quarta-feira, outubro 28, 2009

SACANAS SEM LEI
Seja marginal, seja herói.

A frase é do carioca Hélio Oiticica [1937 - 1980], um dos principais artistas plásticos do país nas décadas de 60/70, período em que ser marginal significava lutar contra o sistema. Eram os anos de Chumbo da Ditadura Militar no Brasil.

Oiticica foi um vanguardista especializado em instalações e intervenções. Suas obras mais famosas são a peça orgânica Tropicália, de ’67 – que deu nome a um movimento musical composto por Mutantes, Caetano, Gil e Tom Zé, entre outros – e as séries Cosmococas e Metaesquemas.

No última dia 16, milhares de quadros, esculturas, instalações e peças de todo tipo herdadas do acervo de Hélio queimaram em um incêndio na casa do seu irmão, o arquiteto César, incluindo os famosos “parangolés”, estandartes e bandeiras feitos p/ serem vestidos em performances. Ao todo, 1500 trabalhos do artista viraram cinzas.

ARTILHARIA PESADA

Em 2009 ser marginal está na moda.

Festa do FB é tipo Osama Bin Laden/ A PM aqui não entra/ Aqui só tem talibã/ Terrorista da Al Qaeda...”, canta MC Smith no funk proibidão em homenagem ao chefe do tráfico no complexo de favelas do Alemão, no Rio de Janeiro. O Complexo do Alemão, onde a polícia não entra desde que começaram as obras do PAC, há 1 ano. O Alemão, onde um helicóptero da PM foi abatido por tiros de fuzil, ao sobrevoar o Morro do Macaco.

A Al Qaeda está bombando nas últimas semanas. Na quarta 16, mesmo dia em que Oiticica queimava na zona sul carioca, 2 atentados suicidas simultâneos mataram 11 pessoas em Penshawar, Paquistão. Hoje, 28 de outubro, outro duplo atentado: uma bomba magnética explodiu num ônibus em Sadr City, bairro xiita de Bagdá, matando 3 mulheres, e uma explosão durante a passagem de uma patrulha do exército matou mais 3 pessoas em Mossul.

Bagdá e Mossul são cidades do Iraque, onde 155 pessoas morreram no último domingo em outro atentado suicida orquestrado: um caminhão e um micro-ônibus explodiram contra o Ministério da Justiça e a sede do governo da capital. E por falar em orquestração, hoje foi um dia de cão. Enquanto a antiga Babilônia ardia em [novas] chamas, um comando talibã atacou 2 pensões em Cabul, matando 6 afegãos e 6 funcionários da Unama, a missão de assistência da ONU no Afeganistão. E em Penshawar, uma nova investida deixou quase 100 mortos, durante visita da secretária de Estado americana, Hillary Clinton, ao Paquistão.

POLÍTICA TALIBÃTodos os atentados foram reinvidicados pela Al Qaeda.

"Os eventos mostram quão longe os extremistas estão dispostos a chegar e a ameaça que representam", declarou Robert Gibbs, secretário de imprensa da Casa Branca. A idéia dos terroristas é mostrar poder de fogo e desestabilizar os governos desses países, aliados aos interesses ocidentais.

No Afeganistão, o 2º turno das eleições presidenciais acontece no dia 07 de novembro. “Essa tentativa de impedir que os afegãos elejam seu próximo governo não terá sucesso”, diz o porta-voz dos EUA. No Iraque, está em andamento a reforma de lei que regulará as eleições de 16 de janeiro do ano que vem. No Paquistão, a Al Qaeda montou sua base após o 11 de setembro. No Rio de Janeiro, mais de 40 mortos nas últimas 2 semanas.

São uns anormais”, disse o presidente Lula, referindo-se aos traficantes cariocas, não aos terroristas talibãs. Em mais uma inauguração, desta vez da vila olímpica na Mangueira, ele disse hoje: “As pessoas que acham que seja fácil enfrentar uma quadrilha organizada, é ilusão, é difícil, é preciso investimento na inteligência”. Lula sente falta do “romantismo” da favela, acredita que a guerra entre quadrilhas passa ao mundo uma “idéia errada” sobre a cidade-sede das Olimpíadas 2016, e afirma que “a violência não é exclusividade do Rio, ela ocorre em todo o Brasil, a diferença é que no Rio a repercussão dos fatos é muito maior”.

BASTARDOSSacanas sem lei”, diriam em Portugal.

Foi assim que os gajos traduziram o novo filme de Quentin Tarantino, Bastardos Inglórios. A fantasia de guerra sobre um grupo de soldados judeus americanos que aterrorizam os nazistas durante a ocupação da França, arrancando-lhes os escalpos, já é o maior sucesso comercial do diretor de Pulp Fiction e Kill Bill. Lançado em julho, Bastardos... ultrapassou os US$ 100 milhões em bilheteria logo no 1º mês de exibição – quase toda a renda de Pulp Fiction nos EUA, e mais do que o 1º volume de Kill Bill.

Especula-se que o prejuízo material pela perda das obras de Hélio Oiticica no incêndio da semana passada seja da ordem de US$ 200 milhões. Inflacionado após uma mostra no MoMa de Nova York em ’97, Oiticica passou a valer mais morto do que vivo. Em ’80, ninguém pagava mais que $2000 num desenho seu; este ano, o Metaesquema 19 foi arrematado por US$ 186.500 no leilão da Christie´s, e a galeria Tate Modern pagou US$ 850.000 por Tropicália.

Quase todos os parangolés foram destruídos pelo fogo no Jardim Botânico. Só restaram as obras em museus, galerias e coleções particulares mundo afora: além de Tropicália, as séries Metaesquemas, Bólidos e Cosmococas, na Tate em Londres, no MoMa em NY, no museu Malba em Buenos Aires e no Instituto Inhotim, em Minas Gerais. Da série Bilaterais, só se salvaram as estruturas. “Ainda assim, preservamos esquemas digitalizados, e podemos reconstruir algumas obras p/ fins didáticos. Sei que ele deu um parangolé p/ o Guy Brett, outro p/ um amigo na Bélgica. Mas foram poucos”, lamenta-se o irmão vacilão.

MOD DEVELOPERTarantino, por sua vez, segue colhendo os louros por seu último filme.

Não bastasse o sucesso comercial, Bastardos Inglórios vem sendo saudado como seu trabalho mais maduro. “Nos videogames existem os chamados ‘mod developers’, sujeitos que pegam games existentes no mercado e interferem em seu funcionamento, dando aos jogos novas características, fundindo temas e franquias, mas quase sempre trabalhando dentro de uma estrutura funcional pré-estabelecida”, compara Érico Borgo, do site Omelete:De um clássico, portanto, pode surgir algo novo e que acaba tão – ou em alguns casos, mais – apreciado quanto o título original. Quando penso no cinema de Quentin Tarantino não consigo deixar de compará-lo a um mod developer – e um dos bons”.

O que ninguém diz [até agora o Binho Nunes foi o único a citar esse detalhe em seu blog] é que Bastardos... é a refilmagem de um filme trash dos anos 70. O obscuro Bo Svenson fazia o papel de líder da milícia, que coube a Brad Pitt. Havia um negão entre os Bastards, Fred Willianson [da série de TV Shaft], e as garotas, menos bonitas que Mélanie Laurent e Diane Kruger, pelo menos pagavam peitinho. Apesar da história se passar na 2ª Guerra Mundial, o clima da nova versão é de faroeste. A trilha de abertura é de Ennio Morricone. O personagem de Pitt é conhecido como ‘Apache’ por tirar o couro cabeludo das suas vítimas. Seu nome, Aldo Rayne, é uma homenagem aos atores Aldo Ray e John Wayne. As referências aos diretores Sergio Leone e John Ford são óbvias, mas também há citações ao expressionismo alemão e à nouvelle vague, movimentos artísticos do cinema europeu.

Os judeus perseguidos pelos alemães na França ocupada de Quentin Tarantino têm uma característica incomum p/ a raça: eles gostam de mostrar aos alemães a concretização da violência; gostam de expor a seus perseguidores sua astúcia; as crueldades de que são capazes; a frieza c/ que executam seus inimigos, fazem sofrer”, diz Luiz Biajoni, do blog Amálgama. A seguir, a entrevista que o “inglorious bastard” de Hollywood concedeu a Henri Sordeau, do site Rotten Tomatoes. Que maturidade, o quê! Em filme de Tarantino, a platéia quer é ver sangue.

Quando você escreveu o roteiro de Bastardos Inglórios?

Quentin Tarantino: Eu comecei em janeiro do ano passado e, literalmente, fui escrevendo até julho. Os dois primeiros capítulos do filme foram feitos a partir de um material mais antigo [o filme original, de 1978]. Eu reescrevi um pouco essa parte, mas é um material antigo. Mas tudo do capítulo 3 em diante eu escrevi naquele período do ano passado.

Há algum motivo especial para todos os títulos dos seus filmes terem duas palavras?

QT: [risos] Nunca tinha pensado nisso antes, mas acho que você tem razão. Suspeito que é porque sempre funcionou desse jeito. Para mim, o título é sempre muito orgânico: não é simplesmente “Ah, isso precisa ficar bonito no pôster”. Se, por alguma razão eu não pudesse usar Bastardos Inglórios, provavelmente iria chamá-lo Era Uma Vez Numa França Ocupada por Nazistas.

Como você descreveria a história? De alguma maneira, lembra bastante seus primeiros roteiros como Amor à Queima Roupa [1993] e Assassinos por Natureza ['94]

QT: P/ mim, não é como Pulp Fiction, é muito mais parecido c/ Amor à Queima Roupa e também como Cães de Aluguel [1992]. A cena de La Lousiane é como uma versão reduzida de Cães de Aluguel, mas c/ nazistas na Alemanha. É uma cena de 23 minutos, e ao invés de um galpão, temos um pequeno bar no subsolo. Mas p/ mim, também tem um certo aspecto de Pulp Fiction, quando você tem todas essas histórias diferentes que vão se dirigindo p/ o mesmo lugar. Nesse sentido, é mais Pulp Fiction. As histórias são ainda mais diversas, mas na verdade elas estão contando uma grande história, ao invés de ser um grande mosaico. Mas também me lembra bastante Amor à Queima Roupa, porque sempre tem um personagem novo que chega e rouba a cena, alguém que simplesmente pega o filme na mão e sai correndo c/ ele. A cada 20 minutos você se pergunta “Que porra de filme é esse?”

Muitas pessoas esperavam um filme tipo Os Doze Condenados [dirigido por Robert Aldrich em 1967], c/ homens cumprindo uma missão, mas Bastardos Inglórios não é bem assim...

QT: Bem, na verdade, foi Os Doze Condenados que me deu a idéia de fazer esse filme. Mas é sempre assim comigo: todas as coisas que me inspiram a sentar e escrever geralmente não são aquelas que eu termino fazendo. Porque, por mais que eu ame o gênero, e tente cumprir as expectativas, acabo pegando um outro caminho. Vou fazer algo propriamente meu. Quando sentei para escrever Cães de Aluguel, eu queria fazer um filme sobre um assalto. Bem, eu fiz [risos], mas você não viu o assalto!

Você tomou muita liberdade c/ o contexto histórico no filme. Essa sempre foi a sua intenção?

QT: Não foi onde eu comecei. Sem dúvida não foi assim que eu comecei. Não fazia idéia de que isso iria acontecer. Quando se começa a escrever, você tem seus personagens em uma estrada, e conforme eles andam por ela, todas essas outras estradas começam a surgir, tornando possível que eles sigam por elas. Muitos roteiristas bloqueiam essas outras estradas e não permitem que seus personagens sigam por elas. E sem razão nenhuma, geralmente por seguirem a convenção estabelecida. Bem, eu nunca coloquei bloqueio algum em nenhum desses caminhos. Meus personagens podem ir onde quiserem e eu irei segui-los.

Então o que aconteceu quando você os seguiu?

QT: Bem, nesse filme havia um grande bloqueio na estrada, e isso era a própria História. Eu esperava honrar aquele bloqueio. Mas uma hora, enquanto estava concentrado em escrever o roteiro, eu pensei: “espera aí, meus personagens não sabem que são partes da História. Eles estão no imediato, no aqui e agora, isso está acontecendo. A qualquer minuto eles podem estar mortos. E sabe de uma coisa? O que acontece nesse filme não aconteceu na vida real porque meus personagens não existiram. Mas se eles tivessem existido, talvez isso pudesse ter acontecido na vida real.” E daí p/ frente, isso apenas teve de ser plausível, e eu tive que me permitir seguir adiante c/ o roteiro.

O que você quer dizer c/ plausível?

QT: Meus personagens mudaram o curso da História. E quando digo isso, não estou falando apenas de Shosanna, Aldo ou os Bastardos. Estou falando de Fredrick Zoller. Se um soldado alemão tivesse feito o que ele fez naquele momento da guerra, tenho certeza de que Joseph Goebbels teria feito um filme sobre ele. Do mesmo jeito que Hollywood fez com Terrível como o Inferno [1955], com Audie Murphy. E se qualquer soldado fosse parecido com Daniel Bruhl, provavelmente também seria a estrela do filme. Mas não apenas isso, Goebbels fez um filme parecido c/ isso, chamado Kolberg, que basicamente dizia “Ok, sabemos que não podemos ganhar mais batalhas, mas podemos fazer essa produção gigantesca e épica, que servirá de propaganda como se tivéssemos ganhado a batalha”. Então, eu acho que Goebbels teria feito isso, e eles teriam tido uma noite de gala para a premiére, e um monte de pessoas estaria lá… e assim por diante. Basicamente é a ideia de que meus personagens mudaram o curso da História.

O filme tem muitas referências aos Westerns Spaghetti [faroeste produzidos na Itália nos anos 60 e 70], especialmente na música. O quanto esse filme é influenciado por Sergio Leone?

QT: Leone teve uma graaande influência sobre mim. Ele é o meu diretor favorito, e Três Homens em Conflito [1966] é o meu filme favorito. A estética dele e a minha são meio que entrelaçadas, porque eu realmente sou influenciado por ele, mas sempre tentei imprimir meu próprio estilo. Nunca fiz um western spaghetti. Não conseguiria fazer um western spaghetti [risos]. Não sou tão italiano assim! De qualquer maneira, no minuto em que você grava um filme desses, capturando o som durante as filmagens, torna-se um filme completamente diferente [os westerns spaghetti geralmente eram dublados depois em estúdio]. Mas pegar o estilo que ele desenvolveu e aplicar em outros gêneros é algo completamente diferente. Ele é uma grande influência.

Você tentou evitar deliberadamente as convenções dos filmes de guerra?

QT: Eu quis me manter longe daqueles clichês bobos de filmes de guerra, que eu nunca gostei. Sabe, aquele tipo de cena em que um bando de caras precisa derrubar alguém de guarda, e apenas estrangulam o cara levemente, como se isso fosse o suficiente [risos]. Eles matam um soldado alemão e repentinamente não há sangue algum em seu uniforme, ou mesmo um buraco de bala, e ainda por cima o uniforme serve perfeitamente quando eles o vestem! Esse tipo de coisa que tentei evitar. É, de certa forma, um filme de gênero diferente de tudo o que eu fiz antes, porque o final realmente segue o rumo que se espera dele. Há uma missão no final, e eles resolvem executá-la. Brinco um pouco c/ as expectativas dessa missão, mas basicamente é isso mesmo que se imagina.

Como foi sua abordagem sobre a violência nesse filme?

QT: Eu lembro de um crítico dizendo, algum tempo depois de Cães de Aluguel e Pulp Fiction, que eu era muito minucioso p/ me tornar um mestre do suspense. Então a técnica que eu tentei empregar no filme foi considerar o suspense como um elástico, que estivesse sendo esticado pouco a pouco a cada cena, se tornando cada vez mais apertado. A idéia, se bem sucedida, não é fazer cada cena cada vez menor por causa disso, mas sim ver até onde eu posso continuar esticando o elástico. As cenas deveriam demorar o máximo possível, o máximo que o elástico pudesse aguentar. Deveria levar a um limite, ao melhor momento. E então… Snap! E quando arrebentasse, acabaria em um segundo.

É por isso que há tão pouco sangue, especialmente na primeira cena do filme?

QT: É sim. Achei que seria muito mais assustador e realista se você não visse o sangue, só visse a serragem. Qualquer um pode simplesmente mostrar porrada. Mas tanto nessa sequência quanto em La Louisiane estava testando alguns modelos de suspense, de um jeito que nunca fiz antes.

Você se sentiu pressionado em terminar o filme p/ o Festival de Cannes?

QT: C/ certeza houve pressão! Depende de você dizer, mas não acho que tivemos alguma perda c/ isso, e não fizemos nada porcamente. Meu editor, Sally [Menke], e eu trabalhamos muito rápido [risos]. Acho que nunca vou querer trabalhar tão rápido assim de novo, mas sempre trabalhamos melhor quando temos um prazo a cumprir. Isso não é novo p/ nós. Foi novo no sentido do tamanho do filme e também no curto espaço de tempo que tínhamos p/ terminá-lo, mas também corremos c/ Cães de Aluguel para finalizá-lo a tempo, p/ o Festival de Sundance, e também fizemos a mesma coisa c/ Pulp Fiction p/ ficar pronto pra Cannes, e c/ Jackie Brown [1997] e sua data de estréia no natal. Já estamos acostumados c/ isso. E gostamos de viver nesse estado. Gostamos de não pensar duas vezes nas coisas. Você pode estragar um filme desse jeito. Gostamos de apressar as coisas, tipo “Vamos por esse caminho e pronto”, BAM!

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