é aí que a porca torce o rabo.

REBEL TOURKS é patrocinado pela marca Quiksilver há quase 20 anos. Assinou em 1991 um contrato que lhe garantia $1 milhão de doletas por ano, antes mesmo do 1º título [que viria a galope em ’92]. Imagina seu salário atual. No início da temporada, ainda foi oferecido um ‘bicho’ de US$ 10.000.000,00 caso Slater vença o circuito pela 10ª vez. Mas o atual [enea]campeão mundial optou por testar formatos de prancha alternativos nas competições, surfando c/ quadriquilhas fish e perdendo de ‘prima’ nas primeiras etapas. “Não estou aqui p/ ser apenas um figurante”, disse após mais uma derrota: “Se não for p/ brigar pelo título, prefiro nem competir. E agora c/ três 17ºs seguidos, não sei se vou continuar.

Quando a Quiksilver renovou o contrato de Kelly por mais 5 anos, o chefe executivo da empresa, Bob Mcknight, divulgou na imprensa que “Slater tem algumas grandes idéias nas quais vamos trabalhar juntos p/ realçar o potencial de marketing do surf e levar as competições de surf a uma audiência mais ampla”. A idéia: um circuito centralizado nos EUA, c/ apenas 16 surfistas competindo em 8 eventos concentrados numa temporada de 5 meses, c/ premiação de US$ 1.500.000,00 por etapa e transmissão pela ESPN.

O WCT é bancado basicamente por 3 marcas especializadas em surf: Billabong, Rip Curl e Quiksilver, que, ao anunciar seu apoio à proposta de um novo circuito, pôs a ASP em polvorosa. A entidade está sem presidente desde que Wayne Rabbit, campeão mundial em ’78 e diretor da associação por mais de uma década, aposentou-se no início do ano. A debandada dos dólares gerados por uma eventual saída de Slater e seu patrocinador fez a ASP antecipar-se a anunciar a diminuição do número de competidores a partir de 2011 – de 44 p/ 32 – e aumento gradual de premiação nas próximas temporadas.

Os patrocinadores são donos de tudo atualmente. Isso precisa mudar”, disse o careca da Flórida à revista EXPN em maio. “A entidade reguladora do esporte deve deter os direitos e realizar os eventos, fazer a mídia, o marketing, trazer patrocinadores. No momento, a ASP não faz nada disso.

FUTURO DA NAÇÃOInfelizmente p/ a ESPN, eles não têm um comprador. Nunca tiveram. Na verdade, eles estão tentando vender o projeto à indústria do surf”, afirma o jornalista Nick Carroll [irmão do Tom, campeão mundial de 1983/84], revelando o blefe do campeão: “Eis porque a Quik está mais interessada que as outras; o novo ‘top star’ americano deles, Dane Reynolds, ainda não emplacou no WCT, e o ‘rei de todos os tempos’, Kelly Slater, está fora da corrida pelo 10º título em 2009. Se Dane sair e Kelly cansar, eles não terão nada.

Minha maior motivação é estabelecer um patamar superior p/ o surf profissional”, declarou Slater ao site SurfingLife: “Eu não quero sabotar ninguém. Se essa é a coisa certa, os outros surfistas serão peça-chave no sucesso do projeto.” A questão é: E se não for a coisa certa? “O surf, na minha opinião, por ser difícil praticá-lo e impossível de empacotá-lo p/ a TV, continuará a ser um esporte único, alternativo e muito especial”, rebate Álfio Lagnado, proprietário da marca brasileira Hang Loose, que promove a 4ª etapa do WCT – vencida este ano, vejam só, pelo Kelly.

Álfio foi o 1º patrocinador de Mineirinho, na época um piá de 10 anos. “Por que você não cresce e ganha o tão sonhado título mundial pro Brasil?”, apostou o empresário. “Desde garoto, a imprensa, esse animal irracional, cisma de jogar nas costas do Mineiro a responsabilidade de (como escreveu João Valente…) ‘carregar a expectativa de uma nação nos ombros’, uma maldade sem tamanho que fazem c/ ele desde que levantou seu primeiro caneco”, escreveu o blogueiro Júlio Adler na revista Hardcore: “Logo cedo, ao invés de ser abandonado como a maior parte das crianças pobres deste país, abandonou seu patrocinador de longa data, Hang Loose, e acertou um belo contrato c/ a gigante Oakley, um ato de coragem e, digamos, pouca afeição.

Todo mundo espera que seja campeão mundial, mas a maior pressão vem de mim – não dos outros”, disse Adriano ao jornalista Evan Slater, da revista americana Surfing.

CHANGESMudanças sempre assustam as pessoas”, insiste KS na entrevista p/ o jornalista Tim Baker, do SurfingLife: “Eu não estou mudando nada sozinho e sem apoio dos surfistas. Minha intenção é criar um ambiente competitive melhor p/ o surf. A atual estrutura está ultrapassada, e embora tenha servido a um propósito um dia, agora é a hora de mudar as coisas enquanto é possível ou continuar a permitir um modelo de negócio ultrapassado que atrasa a indústria e entrava o potencial do nosso tour. Se no fim os fãs e os surfistas tem uma plataforma melhor, por que alguém vai reclamar?

Observem os olhos de Kelly na foto ao lado. As órbitas das pupilas estão cada vez mais separadas, quase um camaleão. Mas, só p/ manter as metáforas no reino animal, “gato c/ 2 sentidos não pega rato”, já dizia minha mãe, dona Ana. Enquanto ele faz política e [mal] aparece num modesto 6º lugar no ranking 2009, c/ uma vitória, Mick Fanning [FOTO ACIMA], australiano campeão do mundo em 2007, faz uma corrida de recuperação e após vencer 2 etapas seguidas – EUA e França – roubou a liderança do amigo Joel Parkinson, que venceu 3 etapas no 1º semestre e depois não arrumou mais nada.

É a temporada mais disputada dos últimos anos. Menos de 50 pontos separam os 2 primeiros colocados, Mick e Parko, e um novo elemento apareceu na jogada, atropelando no final: Adriano de Souza, campeão em Mundaka, País Basco [oficialmente Espanha], no dia 13 de outubro. Igual aos Bastardos Inglórios, em um só dia Mineirinho arrancou os escalpos do australiano Chris Davidson na final e mais 3 americanos pelo caminho – entre eles Kelly Slater nas semis.

É meu 4º ano no tour. Eu competi muito contra Kelly, Andy, todos os grandes nomes, e perdi tantas vezes que aprendi algumas coisas no caminho. E agora tô começando a dar o troco. Toda vez que você perde, aprende algo”, filosofa Adriano, esbanjando humildade. Este ano só tenho em mente continuar evoluindo, continuar evoluindo... Competir c/ Joel e Kelly surfando no mesmo nível é demais, né?

QUERER É PODERTudo isso começou 5 anos atrás, c/ meu plano de treino, dieta, etc. No Brasil tenho um mÉdico que me acompanha. É difícil manter o programa na estrada, mas eu dou o meu melhor.” Mineirinho, que passou a usar o nome de batismo p/ não virar “Miney Rio” na pronúncia tosca dos gringos; que trocou o shaper que fazia suas pranchas desde a infância, Ricardo Martins, pela marca espanhola Pukas; hoje mora em San Clemente, Orange County. “A Califórnia tem boas ondas e bons surfistas. Eu sempre vejo alguns dos Top 44 surfando, o que é ótimo p/ me tornar um surfista melhor”, disse na entrevista a Evan Slater, intitulada The Education of Adriano de Souza: “Rincon, Jalama, alguns outros picos. Eu dirigi um monte pela costa. Sozinho. Foi incrível, cara!

Adriano divide o teto c/ Timmy Patterson, parceiro na equipe Red Bull. Oakley, Pukas, Red Bull, só patrocínio estrangeiro – Mineirinho é o surfista brasileiro mais internacional de todos os tempos. Aos 17 já era celebridade graças ao título mundial sub-20. Aos 18, campeão do WQS c/ vitórias no Brasil e na França. Classificado p/ o WCT aos 19, passou por maus bocados nos 2 primeiros anos: Quando vi Jeremy Flores sagrar-se Top 10, queria estar lá junto c/ ele”, disse à revista Hardcore, referindo-se a um dos principais rivais da sua geração. 2007 foi duro, e ano passado todos os caras novos estavam chegando – Jeremy evoluindo muito, Jordy e Dane estreando no tour… Eu tinha que dar um passo à frente, senão era melhor esquecer.

Quando Dane Reynolds e Jordy Smith chegaram ao WCT cheios de fogos de artifício, Mineiro já era quase um veterano”, comenta Júlio Adler no artigo Peter Pan Ao Contrário: “Jordy e Dane, que já chegam c/ um surfe maduro e pronto p/ o título mundial, pecam pelo que Adriano tem de sobra: garra. Peter Pan serve de metáfora pra todo tipo de fuga das responsabilidades. Mineiro enfrenta-as sem sequer piscar os olhos, ele escolheu isso e pronto.

TOUR DE FORCEMineirinho está em 3º no ranking, a duas etapas do fim. “Adriano vem da favela de Santos e é no mínimo tão esperto e talentoso quanto qualquer um no Tour”, analisa o australiano Ian Cairns, Top 16 nos anos 70 e ex-presidente da ASP. Na coluna Power Rankings do site Surfline, ele deu seu veredito após a vitória do brasileiro em Mundaka: “Minha estimada audiência tem me cobrado constantemente pela minha previsão de um título mundial p/ Adriano em 3 anos. E se for pra agora? Graças às suas origens, sua motivação p/ vencer é maior que a de qualquer um. Não se surpreendam se ele for o Campeão Mundial em 2009.

O moleque sempre foi decidido. Ainda menor de idade, conquistou a gata Cláudia Gonçalves, sua namorada até hoje. Modelo e surfista profissional, Claudinha é 2 anos mais velha que Mineiro e considerada a mulher mais bonita nas competições de surf. “Sempre dou entrevistas, mesmo que não chegue nas finais”, conta a beldade. Paulista criada na Praia do Francês [AL] e radicada em Florianópolis [SC], ela está entre as Top 8 do circuito brasileiro. Sua maior vitória aconteceu em 2006, num WQS 3* da Inglaterra c/ o sugestivo nome de Tampax Fresh Pro, categoria feminina do Rip Curl Board Masters. Mineirinho estava lá, garantindo a mulher e uns pontos.

Após 2 temporadas competindo como um Pro-Jr. no WCT, um garoto entre adultos, Adriano celebrou sua maioridade imprimindo um tour de force em 2008, obtendo bons resultados ao longo de todo o ano, evoluindo em esquerdas tubulares e pesadas, como Teahupoo [5º lugar], Cloudbreak [3º] e Pipeline [9º], terminando em 7º lugar, à frente de Jeremy Flores, Jordy Smith e Dane Reynolds – os adversários que interessavam, seus rivais na disputa dos títulos da próxima década.

Começou 2009 ficando em 2º lugar 1ª etapa na Austrália, e repetiu a campanha no Brasil. Perdeu essas finais p/ Joel Parkinson e Kelly Slater, respectivamente, mas na Espanha pegou um adversário mais fraco, Chris Davidson, e não deu mole pro azar: placar de 16,40 x 11,83. “Não achei as ondas na final, mas parabéns ao Adriano, é uma vitória merecida, de verdade”, disse Davo no pódio.

OUTUBRO ROSAAdriano de Souza é jovem, talentoso, bem-sucedido e, aos 22 anos, temido e respeitado pelos adversários. “Aproveitando a deixa do mestre Josué de Castro no livro Geografia da Fome, metade do circuito não dorme porque tem fome de vitória e a outra metade não dorme porque tem medo dos que sentem fome”, escreveu Adler em seu blog.

Dez surfistas têm chances matemáticas de vencer o WCT 2009. “Após a vitória de Adriano no Billabong Pro Mundaka, a corrida ao título mundial se tornou uma bola de boliche rolando p/ as últimas duas etapas: o Rip Curl Pro Portugal e o Billabong Pipeline Masters”, analisa Renato Hickel, tour manager da ASP. A penúltima etapa está na água, a 2ª fase acontece enquanto escrevo estas linhas, Heitor Alves e Bruno Santos já estão fora e ainda resta a bateria entre Mineiro e Jihad Kohdr. “Em Supertubes, ele será tratado como local e poderá amassar o lip, mandar aéreos ou entubar”, diz Ian Cairns, um fã da pesada.

Mineirinho vai perder de primeira e dar adeus ao título este ano? Ou vai atropelar os “coolie kids” Mick e Parko e trazer o caneco pro Brasa? “O Mineirinho é aquela torcida que temos”, admite seu ex-shaper Ricardo Martins: “Se não for campeão, não será demérito nenhum. Acho legal essa transformação: o surfista que era admirador desse circo passer a ser o protagonista. Principalmente quando o atleta transpose isso de forma limpa, só deixando mensagem positiva.” A ASP deve estar orgulhosa.

E Claudinha, a namorada que ficou no Brasil: vai posar p/ a Playboy? Na última terça, 20/10, foi lançada a campanha Outubro Rosa, de prevenção ao câncer de mama, e a loirinha paulista, em companhia de outras surfistas como a Top do WWT Jacqueline Silva, aparece seminua em fotos sensuais. A campanha está sendo promovida neste momento na Barra da Tijuca [RJ], onde acontece a última etapa do brasileiro feminino. A paraibana Diana Cristina, que não participou dos ensaios fotográficos, lidera o circuito c/ 2 vitórias.

Enquanto a lusitana roda, vocês ficam c/ as imagens da final na Espanha, uma galeria de fotos e a entrevista do nosso garoto prodígio ao site californiano First Stoke. Como falou o filósofo Henrique no blog Goiabada: “A necessidade faz o sapo pular. Pula, Mineiro!

FS: Que tal a mudança p/ Orange County?

AM: A Califórnia é um grande lugar p/ viver. Estou morando em San Clemente e surfo Trestles todo dia.

FS: Qual a maior diferença entre viver em Orange County e no Brasil?

AM: Morar na Califórnia é um sonho p/ mim. Aqui eu só penso em surf, no Brasil há um monte de coisas acontecendo… A Califórnia tem boas ondas e bons surfistas. Eu sempre vejo alguns surfistas do WCt surfando, o que é demais! Me instiga a ser um surfista melhor.

FS: Que parte do estilo de vida de um surfista profissional os garotos não imaginam encontrar quando estão tentando chegar aonde você está hoje?

AM: Eu ainda me sinto como um deles. Eu tenho apenas 22 e sei do que você está falando. Eu penso sobre minha carreira, e sempre acreditei que um dia estaria nos Top 44. Eu treinei muito p/ estar aqui. É doideira, eu mal posso acreditar que hoje sou um Top e viajo pelo mundo c/ os melhores surfistas. Eu amo o que faço e esse estilo de vida é o melhor que existe.

FS: Qual a maior diferença entre os surfistas do Brasil e do resto do mundo?

AM: Nós crescemos surfando em fundos de areia e o resto do mundo tem ótimas ondas por perto. Tipo, o Aritz tem Mudaka, Mick tem Snapper, etc.

FS: Como você recebeu o apelido ‘Mineirinho’?

AM: Quando eu estava crescendo c/ meus amigos, eles me deram esse apelido porque eu era o menor do grupo. Mineirinho é tipo “little boy”.

FS: O que você terá que fazer p/ alcançar seu objetivo de vencer o título mundial da ASP?

AM: Não colocar tanta pressão em mim mesmo. Vamos ver o que acontece…

MINEIRINHO ou "EU NÃO TENHO CULPA DE COMER QUIETINHO..."

CAMPEÃO EM MUNDAKA WCT 2009

LÁ VEM O BRASIL DESCENDO A LADEIRA


CLÁUDIA GONÇALVES...

AS MELHORES CURVAS DO SURF MUNDIAL

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