domingo, novembro 22, 2009

DE CUBA C/ CARINHO
Estou superando as lesões físicas derivadas do seqüestro. Os hematomas vão cedendo e agora mesmo o que mais me incomoda é uma dor aguda na zona lombar que me obriga a usar uma muleta. À noite fui ao médico e me prescreveram um tratamento contra a dor e a inflamação. Nada que minha juventude e minha boa saúde não possam superar. Afortunadamente, o golpe que me deram quando puseram minha cara no chão do carro não afetou meu olho, senão somente a maçã do rosto e as sobrancelhas. Espero estar recuperada em poucos dias.”
Yoani Sánchez é uma filóloga cubana de 34 anos, casada, c/ 1 filho. Ela vive em Havana e mantém um blog, Generación Y, que alimenta diariamente c/ crônicas e notícias do dia-a-dia na ilha de Fidel, levadas ao ar pelo portal desdeCuba.com.
Eleita uma das 100 pessoas mais influentes do planeta pela revista Time em 2008 – “sob o nariz de um regime que nunca tolerou dissidência, Sánchez tem praticado o que jornalistas consolidados não conseguiram em seu país: liberdade de expressão” – e premiada c/ o Maria Moors Cabot Awards da Escola de Jornalismo da Universidade de Columbia, Yoani [pronuncia-se ‘Joane’] postou nesta sexta-feira 21/11 uma entrevista c/ Barack Obama.
No início do mês, a blogueira mandou 7 perguntas p/ os presidentes de EUA e Cuba, Raul Castro. Apenas Obama respondeu: “Seu blog oferece ao mundo uma janela particular às realidades da vida cotidiana em Cuba. É revelador que a Internet haja oferecido a você e a outros valentes blogueiros cubanos um meio tão livre de expressão. Aplaudo estes esforços coletivos que fazem seus compatriotas para expressarem-se através da tecnologia.
BUENA VISTA SOCIAL CLUBAté 1901, Cuba pertencia aos EUA. “Todos os assuntos de política exterior têm componentes domésticos, especialmente aqueles que concernem a países vizinhos como Cuba, de onde provêm muitos imigrantes radicados nos Estados Unidos, e com quem temos uma longa história de vínculos”, escreveu Obama. A resposta de Raul foi outra.
No dia 06/11, Sánchez foi seqüestrada por policiais à paisana a caminho de uma passeata pela paz. Arrastada pela saia e pelos cabelos p/ dentro de um carro, foi espancada durante 20 minutos, até ser jogada na calçada. “Achei que não sairia viva!”. Passou os dias seguintes de muletas e, ao se recuperar, voltou a enfrentar seus perseguidores, postando fotos dos X-9 que vigiam sua casa 24 horas por dia.
Na última sexta, foi a vez de seu marido, o jornalista Reinaldo Escobar, de 62 anos. Cercado por um grupo de partidários do sistema d’El Comandante en Jefe, Escobar apanhou, levou sapatadas e teve a roupa rasgada numa espécie de corredor polonês [no caso, corredor cubano]. Um dos agressores também teria participado do seqüestro-relâmpago no dia 06. Semelhante ao que aconteceu c/ a esposa, o jornalista foi colocado num carro e deixado algumas ruas adiante.
CUBA LIBREO acesso ao site de Yoani é bloqueado dentro da ilha. Autora dos livros Cuba Libre e De Cuba, Com Carinho, lançado no Brasil pela editora Contexto, Sánchez nunca obteve autorização do governo p/ divulgar seu trabalho ou receber prêmios no exterior. O governo se esforça para me transformar em uma pessoa radioativa. Membros da polícia política me vigiam todo o tempo e dizem a meus vizinhos, amigos e parentes que sou perigosa. Falam que quero destruir o sistema e sou uma mercenária do império. Em um país onde todo mundo trabalha para o Estado ou depende da ajuda do governo, esse método surte efeito. Muita gente já se afastou de mim. Alguns nem me telefonam. É uma luta desigual. Todo o poder de um Estado recai sobre mim.
Em entrevista concedida pelo celular ao jornalista Duda Teixeira, da revista Veja, ela desmistifica os mitos que sintetizam as virtudes do sistema revolucionário castrista, como a medicina avançada e a alfabetização massiva da população: “O país construiu hospitais e formou médicos de boa qualidade na época em que recebia petróleo e subsídios soviéticos. Com o fim da União Soviética, tudo isso acabou. O salário mensal de um cirurgião não passa de 60 reais. A profissão de médico é hoje a que menos pode garantir uma vida decente e cômoda. A carência nos hospitais é trágica. Quando um doente é internado, os seus familiares precisam levar tudo: roupa de cama, ventilador, balde para dar banho no paciente e descarregar a privada, travesseiro, toalha, desinfetante para limpar o banheiro e inseticida para as baratas. Eles não devem esquecer também os remédios, a gaze, o algodão e, dependendo do caso, a agulha e o fio de sutura.
Sobre a educação: “Antes da revolução, nosso país já ostentava um dos menores índices de analfabetismo da América Latina. A questão principal hoje não é a taxa de alfabetização, e sim o que vamos ler depois que aprendemos. A censura controla totalmente o que passa diante de nossos olhos. E isso começa muito cedo. As cartilhas usadas na alfabetização só falam da guerrilha em Sierra Maestra ou do assalto ao quartel de Moncada pelos guerrilheiros barbudos. Meu filho tem 14 anos. Na sala de aula dele há seis fotos de Fidel Castro. Tudo o que se ensina nas escolas é o marxismo, o leninismo, essas coisas. Não se sabe o que acontece no resto do mundo. A primeira vez que vi imagens da queda do Muro de Berlim foi em 1999, dez anos depois de ela ter ocorrido. Foi num videocassete que um amigo trouxe clandestinamente. Para assistir às imagens do homem pisando na Lua, foi necessário esperar vinte anos.
A CULPA DA VÍTIMAA lista vai longe: “Os idosos estão em estado deplorável. Jamais fomos informados sobre o número de pessoas que fogem da ilha a cada ano. Ninguém sabe qual é o índice de abortos, talvez o mais alto da América Latina. Os divórcios são inúmeros, motivados pelas carências habitacionais. Como há cinquenta anos quase não se constroem casas, é normal que três gerações de cubanos dividam uma mesma residência, o que acaba com a privacidade de qualquer casal. Também nunca se falou do número de suicídios, um dos mais altos do mundo.
Apesar de tudo, Yoani diz não trocar seu pedaço-de-terra-cercado-por-água-de-todos-os-lados por lugar nenhum do mundo. “A matéria-prima do meu trabalho é a realidade cubana. Não quero e não posso ficar longe das minhas histórias. Se pudesse viajar, eu certamente o faria – tenho de passar nos Estados Unidos e na Espanha para receber os prêmios que ganhei. Talvez desse um pulo à Alemanha e à Suíça. E só.
Mais do que uma ativista ‘mala’, Yoani Sánchez é a melhor novidade das letras cubanas desde Pedro Juan Gutiérrez, autor da Trilogia Suja de Havana. Em A Culpa da Vítima, post do dia 12/11, ela escreveu: “Depois de uma agressão existem determinados míopes que culpam a própria vítima pelo ocorrido. Se é uma mulher que foi violada, alguém explica que sua saia era muito curta ou que rebolava com provocação. Se trata-se de um assalto, há os que indicam a chamativa bolsa ou os brincos brilhantes que despertaram a cobiça do delinqüente. No caso em que se haja sido objeto da repressão política, então não faltam os que alegam que a imprudência foi a causadora de resposta tão ‘enérgica’. A vítima se sente – ante atitudes assim – duplamente agredida.
SERES DAS SOMBRASNa postagem seguinte, Yoani denuncia a vigilância a que vem sendo submetida dentro da própria casa: “Tenho minhas dúvidas se algum dia verei baixar a cortina e se poderei sair viva do cinema. O grande filme que vivemos há várias décadas em Cuba não parece próximo do momento de mostrar os créditos e apagar a tela.
Tecendo uma analogia ao cinema, fazendo referências a Kubrick e Tarantino, ela define seus perseguidores: Seres das sombras que, como vampiros, alimentam-se de nossa humana alegria, nos inoculam o temor através da pancada, da ameaça e da chantagem. Indivíduos treinados na coação, que não puderam prever sua conversão em caçadores caçados, em rostos capturados pela câmera, pelo celular ou pela retina curiosa de um cidadão. Acostumados a juntar provas para esse processo que todos temos em alguma gaveta, em algum escritório, agora surpreendem-se que nós façamos o inventário dos seus gestos, dos seus olhos, a meticulosa relação dos seus atropelos.
Os leitores [e as LEITORAS] do Viva La Brasa podem comprovar a verve literária de Sánchez na versão em português do seu blog ou no texto disponibilizado a seguir, descrição do seqüestro do dia 06. Talvez seja isso que mais incomode o general Raul: uma garota franzina que combate o sistema por dentro usando como arma apenas palavras. Como disse o filósofo Sócrates na prisão: “Podem aprisionar meu corpo, mas não meu pensamento!
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SEQUESTRO ESTILO CAMORRA
Próximo da rua 23 e exatamente no trevo da Avenida de los Presidentes foi que vimos chegar num automóvel preto - de fabricação chinesa - três robustos desconhecidos: ‘Yoani, entre no automóvel!’, me disse um enquanto me continha fortemente pela mão. Os outros dois rodeavam Claudia Cadelo, Orlando Luís Lazo e uma amiga que nos acompanhava para uma marcha contra a violência. Ironias da vida, foi uma tarde cheia de golpes, gritos e palavrões que deveria transcorrer como uma jornada de paz e concórdia. Os mesmos ‘agressores’ chamaram uma patrulha que levou minhas outras duas acompanhantes; Orlando e eu estávamos condenados ao automóvel de chapa amarela, ao pavoroso terreno da ilegalidade e à impunidade do Armagedón.
Neguei-me a subir no brilhante Geely e exigimos que nos mostrassem uma identificação ou uma ordem judicial para levar-nos. Claro que não mostraram nenhum papel que provasse a legitimidade de nossa prisão. Os curiosos se comprimiam ao redor e eu gritava ‘Ajuda, estes homens querem nos seqüestrar’, porém eles pararam os que queriam intervir com um grito que revelava todo o fundo ideológico da operação: ‘Não se metam, estes são uns contrarrevolucionários’. Ante nossa resistência verbal, pegaram o telefone e disseram à alguém que devia ser o chefe: ‘O que fazemos? Não querem entrar no automóvel!’... Imagino que do outro lado a resposta foi taxativa, porque depois veio uma explosão de golpes, empurrões, me levaram de cabeça para baixo e tentaram enfiar-me no carro. Resisti na porta… golpes nas juntas… consegui pegar um pap el que um deles levava no bolso e o meti na boca. Outra explosão de golpes para que devolvesse o documento.
Orlando estava dentro, imobilizado numa chave de karatê que o mantinha com a cabeça colada no chão. Um pôs seu joelho sobre meu peito e o outro, do assento da frente me batia na região dos rins e me golpeava a cabeça para que eu abrisse a boca e soltasse o papel. Num momento, senti que nunca sairia daquele automóvel. ‘Chegaste até aqui, Yoani! Acabaram tuas palhaçadas!’, disse o que ia sentado ao lado do chofer e que me puxava o cabelo. No assento de trás um espetáculo invulgar acontecia: minhas pernas para cima, meu rosto avermelhado pela pressão e o corpo dolorido, do outro lado estava Orlando restringido por um profissional da surra. Só consegui agarrar este – através das calças – nos testículos, num ato de desespero. Afundei minhas unhas, supondo que ele iria continuar esmagando meu peito até o último suspiro. ‘Mate-me já!’, gritei, com o último fôlego que me restava e o que ia na parte da frente advertiu ao mais jovem: ‘Deixe-a respirar!’
Escutava Orlando ofegar e os golpes continuavam caindo sobre nós, pensei em abrir a porta e atirar-me, porém não havia uma maçaneta por dentro. Estávamos à mercê deles, e escutar a voz de Orlando me dava ânimo. Depois ele me disse que o mesmo ocorria com as minhas palavras entrecortadas… elas lhe diziam ‘Yoani continua viva’. Nos descartaram doloridos numa rua de La Timba, uma mulher acercou-se: ‘O que lhes aconteceu?’… ‘Um seqüestro!’, atinei de dizer. Choramos abraçados no meio da calçada, pensava em Teo, por Deus como vou explicar-lhe todos esses hematomas. Como vou dizer-lhe que vive num país onde isto acontece, como vou olhá-lo e contar-lhe que a sua mãe, por escrever um blog e por suas opiniões em kilobytes, foi agredida em plena rua. Como descrever-lhe a cara despótica dos que nos colocaram a força naquele automóvel, o prazer que se notava ao pegar-nos, ao levantar minha saia e arrastar-me semi-nua até o carro.
Consegui ver, não obstante, o grau de temor de nossos atacantes, o medo ao novo, ao que não podem destruir porque não compreendem, o terror valentão dos que sabem que têm seus dias contados.
Yoani Sánchez
[postado em 08/11/2009 – tradução: Humberto Sisley de Souza Neto]

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