segunda-feira, outubro 19, 2009

A MATRIZ DA MATRIX

Acorde!
Olhe o mundo à sua volta. O que você está vendo não é real, o que te disseram até hoje – seus pais, os livros, a Igreja, os jornais, a TV – é mentira. A realidade, da forma como a conhecemos, é um simulacro. Uma simulação.

Mas você pode mudar isso. Fazemos parte de um grupo empenhado em libertar a humanidade. Estávamos de olho em você. Queremos que se junte a nós. Mas eles também estão na sua cola, e quando vierem atrás de você, é melhor correr. Quer saber quem são “eles”? Quer saber quem somos “nós”?
WAKE UP NEOVocê conhece essa história, ahn?
The Matrix é um dos filmes mais conhecidos e influentes dos nossos tempos. Neo, o hacker interpretado por Keanu Reeves, é convidado a ingressar numa organização paramilitar que o resgata da realidade virtual em que sempre viveu. O ano é 2199, e o mundo é controlado por máquinas, que mantém os seres humanos em casulos que funcionam como fonte de energia.
Neo acreditava estar em 1999, ano de lançamento do filme dos irmãos Wachowski. Foi um período de produções loucas, cerebrais e questionadoras em Hollywood, fin de siècle total: Clube da Luta, de David Fincher, e Quero Ser John Malkovich, de Spike Jonze, eram viagens ao centro da mente. E Matrix, um mix de ação c/ ficção científica, religião & filosofia c/ diálogos espertos, efeitos especiais inovadores, tensão sexual e um mundo p/ salvar. Você é meu Jesus Cristo, meu Salvador!”, diz um 'nóia' a Thomas Anderson, alter ego de Neo, ao comprar um programa pirateado.
A obra dos Wachowski está repleta de citações, algumas implícitas – de Sócrates, Platão e Descartes a Júlio Verne, Isaac Asimov e Phillip K.Dick –, a maioria escrachada: Neo esconde muamba no livro Simulacros & Simulação, de Jean Baudrillard, segue o Coelho branco igual a Alice no País das Maravilhas, e é libertado do sono por Morpheus, líder do bando cujo codinome remete ao deus grego dos sonhos. A vidente é xará do Oráculo de Delphos, que na mitologia passava as mensagens dos deuses p/ os homens em linguagem cifrada. E Neo, cuja sonoridade é de ‘novo’ em inglês, ao mesmo tempo em que é um anagrama de ‘One’, é o Ungido, o Escolhido, o Eleito, aquele que irá libertar a humanidade, segundo as profecias.
SANTÍSSIMA TRINDADEMatrix é um filme de luta que fala da dialética hegeliana, ao mesmo tempo que tem um homem que voa e pára balas de revolver.” Só nesta frase dos irmãos Andy & Larry, roteiristas e diretores da série, há referência a 2 filósofos alemães: Hegel e Nietzsche. E as citações bíblicas abundam: uma vez que Neo representa a volta de Jesus, Morpheus é o João Batista e a bela Trinity é a própria Trindade – através de seu amor o herói ressuscita. Que bonito.
A ênfase nas escolhas dadas ao personagem de Keanu Reeves acentua o caráter ético da sua trajetória”, explica a crítica de cinema Isabela Boscov: “Quando Morpheus diz a Neo frases como ‘não pense que você é, saiba que você é’ e ‘cedo ou tarde, você vai perceber que há uma grande diferença entre conhecer o caminho e trilhar o caminho’, elas traduzem sínteses do zen-budismo, no que diz respeito aos ensinamentos de autoconhecimento e iluminação.
Todas as idéias que um dia tivemos estão no filme”, disse Larry à época. Os irmãos Wachowski só esqueceram de citar, seja no filme, fosse em entrevistas, a verdadeira ‘trindade’ na qual Matrix se sustenta: um livro, um desenho animado e uma revista em quadrinhos. Neuromancer, romance cyberpunk de Willian Gibson, e o cartum japonês Ghost in the Shell já eram bastante conhecidos do público de ficção científica e sua influência é inegável, mas no caso de The Invisibles, gibi inglês do início dos anos ’90, as coincidências ultrapassam a tênue linha divisória entre inspiração e cópia.
DÉJÀ VUOs Invisíveis é a história de uma organização anarcopunk armada que tem como objetivo libertar o mundo do domínio de seres transdimensionais, os Arcontes, que influenciam o destino da humanidade através de agentes infiltrados em nossa realidade, aguardando apenas a hora certa p/ rasgar as paredes do real e dominar nosso universo. Essa ‘célula’ humana de resistência é composta por Ragged Robin, uma feiticeira ruiva sexy; Boy, ex-policial negra andrógina; Lord Fanny, xamã travesti carioca; e liderada por King Mob, um lutador careca de óculos escuros e trajes sadomasô, expert em ocultismo e controle da mente. Eles recrutam Dane McGowan, que precisa morrer p/ se tornar Jack Frost, entidade do folclore inglês que personifica o frio e o gelo do inverno.
Dane é um jovem hooligan de Liverpool, que aterroriza a escola c/ seus coquetéis Molotov e tem visões c/ John Lennon & Stu Sutcliff, o baterista que deixou os Beatles antes do 1º disco da banda [o cara mais azarado do rock]. Mas os Invisíveis vêem nesse delinquente menor de idade o novo Buda, e o resgatam da Casa Harmonia, instituto correcional que utiliza o método ‘experimental’ de extrair parte do cérebro dos detentos p/ torná-los seguros à sociedade. Em liberdade, Dane conhece o mendigo bruxo Tom O’Bedlam, que o leva ao topo do prédio mais alto, de onde pularão. “O velho Dane McGowan morreu naquela queda e você sabe disso”, diz Kin Mob na parte 3 de ‘Tão Fodido no Céu Quanto no Inferno’: “Pode sentar sobre o seu túmulo pelo resto da vida ou se juntar a nós e ser Jack Frost.
O pulo do prédio, o ritual de iniciação, a simulação da verdade, as forças ocultas, a resistência belicosa, o treinamento do escolhido... As semelhanças c/ Matrix não param aí. Se no filme o Neo escolhe a pílula vermelha, em Os Invisíveis é o mofo azul que faz despertar. Os rebeldes e os agentes deslocam-se em diferentes dimensões, e na ‘hora do vamos ver’, o kung fu comanda. “É muito melhor!”, diz Andy W.: “Você retrata claramente a geografia e o balé da luta.
Mitologia, filosofia, religião, metafísica, tecnologia, artes marciais, cultura pop, pessimismo quanto ao futuro, viagens no tempo e espaço – tudo isso já existia em The Invisibles, quadrinhos lançados em 1994 pela Vertigo, braço alternativo da editora DC Comics voltado p/ o público adulto.
REI URBE
The Invisibles é um thriller de espionagem místico de ficção científica”, define Grant Morrison. Se Morpheus é a cara do King Mob, Morrison é o próprio líder dos Invisíveis: "Ninguém acredita quando eu falo que as supostas coisas mais esquisitas da minha revista são de fato autobiográficas. E assim eu transformo as maiores viagens, resultado de químicas maravilhosas, em dinheiro p/ pagar as contas e a comida."
Natural da Escócia, contemporâneo de Alan Moore [Watchmen] e Neil Gaiman [Sandman], Grant, assim como Moore, é usuário de alteradores de consciência e começou por baixo, reformulando personagens de 2ª linha da DC – o cabeludo inglês recriou o Monstro do Pântano e o careca escocês ficou c/ o Homem-Animal. “Seus quadrinhos c/ temas como vegetarianismo, ecologia, drogas, psicodelia, abordados de maneira direta e utilizando de muita complexidade, foram os elementos que fizeram Morrison ser reconhecido”, diz o jornalista e fã Eduardo Féres.
Os irmãos Wachowski tiveram que escrever e dirigir Ligadas Pelo Desejo, seu filme de estréia em 1996, p/ convencer o produtor Dino de Laurentis a pôr dinheiro no projeto de Matrix. Grant Morrison, por sua vez, passou toda a década de 80 aceitando encomendas p/ roteirizar sucessos mainstream da HQ como Batman e Patrulha do Destino, até conseguir autonomia p/ apostar suas fichas no projeto The Invisibles.
A série, repleta de referências a paganismo asteca, sociedades templárias, libertinagem, maçonaria, Revolução Francesa, Teoria do Caos, LSD e Beatles, tornou-se o principal título da Vertigo nos anos 90, à frente dos hits Preacher, de Garth Ennis, e Hellblazer, clássico gibi fundador do selo. Lançada no Brasil pela editora Brainstore, não teve periodicidade definida nem boa distribuição por aqui, e acabou cancelada. Foi relançada ano passado pela Pixel, numa edição encadernada intitulada Revolução 1.
120 DIAS DE FODEU TUDO
É provável que suas memórias desta história sejam melhores do que ela própria”, disse o autor no lançamento de The Invisibles nos EUA. Morrison é maluco: criou a coluna Invisible Ink, encartada no final de cada edição, que servia como canal de comunicação entre ele e o seu público – uma espécie de ‘protoblog’. Através dela, conclamou os leitores a se masturbarem em dias e horas determinados, p/ que visualizassem o "símbolo mágico dos Invisíveis".
Grant foi além das meras referências, transformando figuras históricas em personagens de quadrinhos: John Lennon tornou-se uma divindade depois de morto, e o Marquês de Sade é peça-chave na salvação da humanidade, ao ser cooptado p/ o grupo durante uma viagem interdimensional que envolve Lord Byron, Mary Shelley e a cabeça de João Batista. “Olhe para eles! Fui mandado à maldita bastilha por fazer em casa o que esses filhos da puta fazem em público”, diz o Marquês a King Mob em uma casa noturna sadomasoquista do séc.XX.
A saga durou 59 edições, de 1994 a 2000. A nova edição nacional d’Os Invisíveis conta c/ um prefácio escrito por Peter Milligan, que já escreveu histórias de Shade, Elektra e Judge Dredd: “[...] na dúvida entre comprar ou não este livro, eu te imploro. Em nome da arte, em nome do sexo, em nome da liberdade, compre. Ou roube. [...] O que quer que você faça, leia-o.” E o jornalista Delfin encerra o álbum no posfácio Barbelith, Lennon e a Revolução c/ uma dica que nos leva de volta à Matrix:
Ao acompanhar as aventuras de Jack Frost, King Mob, Lord Fanny, Ragged Robin e Boy, tenha apenas três coisas em mente:
- o que você conhece é irreal;
- as barreiras não existem;
- o mundo está fadado a acabar.
INVISÍVEL MUNDO NOVO
O grande irmão te observa! Aprenda a ficar invisível.” As mesmas citações a 1984, de George Orwell, e Brave New World, de Aldous Huxley, que se encontra em Matrix estão escritas c/ todas as letras n’Os Invisíveis, seja no quadro negro da sala onde a granada grafitada c/ um ‘sorria’ explodirá os agentes enviados pelos Arcontes, ou nas palavras de Sade na boate SxMx: “Oh admirável mundo novo que abriga tais pessoas!
Fascinante é notar o quanto The Invisibles é semelhante à trilogia The Matrix”, escreveu Rodrigo Fernandes no site Universo HQ: “Das referências a uma realidade underground oculta sob o cotidiano comum às menções a forças transdimensionais (máquinas, no caso da obra dos filmes) que comandam o destino dos seres humanos. É de se pensar se os irmãos Wachowski, grandes fãs de HQs, não possuíam Os Invisíveis em suas coleções.
Tanto a separação dos 2 mundos – sensível e inteligível – quanto a idéia de simulacro/simulação aparecem de forma evidente e até literal no tal gibi”, analisa a blogueira Hellen Guareschi: “Morrison vai além, ao encaixar escritores, músicos e artistas em sua trama, seja pessoalmente ou incluindo personagens, letras de música ou referências diretas. A velha idéia de transformar marginalidade em heroísmo é genuinamente alçada à categoria de arte, em especial c/ a brincadeira do mendigo tutor aristotélico (quando Aristóteles foi ele próprio um preceptor) e a etapa divinatória do Pombo.
Grant Morrison entrou na justiça c/ uma acusação de plágio contra os irmãos Wachowski quando o filme foi lançado, em ’99. Mas Os Invisíveis foram publicados pela Vertigo, propriedade da editora DC, que por sua vez pertence à Warner, produtora de Matrix, e o processo foi encerrado c/ um acordo entre as partes. Na ponta do lápis, Morrison acha que a similaridade entre as duas obras inviabiliza a adaptação de seus quadrinhos p/ o cinema: “É um bando de carecas em roupas de fetiche lutando kung fu. Já vimos isso, então não quero seguir o mesmo caminho.
DESVIE DISSOO 1º Matrix custou $60 milhões de dólares, faturou $45.000.000,00 apenas no fim de semana de estréia, e levou 4 Oscar. Matrix Reloaded foi orçado em $127 milhões e sua bilheteria mundial bateu em $740.000.000,00. Revolutions, o último da trilogia, custou $110 mi e arrecadou $425... O sucesso rendeu o mangá Animatrix, o videogame Enter The Matrix, além de inúmeros produtos franqueados – de figurinhas autocolantes a parcerias c/ empresas de bebidas, carros e motos. Estima-se que a marca Matrix já tenha gerado lucros superiores a $2 bilhões de dólares.
Por outro lado, a influência do filme já pôde ser vista em 2 ataques terroristas isolados nas escolas dos EUA – em ambos os casos, garotos vestidos de Neo e armados até os dentes atiraram a esmo contra colegas adolescentes. E foi impossível não lembrar da cena do helicóptero no ataque das Torres Gêmeas no 11 de setembro, em 2001. O filósofo esloveno Slavoj Zizek explica que Matrix funciona como um Teste de Rorschach: “Cada um pode encontrar o seu ‘ismo’ preferido – existencialismo, marxismo, feminismo, budismo, niilismo, pós-modernismo”.
Andy & Larry W. criaram uma série influente, instigante e até perigosa, mas depois que se lê o gibi d’Os Invisíveis, lançado 5 anos antes, o aspecto revolucionário e inédito de sua obra fica apenas p/ os efeitos especiais e as cenas de ação que eles desenvolveram. O bullet-time permite tanto a visualização de elementos imperceptíveis, como o deslocamento no ar de balas voando, quanto a percepção tridimensional de um momento usando ângulos de câmera simultâneos, como nas coreografias do mestre Yuen Woo Ping, que trabalharia depois c/ Tarantino em Kill Bill.
Mesmo estabelecendo novos padrões p/ o cinema, os irmãos Wachowski basearam-se em velhos filmes de Sergio Leone, Sam Peckimpah e Bruce Lee na criação das cenas de combates. E, ao se afastar das premissas criadas por Grant Morrison p/ os quadrinhos, foram perdendo fôlego ao longo das sequências de Matrix. “O primeiro é sobre nascimento, o segundo sobre a vida, o terceiro sobre a morte”, diz Laurence Fishburne, ator que interpreta Morpheus, resvalando numa obviedade involuntária.
"Matrix faz uma leitura ingênua da relação entre ilusão e realidade", disse Baudrillard à revista Época, em 2004: "Os diretores se basearam em meu livro Simulacros e Simulação, mas não o entenderam. Prefiro Truman Show e Mulholland Drive, nos dois filmes minhas idéias estão mais bem aplicadas. Os Wachowski me chamaram p/ prestar uma assessoria filosófica p/ Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, mas não aceitei o convite. Como poderia? Não tenho nada a ver c/ kung fu. Meu trabalho é discutir idéias em ambientes apropriados p/ essa atividade."
Eles deveriam continuar a roubar minhas idéias, talvez assim teriam algo p/ se orgulhar de verdade”, ironiza o autor de The Invisibles: “Um filme que poderia mudar corações e mentes – e mundos.

3 comentários:

Adelvan disse...

Caralho, esse clipe é sensacional. Sincronia da porra com a musica.

Boogie Boy disse...

hahahahahaah

fechar com o clip o GxGx foi genial!!!

na sequência vi o Benzer até morrer.

cool.

Viva La Brasa disse...

1) Não existe a figura do "líder" em organizações anarquistas; eu me refiro ao King Mob como líder dos Invisíveis porque, extraoficialmente, é isso que ele é.

2) O clip de "Eu não entendi..." fecha a trilogia do Gangrena no VxLxBx. Tá amarrado!

3) Ainda acho Matrix um puta filme.