segunda-feira, novembro 16, 2009

BERLINER MAUER & OUTROS MUROS Mais do que o apagão que deixou 18 estados do Brasil na escuridão na noite de terça-feira 10/11, o que marcou a semana [passada] mundo afora foi a comemoração dos 20 anos da queda do muro de Berlim, na segunda 09/11.
Erguido na madrugada de 13/09/1961, o Berliner Mauer era a representação física da tensão global entre os sistemas capitalista e comunista. Dividia no meio uma cidade, uma nação, um planeta, em 1378 km de extensão. Foi também uma tentativa frustrada da República Democrática Alemã, o bloco oriental, de conter a sangria de cidadãos p/ a Berlim ocidental: desde a criação do país comunista, na divisão do espólio dos aliados após o fim da 2ª Guerra Mundial, 3 milhões e ½ de cidadãos da RDA fugiram p/ a RFA – República Federativa Alemã, ou Alemanha Ocidental.
A Alemanha Oriental era um estado policialesco, defasado tecnologicamente e dependente da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Enquanto seus vizinhos capitalistas prosperavam como uma das maiores economias do planeta, os comunas viviam sob regime de escassez e vigilância. Não podiam confiar em ninguém e enfrentavam fila p/ tudo, do chucrutz à bier. A situação foi ficando insustentável c/ o passar do tempo, e em 1989, pressionados por uma onda revolucionária que eclodiu em Leipzig na noite de 09/10 – quando 70 mil manifestantes tomaram as ruas gritando “Stasi raus!”, exigindo o fim da Stasi, a polícia política do sistema – representantes do governo de Herich Honecker acenaram c/ uma possível abertura de fronteiras c/ o país-irmão.
Foi o suficiente p/ que multidões de cidadãos da RDA se dirigissem p/ o muro e começassem a forçar passagem, vencendo facilmente o esforço reticente dos guardinhas comunistas. De uma hora p/ outra, pedaços daquela extensa placa de concreto começaram a ruir, a golpes de marretas, martelos, o que houvesse à mão. Geral subiu no muro e a festa estava formada. Durante semanas a fio, alemães orientais misturaram-se aos ocidentais, e mais gente de toda parte, celebraram a nova ordem mundial e transformaram partes do muro, que matou 175 pessoas em tentativas de fugas, em souveniers gratuitos arrancados à mão.
HISTÓRIA SEM FIM1 ano depois, a Alemanha se reunificou. 2 anos depois, ruiu a União Soviética. O cientista político norte-americano Francis Fukuyama decretou a vitória do capitalismo em seu livro O Fim da História e o Último Homem, de 1989. Ele defendia a tese de que todos os países do mundo se uniriam sob um único sistema político e econômico, chamado de ‘democrático’, que muitos preferem chamar de ‘neoliberal’. “É fácil zombar da idéia de fim da história de Fukuyama”, diz outro cientista político, Slavoj Zizek: “Mas hoje a maioria é ‘fukuyamista’ – o capitalismo democrático é aceito como a fórmula finalmente encontrada da melhor sociedade possível, e tudo o que se pode fazer é torná-la mais justa, tolerante etc.
Na segunda 09/11, a chanceler alemã Angela Merkel – oriunda da RDA – refez o caminho que os berlinenses orientais percorreram em ’89, conhecido na época como Faixa da Morte, p/ cruzar a 1ª brecha entre as duas Berlins, no dia da queda do muro. Foi acompanhada por 100 convidados, dentre os quais o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev, o homem da Perestroika, e o líder sindical polonês Lech Walesa, protagonista da cena mais engraçada das festividades: ao dar partida à derrubada de um dominó gigante de 1,5 km de percurso, o ex-presidente da Polônia tropeçou num pedestal e quase 'bate' igual a uma bomba de sena. No ápice da noite, o tenor espanhol Placido Domingo cantou uma ária do compositor clássico Wagner – o preferido dos nazistas.
Até o presidente da França, Nicolas Sarkozy, tentou pegar carona. Em um texto de 19 linhas no Facebook, o marido da Carla Bruni escreveu: “Na manhã de 9 de novembro, nos interessamos pelas informações que chegavam de Berlim e pareciam anunciar uma mudança na capital dividida da Alemanha. Decidi deixar Paris c/ Alain Juppé p/ participar do evento que se anunciava. [...] Uma massa entusiasmada se amontoava desde o anúncio da provável abertura do muro. Em seguida, fomos p/ o Checkpoint Charlie p/ passar ao lado leste da cidade e, enfim, chegamos ao Muro, no qual pudemos dar alguns golpes de picareta." O problema é que Juppé, em seu livro La Tentation de Venise, relata sua estada em Berlim a partir de 16/11 – uma semana depois do estopim.

A balada foi da hora. Mas, 20 anos após o ‘fim da história’ de Fukuyama, o socialismo ainda resiste, seja em potências como China e Coréia do Norte ou na ilha de Cuba, no Caribe. E o que é pior: novas barreiras continuam a ser erguidas entre países vizinhos. Conheça agora os ‘muros de Berlim’ dos século XXI:
RESISTO, LOGO EXISTONo mesmo dia em que as lentes do mundo estavam voltadas p/ a capital da Alemanha, outro muro caía no Oriente Médio. Pelo menos, parte dele: em Qalqilya, 150 manifestantes faziam sua homenagem aos 20 anos da queda do Berliner Mauer derrubando um pedaço do muro que divide Israel e Palestina. Construída em 2002 e condenada pelo Tribunal Internacional de Justiça de Haia em 2004, que a considerou ilegal, a barreira de 700 km construída pelo estado judeu na Cisjordânia é conhecida como Muro do Apartheid.
O problema do muro da Cisjordânia – além de todas as implicações éticas – é que apenas 20% da área que ele separa pertence à antiga Linha Verde da ONU; 80% dele situa-se em território palestino, e beneficia as densamente povoadas colônias de Israel: Ariel, Emmanuel, Oranit, Guhs Etzion, Kamei Shomron, Guiv’at Ze’ev e Maale Adumim. “Trata-se do controle dos recursos hidráulicos (69% do volume da água e 36 importantes poços de água potável são na zona árabe), da usurpação das melhores terras para cultivar (14,5%), de impedir o acesso aos postos de trabalho de Israel, bloquear caminhos e estradas ou converter numa ilha a área de leste de Jerusalém, ao cercar a cidade sagrada em 18 quilômetros”, escreveu Maria Victoria Valdés-Rodda no Granma Internacional.
60% do Muro do Apartheid está pronto. Usando caminhão e cordas, os militantes puseram abaixo alguns blocos nesta segunda 09/11, mas o exército isralense interveio imediatamente e dispersou a multidão, que dispunha de pedras contra balas e gás lacrimogênio. Foi a 2ª manifestação em menos de uma semana. Na sexta-feira 06/11, palestinos do vilarejo de Nilin já haviam investido contra as paredes de concreto. “Esse é o início das atividades p/ expressar nosso apego à terra e rejeição ao muro”, disse Abdullah Abu Rama, um dos coordenadores da ação.
Em 2006, um levantamento da ONU analisou 57 comunidades árabes impactadas pelo muro e encontrou 94 cidadãos, a maioria mulheres e crianças, que nunca receberam o visto p/ deixar a Palestina. “Você tem este enorme muro sendo construído bem no meio da Cisjordânia, como alguém pode acreditar que haverá um estado palestino ali?”, questiona o rabino JUDEU Michael Lemer, da Tikkun Community: “É um símbolo da opressão”.
LA MIGRADesde janeiro de 2001, quando os presidentes de EUA e México, George Bush e Vicente Fox – um ex-executivo da Coca-Cola – , assinaram um acordo migratório p/ a construção de um muro na fronteira dos 2 países, quase 3 mil pessoas morreram tentando fazer essa travessia clandestinamente, quase 20X mais mortes em 8 anos que em 3 décadas do muro de Berlim.
Em 965 km de extensão, o Muro da Vergonha, como ficou conhecida a barreira entre yankees e chicanos, inclui barreiras de contenção, detectores de movimento, iluminação de alta intensidade, equipamentos de visão noturna e vigilância permanente de helicópteros e veículos terrestres. Nos 5 primeiros meses deste ano, 160 mexicanos foram mortos ao tentar cruzar a fronteira, seja de sede ou desnutrição ao cruzar os desertos, afogados na travessia do Rio Grande, ou assassinados por fazendeiros red neck, que pagam milícias p/ patrulhar suas propriedades e atirar em qualquer coisa que se mova.
Boa parte dos que conseguem chegar aos EUA vive como ilegal, diz a jornalista Elaine Tavares: “O governo americano pretende criminalizar a situação de pessoas liegais e punir quem as emprega.” Aos imigrantes legalizados, resta trabalho temporário em empregos que os estunidenses não querem. Assim, os empresários locais dispõem de mão-de-obra barata e, uma vez passado o prazo do visto de permanência, esses trabalhadores são obrigados a retornar a seu país de origem.
Nas comemorações do 1º de maio deste ano [Dia do Trabalhador], mais de 1 milhão e ½ de latinos saíram às ruas nos EUA p/ protestar contra o endurecimento da legislação migratória e exigir direitos sociais e trabalhistas. A secretária de Estado americana Hillary Clinton admitiu na ocasião que “o muro não vai resolver nenhum problema. A humanidade cometeu um tremendo erro ao construir o muro de Berlim, e creio que hoje em dia os Estados Unidos estão cometendo um grave erro ao construir esta barreira na nossa fronteira comum”.
ECOLIMITESNum projeto orçado em R$ 40.000.000, o governo do Rio de Janeiro erguerá muros no entorno de 11 favelas da cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. A primeira a receber o ‘benefício’ foi o morro da Dona Marta, em Botafogo, onde a empresa Vento Sul Engenharia implantou placas de concreto ao longo de 634 metros, a um custo de R$ 982.000,00.
A construtora Midas Ltda. venceu a licitação da Empresa de Obras Públicas p/ a construção do muro em 3 favelas, que começou em fevereiro. A Rocinha terá 2,8 km murados e 411 famílias transferidas p/ apartamentos construídos na própria comunidade. No Parque da Pedra Branca, em Jacarepaguá, o muro terá 400 m de extensão, e na Chácara do Céu, no Leblon, serão 250 m – essas duas áreas não estavam previstas entre as 11 do projeto original. O custo dos 3 muros, chamados pelo governo fluminense de 'ecolimites', será de R$ 2.071,00 por metro quadrado.
O presidente da Associação de Moradores da Rocinha, Antônio Ferreira de Melo, o ‘Shaolin’, diz que o crescimento da favela é vertical e o muro não trará benefícios: “A Rocinha hoje não está se expandindo p/ a mata. O muro vai impedir que as crianças peguem fruta na mata e as donas de casa busquem água.
"Cá para baixo, na Cidade Maravilhosa, a do samba e do Carnaval, a situação não está melhor. A ideia, agora, é rodear as favelas com um muro de cimento armado de três metros de altura”, cometou em seu blog o escritor José Saramago, prêmio Nobel de literatura e comunista convicto: “Tivemos o muro de Berlim, temos os muros da Palestina, agora os do Rio. Entretanto, o crime organizado campeia por toda parte, as cumplicidades verticais e horizontais penetram nos aparelhos de Estado e na sociedade em geral. A corrupção parece imbatível. Que fazer?"
As barreiras estão orientadas pelas áreas de maior concentração demográfica e pela localização das áreas de risco e preservação ambiental”, diz Sérgio Rabaça Dias, secretário de Urbanismo do Rio. “O Saramago deu sua opinião e eu também posso dar a minha sobre o trabalho dele”, rebata Ícaro Moreno, presidente da EMOP: “Não vejo polêmica. Há uma aversão a muros, mas muros existem em casas, condomínios e linhas ferroviárias”.
O DESERTO DO REALNeste ponto, o Rabaca se coaduna a Ehud Gol, embaixador de Israel em Portugal, que afirmou na terça 10/11: “Não é um muro, é uma barreira de segurança, ponto”. Ele referia-se ao Muro do Apartheid, mas poderia ser aos Ecolimites: “A barreira que existe entre nós é / evitar o terrorismo e tem tido bons resultados práticos”. Ele refere-se à queda no número de israelenses mortos por ataques terroristas – em 2002 foram 450, em 2003, 400, 2004, 300, e assim gradativamente. “Não temos mortos neste momento e é melhor salvar vidas do que haver uma situação c/ terrorismo no centro de Telaviv, no centro de Jerusalém, no centro de Haifa”, diz o diplomata.
Segundo os palestinos da Cisjordânia, o muro é como uma prisão que agrava ainda mais a frustração e o ódio, fortalecendo os radicais favoráveis aos ataques a civis israelenses. “A razão para haver muros é sempre o medo, sejam os muros pessoais, sejam muros como este, que governos amedrontados constroem ao redor deles mesmos”, o roqueiro ativista Roger Waters narra em off no documentário Walled Horizons, que estreou em agosto.
Em Qalqilya, cidade onde ocorreram os protestos da última segunda-feira, a barreira impede o acesso dos legítimos proprietários às suas terras. Hassan Harouf perdeu quase 90 mil m² de terrenos que possuía: parte foi confiscada p/ a construção do muro e parte ficou do outro lado. Harouf era um dos agricultores mais prósperos da região. Desenvolveu um sofisticado sistema de estufas e irrigação, e exportava plantas frutíferas e ornamentais p/ vários países árabes. Ele faz parte de uma longa linhagem de agricultores: “Me lembro que desde criança eu trabalhava c/ meu pai naquelas terras. Agora, meu pai está morto e as terras ficaram atrás do muro”.
Segundo o prefeito de Qalqilya, Ma’aruf Zahran, 7 milhões de m² pertencentes à área da cidade foram confiscados, ou ficaram isolados após o muro, que cobre as partes norte, sul e oeste, deixando só um corredor aberto a leste. “Antes, eu estava acostumado a ver todos os dias o pôr do sol", disse Hassan Harouf à BBC Brasil. "Agora, não vejo mais o sol se pôr. Mesmo subindo no telhado da minha casa não consigo vê-lo, pois o muro é muito alto”.
PRIMOS POBRES20 anos depois da queda do Berliner Mauer, as diferenças socioeconômicas e culturais entre os alemães dos lados ocidental e oriental ainda são evidentes. Há duas vezes mais berlinenses orientais desempregados, e o PIB per capita é 25% menor no ex-bloco comunista do que no resto do país. “A cor de Berlim oriental é marrom desbotado”, define o artista plástico Alex Flemming, brasileiro radicado na Alemanha há 18 anos.
Em 15/08/1961, o soldado Hans Conrad Schumann, nascido em Leutewitz, Sauchsen, província da RDA, foi destacado p/ controlar a linha divisória na rua Bernauer. Ciente da iminente construção do muro, pulou a cerca de arames farpados e passou p/ o lado ocidental. A cena foi fotografada e virou um símbolo na busca pela liberdade. Em ’98, aos 56 anos, Schumann, em meio a uma crise depressiva, enforcou-se no jardim de sua casa, em Kipenberg, Baviera.
O muro separa, cria guetos”, diz Itamar Silva, coordenador do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas. “Vai na contramão da nossa luta de defender que favela faz parte da cidade.
CIDADES SITIADAS
FUGA DA ALEMANHA ORIENTAL EM 1961 E PROTESTO CONTRA O MURO DA CISJORDÂNIA EM 2009...
..."A HISTÓRIA SEMPRE SE REPETE, A PRIMEIRA COMO TRAGÉDIA E A SEGUNDA COMO FARSA" Karl Marx
ROGER WATERS PIXA O MURO DO APARTHEID: "WE DON'T NEED NO THOUGHT CONTROL!"
ECOLIMITES: BRAÇOS ABERTOS E FAVELAS CERCADAS NO RIO DE JANEIRO

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